Enquanto Houver Champanhe, Há Esperança
Capítulo 33
A frase é de Zuenir Ventura, que também estava no Jornal do Brasil no fim dos anos 1980: “Jornalista é um sujeito que sabe de tudo um pouco, no final das contas não sabe de nada, mas sabe dizer isso com o maior charme.” Zózimo era o jornalista genérico em pessoa, com essa capacidade já sabida de esvoaçar borboletas entre os parágrafos, chacoalhar balangandãs nos pulsos da nota e esparramar perfume fino no cotovelo das vírgulas. Se alguém precisasse laçá-lo dentro de uma área de conhecimento, diria “Rio de Janeiro”. Interessava-se um pouco por política, outro tanto por economia, sem especialização. Sua cidade era a sua pátria, a sua língua, o grande patrimônio que foi recolhendo pela vida. Uma vez, perguntado sobre o que gostaria de ser quando crescesse, entrou na brincadeira: “Xerife do Rio.”
Desde a primeira coluna, em 1969, quando todos esperavam que ele viesse exclusivamente com relatórios da festa de anteontem à noite, Zózimo já surpreendia com a nota que reclamava da derrubada de árvores para a construção de viaduto em Botafogo e da retirada de um frontispício de Mestre Valentim do Passeio Público. Ibrahim Sued nascera na Tijuca e morara nas pensões de Copacabana, mas desde que passara a imprimir o nome no alto das páginas do Globo só saía da Zona Sul para as asas de um avião que o transportasse alhures. Jamais foi visto além da Candelária, a igreja em que os ricos casavam entre si, no Centro.
Zózimo nasceu na maternidade do Humaitá, foi criado no Jardim Botânico, passava férias no apartamento do avô no Flamengo, estudou em Botafogo, viveu os primeiros anos do casamento com Marcia no Leblon, depois foi para Ipanema, em frente ao Country, e agora morava com Dorita perto da Lagoa, numa cobertura-mirante de trezentos e sessenta graus que dava para ver o que quisesse da impressionante paisagem carioca. Se Ibrahim produzia a coluna no escritório particular de Copacabana, no edifício dos antiquários, Zózimo ia até o outro lado da cidade, onde ficava o jornal, para fazer a sua. Primeiro na avenida Rio Branco, agora na avenida Brasil, 500, uma zona dividida entre o cemitério do Caju, as fábricas de São Cristóvão e o cais do porto. Andava ausente do Maracanã. Também não seguia mais com Anna Maria Tornaghi e Fred Suter pelo roteiro de cabarés eróticos da Prado Júnior, da Duvivier, todos em Copacabana, quando o país começou a viver a abertura do regime militar e foram permitidos shows de sexo explícito. Ele gostava desses ambientes com temperatura gauche. “Artistas” e plateia ficavam tão próximos que uma vez um “ator”, entre uma posição e outra em sua performance de sexo explícito, tomou um gole do uísque de Zózimo sem perder o foco firme no que fazia.
Se havia alguém com direito a colocar uma estrela no peito e se intitular “xerife”, esse jornalista macho que não se perdia nos becos da Cinelândia e sabia da cidade o suficiente para deitar regras sobre o que lhe desagradasse nela, esse patrulheiro era Zózimo. Tinha a compreensão sorridente de que o Rio vivia dessa mistureba. Orgia e liturgia tinham espaço na coluna.
Em 4 de fevereiro de 1970, ele acavalava duas notas. A de cima tratava da igreja de São Jorge, na praça da República, no Centro, onde ocorria a indicação do novo capelão, padre Eurico Cavalcanti. Na nota a seguir, revelava ter participado do Baile do Caju Amigo, cornucópia carnavalesca iniciada nos anos 1950 pelo Clube dos Cafajestes e que dava seus últimos suspiros.
• Se estão pensando que vou fazer uma descrição
pormenorizada do que foi o Baile do Caju Amigo estão
enganados. Sou colunista, mas não sou leão. Apenas uma
observação feita por um habitué:
— Foi o Caju mais familiar a que compareci em toda a
minha vida.
Em 1977, quando o produtor Albert Broccoli resolveu filmar um James Bond no Rio, Zózimo sugeriu na coluna algumas situações que colocariam à prova a coragem e o destemor do 007:
• Atravessar a nado a Lagoa Rodrigo de Freitas.
• Perseguir o vilão a 200 quilômetros por hora na Curva
do Calombo.
• Pegar um táxi às seis da tarde na Avenida Rio Branco.
