Enquanto Houver Champanhe, Há Esperança
Capítulo 14
“E aí, Verinha, tinha champa da boa?” Vera Bocayuva, vinte e três anos, chegava todo dia à redação do Jornal do Brasil, no terceiro andar do prédio, por volta do meio-dia. Sabia que seria essa a primeira pergunta de Zózimo, seu chefe. Quase sempre a resposta era afirmativa. Ela foi a primeira repórter da coluna, atividade para a qual não havia se preparado. Era formada em desenho de moda por uma universidade americana. A vida que levava e o sobrenome tornaram natural a aproximação com Zózimo. Filha do deputado Bocayuva Cunha, amigo de Nascimento Brito e bem relacionado na sociedade, ela era típica representante da geração pão com cocada, como rotulava Ibrahim Sued. Frequentava praias e festas, sem preocupações profissionais.
Quando entrava em casa e perguntava à empregada quem tinha ligado, a cocadinha ficava sabendo que, além dos recados dos amigos da praia, havia os de senhores sérios e bem mais velhos. Ela os conhecia apenas das páginas dos jornais, assinaturas como a do próprio Ibrahim e Zózimo, ainda no papel de Carlos Swann. Eles sabiam dos contatos de Verinha, eram amigos de Bocayuva Cunha, fonte generosa, um homem articulado com as facções de esquerda. Uma coluna se faz de diversidade, e ela, jovem, frequentadora do Le Bateau, da praia da Montenegro, rua que depois se chamaria Vinicius de Moraes, em Ipanema, e do Cine Paissandu, sabia de tudo que acontecia no mundo jovem. Os colunistas passaram então a, num só telefonema, pegar notas de política com o pai e, em seguida, do frenesi jovem com a filha. Era um segmento difícil de ser vasculhado por homens mais velhos. Ansiavam por informações daquilo que, seguindo a onda francesa, chamavam de jeunesse dorée.
Verinha tinha sempre alguma coisa para passar aos amigos do pai. Quando este a convocou para trabalhar — qualquer emprego, mas que parasse com a rotina de praia-e-festa —, a jovem não teve dúvida. Levaria aquilo a sério. Disse que poderia ajudar os colunistas a encher suas páginas.
A operação trabalhista foi simples. Bocayuva Cunha falou com Maneco Brito, que falou com Zózimo, que achou ótima a ideia — afinal só tinha a secretária, Marly Gonçalves, que levara do Globo, para ajudar na garimpagem das notinhas. E lá estava Verinha, agora profissionalmente, fazendo a ronda das champas para o novo colunista social do JB. Ela logo percebeu as durezas de um batente. Cobrir a sociedade jovem era diferente de frequentá-la. O que era notícia?
Um dia, uma nota que começou com apuração de Pomona Politis, fonte de Zózimo no Itamaraty, passou pela mão de Marly e foi escrita por Verinha. Era uma combinação explosiva de duas novatas — Zózimo estava viajando — e deu-se o tilt inevitável. Elas se acusaram pela “barriga” e não se chegou à conclusão sobre o responsável pelo erro de informação. Lamentavelmente, saiu que o embaixador Renato de Lacerda Lago assistia comovido, no Itamaraty, à condecoração da esposa, a embaixatriz Esther Proença do Lago, com a medalha Tamandaré. A nota, em sua tentativa de exatidão, colocava até um chapéu Belot na cabeça de Lacerda do Lago — e tudo teria sido de fato elegante, lindo e nobre, merecedor de espaço jornalístico, não fosse o fato tristemente real de que o embaixador já não estava entre nós havia dezessete anos. Sua Excelência morrera enfartado.
A embaixatriz ligou enfurecida, passou um sabão em Marly e em Zózimo, que chegara da viagem justamente no dia da publicação da nota. Não havia o que fazer a não ser partir para o lamentável desmentido. Zózimo foi para a máquina — ele agora já datilografava, com dois dedos — e acertou o status do embaixador. Errare humanum est.
• Quem assistia comovido ao lado do embaixador Vasco
Leitão da Cunha à condecoração da embaixatriz Esther
Proença do Lago, viúva do embaixador Renato do Lago, com
a medalha Tamandaré, era o embaixador Mauricio Nabuco,
seu velho amigo. É óbvio que a pessoa que informou a
coluna cometeu um equívoco.
