Enquanto Houver Champanhe, Há Esperança

Joaquim Ferreira dos Santos · Capítulo 12 de 50

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Enquanto Houver Champanhe, Há Esperança

Capítulo 12

 

Zózimo Barroso do Amaral estava enchendo de pancada certa mulher de nome Carmela, numa cabeça de porco da rua Gomes Freire, no Centro do Rio, no início dos anos 1950, quando invadiu o apartamento, em defesa da citada senhora, um homem de nome José Teixeira de Brito. Zózimo não vacilou. Matou o valentão a vassouradas. Esse Zózimo Barroso do Amaral, que tinha também um Gastão como segundo nome e um “s” no sobrenome “Barroso”, não era o colunista, mas assombrou-o por muitos anos. Por causa da homonímia, Zózimo, o jornalista, várias vezes precisou tirar certidão em cartório para provar que não era o assassino. Naquela época, se tanto, gostaria de estar acertando as contas com os padres do Santo Inácio.

Essa trapalhada de nomes teve um momento hilário quando o crime passional do homônimo foi parar, no final da década seguinte, na pasta que o temível Departamento de Ordem Política e Social (Dops) da Secretaria de Segurança Pública do Rio de Janeiro mantinha com informações sobre o jornalista. Em nome de Zózimo Barrozo do Amaral até aquele momento constavam ali — demonstrando a lamentável qualidade dos serviços da turma de arapongas — os recortes de jornal com a notícia publicada nas páginas policiais e o processo contra o indigitado Zózimo Gastão Barroso do Amaral, o assassino reles. Apenas uma anotação tinha de fato a ver com o colunista:

 

DOPS/DIVISÃO DE INFORMAÇÕES, 24/7/69

SD/SAF no 6494

Referência CIE/69. Protocolo DI/2514/69

Zózimo Barrozo do Amaral. Sem qualificação, segundo

dados reservados de 28/8/68, um dos colaboradores da

nova revista Mundo Jovem, dirigida por Pedro Paulo Lomba

e que circulará dentro de breves dias. A revista em apreço

abordará problemas políticos, sociais, humanos e culturais,

dirigidos aos jovens.

 

A revista Mundo Jovem, dirigida pelo casal Pedro Paulo Lomba e Suzana Lomba, ex-Suzana Velloso, ex de Zózimo, circulou por três edições no final de 1968. Pautava-se pela revolução que a juventude estourava em todas as ruas do mundo, com matérias sobre Herbert Marcuse, sexo livre, contracultura, maconha, o filme The endless summer (Alegria de verão), a Banda de Ipanema, além de histórias em quadrinhos apimentadas, artigos do jornalista Nelson Motta etc. Zózimo assinava como diretor responsável, mas, na prática, se responsabilizava pouco pelo produto final. Atarefado como Swann, quase não ia à redação da revista, numa casa da rua Mena Barreto com Sorocaba, em Botafogo, modernosamente pintada de vermelho. “Vamos nos unir na posse do território ainda virgem ou aliviá-lo dos escombros; vamos feri-lo, mesmo a contragosto, para as fundações, o estabelecimento da obra”, dizia o arquiteto Marcos de Vasconcellos no editorial do número um, como se arquitetasse biblicamente a construção de uma nova civilização. “Se eles algum dia vierem a destruí-la, que dos seus escombros se faça uma nova construção que sobreviva às guerras, ao ódio, à mentira e ao medo. Assim deverá ser feito.”

A capa era uma banana pornograficamente em pé, semidescascada, com uma chamada para a matéria “Saudação à crítica especializada”. Revelava uma arruaça jovem bem realizada graficamente, assim como toda a revista. No auge dos seus vinte e sete anos, Zózimo, que pela primeira vez tinha seu nome impresso num produto jornalístico, colocou a revista na mesa de Roberto Marinho, que o advertiu sobre o mau gosto da brincadeira.

Não foi a única experiência de Zózimo como editor naquele período. Ele assinava também o folheto A Atiradeira, que reunia as fofocas da Academia Athayde de Jiu-Jítsu, em Ipanema. O logotipo era um estilingue. Zózimo passou dois anos lutando ali sem jamais ter trocado de faixa, interessado principalmente em defesa pessoal. Na academia parecia querer disciplinar o impulso, pelo menos torná-lo menos suicida na busca de brigas. Levava jeito, segundo o advogado e instrutor João Carlos Austregésilo de Athayde, dono da academia, mas lhe faltava tempo. Uma vez por mês, Zózimo recolhia as fofocas que o professor lhe passava — podia ser sobre um sujeito com um quimono malcheiroso ou a disputa Zózimo-Athayde pelos encantos da calipigiamente fabulosa, candidata a modelo, Rita Burra. Depois, redigia imitando coluna social de jornal sério, ou seja, a sua.

