Enquanto Houver Champanhe, Há Esperança
Capítulo 21
Em fevereiro de 1978, o ator francês Alain Delon, quarenta e dois anos, dançava “Je t’aime... moi non plus”, de Serge Gainsbourg, na pista do Regine’s. Era o encontro, no Rio de Janeiro, de ícones da civilização francesa, a cultura que em meados daquela década já não fazia muito sucesso no esforço de seduzir o mundo. A boate ficava no subsolo do Hotel Le Méridien, no Leme, o mesmo bairro cantado por Carmen Miranda no início do século XX com o estribilho “Paris, je t’aime, mas gosto muito mais do Leme”. A companheira de pista de Delon, apresentada a ele por Zózimo Barrozo do Amaral, era a modelo carioca Fernanda Bruni, morena de vinte e três anos. A atriz Mireille Darc, mulher do ator, havia se recolhido a seus aposentos, no hotel. Fernanda não tinha culpa se a marchinha de Carmen Miranda começava a fazer sentido para o ator — ele também estava gostando muito mais do Leme.
O homem mais bonito do mundo, segundo todas as listas que se preocuparam com isso entre os anos 1960 e 80, apaixonara-se, digamos assim, por Fernanda durante aquela breve dança. As outras mulheres passaram a noite dando em cima dele, todas dispostas a ceder ao que Alain Delon optasse por querer delas. Seriam dadivosas, súditas, ele escolheria. Delon só tinha olhos para Fernanda. Quando o empresário Paulo Marinho comunicou que estava indo embora, o ator perguntou baixinho: “Posso convidar essa moça para um drinque na sua casa?” “Claro”, disse Marinho, e meia hora depois, quase uma da manhã, estavam todos lá. O empresário ensinou o uso do bar, deu boa-noite e foi dormir. Às duas horas, Delon bateu na porta do quarto do amigo. “Me ajuda, ela não quer transar comigo.”
Era uma cena que aliviaria por toda a eternidade as depressões de qualquer homem, não importa nome, sobrenome, conta no banco, padrão físico — todos com seu currículo de rejeições. Ali estava o mais bonito entre eles, rechaçado, pedindo socorro, um camundongo em pânico diante da possibilidade de ser como os outros e fracassar. Paulo foi amável. Precisava dormir, trabalharia duro no outro dia. “Você é o Alain Delon e quer que eu resolva o problema?! Se ela não quer dar pra você, quem sou eu pra fazer ela mudar de opinião?!”, respondeu, tentando se livrar. Delon estava choroso. Investira em Fernanda a noite inteira, dançara apenas com ela, achava que estava no papo, mais uma marca na coronha do revólver. Não podia sair invicto daquela jornada. Marinho foi falar com a moça. “Querida, você está aqui com o Alain Delon, todas as mulheres do planeta gostariam de viver este momento, pelo amor de Deus, vê o que você pode fazer porque eu preciso descansar”, implorou e saiu para seus aposentos.
Fernanda e Delon voltaram à mesa de negociações, o sofá de frente para a praia, até ela dar o ok, só que antes iria ao banheiro. Fingiu que foi, pegou um atalho, a porta de saída, e deixou o galã chupando o dedo. Fernanda disse depois que gostou de Delon, sussurrou-lhe até um “je t’aime” e contou que admirava Paris, só que, à la Carmen Miranda, estava apaixonada por um carioca e preferia o que estivesse perto do Leme.
Na virada para os anos 1980, a cidade recebia fora de casa o elenco de sua alta sociedade. Carmen e Tony Mayrink Veiga estavam na festa de Delon no Regine’s. As mesas de som do Josias Cordeiro Studio, clássico de status, ocupavam agora boates com padrão de luxo idêntico ao espalhado pelo mundo. Eram os tempos da discothèque. A felicidade se fazia em torno da música (“O Trem da Alegria promete-mete-mete-mete e garante/ o riso será mais barato dora-dora-dora em diante”, celebravam as Frenéticas). A alegria era colocada nessas festas públicas pelo DJ e embalada por caixas de som com poder de tremelicar tímpanos, paredes, desejos, o que estivesse pela frente. A revista New York Magazine, já em 21 de março de 1977, dizia que para os ricos brasileiros a aparelhagem de som era elemento de status tão precioso quanto a bebida importada.
Além do Regine’s, de propriedade da antipática Régine Choukroun (alguns achavam que ela era apenas uma belga querendo se passar por francesa), o francês Jean Castel, a simpatia em pessoa, inauguraria no Hotel Rio Palace o mesmo Chez Castel que “bombara” — termo inventado por Hildegard Angel para falar do sucesso dos novos eventos em sua coluna do Globo — as noites trêfegas de Paris. Era a francesada botando a cariocada para dançar, mas o fenômeno de mexer o corpo embaixo de luzes piscando ao embalo de um som altíssimo era, ça va sans dire, americanizado.