Apesar dos problemas, Verinha poderia ter continuado por muitos anos com o trabalho. Gostava da tarefa. O jornal lhe pagava para frequentar festas e bater papo ao telefone. Ela foi uma das vítimas, no entanto, do sequestro do embaixador americano Charles Elbrick, em 4 de setembro de 1969. Verinha estava na casa da família, em Santa Teresa, acompanhando pela TV o desfecho do sequestro: ao mesmo tempo que os presos políticos trocados pelo embaixador chegavam ao México, o embaixador chegava em casa. Foi aí, em meio a esse troca-troca, que duas dezenas de soldados do Exército interromperam o almoço de domingo dos Bocayuva Cunha. A família foi presa e, antes de chegar ao xadrez, todos já sabiam o motivo. Helena, irmã de Vera, alugara outra casa da família, em Santa Teresa mesmo, para os sequestradores. Ela era da Dissidência Comunista da Guanabara, grupo que apoiara o MR-8 na ação. Com exceção de Helena, os Bocayuva eram inocentes — mas foram necessárias duas semanas em cana para deixar isso claro.
Na primeira semana de cadeia na Vila Militar, em Deodoro, Verinha recebeu de Zózimo e dos colegas do JB uma cesta de comidinhas e bebidas. Viu Paulo Francis passando, preso, do outro lado do pátio — e foi advertida pelo pai a desconhecer quem quer que fosse, inclusive o famoso jornalista do Pasquim. Não houve tortura, apenas o terror natural da prisão, a indignação pela arbitrariedade e os interrogatórios nonsense do major Moacyr Fontenelle.
“O que a senhora faz?”, perguntou o major, que depois ganharia honras militares por prender Cid Benjamin, jornalista, um dos líderes do sequestro.
“Eu trabalho na coluna do Zózimo”, respondeu Verinha. Ela tentou colocar alguma notinha de humor no interrogatório, esvaziando qualquer suspeita que ainda pudesse existir sobre a sua virulência política. “Conto amanhã o que Didu e Tereza de Souza Campos fizeram ontem à noite.”
“Por que a senhora não conta o que a gente faz na luta contra o terrorismo?”, devolveu Fontenelle.
“É porque eu não conhecia o senhor, agora vou passar a noticiar.”
Verinha não pôde mais noticiar nada. Depois de ser libertada, ainda se refazendo do susto, recebeu a visita em casa de Wilson Figueiredo, editorialista do JB. Ele cumpria ordens da condessa Pereira Carneiro. Lamentava muito, mas os tempos não permitiam que o jornal mantivesse em seus quadros alguém envolvido em uma questão de segurança nacional. Verinha, colunista por seis meses, estava demitida do trabalho de ir às festas pautada pela coluna. Voltava a ser apenas uma linda cocadinha na praia do Posto 9, a da intelectualidade de Ipanema.
As tentativas seguintes foram Diane Lisbona, ex-aluna de Alberto Dines na PUC, e Gilda Chermont de Brito, também da alta sociedade. Parecia que Zózimo gostaria de deixar esse braço social para um repórter, enquanto ele caía com mais dedicação na apuração das notícias. Anna Maria Tornaghi, a ex-colega do Andrews, agora com escritório de relações públicas, chegou a fazer freelance para a coluna. Ela acertou o mesmo tipo de contrato com Fernando Zerlottini, o novo redator da coluna Reportagem Social, que continuou a existir assinada pelo personagem Carlos Swann após a saída de Zózimo do Globo. Anna firmou contrato ainda com Daniel Más, no Correio da Manhã. Cada colunista pagava a ela do próprio bolso e com favores diversos. Zózimo, por exemplo, tinha conseguido uma boca-livre para Anna e convidados no Flag, o bar e restaurante de José Hugo Celidônio, em Copacabana. A experiência não foi adiante. Como distribuir as notas sem parecer privilegiar alguém? Todos três colunistas reclamavam ao mesmo tempo de terem sido negligenciados por Tornaghi. Nada que abalasse a amizade dos três, que se adoravam na vida real e curtiam trocar farpas.
“O colunista Daniel Más, na plateia do Municipal, vendo Ella Fitzgerald, estava elegante no seu conjunto de colete e terno roxo-quaresma”, escreveu Zózimo, como se alguém pudesse ficar elegante num charivari cromático daqueles. “Zózimo Barrozo do Amaral finalmente aparou o bigode”, devolveu Daniel, achando old fashioned a mania do amigo de cultivar um bigode que não se via mais em rosto jovem algum.
