Enquanto Houver Champanhe, Há Esperança

Joaquim Ferreira dos Santos · Capítulo 34 de 50

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Enquanto Houver Champanhe, Há Esperança

Capítulo 34

Às vésperas do Carnaval, Zózimo entrou com o jornalista Augusto Nunes na festa da socialite. Carregava a garrafinha de lança-perfume na mão e a primeira pessoa que viu no salão foi justamente o secretário de Segurança, uma de suas fontes no mundo das notinhas. Zózimo levantou os braços, na clássica imagem de rendição. Entregava-se, culpado confesso e sorridente, em pleno ato de delito, à autoridade presente. Mas era Rio de Janeiro, verão pleno, caos nas ruas, e a cena ficou catalogada nas retinas de Augusto Nunes como mais uma página do humor carioca, a carnavalização tropical dos costumes. Zózimo e o secretário abraçaram-se efusivamente, riram da situação e a vida seguiu, com sua inevitável profusão de champanhe, canapés e paqueras. Ao final da festa, o salão vazio, lá estava Zózimo sentado no sofá do canto, discretamente, ainda com a sua Rodouro, tendo agora como parceiro a reparti-la, na cumplicidade do lenço, o nariz do douto secretário encarregado de zelar pelas leis que colocavam a bisnaga metálica fora delas.

Era Rio de Janeiro na veia, a subversão carnavalesca de todas as expectativas. Uma cena brincalhona e divertida — mas aos poucos Zózimo chegara àquele limite em que o engraçado roça o trágico. Em outra ocasião, antes do primeiro gole, no ritual que compartilhava com o amigo Roberto Kreimer, ele soltava a voz cantando um dos clássicos de Jacques Brel, o cantor francês que o acompanhava desde os momentos de fossa na adolescência. A música era “L’ivrogne” (O bêbado) e Zózimo a cantava em francês, com sua pronúncia espetacular (“Ami, remplis mon verre...”). No Brasil ela ficou conhecida por uma versão de Ivon Curi, que a apresentava, em tom dramático, às vezes caindo ao chão no fim da apresentação:

 

Amigo, enche-me o copo.

Só mais um, e eu vou-me embora

Não vou chorar

Estou alegre e até já canto

Mas dói-me ser assim.

 

Zózimo, a verve de ator mais uma vez aparecendo, simulava ares dúbios de tristeza e alegria, como pedia a letra. Os amigos riam, as mesas vizinhas se impressionavam e era o começo da sucessão de copos. Zózimo podia mudar de sotaque, deixar o francês e atacar em espanhol os versos que ainda conseguisse se lembrar de “Cucurrucucu Paloma”. Quando estava com Ricardo Amaral era inevitável que, além do roquezinho de Celly Campello (aquele do “tenho um amor puro e verdadeiro,/ é playboy, é bom companheiro”), os dois cantassem “doutor em anedota e em champanhota,/ estou acontecendo no café-soçaite...”. Era grande o repertório da “turma do funil”.

Por mérito, o nome de Zózimo passou a ser associado a bebida. No livro Sem receitas contra a ressaca, do jornalista Alessandro Porro e Paulo Brocá, um dos donos do bar Mistura Fina, ele é convidado a dar a palavra de especialista. Diz adotar a receita do então diretor da TV Globo Walter Clark (que anos depois morreria de doenças decorrentes do alcoolismo): “Ao primeiro sinal de ressaca, sirva uma dose dupla.” A família não achava graça. Se Marcia retirava Zózimo das festas quando o teor alcoólico passava do socialmente recomendado, o drama continuava com Dorita.