O mundo, que já tinha sido um cabaré elegante, com homens de smoking, transformara-se numa imensa discoteca com garotas de meias lurex e rapazes de cabelo gomalinado dançando ao som do que parecia um bate-estaca. O ator John Travolta, quinze anos depois de o gordinho Chubby Checker ter ensinado o twist a Zózimo, mostrava, nos Embalos de sábado à noite, os novos passos para a humanidade se esbaldar, se socializar, arrumar um pretexto para chegar perto de alguém e, usando o subterfúgio da música, dizer “vamos?”. A cena disco tinha certo ridículo, mas quem está preocupado com isso na hora de se divertir?
Em 25 de março de 1981, Zózimo noticiou a inauguração do Chez Castel de Copacabana fazendo um trocadilho com o nome do conhecido instituto psiquiátrico carioca:
• O convite para a inauguração oficial do Castel, domingo
próximo, está prevenindo que será “uma noite muito louca,
para uma abertura louca, num traje muito louco” e que
todos estão convidados “para comer, beber e dançar
loucamente”.
• Afinal, o convite é para o Chez Castel ou Chez Pinel?
A moda da discoteca foi consolidada pelo Studio 54, em Nova York. Tratava-se de uma casa girando ao redor de um globo de espelhos e luzes, com poucas cadeiras e mesas, mas muitos camarotes e uma relações-públicas sensacional, a peruana Carmen D’Alessio, louquinha, louquinha. Ela inventou o novo mix pós-café-soçaite. Convidava gente da sociedade, políticos avançados, intelectuais sem nojinhos, reis do pop, artistas exóticos, personalidades com evidência nas mídias mas que ninguém sabia exatamente que apito tocava, garotas de programa caríssimas, outras que se destacavam pelo desenho dos glúteos, homossexuais de bom gosto e jornalistas que no dia seguinte tivessem uma coluna para narrar o que se lembravam de ter visto. Jogava todos no liquidificador do 54, chacoalhava com música e fosse o que Deus quisesse que fosse. Era um circo repleto de paparazzi. Não era a grana, era a atitude.
Jorginho Guinle, que ainda recebia uma mesada de 45 mil dólares da família, comemorou ali o aniversário de sua então mulher, Tânia Caldas, e por todos os anos de sua vida ela conservou a conta das cinquenta garrafas de champanhe abertas em homenagem a ela. O stone Mick Jagger disse que fez sexo num dos cantos da boate. Todo mundo se pegava (a bissexualidade começava a ser admitida como uma chance a mais de se encontrar alguém legal). Nesses ambientes, todo mundo cheirava cocaína e achava estar inventando as regras do bacanal modernamente chique. O jornalista Ezequiel Neves, namorado e parceiro musical de Cazuza, dizia que, na confusão de uma festa, cheirou uma fileira nas costas de Liz Taylor sem ela perceber. “Ninguém se incomodava com a presença da cocaína”, diz Kiki Garavaglia, que passou pelo Studio em seus momentos de glória. “Nos banheiros, havia as bancadas de mármore preto e a oferta era constante.”
Na segunda metade dos anos 1970, a cultura discoteca chegou aos mares do Sul e seduziu para suas pistas Kiki e todos os que se mostravam aborrecidos com o ramerrame dos salões empetecados. O Hippopotamus, de Ricardo Amaral, inaugurado em Ipanema em 1977, foi o primeiro a trazer novidades do Studio 54 para o Brasil. Uma delas era a contratação de uma door girl, que escalava quem poderia entrar. Ser “feio” era muito impeditivo, embora não pudesse ser usado explicitamente como argumento. Tênis, proibidíssimo. Não adiantou o cineasta Neville D’Almeida alegar que o seu custara quatrocentos dólares. O campeão de Fórmula 1 Niki Lauda tirou o seu e entrou descalço.
Zózimo deu aos eventos disco o mesmo tratamento das festas na casa dos Monteiro de Carvalho. A sociedade desceu do Morro de Santa Teresa para o subsolo do Le Méridien, onde até JK, o presidente pé de valsa dos anos 1950, continuava na pista e agora balançava o esqueleto ao ritmo do hustle. Ninguém vestia black tie, e sim fantasias de acordo com o tema da noite. Em 24 de março de 1976, sob o título “A noite louca”, a coluna publicou:
• Da boite Regine’s se pode dizer que é um pedaço de Paris
encravado em plena Copacabana. Não se trata apenas da
decoração sofisticada, da música explosiva, da profusão de
garrafas de champã do bom, mas principalmente do clima,
da atmosfera, que é onde mais se nota o dedo inconfundível
de Régine.