Renato Machado, que havia largado o teatro e estava na editoria Internacional do JB, passava para o colega do Andrews muitas notas por escrito (“depois ele colocava as vírgulas dele, o desenho dele, e ficava muito elegante”). Chegou a substituí-lo pelo menos uma vez, numa ausência do titular para cobrir o torneio de tênis de Roland Garros, na França. Carlos Leonam, com experiência de coluna — antes da chegada de Zózimo ao JB editava a deliciosa Carioca Quase Sempre —, também assinou a página durante férias ou viagens do titular. Por alguns meses Zózimo fez a coluna só com a ajuda da secretária, Marly. Nem sempre tinha a sorte de receber a visita de um Elio Gaspari, por exemplo, que chegava, já tendo deixado a coluna de Ibrahim e trabalhando como repórter da Veja, cheio de informações. Contava de boca as histórias e Zózimo pedia uma colher de chá maior ainda. Que o amigo se sentasse e datilografasse o que tinha, com seu texto impecável.
O sonho de consumo de Zózimo chamava-se Telmo Martino, o redator que desde 1970 trabalhava no Correio da Manhã com Daniel Más, colunista também adepto da ideia de que as colunas sociais andavam precisando de uns cascudos — e a propósito de cascudos, Telmo e Daniel levaram muitos, de homens que não gostaram do modo como haviam sido citados. Uma vez, por exemplo, o banqueiro Antonio Carlos de Almeida Braga cruzou com Daniel no Aeroporto Santos Dumont e deu-lhe vários. Dias antes tinha sido chamado de “gordo” numa nota. No dia seguinte ao encontro no aeroporto, viu no jornal uma correção típica de Daniel Más: “O banqueiro Braguinha está magro como uma sílfide” — e aí só coube a Braguinha cair na gargalhada e deixar para lá.
Daniel Más dava um sacode com uma coluna serelepe. Chegava à redação de óculos escuros, para esconder as avarias que os adversários (anotem-se ainda os safanões de Paulo Fernando Marcondes Ferraz, Gustavo Dahl, José Colagrossi, o Zezito, e Eric Waechter) lhe faziam nos olhos e onde mais os socos acertassem. Tinha dias que Daniel ia de sobretudo amarelo. Pulava na mesa e gritava: “Chegou o sol, e o sol sou eu.” As notas, na contramão dos bons modos de Carlos Swann, Ibrahim e Zózimo, eram apimentadas além do ponto. Como não frequentava a alta sociedade, embora estivesse louco para chegar a seus salões, Daniel Más inventava notícias, separações, traições e toda sorte de esquentamento jornalístico. Era um tempo em que as colunas não chamavam ninguém de “boa-praça”. Pelo contrário. Era a redação contra o resto do mundo. Daniel foi ficando sozinho, uma porta atrás da outra batendo-lhe na cara. Numa dessas diatribes, noticiou que na véspera o cronista Rubem Braga havia desmaiado, bêbado, em cima de um prato de macarrão no Antonio’s — e a própria repórter da coluna, Maria Lucia Rangel, em protesto, pediu demissão. A mão da coluna pesara demais.
Zózimo queria humor, farpas, sim, mas com elegância, e que não lhe tirasse as fontes. Algo irreverentemente classudo, que quando o atingido reclamasse pudesse até ser convencido, numa boa conversa de telefone, de que a nota irônica lhe era simpática. Telmo Martino, o redator de Daniel Más, era o que os ingleses chamam witty, o sujeito culto de tiradas rápidas e divertidamente mal-humoradas. Sacaneava com erudição. Não escrevia frases, envenenava palavras. Tinha apreço orgulhoso, como era típico do jornalismo da época, de a cada linha fazer um inimigo.
A coluna de notas que Telmo escreveu entre 1973 e 1985 no Jornal da Tarde, do grupo do quatrocentão O Estado de S. Paulo (na época, rempli de soi-même, o Estadão torcia a cara para colunas sociais), não tinha notícias exclusivas. Telmo desconhecia esse negócio de perseguir o furo de reportagem e acenar ansioso para o Prêmio Esso, o estresse básico da pauta de um jornalista convencional. Não era um repórter, mas um monumento de estilo constituído de precisão redacional e maldade inteligente. Trinta anos depois de Joel Silveira, era o novo “Víbora”. Sua coluna parecia feita na medida e nada mais para o projeto moderno do JT, que também apostava em longas reportagens de bom texto, no feitio do new journalism americano. Com seu tom entre o jornalístico e o literário, Telmo era aonde o JT queria chegar. Um objeto não identificado na sufocada, pela censura e pela caretice, imprensa nacional.
