Enquanto Houver Champanhe, Há Esperança
Capítulo 36
O Painel do Ego era um quadro de cortiça, com um metro e meio de altura e outros três de comprimento, que decorava uma das paredes da sala em que Zózimo escrevia a coluna. O nome tinha sido dado por Fred Suter, um tanto para sacanear e outro tanto para usar o humor típico da dupla. Servia na medida para definir o punhado de fotos que, dia a dia, Zózimo ia pregando ali com alfinetes coloridos. Os dois colunistas escreviam seus textos voltados para a parede do Ego, que pairava acima de suas cabeças. No final dos anos 1980 já havia umas setenta fotos, todas assinadas por fotógrafos que circulavam pelos endereços noturnos do Rio e todas com Zózimo no foco da lente. Eram festas em boates e restaurantes e bailes de Carnaval. Os fotógrafos, para dar uma puxada de saco no colunista, sempre que o encontravam nesses salões faziam um clique dele com quem estivesse ao lado — e geralmente eram mulheres, artistas, socialites, todas rindo muito, conversando ou beijando o colunista que, no dia seguinte, as colocaria, se Deus fosse justo, no seu espaço do Caderno B.
Estavam lá Maitê Proença abraçando Zózimo, vestido de terno e gravata, dando o mesmo sorriso discreto dos outros flagrantes. Em duas fotos ele veste summer, em outras deixa evidente a gola alta que tanto apreciava nos anos 1980, escondendo o pescoço, e em outra ainda, um baile de Carnaval, aparece com os botões da camisa desabotoados, deixando ver o peito cabeludo e abraçando, suado, Maria Raquel de Carvalho e Kiki Garavaglia. Fred também poderia ter apelidado o mural de Painel das Borbulhas, pois não só Zózimo segura uma flute de champanhe na maioria dos registros, como a foto maior, trinta por quarenta centímetros, é a de uma Taittinger. A garrafa, em close, é a única que não sorri em meio ao beijo do colunista em Josefina Jordan, de rosto colado com a professora de ginástica Ligia Azevedo, e, como o diabo gosta, com a mão direita levantando um copo e a esquerda envolvendo a cintura nua de Monique Evans, de biquíni de plumas, num Baile do Vermelho e Preto. No meio disso tudo, de tempos em tempos eram colocadas placas de texto. Uma delas ficou na memória de Paulo Jabur, ex-preso político que se tornara fotógrafo da noite. Dizia: “There are two classes. First class and no class.” A placa que se eternizou ali, no entanto, gritava o espírito da coluna: “Enquanto houver champagne, há esperança.”
A autoria da frase nunca foi confirmada. Renato Machado, suspeito inicial, abre mão da honraria e diz que não a cunhou. Pode ter sido dita por Zózimo em meio a um desabafo sobre as agruras da rotina de colunista, mas é quase certo que não tenha sido ele quem a transcreveu para o painel. Naquele período já não escrevia champagne com um “g” pedante entre as borbulhas. A ausência de paralelismo verbal — o ideal seria “enquanto houver champanhe haverá esperança” — não tem maior importância, um típico bom exemplo para os versos de Oswald de Andrade, que, no Manifesto Pau-Brasil, aplaudia a contribuição dos erros gramaticais e a vitória do coloquialismo para destravar a língua da caretice acadêmica. Com o verbo “haver” no presente, Zózimo parece poeticamente sinalizar que já há esperança porque já há champanhe — e assim tudo continuará.
Era, enfim, um painel de alegria espetacular, um grande brinde à vida com Zózimo ao lado de damas como Carmen Mayrink Veiga, a condessa Pereira Carneiro, Evinha Monteiro de Carvalho e, também, sem preconceito, como lhe era de feitio, com Narcisa Tamborindeguy, Sônia Braga e Florinda Bolkan. De homens, apenas Roberto D’Ávila, o filho Fernando, Henrique Schiller de Mayrinck, Ibrahim Sued e Julio Iglesias, estes dois últimos na mesma foto com Zózimo, com o cantor apoiando as mãos em seu ombro sob o olhar do velho colunista. O painel brilhava como se fosse um neon piscando euforia diretamente da cortiça, um grande letreiro anunciando que se estava na sala da coluna mais glamorosa do país, capaz, ainda, de notas saborosas como “Euclidiana”:
• Pelo que se cheirou de cocaína na guerra entre os
traficantes do Morro Dona Marta e deles com a polícia, o
episódio está sendo conhecido como a nova Guerra dos
Canudos.
• Literalmente.
Ou:
• De um colunista, entregue ontem ao estafante garimpo
diário, depois de disparar uma dúzia de telefonemas inúteis:
— Este governo (Itamar Franco) é muito sem graça. O outro
(Collor) roubava, mas era muito mais animado.
Pelo menos uma vez a cada edição, o leitor dava naquele início de 1993 um riso ou uma gargalhada com o espírito fino da verve de Zózimo. Em 25 de fevereiro de 1993:
• Um leitor desta coluna convidou cinco amigos para
almoçar no Esplanada Grill.
• Quebrou o policarpo, o lídio e o perônio, sendo que este
em dois lugares.
• No cheque especial e no cartão de crédito.
Em 6 de maio:
• Horário nobre é horário nobre.
• Não dá para ministro de Estado pedir a palavra e soltar
um “é mister...”.
• É mister é o escambau.
