Enquanto Houver Champanhe, Há Esperança
Capítulo 23
Zózimo não era um bom jogador de tênis, mas naquele jogo a força da sua dupla se equilibrava porque estava ao lado o empresário Antônio Borges, dono de um backhand espetacular e de um slice de direita maluco, capaz de fazer a bola bater no chão e, com o efeito, recuar um metro, às vezes para a direita, outras para a esquerda, dependendo das intenções dele para infernizar o adversário. O adversário ficava catatônico, sem saber com que mão armar o golpe de devolução. Um craque. Do outro lado da quadra, situada num terreno de Antonio Carlos de Almeida Braga, no porto do Frade, em Angra dos Reis, estava a dupla formada por Ivo Pitanguy e seu filho, Helcius. O cirurgião era um pouco melhor que Zózimo. Helcius, se não jogava o mesmo que Borges, tinha a seu favor o preparo físico exuberante inerente à juventude.
O jogo estava equilibrado — a grande decisão de raquetadas daquele fim de semana entre um pequeno grupo de amigos à beira da baía de Angra. A partir do segundo set entrou em cena um fator extraquadra. Wimbledon, na Inglaterra, Roland Garros, na França, o Aberto da Austrália, nenhum dos grandes torneios frequentados por aqueles senhores jamais presenciara tal acontecimento. Uma jovem morena postou-se atrás dos Pitanguy, visível apenas para a dupla Zózimo e Borges. De início, ela estava com o biquíni completo, o que já era uma imagem de forte dispersão para os dois atletas que a viam de frente, bem na reta de suas raquetes. Logo a moça tirou a parte de cima do biquíni e, como se fosse a coisa mais comum naquele paraíso tropical, assim ficou, tal qual cheerleader, torcendo pelos Pitanguy, que se aproveitaram da desconcentração adversária e começaram a acumular sobre eles uma sucessão de smashes, voleios e paralelas que só jogadores muito concentrados alcançariam. Não era mais o caso de Zózimo e Borges. Dispersos, rindo da situação, pedindo que a moça parasse com o golpe baixo, foram derrotados na impagável chanchada tenística.
A moça semidesnuda vibrava diante de Zózimo e Borges por convocação de Pitanguy. Era funcionária da sua ilha, a poucos minutos de barco, ali mesmo em Angra. O tênis, o mais elegante dos esportes, estava desmoralizado pela brincadeira. Sem problemas. As gargalhadas foram as grandes vencedoras e os amigos passaram o fim de semana rindo da cena. O resto estava escrito na camiseta de Zózimo: “Pay the bills and say no to the invitations.”
A primeira vez que a produtora de moda Regina Martelli ouviu Zózimo dizer a frase foi no início dos anos 1980. Ele a repetiria por muitos anos e para muitos ouvintes. Foi aí que uma assessora de imprensa mandou a camiseta com a inscrição. Era um dos motes de Mr. Higgins (Rex Harrison), professor de fonética e boas maneiras, para educar a florista Eliza Doolittle (Audrey Hepburn) e transformá-la em dama da sociedade no filme My fair lady. “Pagar as contas e dizer não para os convites” era o que Zózimo queria naquela virada para a segunda metade dos anos 1980. Dar um tempo na agenda social. Estava se aproximando da marca de vinte anos à frente de uma coluna e olhava para trás satisfeito. A década de 1970 tinha sido fantástica para ele, um período em que firmara seu nome como a grande novidade na matéria, inventor de um jeito cariocamente esperto de dar notícias sérias, com leveza, bom humor e absoluta elegância. Já começava a pensar num livro com uma coleção de notas e ia guardando exemplos, como “Que nada, minha senhora”, publicada em 3 de agosto de 1970:
Diálogo ouvido outro dia numa reunião social entre uma elegante senhora e o garçom, que lhe estendia uma bandeja com champã:
— É brut?, indagou a senhora.
— Não, é delicadíssimo.
“A bem-educada BB” é de 7 de setembro de 1973:
• De Brigitte Bardot:
— Eu não sou um mito mas uma jovem de boa família
extremamente bem comportada que um dia virou as costas
a todo um sistema de educação.
• Sistema de educação...
• Não deixa de ser engenhoso como eufemismo.
“Más línguas”, de 19 de maio de 1976:
• De uma conhecida habituée das colunas definindo o
buffet do jantar da rival:
— Estava tudo frio, menos o champanhe.
Na virada para os anos 1980, começou a cunhar uma série de frases geniais, todas mesclando jornalismo, humor e as demais qualidades perseguidas por quem diariamente se sentava diante de uma máquina de escrever com o fito de agradar ao leitor. Palavras como “fito” ele já não usava. Alguns exemplos:
• Quem pensa em dinheiro não ganha dinheiro.
• Hoje quase não há mais famílias, só pessoas jurídicas.
