Enquanto Houver Champanhe, Há Esperança
Capítulo 10
“Hoje eu acordei deprimido”, foi como Ibrahim Sued, que não era dado a frescuras da alma, começou sua coluna do dia 8 de maio de 1963. Na linha seguinte, porém, já de tacape em punho, mostrava que o papo passava longe do fru-fru existencial. “Não estou querendo imitar os subintelectuais que gostam desse chavão para começar suas crônicas. Mas estou deprimido com o racionamento de luz nesta nossa Belacap.” Ibrahim dizia que desde o ano anterior pedia providências, e nada havia sido feito. O Rio de Janeiro, a tal Belacap (Brasília era a Novacap), confirmava naquele início de ano a marchinha “Vaga-lume”, de Vítor Simon e Fernando Martins, feita em 1954 para o Carnaval do ano seguinte: “Rio de Janeiro, cidade que nos seduz,/ de dia falta água,/ de noite falta luz.” E depois de distribuir bola preta para o governador do Rio, Carlos Lacerda, “que deveria ter entrado em entendimentos com o governo federal...”, Ibrahim finalizava: “O resultado é que estamos sem luz e humilhados durante 40 minutos por dia.”
Por coincidência, Ibrahim passaria os três dias seguintes mandando a coluna de Brasília, mais exatamente de dentro do Palácio da Alvorada, ou da Granja do Torto, residência oficial do governo, onde privava de boa intimidade com o presidente João Goulart. O colunista social da burguesia carioca enviava notícias quentinhas diretamente da mesa de refeições do homem que ameaçava mandar o país para o socialismo. Tornaram-se amigos de infância desde a década anterior, quando Jango circulava pela noite do Rio e “dragava” vedetes como Edith Morel, Fernanda Villamayor, Mara Rúbia e Angelita Martinez. O presidente mancava de uma perna, não tinha qualquer sexy appeal, mas fazia o que mandava no cinema o humorista Zé Trindade, o grande cômico das chanchadas brasileiras: “O negócio é perguntar pela Maria” (não importando qual Maria...). Jango perguntava e levava as respostas para casa.
Nas horas vagas, passava notas para Ibrahim e o tinha como fiel escudeiro, um dos poucos a dar notícias positivas de seu governo. Os dois sabiam que a regra-mãe do colunismo é: “Aos que passam notícias, todo o amor do mundo. Aos demais, os rigores da lei de imprensa.” O patrono religioso do grupo seria São Francisco, aquele do “é dando que se recebe”. Por isso Ibrahim subiu nas tamancas quando viu em 11 de maio, ao lado de sua coluna Reportagem Social, um generoso espaço dado a uma resposta do governador Carlos Lacerda — que não lhe passava informações — à sua nota do dia 8 sobre o racionamento de energia. Pior: a resposta de Lacerda criticava Jango, hospedeiro de Sued naqueles dias (“Se no Rio os boatos se espalhavam, aqui em Brasília tudo estava tranquilo, inclusive no Torto, residência oficial do presidente da República”, dizia Ibrahim em sua coluna do dia 11).
Sem que o colunista fosse avisado, o diretor-secretário, Ricardo Marinho, publicara a carta de Lacerda. Não havia informação relevante nela, apenas aleivosias diversas. O inimigo político de Jango defendia-se da nota de Ibrahim com um texto cujo título era “O racionamento de energia e a posição do governo estadual”. Ele mencionava as medidas que seu governo tinha tomado para enfrentar a crise, estocava o rival (“descaso e imprevidência”) e expunha publicamente a parcialidade de Ibrahim:
Espero que suas ligações com o governo federal não o levem
a desmentir sua justa reputação de bem-informado repórter
e, sim, possam servir para acordar ainda a tempo o governo
de Brasília, que encontrou em você o seu melhor paladino.