• E aquelas poucas dezenas de metros quadrados
revestidas de vidro, acrílico e brocado nunca foram tão
parisienses quanto na noite de segunda-feira, quando
Régine abriu as portas para a festa à fantasia e traje a rigor
que tinha como tema Les années folles.
• À sofisticação e elegância do décor foi acrescentada a
beleza das mulheres presentes, algumas das quais exibiam
bonitos figurinos característicos dos anos 20, como Celinha
Azambuja, de brocado dourado, e Iara Andrade, de bordado
de mousseline e cabelo cortado em ondas.
• A noite começou com um jantar — dois pratos, um dos
quais frio —, continuou movida a garrafas magnum de Moët
& Chandon e terminou de manhã com a pista repleta de
melindrosas, rapazes de bigodinho e cabelo emplastrado e
até um aviador de capacete de couro e óculos, estilo
Primeira Guerra, que era como se vestia Carlos Eduardo
Sabóia Gomes.
• O sr. Juscelino Kubitschek quase não saiu da pista,
dançando desenvoltamente todos os ritmos, do tango ao
hustle, este tendo a acompanhá-lo a sra. Beki Klabin.
• Numa mesa pequena, limitada a leste pela mesa de
Evinha Monteiro de Carvalho e Gilda Sarmanho e a oeste
pela mesa de Maria Alice (deslumbrante, de branco) e
Joseph Halfin, estavam Suzy e Fred Chandon, ele, uma
figura perfeita de gentleman.
• Presentes, ainda, um mundo de gente, entre os quais
Marialice e José Hugo Celidônio, Lia e Gui Neves da Rocha,
Cristiana e Marcio Seggia, Lilibeth e Fernando Collor de
Mello, Tânia Caldas e Jorginho Guinle, Patrícia e Santos
Bahdur, Tisse e Romualdo Pereira, Vera e Jacques-Louis
Mercier, Adalgisa e Quincas Campos da Silva, Tônia Carrero
e Cesar Thedim, Marise de Ouro Preto, Scarlet Moon, Vera
Ferreira de Abreu, o cirurgião plástico Altamiro Rocha de
Oliveira, o figurinista Joãozinho Miranda, autor de vários
modelos exibidos na noite, Paulo Coelho Marinho, Carlos
Lustosa, Mauricio Leite Barbosa, Ibrahim Sued, Zeca Castro
Neves, entre muitos, muitíssimos outros mais.
A modelo negra Lauretta, natural da Martinica, uma espetacular escultura exótica com quase dois metros de altura, era a directrice que administrava a burguesia branca no Regine’s. A alta sociedade, que se aborrecia com a repetição dos tipos em suas festas, adorava aquela confusão de valores estéticos num ambiente de diversão e negócios. Em agosto de 1977, Zózimo daria espaço para a noite de lançamento do champanhe Moët & Chandon nacional, representado no país por Olavo Monteiro de Carvalho. O grand monde naquele evento começou o jantar com uma terrine e terminou com um blanc de volaille. Na saída, todos receberam garrafas “para continuar a degustação em suas casas”. Os ricos, que distribuíam champãs franceses em suas festas, agora aceitavam sair da boate carregando garrafas-brinde de champanhe nacional. O glamour tinha se transformado em ações de marketing.
O politicamente correto ainda não dava as cartas e valia tudo, principalmente o que servisse para pôr a dona da festa no alto. Numa noite de Carnaval, Régine entrou numa cadeira carregada por anões, enquanto negras esculturais ventilavam o cortejo com abanadores gigantescos. Alain Delon voltou outras vezes e numa delas foi rejeitado pela cantora Rosemary, que, segundo Zózimo, antes teria tido uma paquera com o presidente americano Jimmy Carter. Para dispensar Delon, Rosemary — intérprete da balada “Se eu for embora é para o nosso bem” — alegou que o homem mais bonito do mundo estava acompanhado da mulher, “e eu respeito essas coisas”.
Tudo parecia lindo, risonho (menos para Alain Delon, coitado) e louquinho. O high society do Rio vivia o auge de pelo menos duas loucuras: a química, com a cocaína espalhada pelos banheiros (ainda sem a figura do traficante com um arsenal de fuzis enfrentando a polícia); e a existencial (de quem começava a sair de uma ditadura e experimentava a liberdade aos poucos, ousando primeiro no comportamento). E com uma música perfeita para acompanhar essa felicidade de estar vivo num ambiente de luzes pulsando. “Dona culpa ficou solteira”, de Jorge Ben, era uma das mais executadas.