• Novo-rico me incomoda muito, mas novíssimo-
riquíssimo me incomoda muitíssimo mais.
• O Nordeste bota turista pelo ladrão. O Rio bota ladrão
para turista.
• Viver bem é você ter um tipo de pretensão do tamanho
do seu bolso — mesmo com o risco de ficar a um passo da
inadimplência.
• O problema de Brasília é o tráfico de influência. O do Rio
é a influência do tráfico.
• Depois de uma certa idade, o homem da cintura para
cima é poesia; da cintura para baixo, prosa.
• Epitáfio de um hipocondríaco: “Eu não disse?”
Tudo muito divertido, mas, ufa!, que pauleira!
Ele continuava casado com Marcia. Moravam num apartamento na rua Prudente de Morais, em Ipanema, comprado com o dinheiro da venda do apê do Leblon e uma boa ajuda do paizão Boy. Marcia, aos poucos, deixara a carreira de artista plástica, do gênero abstrato, com boa crítica, para tocar como marchand, com sucesso, a galeria do Shopping Cassino Atlântico, em Copacabana. O casal tinha um filho, Fernando, nascido em 1969. Era a prioridade do homem Zózimo, e, quando ele citava o “dizer não para os convites e pagar as contas”, referia-se, por exemplo, ao prazer de ir com Marcia e o garoto aos domingos almoçar em paz no Antonio’s ou no Antonino, onde gostava de pedir um Reguengos Garrafeira dos Sócios e um simples picadinho. De esnobe bastava a vida que levava na coluna. Queria mesmo era ir com Fernando ao Maracanã para continuar a tradição familiar de torcer pelo Flamengo. Iam aos concertos de domingo no Teatro Municipal. Os dois velejavam pela baía num catamarã que Zózimo dizia aos amigos ser o início da aventura dos Barrozo do Amaral pelos grandes mares. “Breve anexaremos o Atrevida à nossa frota”, gargalhava, referindo-se ao iate do amigo empresário Dirceu Fontoura, o do Biotônico Fontoura.
O barquinho foi uma compra de Zózimo realizada através dos classificados do JB. Ia com Fernando cedo para a Marina da Glória, no Aterro do Flamengo, onde o hobie cat ficava guardado. Montavam a vela, subiam o mastro, encaixavam a retranca, colocavam a bolina, tudo numa operação que às vezes demorava mais do que o tempo do passeio. Fazia parte do relaxamento, da necessidade de curtir algo além da busca insana de notas. Depois do barco armado, saíam navegando. Não durou muito tempo a brincadeira (o hobie cat foi vendido), mas Zózimo sempre se referia a ela como uma das delícias de sua agenda particular. Queria dar vida saudável e esportiva ao filho, preocupação que o levava a acompanhar Fernando às aulas de natação no Clube Monte Líbano, às margens da Lagoa Rodrigo de Freitas.
O tênis, independentemente das mulheres seminuas que poderiam aparecer a qualquer momento na quadra e bagunçar o tão perseguido relaxamento (e a concentração), tornara-se uma paixão. Começou a jogar em 1973, enquanto esperava o filho na natação. Pela coluna, divulgava o esporte, que por aqui só era mencionado em referência aos campeonatos conquistados por Maria Esther Bueno em Wimbledon, nas décadas de 1950 e 60. Pouca gente jogava, menos ainda comentava. Durante algum tempo, foi o consultor do programa que o jornalista José Inácio Werneck, também do JB, apresentava na TV Educativa.
Como praticante, estava sempre na quadra, fosse no Monte Líbano ou no Clube Naval Piraquê, também na Lagoa, ou na casa dos amigos Myrian Gallotti, em Botafogo, Henrique Schiller de Mayrinck, na Joatinga, ou Daisy e Julio Fabriani, no Leblon. Também jogava no Country, embora, como seu pai, jamais tenha tentado ser sócio — seus amigos eram — e assim evitasse problemas com um clube desconfiado da presença de jornalistas (Ibrahim fora escorraçado com um festival de bolas pretas). Um de seus parceiros constantes nas quadras, Antonio Carlos de Almeida Braga, o Braguinha, dizia que Zózimo tinha mais vontade que técnica: “Como todo mundo, acha que joga mais do que joga.” O colunista, indiferente ao que pudessem pensar da sua técnica, era jogador sério. E, no fim de semana de 10 e 11 de março de 1979, estava em São Paulo participando de um torneio de amadores e celebridades. José Inácio Werneck noticiou:
• Zózimo embarcou levando seu equipamento, mais
completo do que o de Vilas, Tanner e Nastase reunidos,
pois, além de variadas raquetes, bolas e calçados para os
mais variados pisos e condições atmosféricas, há um spray
francês com a única finalidade de impedi-lo de suar nas
mãos.
