Enquanto Houver Champanhe, Há Esperança
Capítulo 30
Em 15 de março de 1979, o general João Baptista Figueiredo assumiu a Presidência da República com um estilo vigoroso — queria conter os radicais e deixar o Brasil voltar à democracia. Anunciava-se como o último presidente militar. Um mês depois, em 20 de abril, Zózimo saudava em “Figueiredo, o bom”:
• Não há por que exigir mais de Figueiredo. Pelo que
mostrou em pouco tempo de atuação, não há razão para
quaisquer preocupações. Recém-começando em suas
funções mostrou talento, competência e enorme disposição
para desempenhar a árdua tarefa da qual foi incumbido.
• É duro no combate aos adversários, mas é leal e mostra
saber o que quer. Pelo que se viu, não será
desnecessariamente violento, mesmo com a cabeça quente.
• Não se consegue enganá-lo facilmente. É atento, preciso
e objetivo. Chega a ser ríspido em alguns momentos,
principalmente quando é acossado, mas não se pode esperar
outra atitude na sua posição.
• Desde o primeiro minuto, mostrou ter visão, abrindo
para as extremas, impondo seu ritmo e dialogando com os
companheiros.
• Durante algum tempo ainda pagará o preço da sua
inexperiência, mas com o apoio de uma grande equipe — a
melhor que se pode formar no momento — não tardará em
firmar-se e mostrar realmente a que veio.
• Está apenas no começo, mas ainda dará grandes alegrias
ao povo.
• O jovem zagueiro Figueiredo, lançado anteontem pelo
Flamengo, mostrou realmente que tem futuro.
Antes de se preocupar com o que pudesse fazer o general aos destinos da nação, Zózimo tinha os olhos voltados para o futuro do seu clube — e ficou feliz quando acertou na previsão da nota, pois Figueiredo, o bom, não o último gorila, foi campeão mundial pelo Flamengo em 1981. Quando não gostava do que ia pela nação rubro-negra, estivesse no jornal ou na arquibancada, falava grosso. Noticiário sobre o Vasco, o Fluminense ou o Botafogo? Nenhum. Era uma coluna politicamente liberal, no futebol, porém, pautava-se com exclusividade sobre o que pudesse ser de interesse do clube da Gávea. Para o bem ou para o mal.
Nos sete primeiros meses de 1991, a coluna deu treze notas sobre Márcio Braga, presidente do Flamengo e secretário de Esportes e Lazer do governo Leonel Brizola. Todas negativas. “Márcio Braga está empenhado na contratação de Maradona. É a chamada sopa no mel”, publicou Zózimo em 23 de abril daquele ano, três dias antes da prisão do jogador por uso de cocaína. Naquele momento corria na Justiça do Rio um processo de calúnia, movido por Márcio, contra o advogado e ex-pauteiro do JB Antonio Augusto Dunshee de Abranches, seu rival na política interna do Flamengo. Dunshee chamara Márcio de “viciado em cocaína”.
A maioria das notas tratava do embate entre Ricardo Teixeira, presidente da Confederação Brasileira de Futebol, e Márcio, candidato ao cargo. Eram acusações no âmbito da cartolagem pátria. Quem era o bem, quem era o mal? Zózimo ficou ao lado de Ricardo, sua fonte. No dia 4 de julho, sob o título “Pau a pau”, dizia que menos de sessenta dias depois de ter se retratado das mesmas acusações, Márcio voltara a atacar Teixeira. Informava que a CBF enviara ao Flamengo, a pedido do governo português, um ofício exigindo declaração de custo do passe do jogador Mozer, vendido ao Benfica. “Até aquele momento”, finalizava a nota, “o presidente do Flamengo não respondeu.”
As notas, Márcio Braga tinha certeza, eram plantadas por Dunshee de Abranches, grande amigo de Zózimo e seu ex-companheiro de arquibancada na torcida do Flamengo. Carlos Lemos, ex-colega do colunista na redação do JB e assessor de imprensa de Teixeira, era outra fonte que ajudava na munição. Josa Nascimento Brito também.