Numa noite de fevereiro de 1976, a atriz Raquel Welch fez dois shows — um às nove e meia, outro à meia-noite, na boate Vivará, no Leblon, e Zózimo noticiou que “depois houve a esticada, no Regine’s, ponto de encontro no final da noite do beautiful people carioca”. Foi nessa noite que La Welch começou um namoro com o gaúcho Paulo Pilla, assessor de imprensa da gravadora Philips. Na relação de nomes presentes estavam Carmen e Tony Mayrink Veiga, mais Tereza de Souza Campos, Lourdes Catão, Ivo Pitanguy e outros que, poucos anos atrás, só eram visíveis a seus pares, nos exclusivos salões do high. Agora eles estavam a um tíquete de distância.
Eis, porém, que, na madrugada de 24 de julho de 1977, a jovem Claudia Lessin Rodrigues apareceu morta, o corpo massacrado de pancadas e violências sexuais, amarrada dentro de um saco na avenida Niemeyer. Os envolvidos no crime eram frequentadores do Regine’s. Michel Frank, suíço da família proprietária dos relógios Mondaine, e George Khour, cabeleireiro brasileiro com salão no segundo andar do prédio do Le Méridien, fizeram uma orgia de sexo e cocaína com Claudia e a menina acabou assassinada. Quem começou a morrer no mesmo momento foi o Regine’s. Para piorar, logo em seguida Hosmany Ramos, o cirurgião plástico que namorara Beki Klabin e Verinha Bocayuva, além de outras socialites, seria preso (entre outros roubos, tinha afanado um Rolex de Pelé numa festa no Chopin), e a polícia encontrou entre as drogas que ele vendia a carteirinha da discoteca. O estrago contra a marca crescia.
O cenário de espelhos e detalhes em salmão da casa não tinha culpa alguma, mas o noticiário sempre citava a boate como ponto de encontro da dupla trágica que matara Claudia Lessin. Antonio Kämpffe, um dos fotógrafos mais badalados da noite, precisou esperar à porta do banheiro, fechado por um segurança, até que o famoso jogador argentino e seus amigos saíssem, deixando rastros do crime na pia. A droga não era privilégio dali, no entanto, pela segunda vez, com diferença de poucos meses para o assassinato de Ângela Diniz, seu uso envolvia num escândalo a alta sociedade. Era grave. Da coluna social, a boate foi para a policial. A cocaína perdia a inocência de apenas dar um up (na era disco, chamava-se “dar um realce”).
Zózimo ficou de fora no ataque. Não fez a defesa explícita, porém acompanhou, solidário, os esforços de Régine para sobreviver. Numa das notas, sem se nomear, disse que um amigo havia telefonado para Régine, em Paris, para narrar o que andavam dizendo da sua casa nos jornais. “Fiquei bem na foto?”, ela perguntou. Diante da resposta positiva respondeu: “É o que importa.” Não era. A boate estava vazia. Foi aí que Régine, a rainha da noite, segundo uma reportagem do New York Times, mostrou por que carregava a coroa. No lugar de Lauretta, vítima do noticiário do caso Claudia Lessin, contratou Danuza Leão.
Uma directrice precisava ser, por si só, um evento. Carmen D’Alessio, do Studio 54, apareceu uma vez na coluna de Zózimo pendurada num garoto de dezenove anos. Respondia a um amigo que lhe perguntara quem era o novo namorado: “Este é o meu amor-dinastia. Já transei com o avô, com o pai e agora chegou a vez dele.” O nome da nota era “Apetite”. Danuza tinha. Não exatamente o mencionado por D’Alessio, mas apetite para a vida e as transformações a que ela obriga as pessoas.
Ela era personagem da vida carioca havia décadas, e em 1953 já tinha ocupado função parecida no Voguinho, um living-bar que funcionava no prédio do Vogue. Nascida no Espírito Santo, viera para o Rio aos dez anos, em 1943, e deslumbrou a cidade com sua beleza fora do padrão das misses e das dondocas. Era cool, tinha um nariz angulosamente original e antecipava em seu jeito de andar a bossa nova e todas as novidades que a década seguinte deflagraria. Gostava de jornalistas. Primeiro casou-se com Samuel Wainer, dono da Última Hora, depois passou-se para o funcionário dele, o cronista Antônio Maria, e mais adiante, depois de ter namorado Tarso de Castro (com quem chegou às manchetes de um jornal baiano tomando banho, nus, na praia de Arembepe), ela contrairia núpcias com Renato Machado. No fim de 1978, quando foi convidada por Régine, Danuza estava solteira, sem culpa, e topou passar as noites no subsolo do Leme tentando, com seu charme e uma espetacular rede de relações, recuperar a clientela que a polícia afugentara.