Braguinha e Manuel Águeda Filho, dono dos restaurantes Nino e Antonino, na Zona Sul, tornaram-se seus companheiros de viagem pelos torneios do circuito Grand Slam. Viajava também com o casal Roselyne e Marcio Malamud, e quando ia com eles a Roland Garros, o preferido por ser em Paris, ficavam, sempre com Marcia, boa jogadora, no Hotel Montalembert, na Rive Gauche. Os Monteiro de Carvalho convidavam os Barrozo do Amaral para o camarote da família. Os campeonatos dos anos 1970 ainda eram um desfile de elegância, com a plateia de terno e gravata.
Um dos primeiros jogadores que Zózimo admirou foi o australiano Rod Laver, um tenista dos anos 1960 extremamente correto na maneira de se apresentar, sempre com os cabelos gomalinados, mas com um jeito agressivo de decidir na base do saque-e-voleio, e estamos conversados. Nas décadas seguintes, Zózimo ficaria fã do romeno Ilie Nastase e do francês Yannick Noah, talvez não exatamente pelo estilo de jogo dos dois jogadores, e sim porque eram rebeldes para os padrões comportadinhos do esporte (Noah foi o primeiro campeão negro de Roland Garros, em 1983).
Zózimo aproveitava as viagens para enviar notinhas, como estas, mostrando o impressionante desfile de riqueza dos brasileiros pela Europa, em junho de 1974:
• O jornalista Sérgio Figueiredo, de capa e chapéu,
presença impecável nas corridas do domingo último no
Hipódromo de Chantilly.
• Marise de Ouro Preto ciceroneando d. Scylla Médici no
shopping da Rive Gauche. No roteiro, escalas no Lothar’s,
New Man e Bob Shop.
• Nelson Seabra passou o fim de semana na Dinamarca,
hóspede da rainha Margrethe.
• Eduardo e Zé Pessoa de Queiroz alugando um Rolls-
Royce com motorista especialmente para comparecerem ao
almoço oferecido pelos Patiño na campagne francesa.
• Tisse e Romualdo Pereira passaram por Paris com
escalas demoradas e generosas na Maison Louis Vuitton e
na casa de peças de decoração de Guilherme Carvalhosa.
Depois, Londres e um cruzeiro pelas ilhas gregas.
• Tony Mayrink Veiga deu a Carmen de presente um
Maserati, uma joia de automóvel. A carroteca dos Mayrink
Veiga em Paris inclui agora, além do Maserati, um Rolls e
um Mercedes.
A propósito dessa carroteca, Zózimo passava seus aniversários, em 28 de maio, em Paris. Mantinha distância das inevitáveis paparicações de quem não possuía intimidade para tal e juntava a comemoração com o período em que a cidade oferecia como plus o torneio de Roland Garros e o Festival de Cinema de Cannes. Num desses aniversários, reuniu no Le Berthoud, um bistrô numa ruazinha apertada atrás do Panthéon, um pequeno grupo formado por Laís e Hugo Gouthier, Glorinha e Paulo Paranaguá, Carmen e Tony Mayrink Veiga. Estes foram os últimos a chegar (moravam na nobre região de Passy, com vista para a Torre Eiffel) e quase não chegaram, porque o Rolls-Royce da carroteca entalara na rua apertada. Foi preciso que todos os convivas descessem à rua, e mais garçons e vizinhos, para, depois de muito empurra-empurra, liberar o carrão, manobrado por um chauffeur enluvado. Ao final de tudo, já sentada à mesa, Carmen comentou bem-humorada: “Essa é realmente uma Paris que eu não conhecia.”
Zózimo, ex-morador da cidade, conhecia seus becos. Não possuía casa em Paris nem em qualquer outro lugar de veraneio que não fosse Ipanema. Nem precisava. O empresário Luiz Fernando Bocayuva Cunha, Baby para os íntimos, oferecia a casa de Cabo Frio, no litoral fluminense. Numa de suas muitas festas, lá estava jogado na varanda, “como uma trouxinha”, na imagem de Vera Simões, mulher de Bocayuva, o cronista Carlinhos Oliveira. O frequentador da varanda do Antonio’s tinha mudado de varanda — no entanto, para não variar de todo, estava bêbado. Vera não gostou da cena e ia acordá-lo. Baby não deixou. Preferia vê-lo assim, desacordado, a enfrentar seus desvarios etílicos. Horas depois, no entanto, toda a casa corria sobressaltada para ver um corpo no mar em frente. Era Carlinhos. Zózimo estava no grupo que se jogou à água para salvar a literatura da perda de uma de suas grandes penas.