• Como alternativa, embarcar a bordo de um ônibus
Jacaré-Ipanema.
• Jantar alta madrugada no Beco da Fome.
• Cruzar depois do entardecer a Praça General Osório.
• Fazer um tour pelas casas noturnas da moda.
• Aparecer no Maracanã em dia de Fla-Flu e instalar-se
com a camisa do Fla no meio da torcida do Flu ou vice-
versa.
• Levar em casa moradores da Rua Peri, no Jardim
Botânico.
• Disputar uma final de torneio no campo do Trinta x
Trinta.
• Aceitar o convite para jogar gin rummy em certos
endereços.
Ao final da nota, Zózimo desafiava o agente internacional, machão invencível em outras paisagens: se ele conseguisse vencer incólume os citados obstáculos, ganharia definitivamente o direito de ostentar carta de valente. O Rio já era para profissionais, e até os heróis modernos teriam dificuldade em domá-lo. Não era à toa que ele, trinta anos de praia, queria ser “xerife”. Passara a infância pescando caraúna, bagre de até dois palmos (“quando me aperfeiçoei com anzóis”). Jogava bola na esquina da Frei Leandro com a Custódio Serrão e, à noite, ia até um barracão na favela da Catacumba, a duas centenas de metros de sua casa, jogar sinuca com os locais. Carregava na memória uma cidade cordial, sem barreiras, sem horários proibidos, e agora vivia na “cidade partida” de Zuenir Ventura. Era crítico e, em 15 de dezembro de 1976, com o título “Morte iminente”, escreveu que o Rio estava “entrando em agonia e nem todos estão percebendo”.
Em “Cidade feia”, de 21 de setembro de 1972, passeava por um lugar que no início do século tinha sido percorrido por outro cronista andarilho, o dândi João do Rio. O pioneiro historiava os tipos e as religiões na subida do ainda existente Morro de Santo Antônio, no Centro. Meio século depois, Zózimo flanava por ali e lamentava:
• Foi atravessando o Largo da Carioca que tive a percepção
de uma realidade dura de aceitar, mas que depois vim a
perceber ser uma opinião generalizada: o Rio é hoje uma
das cidades mais feias do mundo.
Zózimo queria brigar pela cidade, instalar em sua coluna aquele banquinho em que o cidadão londrino subia no Speakers’ Corner, do Hyde Park, e abria o verbo. Era um xerife com delegacia na página do jornal e ia condenando tanto o homem da pamonha (“faz questão de apregoá-la aos berros utilizando-se de um alto-falante”) quanto os restaurantes que não incluíam o sorvete de frutas no cardápio das sobremesas (“insistem nos crepes escaldantes, nos flambés fumegantes, que não apetecem a ninguém a não ser o provincianismo dos poucos que ainda se impressionam com a leitura de extensos e pomposos nomes estrangeiros — quase sempre escritos erradamente — no cardápio”, dizia em 1973). Antes de ser especialista em dondocas, era um doutor do cotidiano. Em 3 de maio de 1975, deu um registro discreto para a reunião que a senhora Regina de Mello Leitão promovera para receber amigos e, na mesma coluna, um grande espaço para defender um camelô da areia:
• O vendedor ambulante mais perseguido pelo rapa na
praia de Ipanema é também o que mais saúde e alegria leva
à numerosa clientela infantil de consumidores. No seu caso,
a ausência de licença é um detalhe inexpressivo. O que
importa é a qualidade das laranjas que apregoa, descascadas
na vista do freguês com a ajuda de uma engenhoca movida a
rodas dentadas e roldanas, que tem tanto de medieval
quanto de eficaz. Trata-se de seu Julio das Laranjas.
Rubem Braga andou na mesma areia e descreveu a primeira ida da viúva à praia depois do passamento do marido. Não era, no entanto, um cronista do tipo que percorria as ruas à procura de assunto. Postava-se em geral na varanda de sua cobertura em Ipanema e narrava, com uma prosa divina, o que sua vista alcançava dali ou o que a memória guardasse da Cachoeiro de Itapemirim natal. Fernando Sabino e Paulo Mendes Campos, todos imensos, também não gastavam sola de sapato à cata de tema. Dos cronistas típicos, além de João do Rio, Zózimo se aproximava de Antônio Maria. Não pela exacerbação do sofrimento amoroso, mas pela ronda constante da noite, das pequenas cenas e da necessidade de desovar palavras e mais palavras diariamente nos jornais. Antônio Maria tinha no Globo dos anos 1950 a coluna Mesa de Pista. Dali, do que recolhia, dos potins dos artistas aos causos amorosos iniciados ou encerrados na mesa ao lado, dava seus pitacos. Zózimo, se passara a juventude noturna em Copacabana, ao assumir a coluna deixara de ser geograficamente localizável.