Só que o ambiente onde essas gemas eram produzidas, a vida real em que elas se processavam, o aquário da redação, já não era esse champanhe todo. Fred Suter e Marly Gonçalves, com vinte anos de compartilhamento do mesmo espaço, estavam próximos de se matarem. “Vê se te enxerga, lavadeira”, mandou Fred uma vez para cima de Marly, que, imediatamente, pegou uma gaveta e virou tudo o que tinha dentro dela em cima do difamador. Zózimo ainda catou algumas folhas de papel que iam caindo e perguntou “o que está acontecendo?”. “Chega de aguentar desaforo”, disse Marly, batendo a porta e indo embora — para no dia seguinte voltar.
Marly foi várias vezes à chefia da redação reclamar de maus-tratos verbais, dizendo que Fred era arrogante, achava-se um aristocrata de nariz em pé. Marcos Sá Corrêa, provocado a decidir um conflito entre Marly e Fred, duas unanimidades do mau humor, ouvia as partes e... deixava para lá. Marly fez psicanálise para, entre outros problemas, suportar Fred. Numa tentativa de aproximação, organizou festa de aniversário para ele, com bolo e champanhe francês. O homenageado não foi. No outro dia, chorando, Fred desculpou-se. Disse que quando era criança os pais organizaram uma festança e não foi ninguém. Seria uma grande comédia patética, não houvesse outros dramas soltos.
Marly fazia um cordão de isolamento em torno de Zózimo, para evitar que os assessores de imprensa se aproximassem, e esse poder foi lhe subindo à cabeça. “Não vou nem anotar”, dizia às fontes antes de bater o telefone. “A nota é ruim demais.” Havia sempre alguém exigindo que ele demitisse Marly, que, como defesa, vinha com o bordão dramático de “para mim é isso mesmo, ninguém é mais importante que o Zózimo”. O chefe também a tinha em tal nível de consideração. Repassava cortesias da Varig para a secretária ficar uma semana no Hotel Tropical, em Manaus, e do Club Méditerranée, de Rio das Pedras, onde ela se hospedou outros dez dias, com mãe e sobrinho. Marly crescia na fita. Guardava na gaveta cheques em branco assinados por Zózimo para a eventualidade de pagar contas vencidas nas ausências dele. Quando voltava, ele perguntava: “Quanto eu tenho no banco?”
Marly estava podendo. Quando lhe passaram a nota de que a socialite Claudine de Castro estaria de namorico com o senador americano Ted Kennedy, ela achou que a informação poderia ser ruim para a moça e, da mesma maneira que evitava a chegada dos releases insossos à mesa do chefe, evitou que chegasse a ele e depois aos leitores aquele delicioso quem-come-quem, um dos pilares de qualquer coluna, observado em centenas de notas como “Novo par, senão na noite do Rio pelo menos ao sol de Angra: Irene von Dellinghausen e César Thedim. É o chamado coup de foudre”. “Ô, Marly, que falta de lealdade é essa?”, reclamou Zózimo, quando lhe disseram que a secretária sabia do babado entre Claudine e Ted Kennedy e por escrúpulos o bloqueou.
Discutia-se a relação o dia inteiro. Marly, quando via o chefe tristinho, e ultimamente achava que ele estava assim o tempo todo, chegava perto e se oferecia como confessionário. Dizia que ele escondia algumas urgências a serem resolvidas e ele respondia que não eram algumas, mas muitas. A psicanálise andava sendo barateada por ali. Um dia, no meio de uma brigalhada provocada pelo estresse e por uma nota errada — a famosa “barriga” — dada por Marly, Zózimo teve que ouvir o desabafo filosófico da secretária: “Isso! Grita, põe pra fora os seus demônios, criatura!”
A sensação de estar sozinho, na intimidade dos seus demônios, crescia no peito de Zózimo. Nunca chegou a ser amigo de verdade de Fred, a prolongar a convivência em encontros no fim de semana. Não se frequentavam as casas. Se estavam no restaurante Antonino, um ponto comum de frequência, estavam em mesas separadas. Amigos diferentes, festas diferentes. Fred nunca participou de um “resgate” do chefe. Nesses sumiços, Marly telefonava para Paulo Marinho ou Marcos Sá Corrêa. Fred daria de ombros para o drama pessoal de Zózimo e se queixaria de que mais uma vez sobraria para ele botar a coluna de pé. Conviviam profissionalmente, com respeito e admiração, todavia sem os arroubos de intimidade dos amigos fraternos. Zózimo, elegante, elogiava nas entrevistas o braço-direito. “O Fred é meu alter ego. Se não fosse quem sou, eu gostaria de ser o Fred Suter. A gente não é exatamente igual, mas é muito parecido. É um convívio harmonioso e rosado que temos há anos. É difícil você encontrar hoje um jornalista com o background do Fred”, disse ao repórter Michael Koellreutter, da revista Interview.