Era uma mulher divertida, eclética, tanto tinha sido modelo de Jacques Fath como jurada do programa de calouros de Flávio Cavalcanti. Nem aí para o que cochichassem à sua passagem. Zózimo publicou uma justificativa de Danuza para o hábito de andar frequentando treinos do Flamengo: “Para uma mulher, um treino do Flamengo é a mesma coisa que o show do Crazy Horse para um homem.” No estilo Carmen D’Alessio das noites temáticas na discoteca nova-iorquina, dedicou uma aos atores de Dancin’ Days, novela que se inspirava nas discotecas e estourou nas televisões em 1978. Danuza conseguiu misturar a atriz Sônia Braga com jogadores como Doval, Paulo Cesar Caju e Nunes, craques da bola que gostavam de um agito. Zózimo noticiava. Suas notinhas ajudaram outra sacada de Danuza. Ela descobria a data de aniversário de um famoso — e às vezes podia ser um de coluna social, como Josefina Jordan, ou do babado, como a travesti Rogéria. Oferecia mesa BLT (Boca-Livre Total) para o homenageado e mais três amigos, desde que tudo pudesse ser noticiado antes na coluna e servisse de chamariz para a plebe rude ir até lá pagar ingresso e ver de perto o novo show da vida, um famoso no que antes era um dos seus momentos mais íntimos e agora passava a ser praça pública — a diversão by night.
Foi tudo mais ou menos muito bem até que Danuza, como era de esperar, brigou com a mal-humorada Régine no Leme e na noite seguinte já estava trabalhando no Hippo de Ipanema. “Danuza Leão, sediada no Hippopotamus do Rio, será a directrice de todas as casas de Ricardo Amaral no Brasil. Uma espécie de Mme. Hervé Alphand da noite”, anunciou Zózimo. Hervé Alphand, o superdiplomata francês, nem era tão conhecido assim a ponto de merecer uma citação sem um aposto explicativo — mas that’s Zózimo. Um colunista precisava de vez em quando mostrar-se de outra cepa e deixar naqueles que desconheciam Alphand e sua mulher a impressão — ah, como são interessantes esses ricos! — de que estavam perdendo alguma coisa muito empolgante.
Pois a Mme. Alphand, mas pode me chamar de Danuza Leão, deu um up de alegria no Hippopotamus, mas pode me chamar de Hippo. Zózimo brincava com os nomes dos novos donos do espetáculo: “Ricardo Orfei apresenta Danuza Leão.” Ricardo Amaral era o dono do circo e ela, uma domadora da selva noturna, alguém que sabia todos os seus segredos. E, quando perguntada, em 14 de janeiro de 1981, não se negou a revelá-los. Em “Dez pistas para conseguir um belo realce”, Danuza ensinava na Veja, “a quem não sabe, ou a quem pensa que sabe”, como se tornar companhia agradável na noite.
1. Saia com pouca produção. A onda é o realce discreto,
pouca purpurina.
2. Jamais diga que está sem beber ou que precisa acordar
cedo. Isso corta o barato alheio. Senão, por que você saiu de
casa? Ajoelhou, reze — não derrube os outros.
3. Casal na paixão, tipo olho no olho, deve ficar em casa. A
noite foi feita para o badalo.
4. Cuidado com os cheiros. Não há nada mais furado do
que ir ao banheiro passar perfume atrás da orelha. Apesar
disso, na hora do lobo, um chiclete ajuda a cortar o bafo de
álcool.
5. Procure deixar seus problemas em casa. Não se deve
falar de pequenas doenças e brigas. Mas se o assunto for
câncer ou dor de cotovelo, vá em frente: dá Ibope. Procure
passar um astral bom. Se não for bonito, como Pedrinho
Aguinaga, seja como Pelé e Leiloca, a Frenética. Ela é uma
alegria da noite. Está sempre a fim de contar uma história
engraçada.
6. Procure esquecer o que aconteceu na noite passada. O
que passou, passou, e ninguém gosta de ver lembrado o
porre de ontem. Se alguém quiser puxar assunto, diga “bebi
tanto que não vi”.
7. Faça negócio com bêbado, mas só quando você estiver
bêbado. O que se fala na noite não vale de dia, isso Carlitos
já ensinou em Luzes da cidade. Depois da meia-noite todo
mundo fica mais generoso. O grande boêmio paulista
Luizinho Macarrão já dizia: “O melhor negócio do mundo
seria o cartório noturno, para registrar fantasias como
realidade.”
8. As grandes noites são as do dia seguinte às grandes
festas. O amador vai à festa e o profissional sai no dia
seguinte, para comentá-la e pegar o repique.