Em 1973 informava que a boate da moda não estava em nenhum bairro da Zona Sul, mas na praça Mauá — era a Cowboy, descoberta pelo pintor Di Cavalcanti, com seu repertório de show de MPB e striptease. Findo o espetáculo, ainda reservava na calçada o transitar, calmo, de prostitutas e marinheiros. Tudo que era Rio cabia em sua página. Um tatu passeando na esquina da Joaquim Nabuco com a Nossa Senhora de Copacabana ou simplesmente a descrição primorosa de uma cena clássica dos costumes locais: se Tom e Vinicius tinham visto a garota de Ipanema a caminho do mar, Zózimo viu a de Copacabana se retirando dele. Quem não entendia do Rio podia achar que não estava acontecendo nada. Zózimo acertava a mão na avaliação correta do que fosse carioquice — e ia cravando, nota a nota, o seu sucesso também como cronista:
Manhã de trabalho, sol quente, o tráfego fluía normalmente
na Avenida Atlântica em direção à cidade. De repente, sem
razão aparente, sem desastre, sinal quebrado ou caminhão
em manobra, a distância entre os carros foi ficando mais
curta, a velocidade lenta, até que tudo engarrafou. Quem
vinha mais atrás buzinava com impertinência, sem saber o
que acontecia. Mas quem se encontrava mais na frente nem
ligava, os olhos presos à figura morena de corpo escultural,
linda, que vinha pela areia a caminho do asfalto, devagar,
imperturbável diante da plateia basbaque de automobilistas.
Uma deusa. Veio, subiu a calçada, atravessou a rua e
desapareceu, quase uma miragem. E tudo voltou ao normal.
Era um cronista na melhor tradição, embora não lhe fosse dado o crédito de ser esse tipo de autor. No caso da morena, flagrava como se fosse o momento da Criação, e anunciava com ares de arrebatamento bíblico o que aos mortais, seres estressados do trânsito, pareceria apenas a pasmaceira cotidiana. Se Rubem Braga olhava a banalidade do homem no mar, com sua nobreza calma, no esforço solitário de cumprir sua missão, e dali tirava uma das páginas mais clássicas da literatura brasileira, Zózimo seguia a tradição de olhar a cidade, a mulher que caminhava sobre suas areias, e, avançando sobre os limites do jornalismo, acrescentava grandeza ao que aos olhos comuns era só miudeza.
Em 1986, quando o Jornal do Brasil lançou o caderno Cidade, Dacio Malta, o editor, aproveitou que Zózimo conseguira novo aumento de salário e pediu que desse uma força. O jornal, desde a saída de Carlinhos Oliveira, em dezembro de 1984 (oprimido pelo massacre de três textos por semana), e a aposentadoria de Carlos Drummond de Andrade, meses antes, estava apenas com Affonso Romano de Sant’Anna ocupando o canto dos cronistas.
Dacio pediu que Zózimo escrevesse uma crônica no alto da página 2 do novo caderno. A editoria possuía oitenta pessoas na equipe, entre repórteres, editores e redatores (o futuro membro da Academia Brasileira de Letras Ivan Junqueira era copidesque). O Rio sabia do Rio por ali, e o noticiário andava pesado — violência, tráfico, bala perdida. Zózimo entraria com o perfume, às terças, quintas e sextas. Os demais dias seriam preenchidos por crônicas de Apicius. Duas delas sobre sua especialidade, a gastronomia, a ronda dos restaurantes, e outra de generalidades, com o título Cartas de Parvônia. Apicius formava na linha de frente, com Zózimo, os esnobes do JB. Além de possuir texto fino, cultivado em tonéis do humor de Eça de Queirós, sua família era proprietária de bons terrenos na parte alta da rua Lopes Quintas, no Jardim Botânico.