Num famoso jogo de 1978, quando o zagueiro Rondinelli acertou uma cabeçada no final do segundo tempo e deu o campeonato carioca ao Flamengo num jogo contra o Vasco, Dunshee estava ao lado de Zózimo na tribuna da imprensa. Por toda a vida, quem se lembraria com mais nitidez, e não à toa, daquele momento entre amigos seria a jornalista Marilene Dabus, relações-públicas do clube. Depois de alguns uísques, no chão da tribuna, Zózimo não conseguiu se levantar para comemorar o gol. Enquanto todos vibravam, o colunista, ainda sentado, sapecou uma dentada no que lhe estava mais à altura da boca — a bunda bem torneada de Marilene.
Zózimo era torcedor destemperado, flamenguista desde pequeno. Entre outros motivos para a escolha do time, estavam a tradição familiar, a proximidade de sua casa da sede do clube e o primeiro tricampeonato estadual do rubro-negro, em 1942, 1943 e 1944, nos seus primeiros anos de vida. Boy (amigo de Gilberto Cardoso, o mitológico presidente do clube), num jogo de sábado à tarde no Maracanã, foi visto dando guarda-chuvada num torcedor do Vasco.
O primeiro jogo a que Zózimo assistiu foi um Fla-Flu, em 1951, com dez anos. O Fluminense venceu, com gol de Orlando. Ir ao estádio virou rotina, e ele citaria como gol inesquecível o que viu num Flamengo e Vasco de 1954. Fleitas Solich, treinador do Flamengo, estreava a dupla com o meia-esquerda Dida e o ponta Babá, que daria alegrias aos torcedores. Rubens marcou de falta com a bola entrando em curva no gol de Barbosa. “Quanto mais Barbosa voava”, descrevia Zózimo, buscando a imagem gravada nos olhos do menino de treze anos, “mais a bola fugia dele.”
A lembrança é bonita, mas o comportamento de Zózimo nos estádios não tinha nada de poético. O colunista fino perdia a compostura. Não só mordia a bunda da moça que estivesse ao lado, como gritava todos os palavrões. Uma vez esmurrou um sujeito com a camisa do Vasco porque ele lhe dera um tropeção. Na Copa de 1982, na Espanha, logo depois que o Brasil foi eliminado pela Itália, um jornalista italiano esbarrou em seu filho, Fernando — foi o pretexto para começar mais uma briga. “O sujeito mais elegante do mundo vira o maior cafajeste quando chega ao campo de futebol”, disse em 1987 numa entrevista à revista Placar. “Manda a elegância e a distinção pro brejo. Vira um torcedor de geral, picado pela paixão clubística. Não tem boa educação que resista. Todos viram bicho.”
Cronista esportivo botafoguense, Armando Nogueira conviveu com Zózimo na tribuna da imprensa do Maracanã. Não entendia como o tricolor Nelson Rodrigues, encantado com o perfil de seres levados ao paroxismo por alguma paixão radical, não transformou Zózimo num de seus personagens de ganidos apopléticos de cachorro atropelado. Armando tinha a impressão de que o amigo era tomado por alguma entidade da cultura popular carioca, tal o descontrole vocabular. Não o reconhecia naquele descabelado que vociferava, um “ser repleto de ódio puro ao adversário”.
Sebastião Lacerda acompanhou Zózimo em alguns jogos, principalmente quando, por ser filho de Carlos Lacerda, governador do Rio entre 1960 e 65, usufruía facilidades de acesso ao Maracanã. Em uma das vezes, o Flamengo perdia e um torcedor adversário, três filas à frente, começara a debochar: “Esse time é irrisório.” Na quinta repetição, Zózimo retrucou alto: “Para de falar bobagem, ‘time irrisório’ não existe.” “Eu não estou falando com você”, devolveu o homem. “Pois eu estou falando com você”, mandou Zózimo, o rosto vermelho de costume — e o resto ficou por conta da turma do deixa-disso.
No fim dos anos 1970, Zózimo estava lá na arquibancada, tomado por essa porção “bicho” que o acometia quando o Flamengo estava em campo — outros preferem “monstro” e um amigo judeu crava “jihadista”. Xingava com um imenso repertório a mãe de Arnaldo Cezar Coelho, o juiz. Foi quando, logo à frente, levantou-se um homem e, educadamente, pediu: “Xingar o juiz pode. Mas vê se poupa minha mãe, tá?” Era o irmão do juiz, o empresário Ronaldo Cezar Coelho, que depois ficaria amigo do colunista, assim como o juiz.