A carta de Lacerda, publicada ao lado da coluna em que Ibrahim noticiava, orgulhoso, os furos de seu tête-à-tête amigo com Jango, foi um escândalo. Onde já se viu levar um pito público de Lacerda, em sua própria página, sem qualquer aviso do jornal de que a carta seria publicada? O colunista sentiu-se traído e a seu jeito, vulcânico, encerrou parceria de nove anos. Pediu as contas e foi para o Diário de Notícias. Além da mágoa, havia um plus tentador. No jornal da família de João e Ondina Dantas, metade do pagamento que conseguisse com anúncios iria direto para sua conta bancária. Inventava-se, enquanto o código de ética se recusava a chegar às redações, a figura do jornalista corretor de anúncios.
O poeta Augusto Frederico Schmidt escrevia para O Globo e assessorava a direção na gerência de crises. Esta tinha contornos inéditos. Como substituir a estrela da companhia? Ibrahim era uma das poucas assinaturas num produto parcimonioso em divulgar a identidade de seus craques. Roberto Marinho não gostava de tornar esses nomes quase tão fortes quanto o do jornal que os protegia — e tinha suas razões empresariais.
Marinho e Schmidt avaliavam como erro investir no nome de um profissional, oferecer a ele espaço para fazer a consagração da sua marca e, de repente, perdê-lo para a concorrência. A ideia vencedora na substituição foi a de dar ao próximo colunista um nome fantasia. Se o jornalista que a estivesse fazendo precisasse sair do jornal mais adiante, ótimo, que fosse à luta. Alguém da redação o substituiria, sem trauma, e principalmente sem que o leitor ficasse sabendo dos desarranjos da fofocalhada interna. Mais: sem uma personalidade real a se responsabilizar pela coluna, ficava mais fácil ao proprietário do jornal colocar notas de seu interesse. O colunista escalado não teria ilusões. O dono do espaço seria sempre, primeiro e único, “o nosso companheiro redator-chefe Roberto Marinho”.
Num tempo em que as redações podiam ser compostas por gente de diversas formações (alguns literatos, outros semianalfabetos), num período sem exigência de diploma de jornalista, Schmidt (poeta, dono de supermercado, de livraria, cartola do Botafogo, editor de livros) escolheu para a vaga o advogado Álvaro Americano. Era o contrário de Ibrahim. Sofisticado e culto. Além disso, já estava na redação, onde escrevia editoriais. Faltava-lhe apenas a experiência de apuração, essa “praga” que Ibrahim inventara para o colunismo social. Em 20 de maio de 1963, com o desenho da coluna anterior, o mesmo título de Reportagem Social, inventado por Ibrahim para mostrar que ali se publicava notícia de campo, lá estava, ao lado do título, o “nome” do novo colunista: Carlos Swann.
A elite brasileira tinha composé culto. Não se movia ainda pelo deslumbramento das compras em Miami, mas pelo passaporte cheio de carimbos europeus. Cultura dava status. Exibiam-se nas rodas as estolas de pele e também livros lidos, salões de ópera e museus percorridos. Schmidt quis acenar para esse leitor. Lembrou-se do Diário Carioca — que fora até Eça de Queirós para identificar seu colunista social como Jacinto de Thormes — e chegou ao protagonista de Em busca do tempo perdido, de Marcel Proust: Carlos Swann. A pedra de toque da sacada foram as tramas ligadas ao mundo dos ricos e a referência constante de que os livros do escritor francês poderiam ser lidos como uma coluna social. E sob essa aura de sofisticação intelectual, tão ao gosto grã-fino de 1963, Carlos Swann reencarnou em Álvaro Americano e se deixou entronizar como repórter social.
Americano era da boa elite carioca, homem de leituras refinadas. Ao assumir a coluna, ficou de olho nos formatos que Maneco Muller (por meio do personagem Jacinto de Thormes) e Ibrahim Sued haviam lapidado. No início, inteligentemente, tentou pegar a mão abusando do repertório mais fácil, com um exagero de notas sociais e de salões. Morno demais. Contudo, dava a impressão de que aos poucos, começando pelas primeiras lições, pegaria no tranco. Em seguida tentou fazer um mix e continuar na linha evolutiva do colunismo pátrio. Manteria aberto o leque de assuntos, informando sobre economia, política, cidade e sociedade, criação de Ibrahim, e saudaria Jacinto amarrando as notícias com o texto leve.
