Enquanto Houver Champanhe, Há Esperança
Capítulo 31
Karmita Medeiros, um metro e sessenta e dois centímetros, quarenta e cinco quilos, a típica mignon de almanaque, surgiu pela primeira vez na coluna em 1o de julho de 1986. Estava ao lado da socialite Cinthia Figueira de Mello. As duas sorriam largo, em plano americano, e a legenda informava que estavam na “noite movimentada” do Calígula. Karmita era a directrice da boate de Ipanema, um inferninho sem atrativos até que ela mesma se percebeu como principal atração. Fazia a cute, a fofinha, a gostosinha, o pequeno frasco que na cantada barata dos bêbados noturnos escondia os grandes perfumes. Paulista, ex-modelo do estilista Markito, valia, segundo um certo tipo de frequentadores, como couvert. Tinha um sorriso que ia de um canto a outro do salão minúsculo, sempre com um batom carmim que aumentava ainda mais o desenho de todas as belas reentrâncias de sua boca. Preenchia outro requisito indispensável a quem exercia a função: era agitadíssima. Na longa carreira que a seguir teria nos braços da coluna, só aparecia antecedida dos adjetivos “trepidante”, “esfuziante” ou “namoradeira”. Merecia todos.
Ao encontrar-se com a página 3 do Caderno B, juntou a fome com a vontade de comer. Ela precisava divulgar a boate, e o colunista precisava de novo elenco. A sociedade envelhecia e não conseguia mais subir, no caso do Hippo, ou descer, no caso do subsolo do Regine’s, as escadas das boates. Zózimo tinha de renovar os atores. Não exigia que fizessem muita coisa — afinal, os nomes clássicos da sociedade anterior também não faziam. A imaginação do colunista é que tratava disso.
A jovem Narcisa Tamborindeguy era uma dessas novas estrelinhas, uma espécie de atualização de Zózimo para o “bonecas e deslumbradas” do cast de Ibrahim. Filha de político, ela era fora dos padrões (divertia-se jogando ovo, da sacada do edifício Chopin, nos desavisados que passavam no calçadão de Copacabana). Teve dois bons casamentos: primeiro com o diretor de TV Boninho, filho de Boni, e depois com Carlos Johannpeter, herdeiro de um grupo siderúrgico. Logo seria reconhecida pelo bordão “ai que loucura!”, legenda perfeita para a vida social que levava. Num dos capítulos de sua autobiografia, com o bordão usado para título, ela, que se considerava uma animal party, descrevia uma festa:
• Karina Sukarno, Helcius Pitanguy, eu e um seleto grupo
participamos da festa de um príncipe europeu, em Punta del
Este. Tudo fantástico! O suco servido pelo nobre era de
pêssego delicioso, os passeios de barco se faziam em alta
velocidade, o champagne vinha em baldes e um súdito
solícito era encarregado de servir ecstasy e cocaína Pink.
O jornalista Roberto D’Ávila, que chegou a ser deputado federal e vice-prefeito do Rio, também foi eleito para personagem por Zózimo. Ele aparecia na coluna como um modelo da grife Ralph Lauren. Não era o caso. D’Ávila, que no final dos anos 1970 foi o primeiro a entrevistar, de Paris, para o programa Abertura da TV Tupi, os exilados brasileiros, tinha roupas da marca, mas nenhum compromisso com o cavalinho de polo do estilista. Um jornalista sério. Zózimo divertia-se com o amigo, que nem sempre gostava das piadas, porém se deixava levar pelo nome piscando na coluna mais lida da cidade (“cada um lê de um jeito, podia ser uma ironia, mas outros viam como algo mais light”, dizia). Numa nota em que o consagrava como eleito ao Congresso Federal, e pedia a presença do estilista para a posse, Zózimo colocou “Ralph Lauren veste hoje o deputado de amanhã”, uma paródia de um conhecido jingle carioca para moda infantil/adolescente: “Príncipe veste hoje o homem de amanhã.”