Naquele momento, escrever crônicas para encher um quarto de página era ocupar a contramão da estrada para onde seguia o texto de Zózimo. Em sua coluna de notas, ele estava cortando palavras, engolindo vírgulas desnecessárias e tudo o mais que assim também o fosse. “A exigência de 350 toalhas de banho tamanho GG feita por Michael Jackson para cada apresentação no Brasil não deixa dúvidas”, dizia uma nota de 1986. “Ele está ficando branco é de tanto se lavar.” Com o espaço maior da crônica, precisaria colocar as palavras todas de volta. Eram experiências bem diversas, mas as duas necessárias para o JB naquele momento, e Zózimo mais uma vez disse “presente” ao time em que jogava com o número 10 nas costas. Em 1983, já havia sido catapultado ao cargo de editor do Caderno B, uma peça nobre da casa por sua mistura do noticiário cultural com o comportamental e a vida carioca. O caderno era a principal referência de um Rio ainda charmant, capaz de estabelecer o que fosse in e out, de ser o primeiro a divulgar a cena funk do Black Rio na Zona Norte ou acompanhar a evolução do biquíni, do cortininha ao asa-delta, na Zona Sul. A experiência de editor não foi longe.
Já atarefado pelo trabalho hercúleo de colocar diariamente em pé uma coluna de notas, ele não tinha cabeça para comandar repórteres, bolar pautas e administrar problemas mixurucas. Zózimo convocou o crítico teatral Macksen Luiz e a repórter Beatriz Bonfim e os transformou em editores executivos. Delegou plenos poderes à dupla e — decepcionado com o ramerrame das pequenas questões, tabela de férias de repórteres, licenças-maternidade, baixa fofocagem, colunistas que apresentavam notas fiscais falsas de despesas em restaurantes, chiliques de quem se achava mal aproveitado e mais a preguiça dos incompetentes — voltou para o aquário nativo atrás da pesca de notas. Detestou a experiência de cuidar das problemáticas alheias. Foi cuidar das suas — e deixou o cargo de editor do B no início de 1984.
Como cronista começou em 9 de setembro de 1986. Escreveu cerca de sessenta textos sobre o Rio, quase sempre em tom de crítica. Nada a ver com o tom lírico de Rubem Braga. Zózimo ficava próximo do jornalismo. Naquele setembro, bem que podia atacar com a clássica ode à chegada da primavera, recurso de toda a turma de cronistas líricos. Não o fez. Como era período de ebulição política, eleição do novo governador do Rio, ele acertava mais catiripapos em Leonel Brizola — e finalmente vibrou com a derrota do candidato dele, Darcy Ribeiro. Costumava apontar como sua obra preferida no período cronista o diálogo que inventou entre Leonel e Ribeiro, em 18 de novembro de 1986:
— (...) Alto lá, Ribeiro, vexame teu. O candidato eras tu.
— É verdade, e pensar que foi você que me induziu a isso.
Eu não queria ser candidato, não queria comer poeira, não
queria subir morro. E você no meu ouvido, me azucrinando
“a eleição é uma barbada”.
— E era uma barbada, mas tu a perdeste.
— E tem mais uma coisa, Leonel. Não vou lhe perdoar
nunca o fato de eu ter comido toda aquela porcaria. Você
sempre soube que eu tenho horror a acarajé.
— Ah, chega de ficar se lamentando. O negócio agora é
seguir em frente. Há ainda um longo caminho a percorrer.
Eu vou ser presidente da República.
— E eu imperador.
— Só se for da Babilônia.
— Não me fala em Babilônia, me lembra morro.
Crônica é a jabuticaba que o Brasil produziu na literatura, uma fruta de palavras que se lê com prazer e deve abusar da perspectiva pessoal. O diálogo de Leonel e Ribeiro se parece com os textos produzidos por Fernando Sabino. É totalmente diferente do dilaceramento existencial que Nelson Rodrigues publicava na Última Hora sob o título A Vida Como Ela É, e no entanto também classificado como crônica. Tudo cabia no rótulo. Não à toa, em uma palestra sobre o que afinal, caramba!, seria uma, Zuenir Ventura disse que tudo que se colocasse dentro de um fio de diagramação com o título no alto de “crônica” uma seria. Zózimo fazia crônicas desde o início, dentro da coluna de notas — porque usava a primeira pessoa, tinha liberdade de estilo, leveza no trato com as palavras e abusava do humor.