Não foi possível. O Swann de Americano era chatíssimo. Faltava a bossa com que Jacinto salpicara o gênero, assim como faltava a notícia bombástica trazida por Ibrahim. Não havia escola nem regras a seguir para aquilo, o xis do problema era o grande diferenciador dos homens e das mulheres: Sua Alteza, primeira e única, o Talento. Não é a fórmula, mas o Autor.
O texto de Americano vinha cheio de “consta que”, “circulam rumores”, platitudes que não cabiam a um repórter, profissional pago para identificar o que é rumor e o que é notícia, deixando a primeira opção de lado e publicando a segunda. Outro cacoete de Álvaro Americano: adorava a pseudobossa de encher a nota de interrogações (“Você sabe quanto gasta a Pequena Cruzada, por semana, para manter suas 200 criancinhas?”, publicou no dia seguinte ao da estreia). Ibrahim jamais cometeria tal engano. Sabia que sua função era fazer perguntas às fontes e publicar as respostas. O leitor, já cheio de apoquentações e dúvidas na rotina da vida real, não comprava jornal para ser confrontado com novas questões.
Em 11 de setembro de 1963, ele publicou a nota “Vaia em Brasília”. O começo era um enorme nariz de cera na coluna de notas, espaço em que o sabor da coisa deveria ser o jogo rápido.
• Parecerá até que temos alguma coisa contra o sr.
Clidenor Freitas, presidente do Ipase, sobre quem por mais
de uma vez esta coluna já se manifestou. Nada disto. Nem
conhecemos o sr. Clidenor. Como deixar de noticiar coisas
como a ocorrida no dia 3 em Brasília? O caso foi o seguinte:
(...)
O leitor roncava.
Só depois dessa peroração sem objetividade surgia uma história sem graça de divergências entre o poderoso e seus funcionários. Zero de bordão ou agressividade jornalística. Em suma, faltava molho ao culto Americano, um homem tenso que não se destacava pessoalmente nos salões da existência pelo uso social do humor. A sua coluna emulava tempos antigos, tanto que a nota seguinte à do senhor Clidenor tinha como título o espantoso enunciado de “Campanha da criança retardada”.
O correto Álvaro Americano, preparadíssimo para qualquer função que requisitasse o emprego da intelectualidade, infelizmente tinha a graça no volume morto — uma peça que na revolução dos anos 1960, dos Beatles às saias curtas de Mary Quant, de Cassius Clay bailando na frente de Sonny Liston a Andy Warhol pintando lata de sopa, fazia toda a diferença.
Americano ficou um ano e meio sozinho, até que conseguiu um repórter para ajudá-lo. O rapaz era tão cru nessa atividade quanto ele no colunismo, só que levava jeito. O seu escolhido, Zózimo Barrozo do Amaral, vinte e três anos, estava havia um ano na reportagem da editoria de assuntos da cidade, metido com uma agenda de buracos de rua, acidentes de trânsito e outras mixarias. Qualquer um que o visse na redação, no entanto, perceberia que ele tinha o physique du rôle de uma coluna social. Das lentes de contato aos sapatos de couro cromado alemão, era quase um personagem da burguesia proustiana, e o francês perfeito o tornava ainda mais natural ao ambiente literário. Ele rescendia a aristocracia e a todos os seus bons modos.
Os repórteres do Globo usavam terno, mas o corte e o tecido denunciavam a compra em suaves prestações na Casa José Silva ou, entre os mais abastados, na Torre Eiffel ou Windsor, lojas masculinas da classe média. Zózimo vestia alfaiataria. Não consultava mais o mesmo caderninho de endereços de moda que passara para Renato Machado na adolescência. Continuava usando os serviços dos alfaiates do pai, o veterano Ernesto Marques, e, depois, seu filho e sucessor, Alberto Marques, de quem seria o mais fiel modelo e divulgador. A família ocupava ateliê na rua da Quitanda, próximo da multidão requintada que frequentava a sede do Jockey Club, e disputava a alta sociedade com o italiano José de Cicco, de Copacabana, este, o velho preferido de Ibrahim e Getúlio Vargas. As camisas de Zózimo, sempre com monograma, como as de Boy, agora eram feitas pela camiseira Nilza, assistente dos Marques. Os preços eram altos. Colunistas, porém, tinham tabela especial: uma notinha no jornal, e tudo bem.