Vera casou-se anos depois com o empresário francês Hervé Bainville, e a hospedagem que passou a oferecer ao colunista era na residência de Paris do casal. As saídas eram para ir ao bistrô Castel, à Brasserie Lipp e até para ver desfiles da Maison Saint Laurent. As mesas do grupo abrigavam sempre personagens da nata internacional. Numa noite, Hervé identificou como uma brasileira muito rica — só poderia ser, pelas roupas que usava — a que fazia um discurso esquerdista, de viés demagógico, contra o capitalismo. Parecia ser conhecida de Zózimo, mas Hervé, conforme disse em entrevista ao jornalista Maurício Vilella, não sabia de quem se tratava — mesmo assim resolveu rebater o discurso. “Se a senhora acha que dinheiro é tão ruim, por que a senhora não distribui a sua fortuna pessoal?” Zózimo, baixinho, pedia a Hervé “não, não...”, que não continuasse o diálogo. Só depois o amigo francês soube que se tratava de Niomar Moniz Sodré Bittencourt, ex-proprietária do Correio da Manhã, jornal que os militares perseguiram e que por pressão econômica, depois de prenderem a própria Niomar, conseguiram que fechasse as portas em 1974.
Na casa dos Bainville, Zózimo era servido pelo mordomo africano Issaka, um negro alto e exoticamente bonito. Issaka tinha marcas no rosto, resultado de festas tribais. Chegou a ser examinado por Pitanguy não para reformá-las, e sim para compreender com que técnicas haviam sido feitas na pele daquele homem primitivo e agora de modos finos diante da burguesia ocidental. Zózimo gostava tanto do mordomo que, para ciúme de Vera, presenteou-o com uma belíssima peliça.
Hervé prezava a companhia do jornalista, embora tenha achado “pouco gentil” quando foi identificado na coluna com a expressão “cabeça de Prêmio Nobel”, por causa da seriedade europeia com que se apresentava diante da vida. Hervé dizia que via em Zózimo o sorriso de Stentor, referindo-se ao arauto grego que tomou parte na Guerra de Troia e, segundo Homero, na Ilíada, vibrava uma voz mais forte que a de cinquenta homens reunidos. Admirava sua gargalhada (“ria com vontade”), o fou rire (riso frouxo, de não conseguir parar). Vera associava Zózimo a lembranças afetivas. Seu pai editara um jornal aos dezoito anos, O Papão, e sempre dizia que o compromisso com o leitor devia ser o riso. Era também o lembrete gravado no brasão de Zózimo, o guerreiro do cotidiano — avançar com bom humor.
Em 26 de fevereiro de 1987, nem todos os leitores riram quando viram aquela nota. Era, na verdade, um gracejo em código de Zózimo para pouquíssimos. Quem conhecia o personagem deu boa risada, e a missão a que se propunha a coluna se cumpriu. Foi quando o mordomo veio ao Brasil passar temporada de trabalho na casa de Vera:
• De férias no Rio, que visita pela primeira vez, o bravo e
competente Issaka, um dos grandes talentos da avenida
Foch, em Paris.
Na serra da periferia fluminense, o recanto preferido de Zózimo era Teresópolis, onde se hospedava na casa de Zezito e Fernanda Colagrossi. Ela, paulista, de família quatrocentona, e Zezito, político e empreiteiro, gostavam da conversa animada do colunista, da elegância culta de Marcia. Quase todo fim de semana de verão os casais subiam a serra, e como havia outros três quartos para hóspedes, iam também nomes colunáveis como os de Elisinha e Walther Moreira Salles, Josefina e Henryk Jordan, Guiomar e Gustavo Magalhães, mais o diplomata português José Manuel Fragoso. Esses fins de semana eram divertidos, num cenário de sonho, e ecoavam nos dias seguintes em notas na coluna — só que nem tudo, claro, era relatado.
Um dia, alguém abriu a porta de uma das copas da casa e lá estava, em cima da pia, de cócoras, a herdeira de uma das maiores fortunas do mundo. Sem calcinha, ela se molhava para aliviar as ardências de uma cistite que, dizia, havia contraído de um empresário carioca.
Outro dia, todos saíram para visitar um casal também amigo da coluna e foram obrigados a assistir à lamentável cena em que o marido e o amante da mulher, um dentista, se embolavam numa pancadaria típica da mais baixa sociedade.
Outro dia ainda, um senhor portador de um dos mais finos sobrenomes da sociedade carioca foi mais uma vez flagrado em ato de traição. Sua mulher, mais uma vez vitimizada, se fez de discreta e seguiu em frente. Seria assim pelo resto de sua longa vida, de seu longo casamento. A cada traição ela sabia que o marido infiel depositaria mais uma joia cravejada de diamantes em sua coleção — e ela fingia que não sofria com a vocação galinha do cônjuge.
