Enquanto Houver Champanhe, Há Esperança

Joaquim Ferreira dos Santos · Capítulo 4 de 50

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Enquanto Houver Champanhe, Há Esperança

Capítulo 4

O padre Barros era o mais rigoroso de todos os professores do Colégio Santo Inácio, a Santa Sé do ensino religioso no Rio. Foi onde Boy, com a boa intenção de colocar o filho nos rumos da elite carioca, matriculou Zózimo em 1952, aos onze anos, na admissão, a série de passagem do primário para o ginasial. Do alto do púlpito, Barros clamava aos alunos sobre o vício da masturbação, o mal de todos os males, a mais veemente e, óbvio, única prática sexual dos jovens daquela escola: “Tua alma vai para o inferno, queimar por toda a eternidade...”

Um dos colegas de turma de Zózimo era o futuro cineasta e escritor Arnaldo Jabor. Ele liderava o grupo de adolescentes que queria discutir o dogma com o padre austero, o representante de Deus mais próximo a eles. Brincar com o pinto não podia estar carregado de tanta culpa. Todo dia, no entanto, Barros passava a informação sobre a proibição rigorosa. Jabor atravessou a adolescência com a impressão de que o Senhor era um sujeito de maus bofes, obrigando todos aos rigores da eterna vigilância.

“Mas, padre, o cara passa uma vida santa. No último dia, antes de morrer, falta a uma missa. Vai para o inferno?”

“Por toda a eternidaaaade...”, vaticinava o padre, ajudando com a vogal esticada a aumentar o eco que o pé-direito alto da sala já reverberava e que parecia ter conexão direta com a Sala Suprema.

Jabor dava trabalho.

“Deus é infinitamente bom?”

“Sim, infinitamente...”

“Ele sabe tudo o que vai acontecer?”

“Sim.”

“Então”, fechava Jabor, “se ele sabe que fulano vai pecar e vai para o inferno, para que ele cria o cara?”

Os diálogos dos protagonistas eram bons, prontos para serem transformados em crônicas do cineasta cerca de cinquenta anos depois. A turma na plateia também era da pesada — outro futuro cineasta, Cacá Diegues, uma série apenas na frente, sofria igualmente com os interditos católicos. O cenário arquitetônico do Santo Inácio, deslumbrantemente opressivo, servia de fundo: abóbadas góticas, salas escuras, uma igreja numa das alas, imagens de santos e uma galeria de rostos de velhos padres espalhados pelas paredes. Do centro das molduras, olhavam firme, como se cobrassem estudo e pureza de corpo. “Quantas vezes praticaste o ato solitário?”, era a pergunta que os padres faziam, numa obsessão irrefreável, aos sábados, durante as confissões semanais que preparavam para a comunhão na missa de domingo. Outra pergunta contumaz: “Teve maus pensamentos, meu filho?” — e na amplidão do que pudesse ser “mau” cabia todo tipo de depoimento.

Zózimo, um aluno de notas medianas, destacava-se fora da escola por um quesito mundano: vestia-se com personalidade. Jabor lembraria por muitos anos a primeira vez que o viu. O colega estava de calças curtas, com um incrível mocassim e óculos Ray-Ban, “como se nos pés evocasse um indígena americano e nos olhos um aviador da Segunda Guerra”. Ficou com inveja, um pecado pouco advertido no colégio. A mesma elegância não aparecia nos cadernos de Zózimo. Apresentava alguns acertos promissores no português, mas só. Não gostava do Santo Inácio. Em casa, para a irmã Izabel, dizia sentir “falta de ar” quando chegava à sala de aula. Reclamava dos padres, fechados e implicantes. Não terminava uma semana sem ficar “retido” por indisciplina. Às vezes, a punição era ficar em pé no corredor durante o recreio, de frente para uma imagem de Cristo. Falar “merda”, por exemplo, como uma vez fez ao tropeçar numa cadeira, dava direito ao castigo.

Acostumado ao clima solto da “escola tico-tico” em que estudara o primário, com a dona Helena amiga de seus pais, o garoto se abatia com o distanciamento afetivo dos religiosos. Pedia que Boy o tirasse de lá, embora gostasse dos colegas, e todos se lembrariam dele como um cara solidário e parceiro. Na aula de educação física, atuava como um goleiro de méritos, titular da seleção do colégio. Autoapelidou-se Zózimo Borracha, para lembrar o goleiro Luiz Borracha, astro do Flamengo nos anos 1940.

De acordo com as notas, os alunos recebiam no fim do mês títulos que iam de “conde” a “imperador”, passando por “duque” e “príncipe”. Era um exercício para os líderes do futuro se acostumarem à hierarquia de nobres. Em um semestre, Zózimo chegou a ser “duque”, mas logo voltou à condição de “conde” e com ela se conformou.

Ele reclamava de todas as etapas do ritual. Da farda cáqui usada ao longo da semana, cheia de botões dourados, e da farda branca, de luxo, para a missa aos domingos. Todo dia, ao entrar no colégio, beijava-se a mão do padre-prefeito, Barreto, que se postava ali, imóvel, batina negra, com as mãos estendidas em oferenda. Eram trezentos meninos. “Eu ainda me lembro do vago cheiro de sabonete e cuspe no dorso cabeludo da mão do padre”, escreveu Jabor décadas depois.