Não era só a roupa que desenhava com nitidez o perfil de Zózimo. Aquele repórter tinha uma elegância natural, um aplomb, uma compostura tão nobre que nele não seria afetado botar um termo esnobe para designá-lo com correção: sprezzatura, uma palavra italiana que Boy adorava incrementar entre suas falas. Ao mesmo tempo, ainda que carregado desses elementos caracterizadores da elite, Zózimo era de trato suave. Conversava com todo mundo, puxava papo sobre o ataque do Flamengo e não parecia ter aprendido etiqueta nas dicas publicadas por Ibrahim. Seu tom de voz, educadamente baixo, vibrava de satisfação por ele estar nos lugares em que estava, fossem quais fossem, e o bandejão do Globo fazia parte do seu roteiro. Parecia gostar da vida, até mesmo do jornalismo, este inesperado que as boas relações do pai colocaram em seu caminho como surpresa e maravilhosa salvação. Seu porte, de gestos sóbrios, formava o pacote que o identificava como alguém da elite, sem que ninguém confundisse aquilo com o famigerado ar de superioridade. Era gente boa.
Mais: ao contrário de Americano, que andava com os braços presos ao corpo, reprimido, circulava pela redação com uma atitude corporal que um editor consagrado como Sergio Noronha, do Jornal do Brasil, em conversas particulares notaria como fundamental para avaliar um jornalista. “O andar rápido dá a impressão de que está correndo atrás da notícia, e no caso do Zózimo era verdade. Jornalista que se arrasta pela redação dá a impressão de que está se dirigindo ao café”, dizia Noronha, adepto de um método de seleção pouco acadêmico para se descobrir bons repórteres. “Escrever é fundamental, claro, mas se não houver tempo para avaliar isso, ponha o grupo de candidatos para andar na redação. O bom repórter anda aflito. Zózimo quase corria entre as mesas.”
Americano e Zózimo se conheceram nessas caminhadas, e, se tinham passadas diferentes, de resto se reconheceram imediatamente como da mesma classe social. Gostavam das grandes orquestras do swing e detestavam o cool jazz da moda. Adoravam Dostoiévski, e um dia Zózimo deu de presente ao novo amigo a coleção em papel-bíblia das obras completas do escritor russo. Comprou-a do livreiro Ademar França, que circulava nas redações vendendo clássicos. Os jornalistas liam. Em casa, Zózimo comentava com Boy e Izabel a felicidade de encontrar Americano pelo caminho.
Seu ânimo como repórter da Geral variava. Depois de breve período de entusiasmo pela “ralação” nas coberturas de rua, a luz vermelha já se acendera — e o rapaz mostrava-se entediado com a rotina e a pouca amplidão dos interesses que abordava. “De novo esse buraco na Rio Branco?!”, reclamou uma vez com o chefe de reportagem. Nada pessoal. As pautas da Geral naquele tempo, início dos anos 1960, repetiam-se muito. João Roberto Marinho e Roberto Irineu Marinho, os dois então jovens filhos do tycoon, passaram pela reportagem geral na fase de treinamento para assumirem mais tarde a presidência da empresa — e ambos, sem que isso fosse proposital, pegaram como pauta “a inauguração da nova iluminação do Corcovado”.
Zózimo cobriu aumento de preço dos legumes na feira, nascimento de girafa no Zoológico, remoção na favela do Pasmado, novo aumento dos legumes... Vibrou quando foi encarregado da cobertura, em datas diferentes, da visita ao Rio do ator italiano Alberto Sordi. Aquilo tinha um glamour mais parecido com o que queria para a vida. De resto, a reportagem geral, com sua repetição suarenta, em poucos meses tornara-se chatice cercada de desimportâncias municipais.
