Enquanto Houver Champanhe, Há Esperança
Capítulo 2
O primeiro Zózimo Barrozo do Amaral nasceu no Ceará, filho de uma família muito católica, e foi assim chamado em homenagem ao papa grego que governou a Igreja entre março de 417 e dezembro de 418 (o nome significa “guerreiro abnegado”, e teve como seu primeiro portador um romano que abrigou cristãos em cavernas). Esse Zózimo I cearense, filho de uma doceira, Roza, também com a marca do Z no nome, migrou na adolescência para o Rio de Janeiro a fim de estudar na Escola Politécnica. Formou-se em engenharia e começou uma carreira vitoriosa na Capital Federal. Avô do futuro colunista, ele foi o fundador da dinastia Barrozo do Amaral. Enricou, tornou-se um homem requintado e, em 17 de maio de 1930, aparecia com destaque na edição do Jornal do Brasil, na página de Notas Sociaes. Liderava a lista de adesões ao jantar que homenageava no Jockey Club um certo professor Fernando Magalhães, recém-chegado de viagem à Europa.
O engenheiro Zózimo I fundou a Sociedade Brasileira de Urbanismo, um escritório instalado no Centro da cidade, na General Câmara, uma das ruas desaparecidas para a abertura, em 1945, da avenida Presidente Vargas. Participou tanto da construção de estradas de ferro pela Bahia como da pavimentação da avenida Atlântica, em Copacabana, e pôs seu nome em dezenas de obras no Rio, quase sempre relacionadas com as da prefeitura do Distrito Federal. Self-made man típico, ostentava os símbolos da ascensão social obtida com méritos indiscutíveis. Andava num Cadillac rabo de peixe dirigido por um motorista português, Lopes, de uniforme e boné. Ia no banco de trás fumando grossos charutos cubanos e vendo passar a cidade grande, já com o afrancesamento de avenidas largas concebido pelo prefeito Pereira Passos. O Rio estava civilizado. As obras viárias e o comportamento do velho Zózimo mostravam isso. No Natal, servia patê de foie gras, caviar e champanhe francês no seu belo apartamento no edifício Messidor, na rua Almirante Tamandaré, no Flamengo, endereço de moradores ilustres como o advogado Gustavo Capanema e o futuro prefeito Sá Freire Alvim.
Zózimo I espalharia o bom resultado financeiro de seu trabalho para as gerações seguintes. Poderia, no entanto, ter sido ainda mais rico. Em 1929, apenas seis anos depois da inauguração do Copacabana Palace, um dos marcos iniciais da Zona Sul carioca, ele quase se tornou dono de 20% do espelho d’água da Lagoa Rodrigo de Freitas. A cidade descobria a vocação à beira-mar depois de passar três séculos construindo sua civilização doméstica, comercial e industrial no Centro e nos subúrbios da Zona Norte. Aos poucos, desde as obras de Pereira Passos, na primeira década do século XX, e depois, nos anos 1920, com o prefeito Carlos Sampaio, traçavam-se avenidas e bairros na direção da Zona Sul. Valorizavam-se pela primeira vez o banho de mar e o dolce far niente sobre a areia quente. Foi aí que o engenheiro Zózimo apresentou o projeto de uma Cidade-Jardim.
Ele propunha rasgar o Morro do Cantagalo e abrir uma passagem, que, em seguida, continuaria sobre as águas da lagoa, em linha reta, para a circulação de carros entre Copacabana e Ipanema. Quanto a esse novo aterro criado às margens e sobre a lagoa (400 mil metros quadrados de sua área seriam aterrados), sua empresa desenharia a Cidade-Jardim, um conjunto de casas e ruas que ocuparia aquele deserto e uniria os bairros de Copacabana, Ipanema, Leblon, Gávea e Jardim Botânico. A ideia de Zózimo-avô era dotar o Rio de seu primeiro bairro residencial planejado, uma espécie de cidade dentro de outra. Se outros lagos, outras lagoas e outros pedaços do mar haviam sido ocupados no Centro, qual o problema de se tomar um naco da Lagoa Rodrigo de Freitas? Na defesa do projeto, incluído no Plano Agache, que no início dos anos 1930 tratava de uma série de transformações urbanas no Rio, o engenheiro escreveu:
A Cidade-Jardim surgirá em uma zona sem movimento, que
será largamente transitada, um novo núcleo importante de
população a contribuir para os cofres da prefeitura,
facilitando a conservação dos logradouros públicos.