O que um amigo escreveu certa vez sobre Dashiell Hammett, o escritor americano de policiais, serviria à perfeição para mostrar como o colunista estava naquele momento: “Ele parecia estar bebendo pesado, de um jeito que só faria sentido se não tivesse expectativa de estar vivo depois de quinta-feira.” Zózimo gostava de bebidas finas, como o champanhe Veuve Clicquot, ou Taittinger, dos bordeux Château Lynch-Bages e Château Petrus e do uísque Johnnie Walker. Isso se eles estivessem à mesa. Caso contrário, beberia o álcool possível. E como muitas vezes não voltasse para casa, família e amigos saíam à sua procura, às cegas pela cidade. Certa noite, ao fim de uma jornada de buscas, Paulo Marinho levou-o para a própria casa. Teve o cuidado de, antes de dormir, esconder as garrafas. Deixou Zózimo na cama do quarto ao lado do dele. No meio da noite ouviu um barulho no banheiro. Foi ver, era Zózimo, com cara de criança pega em flagrante. “Barrozinho, o que você fez dessa vez?” “Não, nada!” O problema foi o “nada”. Quando ele disse a palavra, deu uma tropeçada na gagueira e na confusão saiu um arroto. Marinho entendeu imediatamente. O bafo tinha um perfume que ele conhecia bem. “Zózimo, tu tomou meu perfume?” Na dependência do álcool, ele tinha tomado um Equipage, do Hermès. “Foi só um pouquinho!” Era a segunda mentira. O vidro estava vazio.

Aos poucos, o ambiente dessas bebedeiras deixou de ser as festas, os bares ou restaurantes no circuito da Zona Sul e à vista de seus pares. Zózimo passou a fugir para beber. Como Marlon Brando seguindo para o exílio no Taiti, onde ninguém o conhecia e poderia engordar em paz, livre de cobranças para performar o que os outros esperavam dele, Zózimo procurava lugares incompatíveis com o seu status social. Perdia-se pela Lapa e pelas ruas ao redor da praça do Lido, o baixo Copacabana.

Paulo Marinho, companheiro fiel desde a festa à francesa dada por Carmen Mayrink Veiga no longínquo 1973, estava agora, entre os cinco últimos anos da década de 1980 e os primeiros da de 1990, salvando o amigo em recintos sombrios. “O alcoolismo dele tinha um agravante pela vida social que a coluna impõe”, reconhecia Marinho. “A bebida farta e o gosto dele farto por ela juntavam a fome com a vontade de beber, e a situação só piorava com a depressão de já não gostar daquele trabalho.”

Nesses momentos, o gentleman de olhos azuis, conversa agradável, o melhor texto brasileiro em três linhas, transformava-se. Um jantar com o amigo do Colégio Andrews e jornalista Silvio Ferraz, no Satyricon, em Ipanema, terminou com Zózimo algumas doses acima e, mesmo assim, decidido a pegar seu carro e seguir ao volante até em casa, cinco quilômetros adiante. Silvio relutou, mas acabou concordando. Foi em seu próprio carro, atrás, acompanhando o de Zózimo na aventura. Era madrugada, a pista da Lagoa estava livre. A cada movimento mais trôpego do carro do amigo, que ameaçava sair da avenida, Silvio buzinava para que o barulho despertasse Zózimo. A qualquer instante aquelas viagens por estradas, bares e circuitos alternativos do Rio poderiam chegar a um final não tão feliz como o daquela noite.

De início as ausências no JB eram encaradas com naturalidade, já que aquele tipo de trabalho sempre o expunha à possibilidade de excesso diante do álcool gratuito. Com o tempo, no entanto, elas se tornaram mais longas e chamaram atenção. Fred reclamava de estar fazendo a coluna sozinho, e com salário bem mais baixo que o do titular. Na virada para os anos 1990, Zózimo desapareceu no dia em que o companheiro ia sair de férias. Fred não quis saber e largou a coluna com Marly e Artur Xexéo, editor do Caderno B.

Zózimo, às voltas com seus demônios secretos, “uma angústia profunda, um príncipe que sabia que não era”, segundo uma amiga, perdia-se em algum canto estranho da cidade. As notícias sobre os bastidores dessas ausências circulavam sem dó pela redação. Muitas vezes, com sua tendência de rir de tudo e de nada levar a sério, ele próprio folclorizava os acontecimentos, lembrando-se de cenas dramáticas que, com sua conversa charmosa, viravam comédia. Nem sempre, porém. Em dias de depressão mais intensa, mostrava-se envergonhado.