Uma das diversões das mulheres nas festas da serra era se reunir no banheiro para trocar entre elas os galanteios que uma das maiores fortunas presentes, em sua fúria de sedução, atacando para todos os lados, havia dedicado sem parcimônia ao ouvido de cada uma. Uma das diversões dos homens era ouvir as discussões de um casal ícone da beleza e do sucesso social, principalmente no momento em que ela, uma das louras mais sublimes de todos os tempos da grã-finagem carioca, sonho de consumo de todo leitor da coluna, era criticada por ele pelo crime de, sexualmente, cheirar mal.
De quase todas essas histórias Zózimo estava por dentro (“ele sabia mais do que publicava”, diz Braguinha), só que a fofocagem não cabia em seu repertório. Eram os fatos de sempre, comuns em qualquer outro grande ajuntamento espalhado pela serra ou pela Baixada Fluminense, embora a força dos sobrenomes desse o tom do escândalo midiático. O americano Truman Capote, mais ou menos no mesmo período, estava lançando em capítulos soltos pela imprensa o seu nunca terminado Answered prayers. Eram casos reais com nomes fictícios, tudo mal disfarçado e com os personagens facilmente identificáveis. A sociedade, que durante anos lhe abrira as portas para participar de eventos onde ele colhia as maledicências, fechou-as todas. Capote se fez de contrariado: “O que mais eles esperavam? Achavam que eu era um simples entretenimento? Sou um escritor e uso tudo o que está a meu alcance.”
Zózimo respeitava alguns limites do grupo, uma vez que já pertencia a ele antes de entrar para a patota dos jornalistas. Na hora de publicar uma notícia, equilibrava os dois pratos e decidia. O cineasta Arnaldo Jabor vê no ex-colega do Santo Inácio “alguma coisa ‘antiga’ dos aristocratas que não dispensam uma certa safadeza e rompantes de loucura, que depois se acalmam na ressaca, mas com um sorriso urbano e elegante, descobrindo faces ocultas do high society que descrevia com um leve e educado criticismo, bem diferente do show de celebridades”. Criticismo, sim, porém, como diria Ibrahim, “de leve” — e sempre com extrema fidelidade aos amigos.
O empresário Humberto Saade, dono da grife Dijon, teve a prova disso impressa no jornal. Zózimo frequentava-lhe a casa, um apartamento no Arpoador, dava notas sobre o seu Baile do Champagne no Carnaval e tomou-lhe as dores quando ele foi abandonado pela modelo que fazia a publicidade da companhia, a novata mato-grossense Luiza Brunet. A moça era a cara e algo mais (nas fotos aparecia com os seios semi à mostra) dos jeans Dijon. No dia 21 de agosto de 1985, Zózimo, sem citar Saade, mas escrevendo com a pena da amizade, mostrou-se solidário ao abandonado. Sorriu de um mau passo da moça. Disse que “la” Brunet voltara atrás na decisão de fazer carreira na Europa, motivo de sua saída da Dijon:
• Viajou de um lado para o outro, andou de ceca a Meca,
visitou agências, maisons de prêt-à-porter, etiquetas,
distribuiu currículos e fotos a torto e a direito e acabou não
conseguindo nada — a não ser a promessa de entrar numa
fila de espera de modelos candidatas a aparecer em
anúncios de publicidade. Achou pouco e acabou voltando ao
Brasil. La Brunet começa agora a ler os jornais pelo caderno
de classificados.
Outro amigo de viagens era o francês Robert Bergé, que dirigiu o Hotel Le Méridien, inventou a cascata de fogos lambendo a parede do prédio no Réveillon e revolucionou a gastronomia da cidade ao colocar Paul Bocuse, o chef mais famoso do mundo, à frente da cozinha do restaurante Le Saint-Honoré, no hotel. A tacanha mesa carioca dos destacados Nino, Ouro Verde e Antiquarius ganhou molho contemporâneo. Zózimo, que sempre havia deplorado o provincianismo da cozinha carioca, aplaudiu com notas seguidas.
Em 20 de junho de 1977, publicou “O jantar do ano”, e o cardápio, comparado com os que uma década antes ele descrevia na coluna de Carlos Swann, no Globo, mostrava que o Rio civilizava-se. O ágape, oferecido pelo casal Lourdes e Alberto Proença de Faria, começou com uma “terrine maison, complementada por trufas e gelée, devidamente degustada com xerez”. Como segundo prato, foi à mesa um crème de potiron, com mariscos. Entrou em cena, em seguida, um Montrachet 1971, que também acompanhou o cherne braizé, “de sabor surpreendente pela superposição de dois molhos”, ao qual se seguiu o rôti de paca, servido na amável companhia de um Château Latour 1947. Para tudo se encerrar com a sobremesa, um parfait de moça, regiamente escoltado por champa Krug 1966.