À exceção da abertura do Corte do Cantagalo, feita mais adiante ao constar de outros planos, o visionário Zózimo ficou com seu desenho no papel. Diante da proposta de aterrar 20% do espelho d’água da lagoa, ninguém reclamou dos danos ambientais ou paisagísticos que a Cidade-Jardim provocaria. Essas questões ainda não possuíam apelo. O problema alegado foi outro. O engenheiro queria a concessão de todo o negócio para sua empresa, em troca das benesses que a obra levaria para a cidade, enquanto a prefeitura ganharia apenas com a cobrança de impostos sobre os serviços. Os novos terrenos e construções seriam vendidos por Zózimo I.
Obstado em seu plano mais extravagante, o engenheiro foi em frente, com imenso sucesso em obras mais comezinhas pelo Rio e norte do país. Teve cinco filhos. As duas mulheres, de prendas do lar, casaram-se bem. A mais nova delas, Maria Henriqueta, ou Maria Branquinha, esposou Assis Chateaubriand, o Chatô, tycoon de um império jornalístico que se chamava Diários Associados. Foram núpcias rápidas e suficientes apenas para gerar um filho e uma boa fofoca. Na carta de despedida, malas feitas, Branquinha, em litígio com o mulherengo Chatô, que já tinha outra em seu lugar, escreveu: “Levo só o que é meu — e o que não tenho certeza se é seu”, insinuando que o filho talvez não fosse dele. A outra filha, Belkiss, contraiu núpcias com o literato paulista Guilherme de Almeida, eleito nos anos 1950 pelos leitores de um jornal O Príncipe dos Poetas Brasileiros. Moraram em São Paulo e foram poeticamente felizes para sempre.
Dos homens, dois seguiram a carreira do pai. Miguel, apelidado Pinga-Fogo por causa de seu gênio explosivo, foi engenheiro da Caixa Econômica, e como prova de sucesso virou sócio do exclusivo Country Club, condado grã-fino construído por ingleses à beira da praia de Ipanema; Geraldo, o Dodô, de inclinações boêmias, tornou-se engenheiro da Central do Brasil. O terceiro, Zózimo Barrozo do Amaral Filho, mais conhecido como Boy, formou-se em direito. Nunca exerceu a profissão.
Boy foi dono, entre os anos 1940 e 50, da Casa Bancária de Depósitos e Descontos, um pequeno banco instalado numa sala da rua Sacadura Cabral, na Saúde, o que lhe permitia, ao assinar documentos, se apresentar ora como banqueiro, ora como advogado. Dono de bom tino financeiro, associou-se a amigos capitalistas, esteve na sociedade da Carbrasmar, empresa fabricante de lanchas, e foi o que mais tarde se chamaria de “lobista” de grupos empresariais entre políticos.
Exibia acima de tudo, e este era seu grande capital, uma personalidade deliciosamente exuberante, afável, divertida, o que lhe garantiu ótimos contatos entre os ricos. Nunca teve um trabalho convencional. Mostrava-se também com alguma excentricidade, a começar por certas camisas nas quais o apelido, recebido na infância, vinha bordado no bolso. Dava carteiradas de fiscal de Diversões, quase um bico oficial de quem criasse boas relações com o poder — e ele, charmoso, vestido de um jeito elegantemente natural, as tinha aos montes. Frequentava, por exemplo, o gabinete de Capanema, ministro da Educação. Ter Boy na roda de conversa era uma atração pela quantidade de casos e pela graça com que os narrava. O termo só entraria na moda mais adiante, mas já ali nos anos 1930 Boy apresentava ao Rio de Janeiro o que se chamaria de “borogodó”.
Tratava-se também do descendente preferido do patriarca cearense, sempre disposto a ser financeiramente generoso com um filho tão querido. Boy vestia-se com ternos claros. Dava a impressão o tempo todo — os cabelos gomalinados, os vincos da calça perfeitos, a camisa social com boas abotoaduras — de estar saindo do banho naquele instante. Era um típico grã-fino carioca. Fino, mas sem ostentação, como se a classe lhe fosse um dom de nascença.