Teve a mulher que telefonou desesperada pedindo que alguém fosse até o motel Ebony, na Glória, porque Zózimo estava lá, desacordado — e dessa vez quem fez o resgate foi a própria Marly, que encontrou o chefe sozinho cercado de garrafas. Sergio Bermudes também participava desses socorros e depois o velava por uma boa noite de sono, em segurança. Uma noite, precavido por Paulo Marinho, dormiu atravessado na porta do banheiro para evitar que Zózimo acordasse e assaltasse os perfumes.

Essa brigada de amigos às vezes estendia a blindagem etílica por uma semana, até que o monstro sumisse e o corpo fosse devolvido a quem de fato pertencia. Tentava-se de tudo. O professor e psiquiatra Celso Cezar Papaleo foi levado por Bermudes para ter uma conversa com Zózimo. Foram duas horas e meia de tête-à-tête. A calma que se seguia a esses bons encontros não resistia muito tempo e outra equipe de resgate precisava sair às ruas.

Essas patrulhas noturnas disparadas sem GPS pelo Rio terminavam em histórias dolorosas de um homem doente, cumprindo a herança genética. Zero de riso. Numa noite, porém, o clima beirou comédia de trapalhões. Paulo Marinho estava com Zózimo no carro, recolhido num muquifo escuro da Lapa, quando ao celular a mulher de Ricardo Boechat anunciou que estava parindo e o marido, às voltas com o fechamento da coluna no Globo, não podia acompanhá-la. Marinho partiu para essa segunda operação de saúde. Com Zózimo no carro, ainda sob algum efeito do álcool que ingerira na recém-encerrada temporada, conduziu a mulher para o Hospital Santa Mônica, em Niterói, onde o médico já a esperava. No carro, em plena madrugada, diante dos gritos dela, Zózimo tentou fazer manobras de parto no banco traseiro do carro, graças a Deus sem sucesso. Era só o primeiro capítulo. No hospital, para que a papelada corresse mais rapidamente, ele se anunciou como o pai da criança que nasceria, linda e saudável, logo em seguida, filha do outro colunista, Boechat. Já não estava de porre e voltava ao bom humor que a doença queria embebedar.

A todos esses informes, Nascimento Brito reagia com o carinho de sempre. O talento de Zózimo, dizia, compensava qualquer sacrifício para mantê-lo. Em conversa com amigos do colunista, ele se mostrava preocupado, e como era hipocondríaco acreditava haver outra doença por trás das crises. Não podia ser só alcoolismo. Mandou-o, em 1989, para um check-up num hospital americano com Sheldon Wolff, o seu médico, também da elite carioca. Além do enfisema, já diagnosticado no Brasil, não se descobriu nada de notável.

Antes, ainda, Paulo Marinho tinha feito algo semelhante. Aproveitara que ia a um exame de rotina no Instituto do Coração em São Paulo e levou Zózimo. Ao final da cineangiocoronariografia, o médico deu seu parecer. O coração de Marinho, que anos antes havia pregado um susto, continuaria em observação, exigindo cuidados. Já o de Zózimo foi considerado de bebê. Estava uma maravilha, liberado para bater, sem excessos, no ritmo de vida que o dono achasse apropriado. Era o que Zózimo queria ouvir. “Você fica aí enchendo o meu saco com esse papo de parar de fumar, parar de beber, mas o teu próprio médico atesta que eu sou um atleta”, vibrou.

O caso era, evidentemente, de outra especialidade médica. O alcoolismo marcava de um lado, já presente na família com o caso do tio Geraldo e com vestígio, embora não diagnosticado com a mesma gravidade, na saúde do pai e do avô. A depressão da mãe era onipresente em Zózimo. Quando se abatia, costumava lembrar com raros amigos a relação pouco feliz e íntima que tinha com ela. Falava muito de Boy, sempre com gargalhadas e admiração. A mãe era uma ausência, um silêncio jamais diagnosticado.

Zózimo procurou em épocas diversas apoio psicológico. Com um dos médicos não se consultou por muito tempo, mal impressionado que ficou com o fato de ele usar — “onde já se viu?”, ria com os amigos — “meias de Ban-Lon”. “Não pode dar certo um psicanalista assim”, dizia. Esteve por um longo período, a partir de dezembro de 1988, com o psiquiatra Jorge Elias Salomão, em Ipanema. Obedecia a uma indicação do seu clínico geral, o médico Pedro Henrique de Paiva. Era terapia de apoio, sem medicamentos. Quando a crise ficava séria, Zózimo batia na porta de Salomão, e quando se sentia um pouco mais seguro se afastava de novo.