Um grande medo de Zózimo era Fernando não adotar as mesmas cores para torcer. Sutilmente, ligava o rádio quando o Flamengo estava bem no placar, massacrando algum adversário. Virava para o menino e dizia: “Está vendo como é triste não ser Flamengo?”
Mario Rodrigues Neto, neto de Mario Filho — jornalista que, pelo empenho na construção do estádio do Maracanã, acabou lhe dando o nome —, sofreu com a ira rubro-negra do amigo. Certa vez o rapaz, tricolor, ousou vibrar, na cadeira ao lado da de Zózimo, com um golaço de Pelé contra o Flamengo. “Você não pode vibrar com gol do Santos”, explicou Zózimo, com o olho rútilo e os lábios trêmulos, para usar uma expressão de Nelson Rodrigues, tio-avô de sua vítima. Quando esta quis saber o motivo da agressão, explicou: “Você é tricolor, fica quieto que o jogo não é com vocês.”
Foram tantas as brigas por causa de sua paixão pelo Flamengo que Dunshee de Abranches perdeu a conta das vezes que precisou, como advogado, ir até a 14a Delegacia de Polícia, no Leblon, para livrar o amigo de alguma confusão pós-jogo. Na redação, jornalista acima de tudo, Zózimo se dava o direito de criticar o time e até debochar dele:
• Fiel à sua nova política de investir em grandes
contratações, o Flamengo acaba de anunciar a chegada do
apoiador Merica, do Atlético de Alagoinhas, garantindo, ao
mesmo tempo, a prioridade para a compra de Dendê, do
mesmo clube.
• Marcha assim o clube da Gávea para a formação de um
interessante meio de campo onde pontificariam, lado a lado,
Merica, Dendê e Luis Florêncio. Tão pitoresco quanto esse
só outro meio de campo, que fez furor defendendo as cores
do Mangaratiba FC na década de 50: Pé de Pato, Camisolão
e Frigideira.
No início de tudo, ele, Dunshee e Márcio Braga eram do mesmo grupo de rubro-negros vipados (no qual se incluíam o produtor de cinema Luiz Carlos Barreto, o executivo da TV Globo Walter Clark e o diretor de Comunicações também da Globo João Carlos Magaldi), que lançou, em 1976, a chapa Frente Ampla Flamengo, ou Dragão Negro. No ano seguinte, Márcio chegaria à presidência do clube. Foi Zózimo quem deu a notícia de que Márcio sairia candidato, uma história que quase lhe custou a aproximação com Marilene Dabus e, por conseguinte, a dentada em sua bunda. A jornalista lhe passara a notícia, só que pedira, “pelo amor de Deus”, que nada comentasse no jornal, pois Márcio ainda precisava acertar detalhes da vida pessoal. No dia seguinte, 7 de setembro de 1976, é claro que a bomba estava no alto da coluna, com o título “Afinal, um nome” e uma foto de Noelza Braga, mulher de Márcio, toda lânguida e sensual sentada no chão de casa. A legenda dizia: “A primeira-dama do Dragão.”
Quando Marilene cobrou a traição — sobre a dentada na bunda jamais se queixou — Zózimo foi sincero: “Meu amor, é da índole do jornalista. Publicamos notícias, o resto é mentira pra se conseguir notícias.” Marilene ficou sem falar com Zózimo, mas por pouco tempo — “como resistir às gargalhadas dele, aos olhos azuis?”.
Zózimo fez campanha por Márcio. Quando, em novembro, o candidato foi apresentado à torcida, numa festa com coquetel no Shopping da Gávea, trabalhou com humor a favor: “Até que enfim a torcida do Flamengo foi apresentada ao Buchanan’s e ao caviar.” O colunista brigou quando Márcio, contra os estatutos, quis se reeleger para um terceiro mandato (já exercera os de 1977-1978 e 1978-1979). Então apoiou Dunshee, que seria eleito. Mais adiante, Braga voltaria à presidência, acumulando-a com o cargo de deputado federal. Zózimo passou a dar notas, já no final dos anos 1980, dizendo que Márcio usava o Flamengo de olho na prefeitura.