Como bom cronista, falou do seu quintal — e a Lagoa foi tema constante. Tinha voltado a morar na região ao se casar com Dorita, mas aquelas águas entre o oceano e a Mata Atlântica andavam outras. O tom dos textos era de perda amorosa. Em “Os monstros da lagoa negra”, de 19 de setembro de 1986, escreveu:
Não se passa um mês sem que as páginas dos jornais do Rio
estampem a notícia de uma tragédia à beira da Lagoa
Rodrigo de Freitas. A variedade é enorme e atende a todos
os tipos, tamanhos e formas de desastres: pedestres
atropelados nas calçadas, carros submersos, motociclistas
arremessados a distância, joggers estraçalhados — dor e
sangue colorindo de tristeza uma das paisagens mais
bonitas da cidade. (...) Que tal os motoristas aprenderem a
dirigir? A qualquer hora do dia ou da noite a sinalização
funciona pelo avesso. Para-se no sinal quando está verde
para se evitar trombar com os que ultrapassam o vermelho
(...).
Antônio Maria escreveu sobre Copacabana, Carlinhos Oliveira sobre Ipanema, Aldir Blanc sobre a Tijuca e Zózimo fez pelo menos dez crônicas sobre como andava — mal — a Lagoa, sua aldeia. De resto, deixava-se pautar pelos assuntos da urbe carioca. Greves de motoristas, a política no Flamengo, um tour pela Rocinha (“Little Farm”), a invasão das praias da Zona Sul pelos ônibus que Brizola deixou cruzar o Túnel Rebouças. Metia o pau, na certeza de que era a missão do xerife.
Ele achava São Paulo cosmopolita, mas com gente provinciana; o Rio, provinciano, mas com gente cosmopolita — nunca, no entanto, usou a guerrinha Rio x SP como mote. Criticava o Rio para seus moradores, pois todos já o sabiam um dos adoradores daquela roça linda (“Não é uma cidade maravilhosa”, dizia Elizabeth Bishop, “é um cenário maravilhoso para uma cidade”). Quando a Veja, publicada em São Paulo, concedeu-lhe o espaço nobre de suas Páginas Amarelas, ele mudou o tom — não falava mal da pessoa amada para estranhos. “É ótimo viver no Rio”, diz o título da entrevista, de 6 de abril de 1988, concedida à repórter Marisa Tavares. Nela, considera que a cidade passou por governos catastróficos, mas que a superação é inerente à raça local. “Que outro lugar do mundo teria conseguido em vinte anos criar uma outra cidade dentro de si, como o Rio fez em relação à Barra da Tijuca? A própria preocupação com a violência e a onda de assaltos merece ser revista. O Rio é uma cidade violenta como todas as outras de seu porte. Mas faço a crítica pelo lado do humor.”
Na patrulha carinhosa, o xerife-cronista não se esqueceu no JB de sua obsessão: os restaurantes e seus cardápios. Nada tinha melhorado, nem os comensais:
A freguesia de sábado à noite, então, esta é de lascar. Não
considera nada conveniente ou nobre se não for flambado
ou gratinado. Se não houver espetáculo pirotécnico nem o
alimento descer à mesa chamuscado, não se considera
satisfeita. A empulhação nasce dessa perfeita união do
restaurateur bronco com o comensal ignaro.
Deve ser certamente por isso que em pleno verão carioca
é mais fácil encontrar no cardápio uma fumegante sopa de
cebolas do que, no capítulo das sobremesas, um muito mais
conveniente e apropriado sorvete de frutas.
O que dá ao homem um mínimo de unidade interior é a soma de suas obsessões, dizia Nelson Rodrigues — e lá estava, treze anos depois de lançar seu primeiro clamor cívico pela ausência do sorvete de frutas nas mesas, mais uma reprimenda de Zózimo. Rubem Braga escreveu quantas crônicas sobre passarinho? Ninguém escreve sete vezes por semana num jornal — e ele, agora, com as crônicas, escrevia dez — se não tiver um bom pacote de obsessões para ir distribuindo na produção dos textos. Zózimo servia sorvete de frutas e mais um extenso repertório delas.
Se na coluna de notas andava evitando a muvuca social, com a crônica liberou-se para voltar ao assunto. Não foi ao aniversário da sua coleguinha do Globo Hildegard Angel, mas, em 26 de setembro de 1986, tratou dele sem qualquer esprit de corps. O título era “Usina atômica”:
Chegou mais rápido do que se imaginava a resposta carioca
ao imperial casamento que, celebrado na fazenda Empyreo,
em São Paulo, levou a alta sociedade paulista ao paroxismo
da admiração e deslumbramento.
A cerimônia que ganhou os anais da ostentação,
conhecida como “o casamento Piva”, incluiu, nos desvarios
do seu coreógrafo, até uma carruagem puxada por parelhas
de cavalos do melhor pedigree, levando a bordo, enlaçados e
felizes, cabelos ao vento, os noivos.