9. Sempre que a conversa cair, faça uma pergunta. Quando
não tiver nada para dizer, use esta: “E sua vida, como vai?”
10. Seja duro, mas não muito. Quem pode e gosta da noite
tem que pagar pelos que gostam e não podem. Avarento dá
má sorte. Bom é juntar amigo para tomar champanhe. De
preferência Krugg ou René Lalou, aquelas que os pobres
usam para fazer abajur.
O Hippo era mais bem montado que o Regine’s. A decoração de Gilles Jacquard juntava modernidades e toques naturais inéditos na cena carioca. No térreo, bar e pista de dança, um espaço de quarenta metros quadrados, com um jardim tropical separado por uma divisória de blindex na qual escorria água sem cessar. Zózimo dizia ser um truque decorativo agregado ao comércio da diversão noturna: “Transmite subliminarmente a impressão de que está chovendo. E aí o cliente considera perdida a praia do dia seguinte e manda o garçom trazer mais uma garrafa.”
No segundo andar, um ótimo restaurante comandado por Claude Lapeyre, um dos primeiros chefs no Rio a ir até o salão e, com todos os paramentos de vestuário que caracterizam o posto, conversar com a clientela sobre o menu. Geralmente era aplaudido por apresentar na cidade, ainda sob o reinado do arroz à piamontese e da carne assada ao molho madeira, uma gastronomia avançada.
O jornalista Roberto Marinho abria a casa, jantava e se retirava, passando discretamente pela pista de dança. Com a entrada de Danuza em cena o clima ficou de altíssimo astral. Tomavam-se por noite quarenta garrafas de uísque. Aparecia por lá o Paul McCartney (“só não é mais chato que o Chico Buarque de Hollanda”, dizia Ricardo Amaral), o bicheiro Castor de Andrade ficava num canto, a travesti Bruna Jordan no outro, mulheres incríveis, homens riquíssimos — e la nave va. Ricardo tentava controlar as drogas, para não repetir Régine. Um decorador aconselhava: “O exaustor do banheiro tem de ser forte o suficiente para tirar o cheiro da maconha, mas não forte demais para levantar o pó.”
Danuza Leão conta que uma senhora da sociedade, agitadíssima, estava mais do que nunca assim e ia a todo momento ao banheiro, o que numa boate poderia sinalizar consumo de droga. A directrice pediu que um segurança ficasse à espreita à porta do toalete, contudo não foi suficiente — a agitada senhora não só continuou indo ao banheiro, como encontrou uma motivação extra. Foi surpreendida aos beijos com o segurança bonitão. Chamado para resolver o caso, Ricardo Amaral mandou: “Troca de segurança, bota um bem feio.” E o assunto foi resolvido.
A boate ficava a poucos metros da casa de Zózimo, e isso era mais um motivo para ele ser assíduo. Foram centenas de notas. Havia sempre artistas internacionais (Lee Majors, do seriado O homem de seis milhões de dólares, virara figurinha tão fácil que já era chamado de “o homem de um milhão de dólares”); intelectuais (Rubem Braga, que, segundo Zózimo, instado a dar duzentos e cinquenta cruzeiros para um jantar de adesão, recuou: “Sou amigo do Cesar Thedim até cinquenta cruzeiros”); socialites (Carmen Mayrink Veiga e a condessa Sílvia Amélia à mesma mesa, brincando o Carnaval, bracinhos levantados, no Baile Noite Dourada); e até políticos (o iracundo general Ernesto Geisel, já despido da faixa presidencial, jantando com a patroa).
As mulheres eram tratadas como estrelas do porte das televisivas. Kiki Garavaglia, filha de embaixador, moradora de várias cidades do mundo, carteira de sócia número 001 do Hippo, era uma das musas dessa geração. Bonita (teve caso com Paul McCartney e Warren Beatty) e animada, foi das primeiras mulheres casadas a dançar sozinha numa pista noturna do Rio, embora seu marido, o engenheiro químico Renato Garavaglia, também fosse grande parceiro nessas festas. Foi em homenagem a Kiki, sempre puxando novas tendências, que Ibrahim cunhou a expressão “locomotiva”. Ela também passava notas para Zózimo. Um dia, Patrícia Vésper, secretária do empresário Eike Batista, telefonou para Kiki. Que ela falasse com Zózimo para não publicar o fim do casamento do empresário e Patrícia Leal, da família Conde Modesto Leal. Embora casados no religioso na semana anterior, não haveria o casamento no civil — Eike apaixonara-se pela modelo Luma de Oliveira, musa de seios à mostra de bateria de escola de samba. “Obrigado”, respondeu Zózimo ao telefone, “vou dar amanhã.”