Um dos endereços em que Boy expunha sua vocação para o nada fazer e a boa lábia aplicar era o das salas e piscinas do Country Club, um paraíso sofisticado na então deserta Ipanema. Boy não saía de lá. Um dia os brasileiros se rebelaram contra os privilégios dos ingleses fundadores e passou-se uma lista de adesão entre os associados. Quando chegou a sua vez de assinar o protesto, Boy disse que não o poderia fazer. Não era sócio. Ia ao clube havia anos, sim, mas não pagava mensalidade nem qualquer outra taxa associativa. Simplesmente não era do quadro, mas, além do irmão Miguel, possuía amigos nele — e como todos o queriam por perto, lá estava ele diariamente curtindo as delícias gratuitas daquele nirvana tropical. Boy era um bon-vivant. “Vivo das rendas”, maliciava.
Carioca dos bons, zero de preconceito. Tanto podia frequentar o Country como manter relações com personagens da Turma dos Cafajestes, playboys endinheirados da Zona Sul que, numa época pré-rock and roll, dedicavam-se a estripulias diversas. Entronizavam cabritos em boates (por incrível que pareça, levavam mesmo os bichos para dentro das boates), brigavam com soco-inglês, soltavam barbantinho cheiroso nos salões perfumados com colônia francesa e mostravam o bumbum pela janela dos carros. Ibrahim Sued iniciou-se na cena carioca como simpatizante da Turma. Depois, já colunista social, narrou a mais clássica história de Boy, típica da escola cafajeste.
O playboy Ali Khan — também conhecido como Príncipe, Milionário e Ex-Rita Hayworth, numa hierarquia de apresentações que variava de acordo com a cena em que estava — visitava a boate Vogue, em Copacabana, a central chique da noite carioca, e precisou ir ao banheiro. Boy, sempre por ali, naquele que era um de seus pontos mais queridos de diversão, teve então uma ideia. Pediu a Paulo Andrade Lima, assessor do então ministro da Justiça, Negrão de Lima, que lhe emprestasse o revólver e foi ao banheiro atrás de Ali Khan.
O playboy estava ocupado dentro de uma cabine, o que se ajustava perfeitamente ao plano de Boy. A ação foi simples. Deu um tiro para o teto do banheiro. Queria apenas ver Ali Khan saindo feito um louco dali, o que de fato ocorreu. Em pânico, com as calças na mão, sem saber o que estava acontecendo, mas como qualquer interessado em salvar a pele, o sujeito já não era príncipe, playboy, milionário nem sedutor de estrelas. Fazia-se apenas um humanoide, um rato assustado atravessando a pista de dança, fugindo para a rua na tentativa de se livrar daquilo que, pelo estampido, imaginava ser um atentado contra a sua nobre existência, talvez o ódio de um marido traído. No dia seguinte, sem citar nomes, os jornais anunciaram em manchete: “Tentaram matar Ali Khan.” Ibrahim — autor do bordão “em sociedade tudo se sabe” — foi o único a contar a história tal como se deu. Pura cafajestagem carioca.
Boy é o pai do herói deste livro.
“Meu pai”, diria décadas depois o colunista Zózimo Barrozo do Amaral num programa de TV, “era um homem charmoso... sofisticado...”, e seguiu, reticenciando o perfil do seu progenitor querido, procurando com cuidado as palavras. Até que chegou, com jeitinho, àquela em que devia estar pensando desde o primeiro momento, mas que preferira anteceder de adjetivação mais clássica: “...meu pai era um mulherengo.” A palavra saiu carinhosa, no sentido positivo do termo, de alguém que apreciava as mulheres. A expressão correta.
As associações e referências a Boy, e todos são unânimes em dirigir afeto em sua direção, não passam pelo elogio ao exercício de alguma profissão ou ofício. Ele desconhecia o estresse, e nem era porque a palavra ainda não estava na boca do povo. Era-lhe da índole o despreocupar. A confusão com Ali Khan só não complicou porque Benjamim Vargas, o Bejo, irmão do presidente Getúlio Vargas, demoveu a polícia de qualquer tentativa de aplicar a lei sobre o seu grande chapa.
Anos antes, a propósito, Boy estava com Bejo, agora numa das mesas de uma boate do Copacabana Palace, e aí foi a vez de o irmão de Vargas dar tiros (atirava-se muito naqueles tempos). Uma senhorita de nome Rosa Conceição Conde, de corpo avantajado, passou por eles e recebeu de Bejo o gracejo pouco sutil de “baleia”. A moça reclamou com o irmão, que estava mesas atrás, e este jogou uma cadeira em cima do assediador. O Copa era o lugar mais seleto do Rio, mas isso acontece nos melhores cenários. Bejo puxou do revólver e, em meio à fumaceira de cigarros Chesterfield, atirou, atingindo a perna da “baleia”, perdão, a perna de Rosa Conceição. Dessa vez, Boy só foi culpado por estar no centro do saloon de faroeste, ou melhor, à mesa do Copa.