Os resultados positivos não se prolongavam. Ele precisava se dedicar com mais ênfase ao problema. O processo de autodestruição permanecia — e o trabalho que escolhera para levar a vida não ajudava. A amiga Roselyne Malamud viu a cena diversas vezes. “Eu ia ao Hippopotamus, ao Regine’s, e ficava observando como o Zózimo era cercado pelos chatos, que, en passant, diziam alguma coisa no ouvido dele, na esperança de no dia seguinte abrirem o jornal e verem lá o que tinham dito. Só com muito uísque para aguentar aquilo.”

A rotina prosseguia — e lá ia Paulo Marinho caçar o amigo como se fosse um Indiana Jones pela selva da cidade. Como localizar alguém que desaparece sem dar qualquer notícia? Alguém que nem sequer alega uma doença para faltar ao trabalho? Poderia estar morto, sequestrado, desfalecido num canto. Todas as opções passavam pela cabeça de parentes, amigos e colegas, que saíam em busca, ao vivo ou por telefone, pelos endereços mais habituais do desaparecido. Os desenhos clássicos dessas crises repetiam-se. Passavam-se dois dias do sumiço sem qualquer notícia. No terceiro, Zózimo telefonava para Marinho dizendo que estava tudo bem, que não se preocupasse. No quarto dia, depois de atender a vários telefonemas dos diretores do JB, apreensivos com o paradeiro do seu principal colunista, Marinho via surgir entre as pistas que buscava o cheque ao portador, o GPS da época.

No térreo do JB ficava uma agência do Banco Nacional que atendia basicamente aos funcionários do prédio. Os cheques assinados por Zózimo iam parar ali no guichê, com portadores diversos, e os caixas, cumprindo ordens, passavam a informação diretamente para a avaliação do gerente Cadu, que telefonava para Paulo Marinho, que pegava um táxi e zunia para o prédio do jornal. O portador levava Marinho até o dono do cheque. Uma vez foram parar numa quitinete da rua Prado Júnior, em Copacabana. O cenário era decadente, garrafas pelo chão, mulheres que entravam e saíam, e Zózimo, amarfanhado, mas de bom humor. “Paulinho, estas são as verdadeiras grandes damas da sociedade carioca”, divertia-se, enquanto a dona do pardieiro, temerosa de que fossem pessoas importantes e trouxessem problemas, pedia que se retirassem logo.

Algumas vezes, quando sentia que a aventura chegara aos estertores, o próprio Zózimo ligava pedindo, sem drama, apenas cansado, que Marinho fosse buscá-lo. Uma amiga chegou a resgatá-lo na favela da Rocinha. Os lugares mais comuns desses reencontros ficavam na Lapa, o lado de lá mais afastado a que se podia chegar do cenário de salões elegantes frequentados por Zózimo. Eram verdadeiros esconderijos, locais em que ninguém tinha noção da importância daquele homem. Segundo Marinho, saía de lá um Zózimo de aspecto físico degradante, já que passava às vezes até uma semana sem ver a luz do sol, só bebendo e conversando — “ele se sentia à vontade, relaxado, naqueles ambientes”.

Dessa vez Marinho encontrou Zózimo num sobrado desolador da rua Frei Caneca, na mesma Lapa. A senhora que tinha ido ao banco descontar o cheque era a responsável pelo bas-fond, constituído, segundo Marinho, de mulheres sem qualquer sex-appeal. Zózimo, com a mesma educação com que se movimentava nos melhores salões, fez as apresentações. “Vem por aqui, Paulinho”, dizia, “porque você precisa conhecer as minhas amigas. Isso é gente da melhor qualidade, conversam muito bem, estou muito bem aqui.” Marinho falou com todos também gentilmente, tentando encerrar a temporada. Foi um processo de convencimento difícil. “Não se preocupe comigo, quero ficar por aqui mais tempo”, pedia Zózimo.