A atração daquela tripa vertical do segundo caderno do JT era justamente o estilo do texto de Telmo. Assim como suas roupas recendiam a Savile Row ao voltar, nos anos 1960, de uma temporada como redator da BBC, em Londres, o perfume literário mais próximo a inspirar sua escrita era o de escritores com tendência ao humor sofisticado, como Evelyn Waugh. Telmo juntara a classe de suas frases à boa percepção de que jornalismo é pau na canalha, algo que Zózimo, ainda preso à necessidade de na noite seguinte ir às festas, fazia com cuidado. Trinta anos depois de Jerry/Cornélio Procópio, Telmo cruzava a avenida Paulista na contramão dos rapapés. São Paulo abria o Jornal da Tarde tremendo.
• Os livros de Nélida Piñon, Rachel Jardim, Neide
Archanjo, Hilda Hilst e Marina Colasanti não participarão
do Baile do Livro. Não querem passar a noite inteira
tomando um inevitável chá de cadeira.
• O escritor de novelas Antonio Calmon tem algo em
comum com James Joyce. Prefere o artista quando jovem.
• Todos os americanos que são cantores e instrumentistas
de jazz já foram avisados. Só assinarão contrato para
apresentação em festival paulista com cláusula
especificando que o texto de apresentação não terá humor
assinado por Carlos Eduardo Novaes. Como descobriram os
músicos do Free Jazz Festival, enfrentar plateia fria é difícil.
Esquentar plateia constrangida é impossível.
• Tudo leva a crer que Jorge Amado aprendeu a escrever
com as cozinheiras baianas. Ele exagera tanto nos temperos
típicos que o essencial se torna indiferente.
• Sem paciência para esperar um historiador que talvez
nunca apareça, José Mojica Marins resolveu fazer, ele
mesmo, um filme sobre os seus filmes. Dá, assim, mais uma
prova de que acreditou nos que decidiram chamá-lo de
auteur do fantástico precário.
• Dias Gomes é como costureiro brasileiro. Não lança
moda, mas entra, rápido, na que está fazendo mais sucesso.
As celebridades surgiam na coluna como “escadas”, coadjuvantes de um show onde o astro era o talento de Telmo. Quase todas eram tratadas como decadentes, mas com que elegância! Num tempo em que a ditadura censurava as páginas políticas dos jornais, aquele espaço parecia ter a primazia de falar mal da humanidade. Era o jeito de ser do autor, que, nas horas vagas, afiava a língua com outras serpentes cheias de chocalhos, Ivan Lessa e Paulo Francis, seus maiores amigos. O deboche era-lhe parceiro de todos os momentos — e incontrolável.
O escritor Humberto Werneck conta que estava na redação do Jornal da Tarde em 1972 quando o jornalista Flávio Márcio convidou Telmo, de natureza tímida e ainda desambientado, a conversar enquanto diagramava uma página. A fim de impressionar o recém-chegado e animar a conversa que não deslanchava, Flávio desabafou do nada:
“Sabe, eu gostaria mesmo é de ser uma puta internacional.”
E Telmo:
“Ué, viaja!”
Pela coluna não viajavam mais do que cem personagens, gente que ele tratava obsessivamente com uma marca especial. Para cada um, abria vírgulas e colocava um aposto mordaz, geralmente cruel, quase sempre exato e definitivo. A cantora Tetê Espíndola carregou para sempre o epíteto de “sirene do apocalipse”. Othon Bastos era “o ator que podia ter sido Johnny Carson, mas preferiu ser Ferreira Netto”. A psicanalista Betty Milan, “La Goulue do Lacan-can-can”. Aracy Balabanian, “a primeira atriz da Lassie School of Acting”. Lélia Abramo, “a última fã da Bruxa Malvada do Oeste”. Todas essas pessoas recebiam nos demais jornais um tratamento cheio de pompas e circunstâncias. Telmo as colocava no tamanho natural de suas verdadeiras dimensões humanas. Todas impressas com o seu currículo de ridículos. Claro, às vezes tinha troco.