Zózimo se sentia deslocado quando chegava a época das Missões, o mês em que os alunos eram estimulados a contribuir, com dinheiro, para a evangelização do mundo. Os padres acirravam uma competição para ver quem pingava mais na lista, quem já se destacava pela generosidade — e esses começavam a ter mais prioridade que os outros no grande percurso que todos iniciavam rumo ao paraíso divino. Uma das formas de contribuir era comprando rifas. Boy admirava a educação dos jesuítas, mas era mais dos prazeres terrenos. Sua adoração aos santos poderes da Igreja católica ia até certa quantia. Podia ser classificado como discreto nas doações, o que fazia com que Zózimo, mais uma vez, não se destacasse entre seus pares.

Os alunos passavam rápidas temporadas internados numa espécie de retiro espiritual, numa casa que o Santo Inácio mantinha numa colina da então longínqua praia de São Conrado. Ouviam palestras, confessavam maus pensamentos, comungavam o corpo de Cristo e brincavam de um jeito que incorporava mais ou menos o clima sobrenatural daquilo tudo. No inverno, os padres jesuítas andavam com capuz. Todas as cenas ao redor pareciam às voltas com almas e geografias de outros mundos.

Uma noite, Luiz Roberto Londres, que viria a ser médico e diretor da Clínica São Vicente, na Gávea, ouviu de seu quarto, no início da noite, um berro. Era do colega João Dantas, que dormia. Jório Salgado Gama Filho, que seguiria carreira no Itamaraty, resolveu pregar-lhe uma peça dentro do espírito religioso do educandário. Convocou os colegas, todos encobertos por lençóis brancos, como se fossem fantasmas de desenho animado. A sofisticação da cena veio do fato de Jório, antes da ação, colocar as mãos num bloco de gelo. Entrou com os outros fantasminhas no quarto de Dantas, encostou-lhe os dedos gélidos no braço e, dirigindo-se aos outros fantasmas, disse-lhes com voz trêmula, tomada emprestada de uma chanchada de Grande Otelo: “Vamos rezar pela alma do nosso amigo morto.” Acordado pela voz, pelo gelo e pela ala de fantasminhas, Dantas abriu o berreiro. Tentou pular da cama. Só aí, diante da gargalhada de todos, percebeu que ainda estava vivo.

Eram momentos de comédia eucarística, intervalos de bagunça juvenil em meio a um ambiente de extrema solenidade. A rotina fazia-se sem risos, porém. Depois das preleções dos padres, todos se retiravam para cubículos onde, sozinhos, meditavam sobre o que tinham acabado de ouvir e escreviam suas impressões. Guardados, esses textos teriam valor histórico imenso, mas eram incinerados. Por causa deles, Cacá Diegues, que escreveu confessando ter tido delírios místicos nessa antessala da clausura, quase se tornou padre, tal o brilho religioso e literário de suas confissões.

O produtor de cinema Joaquim Vaz de Carvalho consideraria “um milagre” a sobrevivência de todos “àquela inoculação de culpa”. A sedução do pecado perseguia a turma. Foi nos colégios religiosos que surgiu a expressão “catecismos” para identificar as revistas pornográficas do desenhista Carlos Zéfiro. Eram colocadas dentro dos catecismos de verdade, o que dava a impressão de que o menino estava vendo imagens sagradas do Espírito Santo, quando, de fato, regalava-se com os poderes da carne. Zéfiro foi quem mostrou aos garotos dos anos 1950 as primeiras imagens de mulheres nuas — e já fazendo sexo, já gemendo, já verbalizando o que queriam, educando para as posições do evento que a Igreja considerava tão pecaminoso. Padre Barros primeiro apreendia as revistas. Depois, queimava-as numa espécie de ritual de exorcismo.

Ele contava a história de um aluno atropelado por um ônibus no momento que lhe passava pela cabeça um pensamento lascivo. No dia da missa do sétimo dia, o morto teria aparecido minutos antes na sacristia. Fez ao padre o pedido de que rezasse a missa por outro. Não perdesse tempo. Ele já estava “com a alma danada”, entregue às tais chamas do inferno desde o momento do mau pensamento, o único que tivera em toda a sua curta vida — e por isso fora atropelado pelo ônibus do diabo.

De resto, o assunto era aquele. Os meninos se apertavam os bicos do peito, um beliscão doloroso, na crença de que, conforme rezava a lenda urbana, uma camada de gordura ali denunciaria os punheteiros contumazes. “O vício solitário é um pecado mortal porque cada vez que você o pratica são milhões de seres humanos que poderiam nascer e que morrem na vala comum dos esgotos”, dizia padre Barros. Um dos truques da turma era esfregar a pasta Lugolina no rosto para esconder as espinhas, outro fator corpóreo que entregaria o atleta das bronhas adolescentes.