O troco carioca, o contra-ataque em cima da bucha, foi
desfechado pela colunista Hildegard Angel, que abriu com
pompa renascentista os formidáveis salões de sua mansão,
na Usina, no Alto da Tijuca.
Era aniversário da anfitriã, que, por isso mesmo, não se
poupou na tarefa de montar uma noite em que qualquer
Fellini ou Zeffirelli aporia com orgulho a assinatura.
Não faltou nem mesmo na entrada anunciando um a um,
ou dois a dois, quando se tratava de casais, a presença de
um cidadão, vestido da cabeleira aos sapatos com um traje
da corte de Luís XV, naturalmente suave. Na mão, um
pesado bastão que ele batia com ímpeto no assoalho antes
de gritar para dentro da casa o nome de quem chegava:
“Embaixadoooor e senhooooora fulanoooo de taaal.” Os que já estavam viravam-se entre curiosos e nervosos,
abrindo então seus sorrisos, mais largos ou mais tímidos,
proporcionais à simpatia de quem avistavam.
A partir daí valia tudo em matéria de fausto e bizarria. Mas a fuzarca só se revelou mesmo em sua total
intensidade depois que se completou a presença dos 350
convidados, os cavalheiros de black tie e as damas exibindo
vestidos longos de cauda como antigamente.
Aí é que Hilde botou pra quebrar.
Pelas salas, salinhas, salões, saletas, pátios, terraços,
varandas e escaletas, tropeçava-se a cada metro numa
atração, ali colocada para divertir e tornar mais alegre e feliz
a vida dos presentes.
Não bastavam as pistas de dança, duas, uma animada
pela música mais convencional do Maestro Cipó, e a outra
pelo som trepidante das fitas e alto-falantes da etiqueta
Josias — havia também mágicos, ventríloquos, cuspidores
de fogo, malabaristas, saltimbancos, engolidores de espada,
trapezistas e anões, cujas proezas rivalizavam de vez em
quando com o espocar de fogos de artifício.
Uma noite de arromba que teve seu clímax no momento
supremo da festança — o corte pela aniversariante do
monumental bolo de quatro andares.
Quando Hilde, como a chamam os íntimos, feriu a
escultura de confeitos com a faca de prata, os sinos — talvez
a única falha da noite — não chegaram a dobrar, mas em
compensação abriu-se uma gaiolinha e dela saíram
farfalhantes dois lindos e singelos pombinhos.
Parodiando o cinema americano, com sua mania de fazer
superproduções em série, já tem gente chamando a festa de
Casamento Piva II, a missão.
A série de crônicas terminou em 19 de março de 1987, com um texto sobre a aparição de um novo personagem na noite, o manobrista de restaurantes — e o caos que seus serviços e a falta de estacionamento acarretavam ao que antes era o tranquilo desfilar de carros pela madrugada. A hora do rush agora se estendia pela noite. Sintomaticamente, o título dessa última crônica era “Pau neles!”.
Assim como surgiram, as crônicas desapareceram, sem anúncio aos leitores. Zózimo poderia continuar a fiscalizar o comportamento da cidade através das notinhas (“Um dos males de que padece o carioca é o excesso de macheza. Mais do jeito que a do leito”, dizia no final daquele março, depois de ver uma briga em boate). Se fosse o caso, transformaria alguma informação em minicrônica, como a que publicou em 16 de fevereiro de 1993. O título era “Reminiscência”. Como os cronistas, sempre abusando da primeira pessoa e trabalhando com o baú da memória particular, aproveitou-se de um “gancho” do momento para contar uma história dos bancos escolares:
A capa da última Veja, “O ovo de Itamar”, evocou uma
antiga piada dos meus tempos do Colégio Andrews, final da
década de 50, envolvendo o inefável Juquinha e sua douta
professora.
Fedelho, frívolo, peralta, péssimo aluno, sem jamais ter
aberto um livro, Juquinha foi inquirido pela desanimada
professora disposta a lhe dar a chance de se redimir dos
sucessivos fiascos.
— Juquinha, cite um fato histórico de alguma relevância. O aluno, para espanto da classe, disparou sem hesitação: — O ovo de Colombo.
Surpresa, quase eufórica pela presteza e objetividade da
resposta, a professora embalou e insistiu:
— Bravo, Juquinha. Agora, cite outro fato histórico
importante.
E o aluno, novamente sem pestanejar:
— O outro ovo de Colombo.