Enquanto Houver Champanhe, Há Esperança
Capítulo 27
Fafá de Belém entrou no avião da Varig em Lisboa, num voo de Londres com destino ao Rio. Cantora famosa — pela voz, a gargalhada, o busto —, havia dez anos em cartaz nos grandes palcos e paradas de sucesso do Brasil, ela achou natural que todos a olhassem enquanto cruzava o corredor em busca de seu assento. Alguns cutucavam o parceiro do lado para indicar sua chegada. Normal, o preço da fama. Educada, Fafá devolvia a atenção com um sorriso discreto.
Aos poucos, no entanto, ela foi notando que era uma reação diferente daquela de simples reconhecimento. Havia quem risse de um jeito debochado, até mesmo quem manifestasse um ar de preocupação — e quase todos olhavam em seguida para o exemplar do Jornal do Brasil distribuído pela tripulação. Era a edição da véspera, de 8 de outubro de 1985. Para quem estava num avião, receber aquela passageira no mesmo momento em que lia o que estava escrito no jornal era a pior notícia do mundo.
No centro da coluna de Zózimo havia uma foto de Fafá ilustrando uma nota com o título “Pé-frio”:
• Se alguém ainda tinha alguma dúvida da fama de pé-frio
da cantora Fafá de Belém, os acontecimentos políticos de
Portugal encarregaram-se de dissipá-los.
• A renúncia do primeiro-ministro Mário Soares — que
importou a cantora para estrelar seus comícios — foi
relacionada imediatamente pelos admiradores brasileiros da
artista à sua fama de azarão.
• O vencedor do páreo e futuro primeiro-ministro, Cavaco
Silva, já fez saber que quer distância de Fafá. Custe o que
custar.
A cantora leu o seu exemplar e, envergonhada, manteve-se em sua poltrona por toda a viagem. Nos últimos tempos, ela havia passado por enorme exposição. Participara do movimento Diretas Já, que pedia eleições diretas para presidente e acabaria sendo derrotado no Congresso. Chegara a ser considerada a musa das manifestações, pois não saía de seus palanques. Nos comícios, cantava o Hino Nacional de um jeito desafiador e dramático. Gravara a balada “Menestrel das Alagoas”, de Milton Nascimento e Fernando Brant, em homenagem ao senador Teotônio Vilela, um dos mais exaltados defensores da volta das eleições, que, vítima de um câncer, morreu em meio ao movimento. Fafá interpretava a canção e, quando entrava a gravação da voz dele, soltava uma pomba branca sobre a multidão.
O povo ainda não poderia eleger o presidente, mas o próximo não sairia mais de uma reunião de generais na caserna. Essa era a ideia. Infelizmente, não foi tão simples. Escolhido pelo Congresso Nacional, o mineiro Tancredo Neves, também apoiado por Fafá, foi internado com diagnóstico de diverticulite na madrugada do dia em que tomaria posse, 15 de março de 1985. Morreria pouco depois, em 21 de abril, de infecção generalizada.
Zózimo juntou tudo — a morte de Teotônio e a de Tancredo, o fracasso das Diretas Já, a derrota de Mário Soares em Portugal e a de Fernando Henrique Cardoso nas eleições para a prefeitura de São Paulo, também apoiado por Fafá — e colou na cantora o rótulo congelante de “pé-frio”. Para confirmá-lo, começou uma série de notas num tom considerado de humor para os redatores da coluna, mas que, no colo farto da cantora, dia após dia àquela recepção no avião da Varig, estourariam como bombas de terror. Fafá, assim que desembarcou no Brasil, telefonou para o colunista perguntando por que fizera aquilo. Foi de braveza argumentativa, inclusive no volume de voz, o que só serviu para irritá-lo.
Ibrahim Sued, numa situação dessas, escalaria a Dama de Preto para enfileirar diatribes contra Fafá e continuar tocando o barco da coluna até o porto do fechamento. Como não criava personagens, Zózimo assinava a perseguição, movido pela vontade de fazer rir e demonstrar poder. Depois do telefonema, quis mostrar que não se deixava impressionar por nenhuma cabra-macha paraense — e foi a sua vez de aumentar o volume. Em 11 de novembro de 1985, diria que eméritos do Flamengo haviam tentado contratar a cantora para gravar o hino do adversário, o Fluminense. Em 8 de agosto do ano seguinte, a nota seria repetida, mas com o Vasco no papel do Fluminense. Em 12 de dezembro, estaria rolando euforia na campanha de Medrado Dias à presidência da Confederação Brasileira de Futebol: Fafá havia hipotecado apoio ao adversário, Nabi Abi Chedid.
Em 3 de janeiro de 1986, Jarbas Vasconcelos, vitorioso na prefeitura de Recife, era visto quase caindo antes de tomar posse — e adivinha de quem era a culpa?
• Dos 201 novos prefeitos empossados foi o único a sofrer
um ligeiro acidente, tropeçando nas escadarias da Câmara
Municipal. Sua convidada de honra era a cantora Fafá de
Belém.