Era o sexo possível. As moças insistiam em levar a virgindade até a cama nupcial e entregá-la como honra ao mérito ao marido. Cacá Diegues e muitos dos alunos do Santo Inácio iniciaram suas vidas sexuais no roteiro entre os quartos das empregadas, os bordéis em quitinetes de Copacabana e o famoso Castelo da Lili, na rua Alice, a Casa Rosa de Laranjeiras. No colégio, continuava a caça a qualquer pulsação sexual, fosse a punheta, o cinco contra um, o descabelar do palhaço e outros vulgos chulos usados pela turma para aliviar a tensão e descascar a banana. “O diabo nos espreitava detrás das estátuas de Santa Teresa em êxtase, nas coxas dos anjinhos nus, nos seios fervorosos das beatas acendendo velas”, diria Jabor.

Certos padres tinham tesão nas mães dos alunos e procuravam alguma nesga de carne sob os decotes. Nem todos, diga-se. Um padre, que atraía os garotos com números de mágica, tentou beijar Jabor uma vez num canto da clausura. Quando ele comentou o caso no confessionário com outro padre, este mudou de assunto, segundo Jabor, “como se a pedofilia fosse uma prática necessária à manutenção do celibato”.

O sexo trazido pelo diabo, por mais que se orasse, permanecia em todos. Era chicoteado com violência pelo padre Barros, mas não adiantava. Servia como pano de fundo do colégio — cada um dava o seu jeito. Um dia, numa palestra, e Zózimo estava na plateia, um padre contou a história de um escoteiro que cavalgava pelas praias do Havaí. Jovem, bonito, carregava também o orgulho da sua castidade. Súbito lhe apareceu, passeando pela mesma praia, uma linda havaiana au grand complet. A moça começou a dançar um hula-hula endemoniado e o escoteiro ficou fascinado. O padre era novo na escola e a turma achava ter finalmente encontrado uma alma gêmea no andar de cima. Parecia que agora, graças a Deus, valia acreditar na fé. Alguém da Igreja, da mesma maneira que eles, sentia o desfalecimento de quando estavam próximos a uma menina. A havaiana, cheia de curvas, rebolando tudo o que sabia e que mais tarde seria copiado nos filmes de Elvis Presley no Havaí, ofereceu os lábios úmidos para um beijo. “Foi aí que se deu o milagre”, gritou o padre. “Nosso herói, à beira do colapso, reuniu suas últimas forças e, rezando entre os dentes, chicoteou o cavalo. O escoteiro ouviu a voz do Senhor e saiu galopando. Chorando, afastou-se para bem longe da linda havaiana, uma enviada do demônio. E assim ele continuou puro e cavalgando pela vida sem pecado.”

Em 1956, com quinze anos, na quarta série ginasial, com um metro e setenta de altura (vinte e seis centímetros a mais do que constava na sua ficha de inscrição na admissão, em 1952) e com cinquenta e seis quilos (dezenove a mais), Zózimo ouviu pela última vez esses sermões. Ao final do ano, recebeu um boletim de notas constrangedoras, com um resultado global de 4,65. Tinha sido ótimo aluno na exótica cadeira de trabalhos manuais, com 9. Em ginástica levou “excelente” na prova de eficiência física. Em canto orfeônico, para quem gaguejava ligeiramente, teve um surpreendente 5,9. De resto, nas matérias que importavam, foi lamentável. Em latim, ficou com 1,22; em matemática, com 1,63; e em ciência, com 3,28. Em português foi bem. Numa redação que apresentou em agosto tirou nota 9 e só perdeu um ponto certamente por causa das vírgulas trôpegas que espalhou pelo texto. O professor deu como tarefa para a classe escrever uma carta com um pedido de emprego. Escreveu Zózimo Bráulio:

 

Excelentíssimo senhor, venho, por meio desta, solicitar-lhe

um favor, que não lhe será custoso fazê-lo.

Sabendo que V. Excia. ocupa um alto cargo na direção do

país, peço-lhe que empregue um rapaz de confiança,

consciente de seus deveres, e que se encontra desocupado

por circunstâncias alheias à sua vontade.

O indivíduo do qual lhe falo é moço, instruído e

capacitado a fazer qualquer trabalho. Sabe falar

correntemente inglês e um pouco de francês.

Sendo V. Excia. um homem bondoso, bem sei que não irá

me negar tão prestimoso favor.

Agradecendo-lhe desde já, subscrevo-me atenciosamente.

 

Esse texto, razoável apesar da profusão de pronomes, deu a Zózimo a média 6,13 em português. Infelizmente, não o impedia da tragédia. A média final abaixo de 5 o reprovava. “Zereta na caderneta”, ele lembraria anos mais tarde e pelo menos por duas vezes usaria na coluna a expressão, obra-prima de um professor do colégio que vibrava com o fracasso alheio.

Dentro de mais um rigor do Santo Inácio, a média baixa expulsava o aluno. Ali não se admitiam punhetas nem reprovações. Zózimo não ficou exatamente contrariado. Alguns colegas suspeitam até de ele ter feito corpo mole para ser jubilado e, conforme pedia, cair fora para se livrar do “sufoco”, respirar. Numa última blasfêmia, agora sem punição, deu um aliviado “graças a Deus” quando soube que estava fora — e foi ao cinema.