Salamaleques à parte, estava cada vez mais dura a experiência de engolir sapos com o alter ego. Enquanto Zózimo, por mais complicada que a vida lhe estivesse, continuava disposto a abraçar as pessoas com sua conversa afável, Fred se trancava. Na redação, chamavam-no de antipático, e ele gostava de responder que ia abrir o currículo com a expressão. Lealdade deixara de ser virtude em seu perfil. Escondia fontes de Zózimo, que, cansado das “barrigas”, insistia em saber a origem das informações antes de publicá-las. Graças a Fred a Coca-Cola comprou o supermercado Sendas, notícia baseada numa especulação de mercado (a Sendas devia pagamentos à Coca-Cola, e circulava que a companhia de refrigerante ia assumi-la). Nascimento Brito entrava em pânico quando Fred ficava sozinho na coluna. Foi ele quem publicou a nota de que Roseana Sarney, filha do então presidente, estava se divorciando de Jorge Murad — o que ainda não era verdade, o casal estava naquele vai e volta de fim de relação. A notícia apareceu na véspera do encontro de Brito com Sarney, o pai, para renegociar a liberação de um canal de TV para o JB, operação que ficou mais difícil depois da nota.
A depressão estava solta naquele retângulo de cerca de dez metros de comprido por cinco de largo. Ninguém se aguentava. Marly começou a guardar qualquer anotação de Zózimo, qualquer lauda amassada — ela entendia bem a sua caligrafia. De um papelote anotado ao telefone e displicentemente deixado de lado poderia sair uma nota salvadora, caso o chefe não estivesse presente. Os três pareciam vítimas de um longo casamento clássico, com a relação esgarçada pela rotina e sem pelo menos o usufruto de algum sexo eventual. Fred era um pote até aqui de mágoa, rancor e todos os problemas decorrentes dessas doenças. Em 1989, a revista Domingo, do JB, comemorou os vinte anos da coluna com a foto de Zózimo na capa e cinco páginas internas. Fred disse depois que algumas das notas citadas pertenciam a seu DNA. Por várias vezes, no entanto, Zózimo creditou o assistente, como no caso de uma nota sobre o ministro do Trabalho Rogério Magri. O sujeito tinha dito que não sairia numa reforma de ministério de Collor porque era “imexível”. Numa entrevista, Zózimo revelou que foi de Fred a nota seguinte à demissão de Magri. O ex-ministro estaria de olho na Academia Brasileira de Letras: “Quer tornar-se imorrível.”
A decadência assombrava a todos por todos os lados. Os problemas de saúde e os embates profissionais entre Zózimo e Fred acompanhavam a trajetória da empresa, soterrada em dívidas. “Isso está parecendo a mansão dos Buddenbrooks”, dizia Zózimo, referindo-se aos nobres e falidos personagens do romance do escritor alemão Thomas Mann. No “pescoção”, o uso do uísque trazido pelo muambeiro My Friend aumentava a tensão, desconectava os colunistas do fechamento e enchia a sala de gente gargalhando e atrapalhando outro tanto. Fred começou também a multiplicar as doses de bebida.
Por duas vezes nos anos 1980 Fred teve a oportunidade de realizar o sonho de ser Zózimo. Primeiro quando foi para a Última Hora, num dos últimos suspiros da publicação, que fecharia as portas em 1991. Trabalhou durante o mês de dezembro de 1984. Em janeiro de 1985 estava de volta aos braços do antigo colega no JB, uma recontratação que desgastou Zózimo porque ia contra todas as praxes do Departamento de Pessoal admitir um funcionário que abandonara a empresa no mês anterior. Depois, foi a vez do Globo. Fred foi contratado em janeiro de 1987 para ser o titular da Coluna de Carlos Swann, com direito a assinar e ter o desenho do rosto no alto da página, algo que a diagramação do JB não permitia a Zózimo. A experiência durou pouco mais de dois anos, e Fred, de novo, pediu as contas para voltar ao JB. O diretor de redação do Globo, Evandro Carlos de Andrade, foi veemente na hora em que ele foi embora: “Você nunca mais trabalha aqui.”
Em 1984, Evandro começara a seduzir as estrelas do Jornal do Brasil com a contratação do chargista Chico Caruso. Sua administração, iniciada na década anterior, dera uma dimensão de equilíbrio editorial espetacular ao jornal, que estava mais moderno. Tudo certo, mas o charme e o encanto continuavam com o concorrente. Os leitores gostavam do produto O Globo, as pesquisas acusavam, no entanto sentiam falta das assinaturas do JB, gente como Chico Caruso, Míriam Leitão, Zuenir Ventura, Mauro Rasi, Carlos Castello Branco, Luis Fernando Verissimo, Millôr Fernandes, Artur Xexéo, Zózimo...
O jornal de Roberto Marinho estava com uma tiragem média de 260 mil exemplares por semana e 550 mil aos domingos, contra 150 mil e 200 mil do Jornal do Brasil. Os analistas avaliavam que o passe de Zózimo valeria mais pelo dano que causaria à imagem do JB do que pelo ganho que daria ao Globo. Uma pesquisa do instituto Vox Populi, feita em 1991 fora do Rio e publicada na revista Imprensa, indicava que Ibrahim Sued continuava imbatível como o colunista social mais lembrado pelos entrevistados. Depois dele vinha Amaury Jr., dono do programa Flash, na Rede Bandeirantes. Zózimo corria em terceiro lugar, com pequena vantagem sobre Swann.
Aquela pesquisa, se feita na classe AA, daria Zózimo na cabeça, e era aonde O Globo queria chegar. Na elite carioca, nos formadores de opinião. A percepção geral era de que se um carro capotasse na Lagoa, os dois jornais dariam a mesma informação — mas algum colunista do JB comentaria com um detalhe que as matérias comuns, aborrecidamente informativas, não tinham, e esse diferencial ficaria à frente de toda a papelada gasta por Marinho. A ideia de Alberto Dines nos anos 1960, de personalizar a edição do JB, continuava forte e finalmente O Globo se dobrava a ela.