Se Karmita fazia o pitéu, ao deputado-jornalista cabia o papel de jovem modelo de elegância, com direito a ser criticado quando decepcionasse. Em 27 de abril de 1991, Zózimo deu bola preta ao seu personagem na nota “Modelito”:
• Roberto D’Ávila precisa urgentemente, como fazia
tempos atrás, voltar a cortar as suas roupas no ateliê do
mestre Alberto Marques.
• O modelito meia-confecção por ele envergado no jantar
de anteontem em homenagem aos príncipes de Gales não
fazia jus à ocasião.
• Sempre que levantava os braços, como aconteceu na
apresentação de sambistas e passistas, o paletó subia junto e
a gola ia parar no alto da cabeça.
• Se soltar um pouco as cavas das mangas, o problema
desaparece.
No dia em que a nota era publicada, Zózimo ligava para D’Ávila e os dois morriam de rir. Jogavam tênis na casa de Henrique Schiller de Mayrinck, viajavam a Paris. Só os menos avisados poderiam supor algum mal-estar entre eles. O romance de D’Ávila com a cantora Simone foi anunciado na coluna, sem sensacionalismo, mas com aquele sorriso maroto de sempre:
• Já estão de volta de uma temporada de duas semanas
entre Nassau e Nova York a cantora Simone e o jornalista
Roberto D’Ávila. Chegaram, segundo os amigos, menos
entusiasmados do que quando foram.
D’Ávila liberava Zózimo para suas viagens informativas. Nem todos os namoros eram verdadeiros, o que também não lhe colava ruído negativo na imagem. Uma vez ele surgiu em Paris, num passeio de Bateau Mouche, namorando uma mulher casada, e isso criou algum problema. Logo vinha o telefonema do colunista para resenhar a nota, davam as gargalhadas e ficava por isso mesmo (“impossível brigar com ele, sempre leve, carinhoso”). Quando a prefeitura do Rio e o governo estadual precisaram, por economia, dividir as operações com o meio ambiente, D’Ávila, que ocupava a Secretaria do Meio Ambiente, foi chamado por Zózimo de “Secretário do Meio a Meio Ambiente”.
Os novos atores surgiam ao mesmo tempo que os Nabuco se recolhiam. Karmita, como Zózimo dizia na intimidade da redação esfregando as mãos de excitação jornalística, era tudo o que ele queria, era “carne nova no pedaço” — ou seja, alguém que substituía a velha guarda de sobrenomes ilustres e baixo hormônio editorial. Foram dezenas de aparições, a ponto de, ao ser demitida do Calígula, no início de 1988, e entrar na Justiça em busca de direitos — nem sequer carteira assinada tinha —, apresentar como comprovação trabalhista um book com todos os recortes das notas, evidência documental, aceita pelo juiz, de que ralava a noite inteira. Zózimo fizera a criatura, que, dessa vez, estava longe de ser o clássico monstro do cinema — muito pelo contrário.
Em destaque, com fotos semanais na coluna, Karmita enfileirava conquistas. Depois ela passaria a promoter do restaurante Lokau e, em 2 de janeiro de 1989, ganhou três fotos na mesma edição, recorde a que nem Mayrink Veiga teve direito. O jogador Falcão, o cantor italiano Giancarlo Marinangeli, Pedrinho Aguinaga (o “homem mais bonito do Brasil”) e o socialite Mariano Marcondes Ferraz foram cravados por Zózimo como namorados dela. A cada edição surgiam pretendentes. Homens poderosos que, segundo as notas, pareciam estar dispostos a largar tudo para passar o resto de suas existências docemente acasalados dentro do sorriso carmim da morena. Os romances, entretanto, não vingavam.
No Carnaval de 1987, quem havia se apaixonado fora o marido de uma mulher com o dobro dos requisitos apresentados por Karmita. Dizia Zózimo na nota “Novo par”, de 26 de fevereiro:
• O mais recente par formado na noite do Rio juntou
anteontem, no Baile do Scala, Karmita Medeiros e André
Weinfeld, que saiu do anonimato no dia em que casou com a
atriz Raquel Welch.
• Weinfeld começou a encantar-se com Karmita no baile
de Carnaval e saiu perseguindo-a pela noite afora.
• Só saiu de perto de sua eleita quando ela deixou o
Calígula, quase às seis da manhã.