“Mas, Zózimo, telefonei pra você não dar a notícia”, argumentou Kiki. “Se eu não der alguém vai dar, e antes que o Ibrahim o faça, faço eu. Adoro você, Kiki, somos amigos, mas antes de tudo sou jornalista.”
Em outro canto do Hippo, o estilista Frankie, da dupla Frankie e Amaury, exercia sua língua ferina. Zózimo dera uma nota contando que o rapaz caçoava da elegância de um grupo de socialites paulistas e brindara Eleonora Mendes Caldeira com o rótulo de “perua”. Eleonora queixara-se ao marido, o fortão Cito Mendes Caldeira, e este tomou as devidas providências. Foi ao canto da boate onde estava Frankie: “Garoto, levante-se daí agora e vá lá correndo pedir desculpas à minha mulher.” “Dito e feito”, concluiu a nota de Zózimo.
Michael Koellreutter, da revista Interview, era o mais serelepe repórter da nova geração. Dedicava-se aos bastidores da sociedade, e em 1986 publicou a história de dona Beatriz Monteiro de Carvalho e seus dois maridos, Alberto Monteiro de Carvalho e Olavo Egydio de Souza Aranha, um dos babados da sociedade. Falava também do showbizz e tinha incrível capacidade de fazer com que os artistas revelassem intimidades. O ator Rômulo Arantes lhe deu uma surra porque Michael publicou uma relação do nome das moças com quem ele dizia já ter compartilhado a cama. No Hippo, Michael precisava mudar de rumo entre as mesas para não encontrar um desafeto. Quando deixava a guerra, fazia amor — também na boate. “Seu Amaral”, alertava um funcionário, “o Michael está de novo trepando no toalete.” O jornalista namorava uma moça recém-separada que evitava dormir fora de casa até o divórcio. Precisava manter as aparências legais. O jeito era se trancarem na cabine do banheiro, geralmente às quintas-feiras, quando Michael chegava de São Paulo, depois de fechar a Interview.
Os banheiros do Hippo não paravam. O segurança avisou o produtor de moda Julio Rego que havia dois agentes da Polícia Federal na casa buscando flagrantes de drogas. Julinho avisou Odile Marinho do perigo. Indócil, ela pediu que ele passasse a droga por baixo da mesa e foi ao banheiro. O tempo passou, ela não voltou. Julinho foi ver o que estava acontecendo e encontrou Odile aos beijos com o segurança, álibi que encontrou — ele também — para ficar no banheiro cheirando. Julinho aproveitou para entrar e cheirar junto com eles.
Claude Amaral Peixoto, francesa, ex-namorada do ator Omar Sharif e do cantor francês Charles Aznavour, colaborava com a coluna e suas notas eram publicadas porque, além de conhecer todo o Rio, era relações-públicas da Alitalia, que distribuía viagens aos parceiros da imprensa. Só uma vez se indispôs com Zózimo. Ele adorava noticiar as andanças de Madame Claude, a célebre cafetina francesa dos anos 1970. Quando a tal senhora foi presa, inventou, em 18 de abril de 1989, a similar tupiniquim. “Quem será a Madame Claude carioca? Tchan-tchan-tchan-tchan.”
Não era ninguém, apenas uma brincadeira de Zózimo-Fred Suter. Como não havia na vida real Madame Claude mais conhecida no Rio do que “madame” Claude Amaral Peixoto, mulher finíssima, os mal-entendidos começaram. A mesma língua francesa falada pelas duas deixava os espertalhões certos de que não havia do que duvidar — a cafetina carioca era, quem diria, hein?, a delicada Claude Amaral Peixoto.
Depois da quarta nota especulativa sobre a tal senhora e sua fornada de moças dispostas a tudo — “A Madame Claude carioca está com a corda toda, seu telefone não para de tocar” —, a Amaral Peixoto, moradora de uma cobertura tríplex na avenida Atlântica, pediu que o colunista parasse. Os homens insistiam em conhecer suas supostas protegidas. Zózimo foi legal. Em 8 de junho de 1989 publicou que, depois de um derrame cerebral, inspirava cuidados a saúde da Madame Claude carioca. No dia seguinte, enterrou-a na nota “Luto”:
• Esta coluna cumpre o doloroso dever de comunicar o
falecimento, depois de lenta agonia, da Madame Claude
carioca.
• Para evitar a curiosidade alheia e preservar a identidade
dos inúmeros clientes da pranteada senhora, o féretro sairá
na calada da noite pé ante pé.
• O infausto acontecimento deixa na mais desamparada
orfandade um grupo de meninas da melhor qualidade.