Em 19 de fevereiro do mesmo ano, uma nota anunciava que a direção do PDT estaria em Lisboa para a cerimônia de homenagem a Mário Soares e que Fafá iria — mas uma facção do partido insistia em que ela viajasse em outro avião.
Em 8 de abril, com o título “Cruzes!”, informava-se que a cantora dissera a amigos no Palácio do Planalto que gostaria de integrar a comitiva do presidente a Portugal. “Sarney está de cabelos em pé!”, arrematava a nota.
Dois dias depois, a coluna começava uma nota informando a ausência de Fafá na tribuna do jogo Brasil x Alemanha Oriental. “Não deu outra”, estocava Zózimo, “Brasil 3 a 0.”
Fafá foi apontada como a responsável pela morte de um boto filmado no Amazonas pela equipe do oceanógrafo francês Jacques Cousteau — uma música sua sobre o animal fazia parte da trilha sonora.
Foram cerca de cinquenta notas, começadas no voo de Lisboa, em 8 de outubro de 1985, e encerradas em 26 de janeiro de 1987. Fafá conhecia Zózimo da noite do Rio e julgava ter bom relacionamento com ele. A lista de suspeitas sobre o que teria detonado a série elencava uma confluência de acontecimentos e paranoias:
1. As coincidências de negatividades já circulavam como piada pela cidade. Zózimo podia argumentar que apenas avançara com o mote.
2. Seria coisa de Fred Suter. Já havia comparado, em férias de Zózimo, os atributos físicos de Fafá ao carimbó que ela divulgava.
3. Seria vingança dos donos do showbiz carioca. Uma semana antes de as notinhas começarem, Fafá encerrara temporada de sucesso no Canecão. Mario Priolli, dono da casa, insistira na renovação do contrato, mas Fafá tinha outros compromissos. Priolli abrigava Zózimo e outros vinte convidados no mesão no centro da casa, em sentido vertical ao palco, todos bem-sentados para ver de graça as estreias dos grandes nomes da música. Fafá suspeitava que Zózimo tivesse tomado as dores de Priolli.
4. A atriz Christiane Torloni, casada com o psicanalista Eduardo Mascarenhas, eleito deputado em 1990, também frequentava os palanques das Diretas. Em março de 1984, com o título “Ativista”, Zózimo ficara a seu lado na disputa pelo título de musa. Dizia que “a intensa atividade política” da atriz já lhe valia “nova qualificação: musa das Diretas”.
5. Seria coisa de simpatizantes de Paulo Maluf, derrotado por Tancredo Neves no Colégio Eleitoral. Nascimento Brito lhe era simpático.
Pode ter sido tudo isso, nada disso ou só o telefonema de Fafá exigindo retratação depois da primeira nota. Colunas de notas sofrem preconceitos — seriam quintais para os proprietários dos jornais desovarem interesses, os colunistas receberiam dinheiro para publicar releases, usariam o espaço para trocar notas por presentes, comer de graça em restaurante que citaram no pé da página, botar o pé no jato com bem-vindas passagens internacionais, descolar um fim de semana num hotel-fazenda — enfim, um balcão de negócios disfarçado de jornalismo. Sempre que um colunista pode confirmar a sua independência e mostrar que é o timoneiro daquele barco de papel, ele o faz. Fafá, com o telefonema áspero, provocara em Zózimo a vontade de escancarar a liberdade de inventar os rumos de sua navegação.
As notas, com sua mistura de fofoca de celebridade, superstição popular e o humor-Zózimo, eram um sucesso reproduzidas pelo país. Para a coluna, a perseguição trazia audiência. Na vida de Fafá, os resultados eram desastrosos. Contratos foram cancelados — ninguém queria correr o risco de ficar ao lado de uma piada cantante. Pior: morrer após a gargalhada do público. Um homem tentou colocar a cantora para fora de um avião, aos gritos, pois suspeitava que ela tornaria o voo uma operação de risco. Quando entrava num restaurante, os comensais a saudavam não mais batendo palmas e sim batendo com o nó dos dedos na mesa.
Para piorar, o humorista Chico Anysio inventou nos shows uma personagem azarenta que o público, já dirigido pelas notas, não tinha dificuldade em imaginar ser Fafá. Inventou-se também, mas isso não estava na conta de Zózimo, que a cantora estaria com aids. Justo ela, que não conseguira se curar da simples doença de ser pé-frio, como continuavam a afirmar as notas. Dizia a coluna de 8 de junho de 1986:
• O time brasileiro ficou petrificado em forma, antes do
jogo contra a Argélia, ao ouvir os primeiros acordes do Hino
Nacional.
• Como a gravação executada era cantada por uma voz
feminina, todos temeram tratar-se de Fafá de Belém.
• Não era — e o Brasil ganhou de 1 a 0.