Outro destaque que se dá ao currículo de Boy na história alegre do Rio de Janeiro é o de ter sido ele o inventor da palavra “esticada”, no sentido de identificar o hábito boêmio de ir de bar em bar, ou de um restaurante para uma boate, numa mesma noite. Prolongar a noitada. Boy tinha estofo para tamanha ousadia semântica, não criou a palavra a partir da experiência alheia. Sabia do que estava falando.
Sem o encargo dos trabalhos a que todos os demais mortais se submetem e em torno deles perdem o melhor tempo de suas vidas, tratava-se de homem dedicado às boas agendas. A estafante rotina de Boy era composta de almoço no Jockey, tardes na Hípica, carteado na casa de amigos, a esticada de logo mais — e, como é intrínseco aos mulherengos, o culto ao sexo feminino. Essa última parte não seria problema, afinal, era um craque na arte benigna de tratar a todas com o carinho merecido — não fosse o fato de ter se casado em 1939, agregando mais um “Z” a esta história, com Elza Rodrigues Peixoto.
“Não se mete com esse rapaz que ele não presta”, dizia a mãe dela, atiçando por vias transversas a curiosidade da filha cada vez que Boy passava na rua e se insinuava. Elza teve antes um namorico com o cineasta Mário Peixoto, seu primo, que chegou a convidá-la para fazer uma cena do seu revolucionário Limite. Não topou. Assim que a mãe morreu, ela evidentemente demonstrou interesse imediato por Boy, vizinho de uma rua próxima — os dois moravam no então pacato bairro do Jardim Botânico, na Zona Sul.
Casados, Elza e Boy ficaram morando na casa que a mãe dela deixara — dois andares, em terreno pouco fundo, mas com um desenho de fachada elegante e um interior refinado. Os móveis do living traziam a assinatura da renomada loja Leandro Martins, com um jogo de sofá azul, poltronas amarelas e mesinhas laterais cheias de figuras chinesas em marfim. Na parede, um quadro grande ilustrado por dois huguenotes numa paisagem de outono. Na sala, forrada de tapete persa, a decoração em móveis de mogno, com tudo se deixando iluminar por dois candelabros italianos de Murano, castiçais em vermeil. As paredes, cobertas de espelhos bisotados. Não havia um clima intelectual, de livros espalhados em estantes, mas boas mesas para de vez em quando se fazer um carteado. Essa bonita casa branca, de janelas verdes, muro de pedra, um conjunto de elegância rivalizado apenas pela residência dos vizinhos alemães, muito ricos, os Pockstaller, ficava no número 35 da rua Frei Leandro, num Jardim Botânico que ainda era um grande quintal entre a Lagoa Rodrigo de Freitas e a Floresta da Tijuca, verde por todos os lados, aos pés do Morro do Corcovado e do Cristo Redentor.
Boy e Elza formavam um casal moderno, e não só porque desde o início do casamento cada um ocupava seu quarto. Ela, de prendas do lar, educada em colégio religioso, nas suas muitas horas vagas lia Proust. Bonita, assistia aos desfiles da Casa Canadá de Luxe, a grande referência da moda feminina, dirigida por sua amiga Mena Fiala. A Canadá, a única com geladeira especial para guardar estolas de pele, dava descontos a quem comprava as roupas desfiladas — mas na plateia só Elza, muito magra, entrava nos vestidos apresentados pelas manequins. Era com eles que frequentava o roteiro de Boy, com destaque para a ronda dos cassinos, o da Urca, o Atlântico, no Posto 6 da praia de Copacabana, e o do Copacabana Palace.
Isso tudo até que nasceram os filhos. Cravejados pelo “Z”, Elza e Zózimo Barrozo do Amaral Filho resolveram passar a marca aos rebentos. Tiveram um casal: Izabel, a caçula, e Zózimo, o III, o futuro colunista, nascido em 28 de maio de 1941 na Casa de Saúde São José, a um quilômetro de casa, no Humaitá.