Evandro pôs-se em campo então, com paciência, na difícil tarefa de convencer Zózimo e aqueles profissionais agregadores de prestígio a trocarem de camisa. Queria adquirir a credibilidade do JB. Eles não só teriam salários maiores, como também condições de trabalho idênticas, inclusive liberdade de expressão. Nesse ponto, os jornalistas desconfiavam e — bem, deixe-me pensar mais um pouco — preferiam continuar no Jornal do Brasil. Chico Caruso foi o primeiro a dizer “sim” e, ao transferir-se para a primeira página do Globo, acenou aos antigos companheiros com desenhos repletos da mesma crítica política que apresentava na antiga casa. Em 1991, foi a vez de Míriam Leitão trocar de jornal, após uma negociação difícil comandada pelo editor Luis Erlanger. O salário oferecido era bom, ok, mas Erlanger teve de jurar muitas vezes que jamais seria feita qualquer censura a qualquer comentário da colunista em seu espaço. Desconfiava-se das intenções da direção, de seu passado ligado aos militares e ao conservadorismo.
Nem todos percebiam que o jornal modernizara-se. Evandro e Henrique Caban, seu braço-direito, convenceram Roberto Marinho a, entre outros avanços, tirar o editorial quase diário da primeira página, tradição dos tempos do Diário Carioca, colocando-o na capa apenas quando tivesse importância para tal. O jornal queria arejar, ficar plural, mais democrático, transformar-se com a conquista dos escalpos mais sublimes do inimigo e, evidentemente, melhorar vendagem e publicidade. Conquistar as crias do JB não era tarefa fácil, por mais que o barco lá estivesse afundando — bastava ver o exemplo de Fred Suter. Tinha pedido mais uma vez para voltar ao conforto de ser o segundo no JB, algo que julgava mais interessante do que comandar sozinho no Globo a operação de catar notas, colocá-las de pé, depois catar mais notas, colocá-las de pé...
Na entrevista a Suzana Braga para a Última Hora no fim de 1989, Zózimo mostrava que vacilava a sua disposição para enfrentar a década que se anunciava. Reclamou do esforço: “Aos quarenta e oito anos, não se tem mais o vigor nem a paciência dos vinte ou trinta anos. A coluna exige muito, não só em termos de elaboração, mas também de solicitações paralelas, atividades sociais, estreias, jantares. É fatigante.” Parecia desconfortável com o assunto que por tantos anos só lhe era animação e piadas. A editora Record sondou-o com uma proposta de reunir em livro suas melhores notas, não as que tivessem sido mais retumbantes em termos de informação, e sim que contivessem uma graça literária que resistisse aos tempos (por exemplo, “Desponta na burocracia federal um novo cargo. É o asponin — o aspone interino”, publicada em 28 de fevereiro de 1993). Zózimo ficou de pensar. Já estava pensando em tantas outras opções, por que não? Queria mudar de vida, e todos pareciam perceber isso.
O repórter Ricardo Medina, da revista Excelência, editada em Brasília, fez a pergunta que não queria calar: “Você tem data marcada para parar de trabalhar?” Zózimo foi sincero: “Eu não penso em outra coisa. Eu gosto do que faço, mas tenho amigos que não trabalham e têm uma vida boa demais. Se eu pudesse parar de trabalhar amanhã eu pararia. Estou com trinta anos de jornal. Acho que já está de bom tamanho.” Porém — ah, porém! — lá estava a vida para levar cobrando as dívidas todo fim de mês. Se ele herdara o bom humor e a disposição de Boy para tocar o dia a dia, o bom trato com as finanças não lhe fora passado. A herança de 1 milhão de dólares foi sumindo, primeiro aplicada na compra do apartamento de Paris, depois nas viagens e nas necessidades de manter um status razoável de prazeres e concomitantes felicidades. O apartamento do Rio era de Dorita, o de Miami, também. De vez em quando fazia frilas para publicações diversas, como a Status, a Vogue, porém os valores que recebia serviam apenas para pagar o supermercado da sobrevivência.
Enfim, se ainda não dava para parar, estava na hora de inventar outra coisa, mesmo que fosse uma variação sobre o mesmo tema — e foi aí, depois de voltar do exílio em Miami, que Evandro Carlos de Andrade o procurou para mais uma conversa sobre mudar de endereço profissional. Que tal sair da longínqua avenida Brasil e voltar para a rua Irineu Marinho? O Estado de S. Paulo soube e radicalizou: aceitava que ele fizesse a coluna diretamente de Miami. A Editora Abril e a Rede Globo havia tempos faziam a mesma coisa — colocavam envelopes com propostas polpudas em cima da mesa. Nunca se mostrara curioso de saber quanto havia dentro. Agora estava.
Uma das tiradas que mais gostava de repetir era uma variação da que publicara sobre Tom Jobim, seu amigo de encontros na Cobal do Leblon, na edição de 2 de julho de 1984. O compositor de “Águas de março”, desconsolado, comentava a internação de um amigo, também chegado a um copo, numa casa de saúde. Tom achava aquilo humilhante: “A gente passa a vida inteira construindo uma reputação para ver tudo se perder num mês.” Zózimo reescreveu a frase e a aplicou à sua situação: “Passei trinta anos construindo uma reputação, chegou a hora de colocá-la à venda.”