Robert Bergé admirava em Zózimo “o olhar de infância” quando discutiam sobre “trufas, foie gras e vinhos de Bordeaux em refeições entre amigos, celebrando Baco e a grande comida”. Apicius, Renato Machado, José Hugo Celidônio e o jornalista Rodolfo Garcia eram outros convivas. Robert e Zózimo ficaram amigos e Marcia e Annette Bergé, amicíssimas, a ponto de em 1978 o casal carioca seguir com os franceses por uma viagem pela França e a Itália. Robert preparou um tour por restaurantes três estrelas Michelin, uma excursão a que Zózimo creditava grande importância por qualificar seu gosto pela mesa e as boas adegas.
Uma lenda dos bastidores dos meios de comunicação dizia que José Bonifácio de Oliveira, o Boni, da Rede Globo, presenteava os funcionários com uma verba extra de viagem quando o destino era Nova York — sabia que o profissional voltaria de lá com alguma informação para aproveitar em seu trabalho. Zózimo, passeando pelos restaurantes estrelados da França, certamente mais adiante melhoraria a mesa de café dos milhares de brasileiros que acordavam com a leitura de sua página. Fazia pelo menos cinco viagens internacionais por ano.
As empresas aéreas queriam ter o colunista na lista de passageiros e eram generosas na distribuição de bilhetes de ida e volta. Madeleine Archer e Joseph Halfin, da Air France, Henriqueta Castro, da TAP, Claude Amaral Peixoto, da Alitalia, e Lúcio Ricardo, relações-públicas da Varig, presenteavam Zózimo com novos e velhos roteiros do turismo internacional, na certeza de que em seguida a marca da empresa estaria impressa na prestigiada página 3 do Caderno B.
Em maio de 1972, Zózimo circulou entre Tóquio, Pequim, Viena e Paris, sempre colaborando com notas de andarilho de olho diferente e com o adendo “pela Air France” ao lado da assinatura. Em Tóquio jantou com o embaixador suíço Giovanni Enrico Bucher, que havia sido sequestrado um ano e meio antes, no Brasil. De Pequim, mandou a notícia da dificuldade de os diplomatas estrangeiros solteiros conseguirem uma companhia feminina. Um representante da diplomacia chinesa, ao saber do reclamo, ficou de mandar naquela noite mesma uma solução para o problema — e na hora aprazada cada um dos aflitos diplomatas, em vez de uma jovem asiática de olhos puxados, recebeu a visita de um médico com uma enorme e eficaz injeção destinada a acalmar vontade e domar desejos. “O pobre médico”, finalizava a nota, “só não entendeu por que sua visita foi recebida por todos em uma atmosfera de penumbra tão envolvente e suave odor de incenso...”
Todos queriam ter Zózimo ao lado na viagem seguinte. “Ele era disputado porque era poderoso, sua presença dava credibilidade, mas não só”, explica hoje a relações-públicas Anna Maria Tornaghi. “As pessoas se juntavam ao redor dele, a liga surgia, e se fazia a química, fundamental para o sucesso dessas viagens de negócios e promoção. Ficava tudo divertido — e dias depois havia o plus maravilhoso de ele chancelar com uma nota a qualidade daquilo. Eu sentia como se ele fosse o meu sócio.”
Tornaghi foi encarregada pelo Departamento de Turismo da Dinamarca e da Suécia de levar aos dois países um grupo de influentes brasileiros. Ela escalou Zózimo e Marcia, Kiki e Renato Garavaglia, Jeronymo e Therezinha Figueira de Mello. Em outra ocasião, uma marca de vinho fretou um avião e pediu a Tornaghi que escalasse oitenta pessoas, e todos foram até Bento Gonçalves, no Rio Grande do Sul, degustar a nova safra num voo com quatro chefs servindo a bordo. Houve também uma temporada pré-carnavalesca no Recife, por conta da promoção de bal masqué para gente do Sul Maravilha (até o cronista Rubem Braga estava no grupo de sessenta vips). E ainda a inauguração de hotéis em Minas e em Goiás — e Tornaghi sempre convidava o colunista e parceiro como curinga para todos esses eventos.
Zózimo exibia uma leveza existencial que o deixava alguns passos à frente do temperamental Ibrahim, cada vez menos acessível a esses convites mais ligeiros e com um humor difícil de decifrar. Tornaghi, responsável por uma campanha de reabilitação da imagem de Nova York no início dos anos 1980, dava-se bem com o “Turco” e sabia que o homem era imprevisível.
“Por que você fez isso comigo?”, ele gritava, balançando a delicada Tornaghi pelos dois braços. Eles estavam na festa administrada pela RP para comemorar o aniversário da coluna de Ibrahim, na pérgula do Copacabana Palace, e justo naquela noite São Pedro mandara sobre a Cidade Maravilhosa um tremendo toró.
“Por que você fez isso?”
“Isso o quê, Ibrahim?”
“Essa maldita chuva.”
Tornaghi estava sendo responsabilizada pelos humores do tempo. Não conseguiu freá-lo, mas como sempre apresentava uma solução para qualquer problema surgido em suas festas, e transferiu tudo, com grande sucesso e beijinhos agradecidos de Ibrahim, para o Golden Room, no próprio Copa.