O convite de Americano renovou-o para o trabalho. Faziam a coluna em uma das salas da redação, chamadas de “aquário” na gíria da profissão porque protegem os peixes mais graúdos com suas paredes de vidro. A redação ocupava o segundo andar do número 35 da rua Irineu Marinho, na região central da cidade — um espaço desenhado por uma arquitetura de decoração pesada, com móveis escuros e paredes descuidadas. Pouquíssimas mulheres. Na reportagem geral, que tratava de assuntos das ruas da cidade, apenas Marisa Raja Gabaglia, uma bela morena mignon que anos mais tarde se tornaria colunista da Última Hora (foi uma das primeiras defensoras públicas da liberdade sexual feminina), brilharia como repórter de vídeo da TV Globo e ficaria ainda mais famosa ao ter um namorado, o cirurgião plástico Hosmany Ramos, preso como ladrão. Na reportagem da editoria de Polícia, só Albeniza Garcia, tão confiável que, nos anos 1990, quando estava em O Dia, os sequestradores do empresário Roberto Medina exigiram sua presença como segurança no momento em que libertaram sua presa.
Era um ambiente masculino, mas nem todos os homens tinham a elegância poética de Augusto Frederico Schmidt, que escrevera discursos para Juscelino Kubitschek e defendia a necessidade, qualquer que fosse o texto, de se colocar neles “umas borboletas entre os parágrafos”. Essas delicadezas ali eram raras. Havia escarradeiras nos cantos. Um repórter de Polícia desfilava com um revólver na cintura. Repórteres chacoalhavam fichas do controle de frequência dos Alcoólicos Anônimos que carregavam nos bolsos. Foi por esse desvão da saúde que Samuel Wainer, dono da Última Hora, atacou o rival Paulo Bittencourt, do Correio da Manhã. “Sibarita conservado em álcool” era como chamava o desafeto. Dependendo do momento, podia ser engraçado.
Na mesa dos revisores, José Alvarenga tirava os olhos da máquina, gritava o nome de um repórter e, imitando o copidesque Graciliano Ramos, que fazia o mesmo numa antiga redação do Correio da Manhã, berrava, pretextando crítica ao texto que estava lendo: “Assim não dá, Carlos Alberto, ‘via de regra’ é boceta!”
Zózimo se sentia mais em casa na coluna do que reportariando o calor dramático que matava o urso do Zoológico, uma pauta inevitável de verão. Achava-se preparado. Conhecia muita gente na sociedade, um grupo que já lhe era próximo pela frequência na Hípica, pelas amizades do pai no Jockey. O tio Miguel, sócio do Country Club, tinha casa em Petrópolis e lá era vizinho de Ivo Pitanguy, cirurgião plástico que começava a consertar o visual da sociedade carioca. Zózimo foi herdando essas amizades, todas mais velhas que os seus vinte e poucos anos. Tinha também as camaradagens feitas no Andrews e no Santo Inácio, cheios de bons sobrenomes. Não podia se comparar com Ibrahim, contudo seu caderninho de telefones chegava à redação mais recheado do que o do “Turco” nos primeiros meses de trabalho. O resto ele agradecia aos ensinamentos de Americano (“o seu Ziegfeld, o criador da estrela”, segundo o colecionador Gilberto Chateaubriand, referindo-se ao produtor teatral americano).
Um desses toques foi o de saber diferenciar os amigos pessoais dos amigos da coluna. Ter uma coluna de jornal não era exatamente o caminho mais rápido para fazer amigos. Para cada nota publicada, deixava-se de fora uma dezena de outras. Esses pedintes, explicava Americano, ficam uma fera e começam a falar mal de você. Dizem que você está mascarado. Pior. Que vive a soldo de figurões endinheirados. “O ser humano é insaciável”, continuava Americano numa conversa de redação, “e para o colunista o pior deles é o que quer sair todo dia. Saiu na semana passada e reclama, pode se tornar inimigo se não sair esta semana. Toma gosto pelo vício e quer novas doses da droga de ver seu nome piscando no jornal.”
Eleito em outubro de 1965 o novo governador do estado da Guanabara, Negrão de Lima lembrou-se de Álvaro Americano, seu ex-redator de discursos, e chamou-o para secretário de Administração. Estava de bom tamanho a temporada ao telefone no jornal perguntando por novidades. Em dois anos e meio, paparicadíssimo, não revolucionara o colunismo, todavia aumentara a coleção de condecorações, com medalhas da ordem disso, de mérito daquilo etc. Era a sua vaidade. Começara a coluna com cinco e a deixava, em novembro daquele ano, com vinte, agradecido aos puxa-sacos. Quando o dress code pedia, elas lá estavam na lapela. “Ninguém é condecorado porque fez mal a alguém”, dizia.