Chegara a hora de Zózimo, dono no jornalismo de uma reputação do tamanho da de Tom na música, fazer o mesmo. Se o compositor havia inventado um gênero, copiado por todo mundo, o colunismo nos jornais brasileiros também se multiplicara em centenas de imitadores do jornalista. Era hora de saber quanto valia um patrimônio daqueles. O Globo pôs na mesa uma proposta de 15 mil dólares mensais, quase o dobro dos 8 mil dólares que ganhava no JB. O amigo Paulo Marinho ajudou a negociar com a cúpula do jornalismo. “Paulo, como é esse negócio das crises do Zózimo?”, perguntou Evandro Carlos de Andrade. A resposta foi dolorosamente sincera. “Olha, Evandro, você está comprando o pacote completo. Está comprando o Zózimo com o prestígio que isso vai te trazer, com uma sofisticação profissional ainda intacta, mas está comprando o Zózimo em uma fase em que ele tem esses problemas de administração. Vai ter uma recaída em algum momento e não vai aparecer por alguns dias. O alcoolismo e a depressão estão graves, mas ele está se tratando. Vai precisar de um aconchego, como no JB. Montando uma boa equipe, não vai ter problema.” O diretor de redação rebateu com o mesmo nível de sinceridade: “Ok, vamos ajudar com tudo que estiver ao nosso alcance. Queremos a grife ao nosso lado, e ela ainda vale prestígio e qualidade jornalística.”
O Globo estava feliz. Se fosse um guerreiro sioux, era como ter conseguido o escalpo do inimigo abatido. Trazer o seu antigo colunista de volta, agora com o passe tremendamente valorizado, não tinha preço. Para Zózimo havia uma questão em aberto. Como chegar na frente de Nascimento Brito e, olho no olho, depois de terem passado tantos anos juntos, rindo do mundo e principalmente do adversário, dizer a frase inimaginável? “Doutor Brito, estou indo para O Globo trabalhar com o doutor Roberto.” As desavenças entre Maneco e Marinho eram públicas, cheias de frases preconceituosas por parte de Brito, e faziam a delícia dos cafés nas redações. Antes de ser a guerra de duas empresas pela liderança do mercado, os tycoons brigavam entre si. Não era editorial — era pessoal.
“Como é que nós vamos pegar ‘ele’ amanhã?”, era como Brito chegava para o redator-chefe Paulo Henrique Amorim, por volta das dezenove horas, no início da década de 1980, e perguntava sobre a edição do dia seguinte. Queria saber qual a grande notícia, porém não qualquer uma — aquela que “ele”, Marinho, não teria nem se colocasse todos os seus repórteres em campo. O verbo soava como na canção “Carcará”, de João do Vale e José Cândido, aquela do “pega, mata e come”. Como dizer a Brito que dessa vez quem estava no papel de “Carcará” era Roberto Marinho? Depois de Chico Caruso e Míriam Leitão, O Globo levaria Luis Fernando Verissimo em 1999, quando já tinha conquistado do JB o pote de ouro que germinara o jornal — o anúncio classificado. Através de uma política agressiva, a empresa arrancara não só as empregadas domésticas, mas também os demais empregos do mercado, e mais a venda de carros e a compra, venda e aluguel de imóveis. Só faltava a última letra do alfabeto.
Como acenar em despedida para dona Leda, a mulher de Brito? Ela o estimava quase como a um filho, servia-lhe de confidente, ouvinte generosa de tantas idas e vindas amorosas. Costumava declarar nas reuniões em família que Zózimo era o último cavalheiro, aquele derradeiro solitário, capaz de saber o momento certo de beijar a mão de uma mulher. Do ponto de vista editorial, a influência do Globo crescia e as desconfianças em relação à sua linha política diminuíam com a sucessiva publicação de matérias independentes. Aos poucos, os jornalistas percebiam que o jornal queria acompanhar o movimento de liberdades democráticas estabelecido após a ditadura e estava com as portas abertas para os bons profissionais. Sem preconceito ideológico.
Na TV, uma campanha publicitária do Globo começava com a imagem de um exemplar sendo desfolhado página a página até se revelar o seu leitor — uma grande personalidade da cidade, como a atriz Fernanda Montenegro ou o cirurgião Ivo Pitanguy, tidos, a princípio, como da elite de leitores do JB. Os leitores anônimos percebiam as mudanças de conteúdo, reforçadas por uma reforma gráfica que tornou o visual mais organizado e bonito. As pesquisas de opinião confirmavam que eles estavam gostando — ficaria melhor ainda se contasse com colunistas de renome.
Zózimo, notório por sua dificuldade em decidir qualquer coisa que fosse — exceto na hora de escolher entre uma boa nota e outra que merecesse ir para a “cesta” —, agora precisava dizer “não” ao patrão com quem estabelecera uma relação diferente daquelas de um empregado qualquer. Se Brito mostrava arrogância com o restante da humanidade, olhando a todos de cima, de mais alto ainda que seus um metro e oitenta e nove, com ele a relação era de cumplicidade. Dois esnobes. Bem-nascidos, mas não ricos. Brito era filho de um engenheiro de classe média e ascendera socialmente ao se casar com a filha dos donos da empresa. Como desfazer uma parceria dessas? As histórias de vinte e quatro anos de amizade percorriam a cabeça de Zózimo.