Para diferenciar o menino dos outros Zózimos, sem o apoio cafona do Neto, ele foi registrado como Zózimo Bráulio Barrozo do Amaral. O Bráulio — que pelo resto da vida seria odiado, ainda mais quando nos anos 1990 passou a ser eufemismo de “pênis” numa campanha do Ministério da Saúde pelo uso da camisinha — era homenagem a um parente, major do Exército. Os íntimos chamariam o filho de Boy e Elza de “Major”.
Eles apareciam nas colunas sociais, queridos por todos. Mas nem tudo foram potins ou jardim de flores na casa do Jardim Botânico. O dramaturgo Nelson Rodrigues, com seus dramas de adultério e demais falências do relacionamento familiar, rondava. Elza, sempre tensa e reservada, era de poucas palavras. Triste. Hoje talvez fosse diagnosticada com algo em torno de depressão. Pouco abraço e pouco carinho aos filhos, que se contentavam com a atenção das babás. A relação com Zózimo Bráulio seria sempre distante, cercada de inseguranças por parte dele, que pelos anos afora pouco a citaria. Em conversas com os amigos mais chegados, trocaria o silêncio pela queixa discreta sobre a ausência daquele afeto fundamental.
Boy, socialmente afável, no dia a dia doméstico permitia-se constantes rompantes. Escafedia-se com regularidade na interminável agenda de almoços na sede do Jockey Club, na esquina da Rio Branco com a Almirante Barroso, no Centro. Era onde se encontravam — sem direito ainda a ar-refrigerado, as janelas abertas para o barulho da avenida — os políticos, industriais e empresários mais influentes do país. De noite, rareava ainda mais em casa. Estava às voltas com alguma namorada, dedicado à sorte no jogo ou à capacidade de iluminar as rodas.
Elza, vaidosa, comprava cortes e cortes de tecidos. Ia acumulando-os nos armários, em quantidades industriais. Nem sempre lhes dava algum formato, de vestido ou blusa. Simplesmente estocava. Entre os sinais de bom gosto, colecionava porcelana da dinastia Ming.
Ah, sim, as crianças!
Zózimo e Izabel foram alfabetizados no Externato Menino Jesus, na própria rua Frei Leandro. A dona do colégio, uma senhora de nome Helena, sofria a particularidade de lhe faltar um braço, perdido num acidente de bonde. Em casa, nas ausências de Boy e Elza, quem ficava de olho nos meninos era um pelotão de empregados: a fabulosa cozinheira Virgínia, regente de almoços elogiados; a babá Vitalina, que chegou a ser denunciada por vizinhos por maus-tratos a Izabel; a babá Nilza, mulata de corpo escultural; e a copeira Edith, loura descendente de alemães. As duas últimas, suspeita-se na família, também não resistiram à sedução de Boy, um homem nem aí para essa bobagem de preconceito que estigmatiza moças tão bonitas só por serem de outra classe social.
Zózimo, o Bráulio, puxou ao pai. Brincalhão, fazia sucesso tanto nos círculos dos meninos ricos como nos dos mais pobres, na grande mistura que era o Jardim Botânico, próximo das favelas da Praia do Pinto e da Catacumba, ajuntamentos que cercavam o anel da Lagoa Rodrigo de Freitas. Como Boy e Pinga-Fogo, irritava-se com facilidade. Quando o rosto muito branco, ligeiramente dentuço, de olhos azuis, era tomado por um vermelho-ira, a humanidade devia sair da frente. Não levava desaforo para casa, e era amplo o leque de acontecimentos que considerava desaforados. Não admitia perder no futebol nem sofrer contrariedade de importância ainda menor. Partia para cima do adversário. Nesses embates quebrou o braço duas vezes.
O garoto gostava de passar o tempo jogando pelada no meio da rua Frei Leandro esquina com a Custódio Serrão, ainda forrada só de terra batida. O resto do seu cardápio era o dos meninos da época, ainda sem TV: pião, bola de gude e, às vezes, subindo os morros, a pipa. Aos domingos, Boy e Elza levavam os dois filhos para andar em charretes puxadas por bodes, na praça Quintino Bocayuva, uma área de lazer que depois desapareceria sob as pistas de acesso ao túnel Rebouças.
Eram belas crianças e cresceram assim. Izabel, já na adolescência, carregava o apelido de Izaboa da Lagoa. Zózimo, apesar do corretor odontológico, não fazia feio. Sua primeira namoradinha foi uma certa Valkiria, bonita e pobre, que morava numa vila próxima. Como Boy, favorecido por uma boa altura e gestos delicados, desde pequeno levou sorte na arte da conquista. Dava preferência às garotas mais apresentáveis — mas não se deixava paralisar por rigores estéticos. Sempre encontrava alguma graça na que estivesse interessada nele.