Na coluna, a sucessão se fez de um jeito natural. Como pretendiam Roberto Marinho e Augusto Frederico Schmidt ao optarem pelo pseudônimo, o leitor não percebeu qualquer anormalidade. Saiu Americano, entrou Zózimo em novembro daquele ano — e a imagem do jornal não sofreu qualquer arranhão. Quanto a Zózimo, aos vinte e quatro anos, a vida parecia finalmente entrar nos eixos. Seis meses antes, ele protagonizara uma notícia que não saíra na coluna, mas que até aquele momento era a melhor de sua vida: ele se casara em 19 de maio de 1965 com a sua tão sonhada Marcia Kuperman.
Ela voltara do curso de francês em Paris e não só encontrara Zózimo ainda apaixonado, como também com uma linha nova no currículo: estava empregado. Parecia mais sério em seus propósitos, totalmente voltado para o trabalho, e com isso ainda mais bonito. Além do choque de religiões, a vida anterior — sem salário, sem profissão definida, de briga em briga no meio da rua — não ajudava o pretendente. Quando começou a trabalhar no Globo, puxado logo para a coluna importante de Álvaro Americano, o perfil ficou mais cacifado. Merecia uma chance.
Marcia, numa atitude de coragem para a época, daquelas que só o grande amor explica, rompeu o noivado com o engenheiro da família judaica e resolveu enfrentar as consequências. Lutaria por sua paixão. Zózimo faria a sua parte, além de apresentar a carteira profissional assinada por Roberto Marinho. Se a família queria um judeu para esposar a filha, ele se converteria. A experiência do Santo Inácio causara-lhe sérias dúvidas sobre o catolicismo. Por que não dar uma chance ao judaísmo para finalmente ter uma personalidade religiosa de que gostasse? Fez os cursos necessários, aprendeu algumas rezas, incorporou ao nome um Abraão para preencher a necessidade das cerimônias e colocou a estrela de Davi no cordão do pescoço. Conseguiu, depois de quatro anos de insistência e dedicação, o “sim” da família dela.
Sem necessidade de ser circuncidado, pois já o era, e depois de tomar o banho ritual nas pedras da Urca, Zózimo esposou Marcia. Era um final mais feliz que o drama das famílias Montecchio e Capuleto das aulas de inglês no Andrews. Casaram-se — ele finalmente sem o aparelho dentário que o acompanhava desde a adolescência — numa festa com músico tocando violino, Boy de solidéu, Renato Machado com lencinho no bolso do paletó e o noivo quebrando copo com o pé.
Zózimo e Marcia, depois de uma lua de mel na Bahia, passaram a morar num apartamento da rua José Linhares, no Leblon, presente do pai dela. Coisa simples, de classe média digna, mas decorado com o bom gosto de Marcia, já em atividade como pintora. Ao fundo, nos rádios e nas TVs de toda a vizinhança, o refrão do maior sucesso musical de 1965, um iê-iê-iê de Roberto Carlos, dava o tom desta história: “E que tudo o mais vá pro inferno.”
A novidade era a supremacia da juventude como o novo ideal de existir. Se antes todos queriam ser maduros e experientes (“envelheçam”, sugeria Nelson Rodrigues aos menores de vinte e cinco), a moda era a obediência à revolta jovem. Ser sensato e sábio não tinha levado a nada, só a guerras — chegara a hora de tentar outra abordagem. Os homens estavam cabeludos, como se fossem roqueiros. As mulheres botavam as asinhas e mais as pernas de fora, liberadas pela pílula anticoncepcional.
Era hora de as colunas sociais avançarem também, seguirem a tendência internacional de tudo aparecer com um frescor jovem, iconoclástico. Zózimo, com a vida pessoal resolvida, arregaçava as mangas para colocar nas páginas um Carlos Swann mais cabeludo — e fazer a sua parte na revolução pop da década de 1960.