Karmita morreu de rir com a nota. Diz que viu o sujeito uma vez — e nunca mais. Era uma liberdade poética de Zózimo e, como com D’Ávila, não via mal. Como era personagem, nem todos os seus passos lhe pertenciam e ela se deixava levar pelo dono de seus caminhos. Passou a ser vista, sem reclamar, em situações só possíveis em comédias românticas amalucadas. A nota “Gatices”, de 6 de julho de 1988, relatava:
• Acreditando na paixão que parecia ter surgido entre os
dois no Carnaval do Rio, a doce Karmitinha mandou-se para
a Inglaterra atrás de Duda de Lacerda Soares, remetido
pelos pais para Oxford.
• Só que a mudança de hemisfério parece ter arrefecido o
ímpeto de Duda, que não quis saber mais da namorada,
recusando-se até a atender às chamadas telefônicas
insistentemente disparadas por ela de Londres.
• Como Karmita não é de desistir facilmente, pegou um
trem, foi para Oxford e invadiu a escola do rapaz, que,
acuado na sala de aula, não hesitou: levantou na frente dos
colegas perplexos e fugiu aos saltos pela janela.
• Consta que está correndo até agora.
O cineasta Cacá Diegues, numa nota de 16 de setembro de 1986, convidou-a para debutar no cinema em Sexo frágil, um filme produzido por sua empresa, a Ponto Filmes. Julio Iglesias também teria perdido os modos. Viu Karmita em abril de 1991 — e olha só o que ele fez, segundo “Dia e noite”:
• Pelo menos segundo a vontade de Julio Iglesias, a noiva
da vez de sua atual temporada no Rio será a esfuziante
Karmita Medeiros.
• Embora tenha vindo acompanhado de sua noiva
americana, o cantor está armando um cerco sem tréguas,
dia e noite, em torno de Karmita.
• Até agora, porém, sem sucesso.
A baixinha era irresistível aos olhos do padrinho. Provocava a imaginação do país já no café da manhã, todos desejosos de conhecer na vida real alguém assim diabolicamente provocadora dos desejos machos. Ela, ternamente agradecida pelo prestígio, não se dava ao trabalho de desmentir esses romances. “Coisas de um homem inteligente e brincalhão”, avalia.
Em agosto de 1989, a trepidante aparecia casada com um príncipe árabe e morando em Londres. Não deveria voltar ao Brasil tão cedo porque, além desse inesperado casamento, estava assumindo a diretoria de relações públicas de uma agência de turismo especializada em Brasil que operava em Inglaterra, França, Espanha, Portugal e Suíça. Meses depois, no entanto, a se acompanhar sua vida pelo que saía na coluna, Karmita já era vista no Rio dançando lambada com Pedrinho Aguinaga na pista do People. Em 1990, foi dito que a directrice estava matriculada no curso de comunicação de uma faculdade carioca, e Zózimo começou uma série de notas curtindo com a possibilidade de o QI da personagem não ter a mesma proporção agigantada de seu sorriso nem o desenho perfeito das curvas de seus filés.
• A encantadora Karmita Medeiros, que poucos sabem ser
aplicada aluna do último ano de jornalismo da Faculdade da
Cidade, está feliz da vida.
• Ganhou nota dez com louvor pelo trabalho que
apresentou sobre “A filosofia da ética e a legislação do
jornalismo”.
• O trabalho de profunda pesquisa e interpretação do tema
foi tão bom, mas tão bom, que o professor resolveu guardar
consigo para consultas.
• O autor deve estar orgulhosíssimo.
• A aluna é a mesma que, semana antes, em sala, tinha
emitido surpreendentemente a seguinte pérola de erudição:
— Descartes foi o primeiro filósofo do mundo a filosofar em
francês.
Na imprensa, os cadernos de comportamento, pautados pelo protagonismo que ela vivia na coluna, escalavam a cintilante directrice para dar pareceres, com ares de seriedade, sobre qualquer modismo. De musa passiva, virara oráculo com texto próprio. O colunista, íntimo, brincava carinhosamente com a sua criatura. A nota “Déjà-vu” é de 20 de novembro de 1990:
• Diálogo trocado no fim de semana promovido pela Sul
América no Méditerranée entre a esfuziante Karmita
Medeiros e o deputado Cesar Maia:
— O senhor trabalha na TV?