Meia hora nesse “vem” “não vou” “por que você quer me levar se estou bem?”, e Marinho perdeu a paciência. Aproveitou que o amigo estava de porre e, aos empurrões, foi fazendo com que saísse do apartamento. Jogou-o ao chão, segurou-o pelas calças e tentou arrastá-lo, porém havia uma escada no meio do caminho — e Zózimo rolou, facilitando o carregamento mas com enorme risco. Não quebrou nada. Marinho botou o amigo desacordado dentro do carro e levou-o da pocilga. Podia ir com ele direto para a Clínica São Vicente, onde às vezes Zózimo se internava por uns dois dias. A clínica fica num canto da Gávea, bairro escondido, e no alto de uma ladeira. Não tinha como alguém ver aquela celebridade do jornalismo no estado de um pós-porre.

Ao fim do resgate dramático, Marinho preferiu, porém, seguir para uma suíte no Copacabana Palace. Estava morando ali por causa de uma obra em casa, logo ao lado, no edifício Chopin. Deu um banho em Zózimo. Na hora de dormir, para evitar novo incidente como o do vidro de Equipage, teve uma ideia radical, desesperada, só que, diante das circunstâncias e do histórico do personagem, necessária. Um dos luxos do hotel era oferecer aos hóspedes roupões de toalhas felpudas, com aquele branco confortável do mais puro algodão. O uso que eles teriam dessa vez não estava relacionado à felicidade de passar a noite no mais charmoso cinco estrelas nacional. Marinho pegou os cintos de dois roupões e deu um nó, fazendo com que medissem quase cinco metros. Estava um bagaço, precisava dormir sem correr riscos de botar tudo a perder. Amarrou uma das pontas na sua perna direita. A outra, amarrou na perna direita de Zózimo. Dormiriam presos pelas pernas. Se ele tentasse sair da cama, perceberia. Acordaria e cuidaria para que o amigo não fosse até o banheiro beber algum perfume ou, pior, voltar para a Lapa.

O aspecto de Zózimo pela manhã era pavoroso. Desgastado pelas noites na Lapa, pelo álcool, sua pele, normalmente muito branca, era uma vermelhidão só. Soltava uma pigmentação em meio a caroços diversos. Marinho foi até a frente do espelho com ele: “Olha só, olha como você está!” Zózimo não emitia palavra. “Olha como você tá, meu irmão! Você tem que parar com essa merda. Isso não vai dar certo! Você vai perder tudo! Vai morrer na merda!”

Sempre de olho, esperou que se arrumasse para a terapia ocupacional de ir até o jornal. Ficou com ele o dia inteiro na redação, observando-o à cata de notinhas. Recém-saído da crise, Zózimo podia ficar chato, e uma das manifestações disso era telefonar repetidas vezes para os amigos, a troco de nada. Ricardo Amaral não atendia. Zózimo então ligava para Sergio Bermudes. Pedia ao “Guru” que ligasse para o “Barba” e anunciasse uma das notas do dia seguinte: “Não será surpresa se Ricardo Amaral for à falência.” Bermudes não telefonava. Zózimo voltava a ligar perguntando se tinha feito o que pedira, e ficavam nesse moto-contínuo. Fazia parte da estratégia de mantê-lo ligado em outro assunto, até Zózimo livrar-se de mais uma turbulência.

O alcoolismo detonava alguma peça que fazia com que Zózimo se afugentasse nos porões da sociedade. Em algumas dessas buscas também seguia Dorita. Ela não se sentia desesperada nem traída. Nada disso combinava com sua personalidade. Ficava com raiva da dor provocada pelas crises do homem que amava. Era o momento, julgava, em que o marido, atormentado por culpas que carregava, ficava livre, solto, e se permitia qualquer coisa. “Prefiro a morte, que chegará de todas as maneiras, a ter que abandonar os prazeres desta vida”, disse-lhe Zózimo uma vez. Ela o amava. Acima de tudo, compreendia-o.

O resto era o mistério divino. Aquele homem educado, bonito, cobiçado pelas mulheres, bem-sucedido profissionalmente, admirado por todo o país, era a confirmação da frase do cronista Humberto Werneck, um pensamento definitivo em sua sabedoria cruel: “Quando felicidade não traz felicidade.”