Zózimo, mais jovem, menos torturado ainda pelo ofício, seguia aceitando os convites de viagens. Quando os executivos de um congresso da American Society of Travel Agents (Asta) pediram que Ricardo Amaral, agora diretor do Instituto Brasileiro do Turismo, mais conhecido como Embratur, chamasse um jornalista para a reunião de Budapeste, na Hungria, o escolhido foi Zózimo. A viagem rendeu algumas notinhas e mais histórias para os dois amigos passarem o resto da vida se divertindo com a memória delas. Qual era mesmo o nome daquela stripper que se apaixonou por Zózimo e não queria deixá-lo sair do país?
Ele ainda viu o teatro kabuki em Tóquio, comeu sushi no restaurante do lendário chef Jiro Ono, passeou pelos vinhedos de Portugal, cumprimentou Picasso em Barcelona e assistiu a Ayrton Senna ganhar a corrida em Mônaco — contudo, era em Paris que se sentia em casa. Dirigia pelas ruas como se fosse dali e na sua primeira refeição ia sempre ao Chez L’Ami Louis. Dos bares, o preferido era o Les Deux Magots. Tanto podia estar com os amigos Paulo Fernando Marcondes Ferraz no Relais do Plaza como com o empresário Roberto Kreimer na Maison du Caviar ou com o arquiteto Marcos de Vasconcellos num italiano pequeno, esquina das ruas Saint-André-des-Arts e Gît-le-Coeur, na Rive Gauche. Dava preferência ao modo de vida dessa região, mais boêmia, e podia ser visto explorando seus bistrôs, como o Chez Georges, perto da Bolsa de Valores. Em setembro de 1974 ele estava, na Brasserie Lipp, na mesa ao lado da do pintor Max Ernst, com quem trocou algumas palavras e soube dos preparativos de uma retrospectiva no ano seguinte no Guggenheim de Nova York.
Zózimo mergulhou nas águas ao redor da ilha de Brocoió, na baía de Guanabara, casa oficial de veraneio do governador do Rio, no mesmo momento em que Farah Diba, a última imperatriz do Irã, estava nela. Viu a coreógrafa Pina Bausch no Festival d’Avignon, na França, Sinatra em Las Vegas, Björn Borg ganhar de John McEnroe em Wimbledon e Carl Lewis conquistar a medalha de ouro de salto em distância nas Olimpíadas de Barcelona. Em 28 de agosto de 1973, narrou na primeira pessoa as suas mais recentes andanças de colunista globe-trotter:
• Uma semana entre Atenas e Istambul, saindo do Pireu
numa sexta-feira ao anoitecer, seguindo pelo mar Egeu com
escalas nas ilhas de Santorini, Creta, passeio por Kusadasi
até Éfeso, já na Turquia, parada em Istambul, e a volta pelo
lado oposto, conhecendo as ilhas de Patmos e Mykonos até a
chegada na sexta-feira seguinte, a Pireu.
• Eis um passeio que aconselho a todo mundo empenhado
em desligar-se por uma semana de tudo o que é problema e
preocupação, principalmente se o navio escolhido for o
Antiquarius, o mais novo, moderno e bem aparelhado em
transas naquela área (sua viagem inaugural não tem ainda
um ano), e o cicerone for a figura de Diego Suarez, um
companheiro de viagem realmente excepcional.
• Some-se a esse itinerário um dia em Paris, na ida, outro
em Atenas, na volta, e ainda um fim de semana novamente
em Paris à espera do voo de domingo à noite da Air France,
e o leitor terá uma ideia do programa completo que ocupou
a rápida ausência deste colunista.
• Um registro especial para a ilha de Mykonos, um dos
pontos mais movimentados do atual verão europeu, eleita
pelos jovens casais dourados como o lugar da moda — porto
pequeno e pitoresco, casinhas caiadas de branco, comércio
descontraído e alegre, praias lindas, água transparente,
lagostas extraordinárias, jeans em profusão e pé no chão,
sobretudo muito pé no chão.
• E — o que é igualmente muito importante — tudo isso
em dracmas, moeda pouco conhecida mas extremamente
simpática.
Era jornalismo-ostentação da mais fina estirpe e não foi à toa que a partir dos anos 1970 o curso de comunicação começou a ser mais procurado do que o de medicina no vestibular do Rio. Dois dias depois, o próprio Zózimo, esnobe, publicou uma sátira ao seu cruzeiro pelo mar Egeu. Se o primeiro se intitulava “Entre Atenas e Istambul”, a paródia chamava-se “Entre Seridó e Juazeiro”. Dizia ser a carta de um leitor bem-humorado, só que, evidentemente, era de sua lavra:
• Uma semana entre Seridó e Juazeiro, saindo de Petrolina
numa sexta-feira ao anoitecer, seguindo pelo São Francisco
com escalas em Xique-Xique, Cajazeiras, Viramundo e, já na
Bahia, com uma parada em Caixa-Prego do Norte e a volta
pela margem oposta conhecendo Ziquizira, Pau Furado e
Patulândia, até a chegada na sexta-feira seguinte a
Petrolina.