Em 1978, Nascimento Brito sofrera um acidente vascular cerebral que o obrigara a cumprir nove meses de tratamento nos Estados Unidos. Jamais recuperaria todos os movimentos. Quando voltou, apenas duas pessoas que não eram da família o esperavam no casarão de Santa Teresa — o colecionador Gilberto Chateaubriand e seu cousin, Zózimo. Um dos familiares notou que a intimidade com a casa era tanta, tantas vezes esteve lá conversando com Brito — e os dois às gargalhadas sacaneando a sociedade —, que Zózimo, jeans e camisa azul, colocava os pés, forrados por um mocassim finíssimo, em cima da mesinha pela qual dona Leda alardeava o maior ciúme.
Como dizer a Brito valeu, obrigado, mas estava indo ajudar Roberto Marinho a competir com o próprio Brito e, de quebra, renovar a imprensa nacional nos anos 1990? A palavra maldita, de guarânias de Lupicínio Rodrigues e tangos de Adelino Moreira, não lhe saía da cabeça: “traição”. Se fosse para o Estadão, ou a Veja, tiraria de letra. Mas para O Globo?! Poucos anos atrás, estavam em Paris e o doutor Brito, devido aos transtornos do AVC, caiu no chão quando saíam de um restaurante. O patrão mostrou-se resignado com a nova realidade, uma metáfora impossível de não se associar à trajetória do jornal. “Não se preocupe”, disse Brito, levantando-se, agora despido da arrogância de outrora, “já me acostumei. Tenho caído muito.”
Zózimo contou aos amigos como ficou comovido com aquela cena, com as voltas que a vida dava, e eis que agora, mais por timidez do que por covardia, não sabia como ir até o gabinete do amigo de momentos íntimos como aquele do chão de Paris e, agradecido por tudo, dizer dos novos planos. Perdera a arte de demitir-se. Ansiava por uma saída grandiosa, como a de 1969, quando disse a Roberto Marinho que ficasse com a grife de Carlos Swann pois ele ia inventar outra, a própria. Uma nova boutade daquelas não vinha e o tempo foi passando. Durante vinte dias, permaneceu sozinho com o segredo de sua ida para O Globo. Depois de ter sido desculpado de tantas ausências, numa tolerância não prevista em nenhum contrato do Ministério do Trabalho, ele estava fora do jornal. Havia apenas três meses chegara do exílio em Miami, em fevereiro de 1993. E o JB, mais uma vez, mostrara-se compreensivo a respeito das suas necessidades particulares e facilitou que ele só voltasse quando se sentisse seguro.
Para piorar a cena, em 1o de junho o JB ficava de luto com o falecimento de uma das outras estrelas da companhia. Às voltas com um câncer na laringe e na língua, morria enfartado o colunista Carlos Castello Branco, o Castelinho. Havia trinta anos era, com sua coluna no primeiro caderno, o grande farol para se entender os rumos da política brasileira. Em trinta dias, o JB perderia duas estrelas que havia construído nas últimas três décadas — como dar mais essa notícia de perda ao amigo Brito? Antes ainda, Marcos Sá Corrêa, Flávio Pinheiro e Xico Vargas, presenças históricas no jornal, trocaram de logotipo, contratados por outros jornais e revistas.
Zózimo trabalhou pela última vez na redação da avenida Brasil em 28 de maio, seu aniversário. Recebeu os parabéns da redação, cortou o bolo, fechou a coluna — e entrou em pânico. Internou-se durante duas semanas no quarto 229 da Clínica São Vicente, a casa de saúde de Luiz Roberto Londres, o colega do Santo Inácio. Preso a uma cama de hospital, assistiria de longe à movimentação dos jornais, esperando que alguma coisa decidisse por ele. Ainda queria ficar, devia tudo ao JB, sabia que sua saída seria usada como bala de canhão para afundar o barco que tanto o ajudara a navegar, altaneiro, pelos mares do jornalismo. Mas a herança de Boy não existia mais. Precisava preparar uma tacada financeira para, em seguida, se reinventar e dar um basta naquele negócio de mendigar notinha. Não estava saindo por achar melhor a proposta editorial do concorrente nem por acreditar que em outra casa teria carências profissionais finalmente atendidas. Não se tratava disso.
Foi Manoel Francisco do Nascimento Brito Filho, o Kiko, que naquele momento presidia a empresa, quem quebrou o gelo, a pedido do pai. Dirigiu-se até a clínica da Gávea para saber com o colunista o que estava acontecendo. Encontraram-se por vinte minutos. Zózimo, deitado na cama, apenas balbuciou a confirmação da saída e o resto do tempo, com a mão cravada no braço de Kiko, chorou copiosamente sem dizer palavra. Os olhos vermelhos ficariam na memória de Kiko, que imediatamente telefonou ao pai para dar a notícia.
Liberado do peso, Zózimo, na companhia de Sergio Bermudes e Paulo Marinho, redigiu uma carta a Nascimento Brito e dona Leda. Cada palavra era discutida à exaustão. Na redação final, ficou assim:
Rio de Janeiro, 10 de junho de 1993.
Querido Dr. Brito,
Internado, no momento, na casa de saúde São Vicente,
sem possibilidade de alta antes da demorada viagem que sei
que o senhor fará ao exterior, vejo-me obrigado a recorrer a
esta carta, cuja remessa confio à minha mulher, para cuidar
de assunto inadiável, que teria tratamento diferente, em
outras circunstâncias.