Havia quase três anos fazendo-se passar por Carlos Swann, desde que em novembro de 1965 assumira a Reportagem Social porque Americano fora trabalhar como secretário de Negrão de Lima, cansara. Queria aparecer com a própria identidade, como os jovens das artes, das políticas, dos movimentos estudantis, a turma que no momento balançava o mundo. Começou a externar insatisfação com Ricardo Marinho, que passou a lhe dar chamadas na primeira página. A nota de 1o de junho de 1968 anunciando que o jovem Luiz Jasmin tinha pintado o retrato da primeira-dama Yolanda Costa e Silva ganhou foto do pintor e de sua obra na capa do jornal. Logo adiante também foi parar ali a nota de que os sinos da igreja de São José, silenciados havia tempos por causa das reclamações, voltariam à ativa. Era uma maneira, acompanhada de um plus no salário, de afagar — mas significava pouco para o ego de um jovem que, todos avaliavam assim, realizava bem o seu trabalho. O Jornal do Brasil, com uma vendagem menor, conseguia transformar seus colaboradores em estrelas do jornalismo. Quase todas as suas matérias saíam assinadas, havia forte exposição dos nomes da equipe. Léa Maria, a colunista social que saíra do Globo depois de um conflito com Nina Chavs, era mais conhecida na cidade do que Zózimo.

Alberto Dines, diretor de redação do JB desde 1962, tinha percebido aquele fator de charme: a valorização do profissional. O nome do jornalista piscando para o leitor. O primeiro tinha sido Carlos Castello Branco, o repórter político maranhense. Ao contratá-lo, Dines lembrou-se da Max Lerner Column, distribuída em dezenas de jornais nos Estados Unidos. Por que não uma Coluna do Castello? E assim foi batizado um dos espaços nobres da história do jornalismo brasileiro. Depois viriam, no JB, ainda pelas mãos de Dines, as colunas de Gilda Chataignier, Léa Maria e outros. Os repórteres pegaram as rebarbas dessa ideia generosa e passaram também a assinar as reportagens. Os profissionais do Globo permaneciam anônimos, desconhecidos por seus vizinhos de bairro.

Desde 1966 Ibrahim Sued tinha uma coluna dentro do programa Jornal de Vanguarda, na TV Globo, tornando-se uma personalidade ainda mais conhecida, mesmo que nesse veículo seus erros ficassem mais evidentes. O “Turco” reforçava o tipo, gaguejava, fingia não conseguir pronunciar palavras mais complicadas. Tinha aprendido que aquela era a sua assinatura — e sublinhava o que pudesse configurar uma marca de personalidade. Com isso colocava outros passos à frente de Zózimo. Começava um tempo em que o jornalista tornava-se celebridade — isso não lhe aumentava em nada a qualidade, mas aumentava o salário.

Walter Fontoura, chefe da sucursal do Jornal do Brasil em São Paulo, foi encarregado por Dines de procurar Zózimo e convidá-lo a editar o Informe JB, a coluna de notas políticas da casa, vaga com a saída de Pedro Gomes. Sem sucesso. A coluna também padecia do anonimato. Zózimo gostava do Globo, da família Marinho. Queria escrever seu nome com todos os zês no jornal. A coluna que fazia era um sucesso, cercada de anúncios com uma marca de ironia cada vez mais evidente. Por que não assinar essas gracinhas bem sacadas, fruto de um trabalho exaustivo e transpirando humor crítico original? Em 17 de julho de 1968 ele escrevia:

 

• A população de Pirassununga deu um grande suspiro de

alívio quando soube que o governo tinha decretado o

confinamento do sr. Jânio Quadros em Corumbá, interior

de Mato Grosso. Pirassununga vive da exportação de

cachaça e a ida de JQ ameaçaria reduzir consideravelmente

as reservas dos alambiques locais e consequentemente a

arrecadação do progressista município.

 

Catorze dias depois, alfinetava:

 

• Há tempos que o bizarro costume de cheirar rapé, que

intumesce os narizes e leva ao Nirvana seus cultores,

desaparecera de nossos salões. Mas agora reaparece

gloriosamente, guardado, comme il faut, em artística

caixinha de prata, nos bolsos do novo embaixador da

Dinamarca, que anteontem apresentou suas credenciais ao

presidente Costa e Silva. O atchim vai ser geral.