— Não exatamente.
— Ah, trabalha, sim. Eu já vi o senhor várias vezes na TV.
Qual é a novela mesmo?
— Não sou eu. A senhora deve estar me confundindo.
— Confundindo, é? Então tá!
• Só no dia seguinte Karmita veio a descobrir o que fazia
seu interlocutor.
• E não era novela.
Era relação de confiança. Assim como tinha sido erigida a símbolo de sofisticação e beleza, Karmita não reclamava quando Zózimo a tirava para “pele”. “Claro que eu reconheci o Cesar Maia, ele era muito sem sal para não ser lembrado”, diria aos amigos depois de publicada a cena no Méditerranée. Não pediu qualquer retificação na coluna, onde seu corpo nem em pensamento lhe pertencia, e ela nem fazia questão. Karmita era quase uma Ofélia, a megera ignorante dos programas de TV, só que bem-feita de corpo e divertida o suficiente para levar tudo na esportiva. A nota “Revelação” extrapolava nas insinuações, com o jeito moleque de fazer humor e saber que a amiga não o processaria. Era sobre um leilão beneficente para a Sociedade Viva Cazuza:
• Entre as obras uma chama atenção mais pelo ineditismo
do que propriamente pelo valor.
• É assinada pela socialite Karmita Medeiros.
• Karmita, que sempre pintou e bordou, agora pelo visto só
pinta.
• E, o mais importante, em caráter beneficente.
Ela subira de status e de directrice passara a socialite. Só tinha a agradecer ao pintor de sua imagem. Há quem publique livros de oitocentas páginas, outros dirigem filmes de edição complexa ou passam a vida para criar uma sinfonia e serem reconhecidos. Karmita tinha sido esculpida não em mármore, como as musas de Rodin. Não em versos, como aqueles com que Tom e Vinicius transformaram Helô Pinheiro na lendária garota de Ipanema da canção. Foi erigida em notas de jornal, numa quantidade que, em centimetragem, alcançaria uma altura maior que a dela própria. No fim de 1990, quando o telefone tocou e era a revista Playboy, foi como aquele clichê da cereja no bolo.
Zózimo deu uma nota dizendo que sua musa não toparia tirar a roupa por menos de 120 mil dólares. Depois informou que o negócio tinha sido fechado por 70 mil dólares. Karmita imediatamente comprou um apartamento. As fotos, assinadas por Bob Wolfenson, mostram o que deve ter sido a mais catita de todas as coelhinhas. Karmita estampa a capa da revista com um vestido vermelho e tapando os peitos sem esforço, pois eles, pequenos, cabem dentro de suas mãos fechadas. Nunca uma capa da Playboy mostrou tão pouco. Ela também não ostenta aquela expressão de quem chama o leitor para qualquer safadeza na cama da imaginação. Sorri, profissional, seja bem-vindo, como se convidasse o ilustre não para os ritos da carnificina sexual, e sim para usufruir os serviços da boate.
Por dentro da revista, num elegante casarão de Sig Bergamin transformado em cenário, nos Jardins, em São Paulo, o fotógrafo, o mesmo que anos antes fotografara uma potranca carnuda como Claudia Egito ao vento ateu de uma praia deserta da Bahia, usou de todas as lentes, efeitos e bom gosto para transformar Karmita naquele mulherão que o noticiário de Zózimo alardeava. Não conseguiu, mas não será aqui que se reclamará de mulher nua. Karmita está bonita. Nada de bundão, coxão ou qualquer outro aumentativo tão ao gosto do brasileirão. O forte de Karmita era o diminutivo harmonioso. Peitinho, bundinha, tudo muito jeitosinho e deleitável. O fotógrafo percebeu que no lugar das caras e bocas tradicionais nesse tipo de exposição — insinuações de tesão à flor da pele, boca aberta em grito na ânsia louca do orgasmo iminente — o melhor seria conservar no rosto o sorriso dela. Nada de expressão do tipo grife japonesa “Mikome”, como ostentavam Isadora Ribeiro e Andrea Guerra em capas daquele ano. São só seis fotos, apenas uma com o bumbum à mostra. Loucura nenhuma. As fotos são de página inteira e, numa delas, Karmita aparece de camisola e apenas um peito à mostra.