Izabel, um dia, penalizada com a paixão não correspondida que uma amiga sua, Maria Luiza, gordinha, tinha por Zózimo, resolveu presenteá-la. Investiu parte da mesada na compra do amor do irmão. Pagou algo em torno do preço de dois gibis do Cavaleiro Negro, o herói preferido do garoto, para que ele fosse ao cinema com Maria Luiza. Era o aniversário da menina e não podia haver presente melhor do que sair com o bonitão. Ele topou. Foram ao cinema. Trocaram beijinhos como se fossem namorados. Maria Luiza nunca soube do negócio, jamais desconfiou que o amor fora comprado. Ficou feliz em ficar com o galã disputado, que por enquanto não passava de um segredo do Jardim Botânico.
Os Barrozo do Amaral da Frei Leandro viviam financeiramente bem. Boy especulava com ações, e com uma tacada certeira dada no final dos anos 1960 fez a volta ao mundo com Elza no navio Caronia. Não desperdiçava. Cuidava das finanças domésticas com zelo (“bebida só em bar, jogo só em clube e festa só na casa dos outros”). Sabia-se possuidor de um capital superior a todos os outros, mais econômico: o de ter amigos ricos. Um deles era Joaquim Rolla, o matuto mineiro que ganhou parte do Cassino da Urca num jogo de cartas.
Rolla tornou-se também dono do majestoso Hotel Quitandinha, em Petrópolis, na serra fluminense, e os dois Zózimos, mais Elza e Izabel, passavam temporadas gratuitas por lá. Foram muitas. Com a proibição do jogo, em 1946, pelo general Gaspar Dutra, aquele palácio foi definhando, mas marcou para sempre quem o vivenciou. Zózimo Bráulio lembraria terem sido as imagens do Quitandinha, com jogadores em black tie ou summer, a mais antiga lembrança daquilo que na vida lhe seria usual: luxo e sofisticação. Tomou gosto por esse tipo de vida a partir daquele cenário.
Outras viagens felizes eram as que levavam a família até o sítio do tio Geraldo, o Dodô, em Coroa Grande, Itaguaí, no litoral do estado. Com seu estilo boêmio-intelectual e uma vocação meio à esquerda, Dodô percorria um roteiro diferente dos cassinos de Boy — gostava dos cabarés da Lapa, bas-fond onde Ali Khan jamais colocaria os sapatos de cromo alemão. O compositor Ismael Silva e o malandro Madame Satã dominavam a cena na mesa ao lado daquela em que Dodô bebia. Zózimo, o filho, gostava de se enfurnar na boa biblioteca do tio. Dividia com Izabel livros de Oscar Wilde e Graciliano Ramos.
As férias ainda eram curtidas no sítio do tio Armando, irmão de Elza, em Mangaratiba, também no litoral fluminense, e geralmente ficavam cercadas de boas histórias. Um dia, em meio a uma brincadeira na cachoeira, Zózimo calculou mal um pulo e caiu de boca numa pedra. Lascou boa parte do dente frontal esquerdo e viveria com ele assim até a vida adulta. Sem grilos. Da mesma forma que conseguia encontrar encanto nas mulheres mais desprovidas, algumas delas também achavam um charme o dente quebrado do dentuço — vai entender? Ele sorria agradecido, sem constrangimento.
Acima de tudo, e desde pequeno, Zózimo tinha humor. Já usava essa arma para enfrentar as contrariedades da existência. Em outra cena da infância, passada na fazenda do tio Armando, grande produtora de bananada, empurrava um cavalo para o estábulo quando escorregou e caiu dentro de uma fossa. Coberto até a cintura pela mais absoluta merda, Zózimo teve um primeiro impulso, talvez o mais antigo registrado pela família, de transformar em riso um acontecimento lamentável. “Tio, isso é bananada, não é?”
Nas festas de Natal, sempre na casa do patriarca cearense, a história surgia lembrada às gargalhadas. Era um dos melhores momentos das noites que, infelizmente — e Nelson Rodrigues pede licença para entrar novamente no recinto —, não seguiam assim. Bebia-se muito. Tio Geraldo era alcoólatra. Os outros, mesmo sem o diagnóstico médico, não se intimidavam diante de uma garrafa — e, gole após gole, os dramas da família vinham à tona, servidos junto com o peru da ceia, o caviar e demais requintes. Aqueles Natais confirmavam, sem literatura, com sofrimento real, a frase de Tolstói: “Todas as famílias felizes se parecem, mas cada família infeliz é infeliz à sua maneira.”