Ela procurou o advogado João Carlos Müller, secretário executivo da Associação Brasileira dos Produtores de Discos, para um processo, mas foi demovida da ideia. Marcello Cerqueira, advogado de presos políticos e deputado, também foi contra. Sugeriu que Fafá, abalada pelo noticiário e por isso afastada dos comícios, a fim de não comprometer seus candidatos, voltasse à cena política e não se deixasse calar. A cantora, porém, foi escorraçada quando tentou participar da campanha do PMDB.
Armando Nogueira, diretor de Jornalismo da Rede Globo, conseguiu que Chico Anysio retirasse o esquete do show. O resto das pedras continuou no caminho. Um dia, Mariana, com seis anos, filha de Fafá, entrou em casa chorando. Tinha acabado de ouvir, num programa da Rádio Jovem Pan, um locutor falando dos poderes negativos da mãe. “É verdade que você pode matar pessoas?”, perguntou Mariana. Fafá telefonou para o jornalista Armando Nogueira, seu grande amigo, de Zózimo também. Aos gritos, anunciou seu projeto para Armando: “Estou saindo de São Paulo para ir ao Rio, estou armada e vou matar aquele filho da puta!” E bateu o telefone.
Armando, diretamente do prédio da TV Globo, no Rio, conseguiu falar com o motorista de Fafá. Pediu a ele que “se perdesse” por São Paulo e evitasse chegar ao aeroporto. Depois, antes que ela embarcasse, convenceu-a da bobagem de vestir o uniforme de presidiária. Fafá retornou para casa sob o juramento de Armando de que falaria com Zózimo, “mais uma vez”, e pediria a amigos em Brasília que intercedessem em seu favor.
Assessor de imprensa do então presidente José Sarney, Fernando Cesar Mesquita passava notas para Zózimo. Foi a ele que Armando encarregou de pedir ao colunista que parasse com a história. Fernando também desconfiava que havia ali o dedo malufista de alguma fonte próxima a Fred. Zózimo defendia a liberdade de avançar, com humor, na especulação sobre o azar agregado aos fatos e personagens que se aproximavam da moça. “É brincadeira”, respondeu quando Fernando telefonou no início de 1987. “Mas a brincadeira ficou perversa demais”, acrescentou o assessor. E contou do programa de rádio, de Mariana chorando. Aquilo mexeu com Zózimo. Ajudou também o reforço aborrecido do amigo Armando Nogueira, que relatou o desespero da cantora. Fim de caso. Da mesma maneira que começara a dar as notas debochadas, parou. Esqueceu Fafá por uns tempos e só voltou a falar dela em 13 de julho de 1987. Era outra Fafá, irreconhecível aos olhos dos leitores de Zózimo. A nota tinha um título que era o oposto daquele que costumava ser dado às aparições da cantora. “Bola cheia” dizia:
• Fafá de Belém está com a bola cheia.
• Na sua temporada de duas semanas no Scala, bateu
todos os recordes da casa, superando o sucesso de Simone e
Charles Aznavour.
• Por isso recebeu, sábado à noite em seu camarim, um
convite de Chico Recarey para voltar ao palco no alto verão.
• Será a atração do Scala em janeiro.
Socialmente, Fafá e Zózimo voltaram a se encontrar numa festa na casa de Roberto Irineu Marinho. Zózimo estava sentado quando a cantora se aproximou. Ele já tinha bebido um pouco além do que devia. “Como vai?”, cumprimentou, sem se levantar. Fazia três anos desde a última referência zombeteira. Fafá, como Zózimo informara, estava novamente de “bola cheia” e experimentava grande sucesso popular com canções sertanejas sem perder a qualidade de seu trabalho. Ninguém mais a ligava a acontecimentos nefastos — mas ela não se esquecera do esforço para sobreviver às notas. “Vou bem, Zózimo”, respondeu à saudação acanhada do colunista. E, como se comentasse a bebedeira em que ele estava, foi sua vez de ser cruel: “Vou bem, graças a Deus. Apesar de você. E, pelo visto, melhor que você.” Zózimo levantou-se com jeito de quem ia revidar as palavras, mas os amigos separaram os litigantes. O jornalista Evandro Carlos de Andrade levou o colunista para a biblioteca. Armando Nogueira caminhou com Fafá, que chorava, para a varanda.
Em 22 de novembro de 1991, Zózimo e Fafá encontravam-se novamente, agora na coluna, e o aceno era positivo. Saiu a informação de que Fafá tinha sido a única convidada a participar do novo disco de Roberto Carlos. A ilustração era uma foto bonita dela, sensual, aquele tipo de mulher que só os homens de muita sorte tinham por perto. O texto da nota não é um exemplo cristalino de bons propósitos d’alma, ao mencionar que “Caem, assim, por terra, todas as lendas que garantiam ser o rei Roberto Carlos a figura mais supersticiosa do showbiz brasileiro”. O título, porém, não deixava dúvidas: “Pé-quente”.