O pacote da Playboy para colocar a moça na capa do número 187, de fevereiro de 1991, editado por Juca Kfouri, tinha como detalhe indispensável a aceitação de Zózimo para assinar o texto do ensaio. Por 5 mil dólares o colunista topou. O título do ensaio: “Escândalo na sociedade.” O subtítulo: “Totalmente nua. Desnudamos a linda colunável, apresentada com paixão pelo texto de Zózimo Barrozo do Amaral.” O nome do colunista vinha na capa.
Livre para radicalizar na sacanagem que o jornal inibia, ele aproveitou o liberalismo da Playboy para mandar brasa no culto à mulher que tinha inventado e agora era apresentada ao país inteiro como símbolo sexual dos grã-finos cariocas. Karmita desmente que tenha havido alguma coisa além de notinhas entre ela e o trepidante colunista, mas este, sem cravar que sim ou que não, salpicou insinuações deliciosamente machistas no texto de apresentação das fotos:
Karmita, karmitinha, vamos todos karmitar, vamos dar a
meia-volta, volta e meia vamos dar. Quem já karmitou,
karmitou, quem não karmitou, se danou. De pé, na briga, ou
levitando, na horizontal, a vida de Karmita sempre foi feita
de meias-voltas, voltas inteiras, contorcionismos
prodigiosos, lances de audácia, fiel, sempre, ao princípio
elementar de que o importante, mesmo, é não parar de
respirar.
Assim Karmita apareceu, viu e venceu, deixando atrás, ao
longo de sua curta vida, uma esteira de fascínio,
arrebatamento e paixão. Tendo como epicentro o seu
sorriso, o charme, o segredo do envolvimento de homens e
mulheres em torno de seu mistério e magnetismo, muito
dinheiro se fez através da sua simples presença em boates e
clubes noturnos. Anfitriã de tudo e de todos, Karmita, perfil
miúdo e delicado, revelou-se sempre um ser querido e
desejado. Amiga, confidente ou amante, a ela, em
momentos de alegria ou aflição, recorre muita gente boa.
Raramente, dependendo da circunstância, se sai de mãos
abanando.
É em pé, na arena, que Karmita exibe toda a sua força,
apesar da fragilidade das formas. Uma força interior,
aparentemente adormecida, como acontece com os vulcões.
Provocada, contudo, Karmita pode se transformar de
parceira em adversária, e vice-versa. As formas são
perfeitas, o conjunto é irretocável e a sua consciência disso
deságua na ausência total de inibições. Roda pião, bambeia
pião. Quando ela se dispõe a entrar na roda, sai de baixo, ou
sai de cima. Como quem entra na chuva é para se molhar, o
negócio é relaxar e aproveitar.
As curvas da estrada de Santos não são nada perto das
curvas que compõem a sua excitante geografia. As primeiras
levam ao lazer; as outras, ao prazer. Deslizar por elas é como
lançar-se num tobogã abissal de luxúria, volúpia e êxtase.
Tão intensa se revela a experiência que — juram — emerge-
se dela com um ligeiro travo de morte na boca. Quanto mais
envolta, mais desenvolta. Uma réstia que seja de Karmita,
revelada pela dobra do lençol, ilumina mais a imaginação e
o desejo que uma legião de corpos femininos nus e luzidios.
Sua pelugem eriça os sentidos, espicaça o instinto e desperta
a flama do guerreiro conquistador que cada homem carrega
dentro do próprio ego. Karmita presa, Karmita troféu. Nem
que seja por um dia, uma noite, um instante.
Mais adiante, Karmita passou a se assinar com dois emes e a bordo de um marido francês seguiu para a Cidade Luz, onde se estabeleceria como dona de corretora de imóveis. E assim como apareceu, desapareceu do noticiário, deixando sem resposta a pergunta que o colunista colocou como legenda sob uma de suas muitas fotos: “Por que será que certas mulheres, aquelas que telefonam sempre com a intenção de armar alguma intriga, têm tanta inveja dela?”