Um dos jeitos de a família Barrozo do Amaral ser infeliz no Natal era violando o pacto de silêncio, cumprido o resto do ano, em torno do filho de um dos tios de Zózimo, concebido fora das bênçãos conjugais. O outro era lembrar a ausência da matriarca, a gaúcha Georgetta Tupper, descendente de alemães, a mãe dos cinco filhos do engenheiro cearense que fundara a dinastia. Ela se apaixonara por outro homem. Indiferente ao prestígio social e à grana que o marido lhe proporcionava, foi embora, deixando-o e mais os filhos, ainda bem pequenos.
Zózimo I reagiu mal ao abandono. Passou uma temporada com os meninos na Europa. Na volta disse que a mãe tinha morrido. Só bem mais tarde, já adultos, Boy e demais irmãos descobriram a mentira. A mãe estava viva. Passaram a encontrá-la às escondidas e jamais perdoaram o pai de terem sido privados da presença dela em boa parte da vida. Quando chegava o Natal, liberados pelo álcool, Boy e os irmãos assacavam a história contra Zózimo I — e dava-se a balbúrdia, afloravam-se os ressentimentos. Papai Noel batia em retirada. Com o fantasma de Nelson Rodrigues tomando nota na soleira da porta, a ferida reabria-se, sempre dolorida, naquela que deveria ser a noite feliz.
Izabel e Zózimo Bráulio só foram entender as brigas, os sentimentos confusos que tumultuavam a família, muitos anos depois. Além das cenas de agressão verbal que viam na festa, rompantes inexplicáveis entre os adultos, as duas crianças sofriam repressões incompreensíveis para quem carregava poucas informações sobre os bastidores do enredo doméstico.
No aquecimento do Carnaval de 1947, os irmãos cantavam em casa a marchinha “Cadê Zazá”, de Roberto Martins e Ari Monteiro, promessa de sucesso para o tríduo momesco:
Cadê Zazá? Cadê Zazá?
Saiu dizendo vou ali, já volto já
Mas não voltou
Por quê? Por que será?
Cadê Zazá, Zazá, Zazá?
Sem ela vou vender o bangalô
Que tem tudo, mas não tem o seu amor
Sem ela, pra que serve geladeira?
Pra que ventilador?
Pergunto e ninguém diz onde ela está.
Cadê Zazá, Zazá, Zazá?
Zózimo e Izabel, em torno dos seus seis e cinco anos, cantavam a canção na cozinha, empolgados com a sua sonoridade ingênua e divertida, quando eis que do quarto aparece Boy. Dessa vez, ele estava mais bravo do que costumava ficar nos momentos em que era contrariado. Vinha de dedo em riste: “Nunca mais vocês cantem essa música! Ouviram? Nunca mais!” E voltou furioso para o quarto, batendo portas, sem maiores explicações. Muitos anos se passaram até que Izabel e Zózimo soubessem que aquela marchinha nonsense simplesmente reproduzia, com toda a alegria do Carnaval carioca, um dos dramas da família Barrozo do Amaral.
Evidentemente, os autores da composição não sabiam nada daquele clã — mas quem pode explicar a misteriosa sensibilidade das antenas dos artistas, mesmo os compositores de Carnaval? Estava tudo ali na letra. O que dava para rir dava para chorar. A história de Zazá — a mulher que desaparece de uma casa abastada, com todas as geladeiras e os ventiladores, e deixa para trás a vida de luxos porém sem amor —, contada com leveza na marchinha brincalhona, se encaixava perfeitamente, só que de um jeito dramático, na história da mãe de Boy, aquela que um dia sumiu.
E, pior, com um toque mais arrepiante ainda. Aos ouvidos de Boy, os compositores não inventaram um abandono qualquer para ganhar o Carnaval. Para ele, tudo parecia verídico. Doloroso. A trama se encaixava perfeitamente na sua infelicidade. A coincidência na lembrança da mãe batia chocante até naquele mínimo detalhe, algo que os meninos, ao cantarem a música, não sabiam: na intimidade da família, o apelido de Georgetta Tupper era Zazá!