Depois de examinar cuidadosamente todas as
implicações que esta decisão envolve, acabo de aceitar
convite para trabalhar em O Globo. Estou portanto
comunicando ao senhor o meu afastamento do Jornal do
Brasil, onde não mais será publicada a coluna que leva o
meu nome, há quase 25 anos.
A amizade e o carinho com que o senhor me honra e a
minha fidelidade inquestionável, além do fato de estar meu
nome associado a um quarto da vida do jornal, impõem que
eu escreva esta carta do meu leito no hospital, em
manifestação do apreço imenso que me liga ao senhor, a
Leda e aos seus filhos.
Somos o senhor e eu dois jornalistas experimentados.
Sabemos, sem necessidade de invocar exemplos, alguns
muito próximos, que a motilidade é característica da nossa
profissão. Nós nos transferimos de um jornal para outro,
sem razão específica, pela vontade de nos renovar e
aperfeiçoar, quando renovamos as nossas experiências. Eis
como explico a mim mesmo a decisão tomada, que não se
prende a um motivo determinado, não importa o que se
pense, se diga ou se publique.
Recebi do Jornal do Brasil e seus donos tratamento a que
correspondi da maneira mais leal. Um rigoroso exame de
consciência me tranquiliza na certeza de que,
incomparavelmente menor que o jornal, eu dei de mim,
contudo, o que pude, na tentativa de me elevar à altura das
tradições dele, sabiamente preservadas e enriquecidas pelo
senhor e por seus múltiplos colaboradores, sempre
inspiradas no exemplo de dignidade e dedicação da
Condessa Pereira Carneiro.
Aceite, meu querido dr. Brito, junto com Leda, o abraço
de reconhecimento e do afeto do Zózimo Barrozo do
Amaral.
Pela quantidade de vírgulas emperrando a leitura, como se fossem necessárias pausas e mais pausas para se explicar tudo e nada restar vago ou dúbio, percebe-se a dificuldade de aprontar o texto escrito a seis mãos. A palavra “motilidade”, por exemplo, não aparece em qualquer uma das 200 mil notas feitas por Zózimo em mais de duas décadas, e soa mais possível no vocabulário de um grande advogado como Bermudes. Dona Leda, elegantemente, sem abrir qualquer parágrafo ao rancor, no dia seguinte, um feriado de Corpus Christi, respondeu com uma carta emocionada e com direito a poesia numa hora daquelas:
Rio, 11 de junho de 1993.
Meu querido Zózimo,
Foi com grande tristeza que tomei conhecimento da sua
decisão de afastar-se do JB.
Sempre pensei que morreria vendo a sua coluna no
Jornal do Brasil.
O motivo ou motivos que o levaram a tomar esta atitude,
gostaria que um dia me contasse.
Creia, meu amigo, que jamais o julgarei. Sempre
guardarei de você a imagem de um grande profissional, que
só enriqueceu o JB, e do amigo leal, dedicado e sempre
presente nos momentos difíceis.
Nunca esquecerei o B que você editou no primeiro
aniversário da morte de minha mãe. Só você o poderia ter
feito! Pensei que também este ano (décimo aniversário de
morte dela) você me ajudaria a escrever algo tão belo como
foi o B de 5 de dezembro de 84.
Posso imaginar o seu sofrimento nesta hora de difícil
decisão. Fique certo que estarei sempre ao seu lado seja qual
for o rumo que tomar.
Zózimo, muitos anos atrás, quando descobri Fernando
Pessoa, guardei este verso que muito me ajudou na vida:
“Valeu a pena? Sim, tudo vale a pena se a alma não é
pequena.”
Tome a sua decisão. Vá em frente, pois sua alma não é
pequena!
Com a certeza da minha amizade e profundo carinho. Um beijo, Leda do Nascimento Brito.
Nascimento Brito guardou uma profunda irritação e más palavras, usadas no circuito interno dos mais próximos. Classificava a atitude de Zózimo com aquela palavra mesmo — “traição”. Quando Zózimo fez cinquenta anos de idade, em 1991, ele havia mandado um bilhete carinhoso dizendo que “50 anos de um personagem como você representam realmente um marco na vida. Por isso é que Leda e eu enviamos um abraço afetuoso, ao mesmo tempo que fazemos os mais ardentes votos por sua felicidade pessoal e sucesso na vida”. Passados dois anos, o “personagem” se mandara para o lado do inimigo figadal, e sem comunicar pessoalmente a decisão. Em público, Brito fez pior que as palavras ruins dos bastidores. Nada disse. Tratou como se tivesse perdido um empregado qualquer que resolveu ir para outra repartição. Não deu bandeira da mágoa. Voltou a ver o ex-funcionário um ano depois, quando se cruzaram num evento no Gávea Golf Club. “Boa noite, doutor Brito”, cumprimentou o colunista. “Boa noite, Zózimo”, respondeu Brito, exibindo uma arte na qual possuía um Oscar imbatível, como disse um amigo do colunista, “a de encenar um olímpico desprezo pelo próximo”.