• Eis um passeio que aconselho a todo mundo empenhado
em desligar-se por uma semana de tudo o que é problema e
preocupação, principalmente se a gaiola escolhida for o São
Tomé, o mais novo, moderno e bem aparelhado em transas
naquela área (sua viagem inaugural não tem ainda um
século) e o cicerone for a figura de Severino da Cruz, um
companheiro de viagem realmente excepcional.
• Some-se a esse itinerário um dia em Juazeiro na ida,
outro em Bom Jesus da Lapa, na volta, e ainda um fim de
semana novamente em Juazeiro à espera do ônibus de
domingo à noite, da São Geraldo, e o leitor terá uma ideia
aproximada do programa completo que ocupou a rápida
ausência deste colunista.
• Um registro especial para a ilha de Sapucaia, um dos
pontos mais movimentados da atual seca nordestina, eleita
pelos jovens casais torrados como o lugar da moda.
Mocambo pequeno e pitoresco, casinhas de folha de zinco,
comércio descontraído e alegre, mangues lindos, lama preta,
caranguejos extraordinários, trapos em profusão e pé no
chão, sobretudo muito bicho-de-pé.
• E — o que é igualmente importante — tudo isso em
farinha, moeda muito conhecida e extremamente antipática.
Era a rotina interminável de textos. Zózimo precisava de vez em quando, de preferência num roteiro nas cercanias de Atenas e Istambul — depois, passeando de mentirinha por Seridó e Juazeiro —, se desligar dos problemas e ao mesmo tempo arrumar assunto. O método mais eficaz que via para isso era o pé no jato (mesmo que às vezes levasse uma pequena máquina de escrever na bagagem). O casal Baby e Evinha Monteiro de Carvalho convidou-o várias vezes para assistir ao Grande Prêmio de Fórmula 1 de Mônaco, em Monte Carlo. A hospedagem era na mansão da família, em Saint-Jean-Cap-Ferrat. A corrida em si valia pelo badalo social. O apartamento sobre a pista, de onde os convidados viam a competição, era cheio de sacadas que viravam camarotes divertidos, como nos desfiles das escolas de samba no Rio — já o que acontecia com os carrinhos lá embaixo, zunindo em zigue-zague, a ordem de chegada, isso só se sabia depois pela TV.
Era possível encontrá-lo em vários lugares do mundo, e ele agora estava na Barney’s, uma loja ainda exclusivamente masculina em Nova York, experimentando roupas com Ricardo Amaral. Um ajeitava a roupa do outro, trocando comentários apimentados. O vendedor, “ostensivamente gay”, segundo Amaral, suspeitou que houvesse entre os seus fregueses uma enturmação com a causa e animou-se. Ao final da venda, deu aos dois um convite para uma festa gay que se realizaria naquele fim de semana. Zózimo e Ricardo não foram, mas gargalharam muito com a pinta que deram.
Próxima parada: Saint-Tropez. Os dois amigos estavam num passeio de barco com um milionário francês entusiasmado com os militares da ditadura brasileira. O sujeito elogiava a política internacional de Ernesto Geisel e defendia a necessidade de regime duro para economias em desenvolvimento. Aquilo tudo, junto com o balanço do mar, o champanhe e o desagrado pela situação no Brasil, foi fazendo com que Zózimo enjoasse, discutisse e pedisse que parassem o barco. Ficou agressivo, como se estivesse na arquibancada do Maracanã e o francês fosse torcedor do Vasco — e quando apareceu uma marina, caiu fora. Foi um passeio desagradável, e por muitos anos Zózimo e Ricardo ririam do banzé a bordo.
Na volta de uma dessas viagens recomendou na coluna uma visita ao novo restaurante La Guilande, de Claude Terrail (“o patron do La Tour d’Argent”), a série de concertos de câmara “Mozart aux Chandelles” na nave da Sainte-Chapelle e uma ida a Giverny, a uma hora e meia de Paris, onde haviam acabado de ser restaurados a casa e os respectivos jardins onde morou e se inspirou Claude Monet. “São experiências que aumentam a vontade de viver”, dizia Zózimo encerrando a nota. Em um único ano do fim da década de 1980, ele iria onze vezes a Paris. Mas havia sempre um momento em que o avião aterrissava de volta, no Rio — e era preciso, para que em seguida viessem as experiências que aumentam a vontade de viver, recolher as notas diretamente do telefone da redação da avenida Brasil, 500.