 

As palavras ainda eram enormes, o texto poderia ficar pela metade, mas o tom era novo, a escolha do assunto, deliciosa. Por que não assinar essas boutades redigidas no tom certo da refinada avacalhação carioca? Zózimo já tinha a percepção de que o segredo era aperfeiçoar o mix que Jacinto de Thormes e Ibrahim haviam começado. Dar arte final. Não só a gracinha, mas a notícia importante do mundo político ou da cidade, todas convivendo sem preconceito. Era preciso também equilíbrio no trato da sociedade. Dar seus eventos — e a coluna era um festival de Terezas e Carmens — sem se esquecer de, uma vez ou outra, tirar um sarro de suas pretensões. Como nesta nota, também de julho de 1968, em que narra o cancelamento de uma festa com nobres europeus no Rio:

 

• As muitas senhoras que já estavam imaginando toillets

reais, encomendando tiaras e ensaiando reverências,

precisam ter um pouco de paciência. Ainda não será dessa

vez que elas terão a oportunidade de se exibirem nos salões

com a graça, a pompa e a circunstância de suas ilustres

bisavós, as condessas, as marquesas e as baronesas dos

tempos do senhor Dom Pedro II.

 

Quando citados em grupo, ou anonimamente, os ricos tinham abordagem assim, não seriosa. Individualmente eram mais respeitados. Um homem que achou uma joia de Josefina Jordan na boate Jirau elegeu a coluna como porta-voz para intermediar sua devolução ao preço de um resgate de “25 milhões de cruzeiros antigos”. Recebeu o “de acordo” no dia seguinte através de outra nota, na qual Jordan dizia esperar apenas a marcação do local da entrega. Pouco tempo depois, uma negociação dessas seria caso de polícia. Em 1968, ninguém via problema. A revolução dos costumes queimava as primeiras barricadas em Paris e na avenida Rio Branco.

Zózimo/Swann fazia o possível para manter o tom. Ele não seria nem Jacinto de Thormes, olhando o mundo com o cachimbo no canto da boca, nem o doidão acendendo um baseado antes do tempo. “Vai, com jeito vai” era uma marchinha que ele uma vez citaria como filosofia de vida. Tudo muito bom, sem dúvida, com o espírito atrevido de emular a juventude das ruas e enfrentar novos colunistas, como o irreverente Daniel Más, um jovem espanhol. Daniel comandava uma página inteira no Correio da Manhã, publicando preferencialmente notícias venenosas que combinassem com seu sobrenome. Cansado de exaltar, o colunista passava a malhar.

Zózimo, por sua índole pessoal, talvez gostasse de partir para a briga, mas a coluna estava colocando em seus ombros um impulso civilizatório. Procurava outros meios de criticar o mundo, embora concordasse que o colunismo precisava mudar. Daniel era seu amigo. Substituía no Correio a atriz Rosita Thomaz Lopes. Ela havia sido escalada pelo jornal, também preocupado com a chatice daquelas colunas sempre de bons modos, como elemento-surpresa para dar um sacode no noticiário. Não deu certo. Carmen Mayrink Veiga telefonava todo dia para Rosita, que, intelectual, revirava os olhos, querendo morrer de tédio ouvindo a descrição deslumbrada que a grã-fina fazia das próprias festas. Durou pouco. Rosita, ao escrever, era só elogios, essa coisa antiga.

O trauma provocado pela saída intempestiva de Ibrahim Sued do Globo em 1963 ainda estava recente e era usado pelos diretores do jornal como argumento principal para não colocar o nome de Zózimo no alto da página — mesmo que Ibrahim estivesse de volta e com o próprio nome em sua página. Duas colunas de notas assinadas seria demais. O Globo não queria enfrentar novamente o perigo de criar uma estrela e em seguida vê-la abduzida pela concorrência. Álvaro Americano, ainda secretário de governo de Negrão de Lima, já tinha falado sobre a insatisfação de seu protegido com Bernard Campos e M.F. do Nascimento Brito, do JB — aqueles personagens da seção Do Telstar. E o acaso traçou o resto da história.

Bernard conheceu Zózimo em meados de 1968 num daqueles eventos que faziam a delícia dos colunistas sociais — o voo inaugural de empresa de aviação. Se não era o voo, era o cardápio, ou era o avião. Sempre havia uma companhia de aviação alardeando uma novidade e convidando o colunista e sua esposa para as delícias de atravessar o oceano e nada pagar e a nada ser obrigado — a não ser, se fosse o caso, se assim achasse conveniente, depois dar uma notinha simpática. A dispensa do pagamento de imposto de renda pelos jornalistas (um cala-boca criado pelo governo de Getúlio Vargas) já tinha expirado, mas, para os que gostavam de viajar, a profissão continuava sendo um negócio dos céus, porque se ganhava desconto de 50% nos bilhetes. Ser colunista era melhor ainda: tudo free.