Um dia, alvejado por essas alcunhas, o poeta Mário Chamie aproveitou que Telmo passava à sua frente numa festa e sapecou-lhe um chute na bunda. O crítico Olney Krüse, que fazia curadoria de arte kitsch — e ele próprio, com suas roupas e anéis, segundo Telmo, era um tumultuado exemplo desse tipo de arte —, foi até a mesa do colunista no JT. Tirou-lhe os óculos, jogou-os ao chão e pisoteou as lentes até que virassem pó. Nada disso impressionou Telmo (“inocente como uma mosca que aceita convite de aranha”). O processo judicial e a agressão física são do jogo do colunismo, glórias que devem ser anexadas às primeiras linhas do currículo. O humorista e escritor Millôr Fernandes, um dos poucos ídolos nacionais de Telmo, dizia que jornalismo é oposição, o resto não passava de armazém de secos e molhados.
O colunismo de Telmo era o que havia de mais bem escrito no mundo do glamour em São Paulo, embora enxergasse toda aquela cena pelo lado oposto (“O melhor da ópera é o lustre”). Se os personagens citados sofriam, os leitores morriam de rir. Ele criou tribos. Quando falava de alguém bicho-grilo, cabeludo ou fã da cantora argentina Mercedes Sosa, chamava de tribo “poncho-e-conga”. Para se referir à colônia italiana rica e fã de música clássica, cunhou a tribo “Scala e scarola”. O político Paulo Maluf, o empresário Henry Maksoud e descendentes da riqueza árabe eram da tribo “quibe-e-quilate”. O rabino Henry Sobel e seus associados de fé faziam parte da tribo “kosher-e-kibutz”. Os orientais da turma da artista plástica Tomie Ohtake, comilões e educados, “tempura-e-mesura”.
Telmo partia do princípio de que seu leitor tinha tanta informação quanto ele. Enquanto os manuais de redação exigiam clareza, não perdia tempo explicando as piadas encartadas nas referências que citava aos borbotões. O baiano Caetano Veloso, por exemplo, era chamado de “Mallarmé do afoxé”, “o Cocteau do agogô” ou “o Rimbaud do bongô”. As notas conversavam com a elite intelectual, os ricos de ideias — os outros ricos, os que não entendiam, que fossem ler o Tavares de Miranda, que escrevia como se fosse um tabelião no cartório. Era o colunista concorrente, da Folha de S.Paulo. Usuário de gravata-borboleta no pescoço e no texto, cobria os quatrocentões do dinheiro velho. Só elogio e salão de chá.
O sonho de Zózimo era ter Telmo na mesa ao lado, na redação do JB, para radicalizar o que queria imprimir na coluna. Um colunista bobão, sem fontes, que só fala com assessores, pode tropeçar num furo e um dia fazer estrago na concorrência. Mas e nos outros trezentos e sessenta e quatro dias do ano? “Notícia-notícia é uma obrigação no resto do jornal, mas deve ser um detalhe na coluna”, dizia Zózimo. “O principal é ter graça, mexer com o leitor e provocar um riso inteligente nele.”
Em 1972, ele foi a São Paulo apenas para almoçar com Telmo, que ainda era um simples redator do Jornal da Tarde. Fez-lhe uma proposta salarialmente dos sonhos, potencializada pela chance de voltar a morar no Rio. Foi aí que o Jornal da Tarde resolveu transformar seu colaborador numa estrela e o presenteou com a coluna mais um salário suficiente para comprar todo o estoque da Savile Row que julgasse necessário.
Era uma noiva difícil, fosse qual fosse o nome que o profissional tivesse, aquela que Zózimo procurava para dividir um aquário de redação e, na saúde e na doença, se entregar em dupla à busca insaciável de informações para divertir o leitor. Jogar em equipe. Até mesmo naquilo que o país tem de mais notável, o futebol, a tradição brasileira não é de espírito coletivo — é a de dar asas aos craques. A saúva e também o individualismo, os males do Brasil são. Entre as duplas de criação estão Pelé e Coutinho, Bebeto e Romário, Rivaldo e Ronaldo — e assim ganhamos muitas taças com nossos times ou seleções. Sobram outras poucas. É o país de Oscarito e Grande Otelo, Cosme e Damião, Tonico e Tinoco, Tom e Vinicius, Tancredo e Trancado, Erasmo e Roberto, Carequinha e Fred, Jackson do Pandeiro e Almira, Mônica e Cebolinha — e Zózimo e Fred.