Pois foi depois de toda essa brigalhada pelo clube (“E o Márcio Braga, hein?, é o coveiro do Flamengo. Ele e seu preposto, Gilberto Cardoso Filho”, em 22 de agosto de 1989), após muitas notinhas passadas por Carlos Lemos, que se deu a cena lamentável. No fim da tarde de 13 de julho de 1991, Márcio, presidente do Flamengo, estava numa mesa do lado de fora do Gattopardo quando viu o colunista vindo de dentro do salão principal do restaurante.
A primeira parte do grupo passou sem problemas pela mesa do cartola. O casal Gisela e Ricardo Amaral e mais Paulo Marinho pararam para cumprimentos. Quando o colunista tentou passar, Márcio colocou o corpo à frente. Segurou-lhe os braços e pôs-se a agitá-los. “Por que você insiste em falar mal de mim no jornal?”, gritava. “Que notinhas calhordas são essas que você fica dando?” Zózimo desvencilhou-se. Ainda tentou explicar que a coluna não visava atingir as pessoas, mas sim criticar as suas atitudes na vida pública. “Eu não comento sua pessoa física, mas a jurídica.” “Você tá pensando o quê?”, continuou Márcio com a frase que, no Rio, costuma ser a última antes do inevitável desforço físico.
Márcio atracou-se com Zózimo, jogando-o sobre as mesas do restaurante. Sucederam-se imediatamente aquelas lamentáveis cenas de senhoras gritando, pratos quebrando e afins. Com Zózimo no chão, Márcio tentava chutá-lo. Fred Suter quis defender o chefe e também recebeu socos. O dirigente berrava, apoplético: “Vou acabar com essa raça de jornalistas!” A turma do deixa-disso separou os litigantes e tudo parecia acalmado quando, na calçada, Márcio foi novamente agredir Zózimo. Dessa vez surgiu o empresário da noite Carlos Alberto Ávila da Fonseca, o Carlinhos Docelar, faixa preta de jiu-jítsu, e “cinturou” o cartola, impedindo-lhe os movimentos até Paulo Marinho colocar Zózimo dentro do carro.
Helio Fernandes, em sua coluna na Tribuna da Imprensa, criticou “o gesto tresloucado” de Márcio Braga (“o tabelião que jamais trabalhou na vida”). Pediu que o advogado Nilo Batista, vice-governador respondendo interinamente pelo estado, já que Brizola viajava, analisasse o caso de premeditação. Márcio teria visto Zózimo chegar ao restaurante e só aí entrou, ocupando mesa estratégica para atacá-lo à saída.
Entrevistado pela Veja, Zózimo informou que entraria com ação na Justiça: “Não estamos na Idade da Pedra. As pessoas não podem sair agredindo outras por aí sem motivo.” Márcio Braga declarou aos jornais sua satisfação com a baixaria. “Já bati nele. Nem vou mais entrar com uma ação contra a coluna.”
O então procurador-geral de Justiça, Antonio Carlos Biscaia, aceitou a denúncia de Sergio Bermudes contra Márcio. O governador Brizola, quando soube do entrevero, telefonou para Márcio, seu secretário de Esportes, cumprimentando-o pela iniciativa. Disse que gostaria de ter feito o mesmo. O caso foi arquivado.
Zózimo deu um tempo ao adversário e, a fim de que não parecesse revide ou perseguição, parou de publicar notas a seu respeito. Dois anos depois, em 10 de fevereiro de 1993, interrompeu o jejum com “De volta”:
• Demorou menos do que se imaginava a volta ao
noticiário do sr. Márcio Braga, secretário de Desportos. É
acusado, segundo a Ouvidoria Geral da República, de usar
recursos públicos no montante de Cr$ 16,5 milhões para
passar fins de semana no Rio. Notificado, terá que se
explicar.
• Márcio Braga, secretário de Desportos. Tem governo que
é cego.
Entre os jogadores, Zózimo tinha especial carinho por Rubens, artilheiro do time na sua infância, no entanto achava que seu parceiro em Z, o Galinho de Quintino, Zico, era o maior de todos. Considerava-o completo pela capacidade técnica, inteligência na armação das jogadas, eficiência na batida de faltas, molecagem no drible, humildade em servir aos companheiros etc. Zico foi o líder do time que, com Figueiredo no elenco, deu o campeonato mundial de clubes ao Flamengo em 1981.