Bernard e Zózimo sentaram-se em poltronas vizinhas numa dessas mordomias, mais exatamente o voo que em 1968 inaugurava os serviços da Varig na rota Rio-Tóquio. Era um “avião da alegria”, a ponto de O Globo ter liberado, além de Zózimo, outros dois colunistas da casa, Ibrahim e Nina Chavs, para a viagem. Foram vinte e sete horas para chegar de uma cidade à outra, e Bernard teve tempo de sobra para fazer a proposta definitiva: levar Zózimo para o JB, aumentar seu salário e assinar o que escrevesse sem qualquer pseudônimo. Era tudo o que ele queria ouvir. Consultou o colega de voo, o também jornalista e naquele momento secretário do governo Negrão de Lima, Arnaldo Niskier. Na volta, aproveitou a parada nos Estados Unidos para, conforme Boy, esticar com Ibrahim até os cassinos de Las Vegas — e entre uma roleta e outra pensar mais um pouco.

Zózimo viu Ibrahim desfazer-se de todo o dinheiro que carregava em uma impressionante maré de má sorte na roleta. O “Turco” jogava o que não tinha, e Zózimo começou a suspeitar que a polícia entraria em cena a qualquer momento. Ibrahim permaneceu frio. Quando atingiu uma boa quantia de perdas, telefonou para o cônsul do Brasil em Los Angeles e — em sociedade tudo se sabe — este lhe garantiu um cheque.

Em 5 de julho daquele ano, Zózimo deu metade da coluna para noticiar o voo — “que só pode ser bem classificado pela palavra perfeição”. A viagem tinha começado no dia 26 e levara também Yolanda Costa e Silva, mulher do general-presidente. Zózimo agradeceu o convite perfilando todo tipo de elogio ao luxo da recepção, à elegância das japonesas em seus trajes, ao corpo diplomático, tudo perfeito, chegando finalmente ao irrepreensível e bem-dosado “não faltou sequer a inesquecível experiência de um terremoto”. A Varig é chamada de “grande empresa”, elogiada por uma “fieira de êxitos” etc. Foi seu primeiro voo inaugural. Muitos viriam.

Quando Zózimo disse “sim” ao JB, em janeiro de 1969, Alberto Dines já tinha tudo esquematizado. Mexeria no tabuleiro do jornal. Sem sofrimentos. Léa Maria, a colunista social, detestava a função. Reclamara quando, no processo de valorização dos profissionais da casa, seu nome fora colocado em destaque, encimando a coluna — justamente o sonho de Zózimo. Havia tempos pedia para fazer qualquer outra coisa, menos se dedicar ao relato de festas e afins num momento em que o mundo explodia na busca de igualdade social. Queria distância dos ricos e de suas joias compradas com o sacrifício do povo brasileiro. Ela admirava os hippies despojados, os homens e mulheres engajados. Namorava Fernando Gabeira, o chefe da Pesquisa, que todos sabiam envolvido na luta armada — e, como prova disso, antes mesmo de sequestrar o embaixador americano Charles Elbrick, ele já tinha esquecido armas no apartamento que um amigo emprestara para ele se encontrar com Léa. A moça era das primeiras, quando começavam as passeatas na avenida Rio Branco, a descer do prédio do JB e se juntar aos manifestantes. Seu primo, Daniel Aarão Reis, que mais tarde se tornaria um aclamado intelectual de esquerda, era membro do grupo que idealizou o sequestro do embaixador. Léa preferia a festa democrática das ruas aos rapapés no apartamento dos Mayrink Veiga. Dines tirou-a desse cenário “alienado”. Ela faria a coluna de comportamento da mulher moderna, uma das revoluções dos anos 1960 e que o JB estava cobrindo mal (O Globo tinha um caderno inteiro para isso, o Ela, cujos primeiros passos foram dados pela própria Léa).

Zózimo selou seu compromisso com o JB num jantar no Le Bec Fin. Bernard, Manoel Francisco do Nascimento Brito, Dines e Álvaro Americano estavam à mesa. No dia seguinte, um tanto mais tímido que antes, um tanto mais gaguejante do que sempre, estava no gabinete de Roberto Marinho para dar a notícia. Era dentro da redação, decorado com tapeçaria do francês Jean Lurçat. Zózimo agradeceu o carinho e o aprendizado daqueles cinco anos, mas estava de saída. Marinho tentou seduzi-lo: “Meu filho, você vai fazer a maior besteira da sua vida. Todo mundo sabe quem é Swann, mas ninguém sabe quem é Zózimo.” O velho homem de imprensa ouviu então uma resposta desafiadora, bem representativa do mundo jovem da década de 1960: “Dr. Roberto, o senhor está na verdade dando um argumento a meu favor. Carlos Swann é o senhor, o pseudônimo é seu, a coluna é sua. Está na hora de as pessoas saberem quem é Zózimo Barrozo do Amaral.”