Estava salva a reputação de Claude Amaral e ela podia voltar, sem perguntas de “quanto?, tem loura?”, à pista de dança do Hippo, levantando os braços, alegre, ao som dos grandes sucessos da era disco: “What a feeling” (Irene Cara), “Isn’t she lovely” (Stevie Wonder), “I feel for you” (Chaka Khan), “Stayin’ alive” e “Saturday night fever” (Bee Gees), “Last dance” (Donna Summer), “Le freak” (Chic), “I will survive” (Gloria Gaynor), “Got to be real” (Cheryl Lynn), “You make me feel (mighty real)” (Sylvester), “It’s raining men” (The Weather Girls), “YMCA” (Village People), “Lança-perfume” (Rita Lee) e “Perigosa” (Frenéticas), esta última — aquela do “Eu sei que eu sou bonita e gostosa” — chegaria mais adiante a pontuar nota de Zózimo.
A cocaína estava presente, inevitável, por mais que Ricardo Amaral vigiasse (já doente, Cazuza sugeria sentado à mesa da boate, entre divertido e sério, trocar um vidro de AZT, a droga para tratamento da aids, por uma carreira de pó). Como boa parte daquela geração noturna, Zózimo foi um experimentador curioso da droga maldita, mas de seu uso na sociedade jamais se falou na coluna. Já o álcool, o vício que cada vez mais o perseguia, era citado livremente, sem culpa ou pecado. Tentava se segurar, aquilo estava destruindo sua relação com Marcia. Sem sucesso. Como se livrar do vício indo a duas festas por noite? Como manter altiva a vida de um operário das notícias se bebeu todas, do melhor e de graça, na noite anterior? Como se livrar se saía do jornal, com o mesmo terno, diretamente para as tais festas, misturando uniforme de trabalho com o de lazer? Como explicar que era de mau gosto, nem um pouco carinhosa, a insistência dos “amigos” em oferecer mais um drinque?
Tomava-se muito champanhe (Mario Priolli, dono da casa de espetáculos Canecão, em Botafogo, levava os artistas dos shows para acabarem a noite no Hippopotamus e, generoso no oferecimento de Dom Pérignon, foi apelidado de “Dom Mario”). Uísque (era a época do Cutty Sark ou JB) e algum vinho (ainda fora de moda no final dos anos 1970, com as marcas puxadas principalmente pelo alemão da garrafa azul, o Liebfraumilch, o preferido de Roberto Carlos, e o português Mateus Rosé).
As noites do Hippo ainda eram uma criança quando, em 24 de dezembro de 1977, Zózimo deu uma longa nota sobre a chamada “Carta de Jellinek”, publicada em 1960 e ainda o mais importante tratado médico sobre o abuso do álcool. Todos os exemplos publicados entre as informações científicas eram retirados da própria vida do colunista. Por enquanto, eram engraçados:
• Através do estudo é possível diagnosticar as três fases da
doença — prodrômica, crucial e crônica — em todos os
habitués, por exemplo, do Antonio’s e mesas congêneres.
Jellinek enquadra com a enunciação dos sintomas a noite do
Rio de A a Z, como dizem os colunistas sociais.
• Cometer desatinos é outro indício de alcoolismo.
Segundo Jellinek, os que ultrapassam o limite razoável dos
cinco uísques se expõem a se lançar na pista do
Hippopotamus ao som da “Perigosa”, das Frenéticas.
• Item significativo é a “reprovação familiar”, entendendo-
se como tal a bronca conjugal que se segue alta madrugada à
entrada trôpega do paciente casa adentro. Já houve um que,
nessa circunstância, e ao lhe ser indagado pela mulher com
ar feroz quanto tinha bebido, respondeu fazendo uma força
sobre-humana para não cambalear: “Nadra!”
• Isso posto, considerando que hoje é noite de Natal, à
saúde de todos!
Não há qualquer tom de crítica. A nota pode servir de inspiração para esquetes cômicos sem gravidade médica. A preocupação deveria começar, segundo o “Parâmetro de Normalidade Zózimo”, quando se tivesse passado das cinco (!) doses de uísque. Até ali, tudo bem, era “razoável” e “nadra” a criticar. O importante era viver a festa dos clubes privês, um manifesto noturno contra a caretice, e celebrar o fim de vinte e um anos de ditadura. Uma vez, talvez já passado da quinta dose, o colunista viu na pista da Hippo a atriz e cantora argentina Libertad Lamarque e saudou a sua presença na coluna de 16 de fevereiro de 1979. Dois dias depois, ele corrigiu — com a expertise que lhe era inerente e a filosofia cariocamente malandra de vida:
• Quem está no Rio para o Carnaval não é Libertad
Lamarque, mas Libertad Leblanc, atriz e argentina como a
outra.
• Leblanc ou Lamarque, o mais importante é ter no Brasil
Libertad.