Essa admiração não o impediu, em 16 de setembro de 1980, de dar uma nota que marcaria a carreira do jogador. Zico e outros craques do Flamengo e do Fluminense, que haviam se enfrentado à tarde no Maracanã, foram à noite comemorar no Hippopotamus. Dois dias depois, a coluna publicava nota de vinte e oito linhas, a princípio elogiando a alegria do grupo. Informava que tinha havido um temor quando o atacante Nunes, do Fla, e o defensor Edinho, do Flu, personagens de uma cena ríspida durante o jogo, se encontraram no salão — mas eles se cumprimentaram e riram muito. Ao final, Zózimo diz que a noite havia servido para revelar as preferências de bebida de cada um. O tom não era acusatório, soava quase como um guia do consumidor:
• Zico, sozinho, bebeu oito cervejas. Luís Pereira, cuja
temporada na Espanha deve tê-lo transformado num
homem de hábitos mais apurados, só consumiu scotch da
marca Chivas Regal. Menos exigente que ele, Pintinho
contentou-se em bebericar uísque Bell’s. O único que não
tocou em álcool foi Paulo Cesar Lima, que bebeu Coca-Cola
a noite inteira.
Naquela mesma semana, o Flamengo empataria com o fraco Americano, de Campos. Zózimo fez outra nota, “Regras imutáveis”. O tom era “eu não disse?!”. Passou um sermão em Zico, que jogou bem o primeiro tempo e depois desapareceu.
• Quem sabe, se reduzir na próxima noitada as cervejas de
oito para quatro, Zico não conseguirá um rendimento
idêntico durante o jogo inteiro?
• Há, para quem pratica esporte, e sobretudo vive dele,
uma meia dúzia de regras imutáveis, às quais é impossível
ferir impunemente.
• Uma delas é precisamente a de que esporte e vida
noturna são atividades inconciliáveis.
• Quando, depois de um Fla-Flu duro como o de domingo,
parte do time do Flamengo apareceu na noite do
Hippopotamus, bebendo cerveja e uísque, devia saber que
mais cedo ou mais tarde viria o castigo.
• Pois chegou anteontem, aplicado pelo Americano.
Zico telefonou para Oldemário Touguinhó, editor de Esportes do JB na época, e reclamou. Admitiu que como atleta talvez precisasse prestar mais atenção a esses comportamentos em público, todavia atacou Zózimo com palavrões e ironias: “Ele me critica, mas no domingo leva o filho dele ao Maracanã para me ver fazer os gols.” Oldemário falou com Zózimo e no dia 22 do mesmo setembro lá estava a terceira nota, com o título “A lição de Zico”:
• O jogador Zico não gostou da nota desta coluna sobre as
oito cervejas que tomou outra noite na boîte Hippopotamus.
• Não gostou, aliás, não é bem o termo. Indignou-se,
vociferou e, depois de alvejar esta página e seu autor com
uma série de impropérios, admitiu por fim que a nota lhe
serviu de lição. Da próxima vez, cuidará de tomar suas
cervejas com a maior discrição.
Ao falar com Oldemário, Zico esperava uma correção da nota. Zózimo, porém, achou que estava do lado certo da Força. Não só manteve a crítica, como elevou o tom. O jogador garantia que a porranca não aconteceu. “O texto dava a impressão de que eu saía dos jogos e ia beber”, defendeu-se tempos depois numa entrevista à revista Placar. “Logo eu, que sempre bebi pouco. Aquelas oito cervejas tinham sido o consumo da mesa inteira. Acho que o Zózimo, flamenguista apaixonado, insistiu na campanha porque com o empate contra o Americano ele ficou chateado.”
Zózimo não soube da conversa. Se soubesse, teria usado o tom veemente da arquibancada com o olho rútilo, os lábios trêmulos. Deixaria aflorar o monstro que o habitava e respondido com fúria à acusação do Galinho de Quintino, de que teria ficado chateado com o empate diante do fraco Americano: “E não era pra ficar?! Não era pra ficar?!”