Chegava ao fim, sem porta batendo, sem tapa na cara, sem gritaria ou choro, uma relação que mudara a história da imprensa brasileira. Na redação, confirmado o desenlace, cada um reagia conforme as consequências lhe atingiam. Fred e Anna Maria Ramalho só tiveram a confirmação da boataria quando chegou às bancas a Veja Rio, com Zózimo na capa. Aos leitores do JB, foi colocada naquele mesmo domingo, 13 de junho de 1993, uma nota no Informe JB. Dizia que, depois de vinte e quatro anos, a coluna deixava de ser publicada. Na página 3 do B, pela última vez saía o logotipo com o nome Zózimo, numa coluna inteiramente feita por Anna e Fred Suter, mas ainda assinada por Zózimo e Fred.
A capa da Vejinha lembrava a história de Zózimo no JB, o regaço quase maternal com que a empresa o acolhia após as crises diversas, e projetava o futuro da coluna num jornal onde já havia a coluna de Ibrahim Sued, a de Hildegard Angel e a de Ricardo Boechat, que pela segunda vez comandava a coluna Swann. Ao sair do Globo, em 1969, Zózimo era uma coluna com um jornalista dentro. Voltava, dizia a Vejinha, com a estatura de um jornalista chamado coluna. O cacife era de um profissional no topo. A revista informava que ele poderia montar a equipe que quisesse na nova casa — e aí começava mais um problema emocional.
Evandro Carlos de Andrade deixou Zózimo à vontade para que levasse até o seu problemático companheiro. A conta de Fred Suter seria zerada, numa demonstração de boa vontade não com o que Fred fizera em 1989, ao abandonar o Swann pouco mais de dois anos depois de assumir a coluna, mas com Zózimo. Evandro queria dar todas as sinalizações de que ali ele usufruiria as mesmas liberdades do JB. Que viessem Fred, Anna Maria, Marly — quem ele quisesse. Zózimo só quis Marly.
Fred começou, então, um mergulho ainda mais fundo nas marés de depressão, angústias e cultos à infelicidade. Jamais perdoaria ter sido deixado para trás e sem qualquer esclarecimento. Meses depois, Zózimo finalmente lhe telefonou. Marcaram um jantar no Antonino, o bar que os dois frequentavam em mesas separadas. “Por que, Zózimo”, perguntou Fred, “por que você não me levou pro Globo?” Zózimo podia ter feito um resumo da ópera e suavizado, como era mestre, os problemas dos últimos tempos. Estava cansado da vida de colunista em geral e também da nonchalance com que Fred tocava as obrigações, apurando cada vez com menos rigor e obrigando a correções semanais. Mas para que ferir ainda mais o ex-parceiro? À mesa do Antonino, poderia se aproveitar do passado ruim de Fred com O Globo e sinalizar com a proibição de levá-lo de volta. Preferiu não jogar mais sal na ferida do outro nem mencionar que não aguentava carregar seu mau humor, sua falta de paciência e incapacidade em ajudá-lo a resolver os problemas do desgaste de vinte anos de convivência numa mesma salinha. Fora ao encontro para ficar bem com o velho companheiro de tantas gargalhadas.
“Não tenho nada para explicar, Fred, me desculpe.”
“Como assim, Zózimo, tem que ter explicação, o que aconteceu?”
“Não sei, Fred, não sei.”
Fred tirou o guardanapo do colo, jogou em cima da mesa e foi embora, batendo a porta do restaurante. No dia seguinte fechou contrato com O Dia e levou Anna Maria Ramalho para ajudá-lo.
Dacio Malta, editor do JB, soube da saída de Zózimo em pleno Aeroporto do Galeão, indo de férias para Nova York, e de início ficou extremamente aborrecido. Zózimo nada comunicara a ele também. Em seguida, já no avião, teve uma ideia que lhe pareceu boa. Quando chegou a Nova York, almoçou com Elio Gaspari e este também a aprovou. Não havia nas redações um jornalista com a capacitação do ex-colunista, dono de um currículo de relações pessoais e profissionais que não se repetem na mesma geração nem na seguinte. Dacio percebeu que era preciso começar de novo. Reinventar o gênero com uma aposta que podia parecer ousada. Sacara um nome extravagante, mas que piscava a esperança de acerto e carregava, inconteste, glamour histórico na vida social do Rio, construído desde bem antes de Zózimo entrar em cena.
Danuza Leão já escrevia crônicas para o JB, num texto gostoso, leve, e se especializara em comentar os altos e baixos das relações amorosas, um assunto do qual ela — desde os anos 1950 em cartaz como das mulheres mais bonitas e sedutoras da cidade — tinha amplo conhecimento. Surpreendera a todos com a capacidade de colocar aquela vivência, com bom gosto e refinamento, no papel. Agora, quem sabe?, por que não tentar?, pensava Dacio Malta. Não seria hora de ela se reinventar e virar colunista social?
Danuza, mais um colunista com o Z no nome, estreou no domingo seguinte à saída de Zózimo. No primeiro dia em que chegou à redação, nervosa, às dez horas da manhã, o telefone tocou: “Danuza, querida, estou te ligando para desejar boa sorte agora no colunismo social. Você é craque e vai conseguir.” Não podia ser outro senão o próprio, Zózimo Barrozo do Amaral, colunista do Globo e acima de tudo um gentleman. O segundo a telefonar foi o empresário Joaquim Monteiro de Carvalho. Procurava Zózimo. Danuza disse que ele agora estava no Globo, avançou o sinal e mandou às favas tudo o que costumava recomendar — ela, que naquele momento estava na lista dos livros mais vendidos com um compêndio de etiquetas. Fez-se de sonsa: “Joaquim, que nota você ia passar pra ele?” E roubou-lhe a nota.