Fred Paulo Suter era elegante, a despeito de gostar de uísque com suco de maracujá. Vestia-se apenas com camisas na cor azul-clara, como Zózimo (de uma delas, comprada na Brooks Brothers, de Nova York, tinha onze unidades, exatamente iguais). Andava para dentro, com o braço colado ao corpo, sem qualquer possibilidade de ginga ou balanço, com passos curtos e medidos. Falava baixo, sorria sem ruído, quase sempre com a mão na boca, e parecia sonhar com a invisibilidade. Uma postura física que alguns rotulavam de fina e outros de reprimida. Detestava futebol. Claro, não era brasileiro. Fred nascera na Suíça, filho de um comerciante de armas. Do pai, herdara o humor ácido e uma arma de pequeno calibre, com a qual andava — e gostava de alardear o fato —, embora nunca se tenha sabido de um tiro seu. Herdou também um violino Stradivarius.
Ele parecia estar em permanente estado de defesa, tenso, desconfiado, protegendo-se de gargalhadas altas e de qualquer estupor de alegria característicos do tradicional gente boa brasileiro. Detestava arroubos sentimentais, festinhas de aniversário na redação e gente que falava assim, festinha, saladinha, fofinha, abusando dos diminutivos. Não à toa, podia ser visto na redação trincando a seco pastilhas de Alka-Seltzer para conter a ansiedade e o mal-estar diante da euforia carioca ao redor. Tudo isso, evidentemente, colava em sua figura, de um metro e setenta e dois centímetros, a pecha de almofadinha pedante. Não ligava. Fred fugia dos simpáticos. Orgulhava-se do humor contra todos e genialmente desconcertante. Quando uma de suas mulheres, na separação de bens do casal, depois de ser aquinhoada com vários valores de grande monta ainda insistiu em dividir o tapete persa, ele não teve dúvida. Pegou uma tesoura, cortou o tapete ao meio e mandou a parte dela pelo correio.
Gostava de se fazer de mal-humorado. Diante do mendigo que lhe pedia esmola para almoçar, negou-se — “senão você fica sem fome pra jantar”. O homem detestava música popular (“Cartola e Clementina são insuportáveis, pior só o Chico Buarque”). Achava que a Lagoa Rodrigo de Freitas poderia ficar melhor, “mais prática”, se a azulejassem e fizessem um estacionamento. Adorava o frio, as neves da Suíça que deixara bem menino. Fred era adepto daquele pensamento de Millôr Fernandes de que “o humor compreende também o mau humor. O mau humor é que não compreende nada” — e a humanidade, mal-humorada, insistia em não curtir a metralhadora esnobe de Fred. “Ô da pobreza”, era como ele chamava o diagramador do jornal, achando que estaria sendo entendido na vontade de fazer graça. “Vamos fechar a coluna porque tenho que jantar no Antiquarius.” Os da “pobreza”, pobres também de risos, detestavam ser flagrados nessa condição.
Apreciava se declarar de direita, de apoiar os políticos na contramão do esquerdismo das redações, de confessar voto em Paulo Maluf — mas tudo isso dentro de inteligência irresistível. Um dia, por exemplo, ele estava numa daquelas reuniões em que o Departamento de Marketing mostrava aos editores as entrevistas que haviam feito com leitores para saber como estava a aceitação do veículo. Por que eles liam o JB e não O Globo? Todos os leitores falavam de como eram geniais o espírito democrático do jornal, a sabedoria de seus colunistas, o talento dos cronistas etc. Jornalistas, antigamente, costumavam rir dessas reuniões. A seus olhos debochados, não passavam de pretexto para alguém do RH ou do Marketing ganhar um dinheiro com a encenação. Não tinham proveito para quem fazia o conteúdo do produto. O leitor ainda não era um parceiro que ajudava a redação a fazer o jornal pelo WhatsApp, mas um sujeito a quem se entregava toda manhã o pacote de papel impresso — e ele que se virasse. Não se conhecia muito bem o freguês. Aliás, nem se estava muito interessado em conhecer. Na saída da reunião com o pessoal do Marketing, lá estavam os jornalistas debochando da patacoada do RH. O chargista Chico Caruso deixou a sala com Fred e Zózimo e ouviu o primeiro perguntar: “Zózimo, sabe por que eu leio o Jornal do Brasil?” — e, sem esperar a resposta do outro, completou: “Porque O Globo já esgotou na banca.”
Fred Suter e seu chefe tinham abandonado o curso de direito, falavam um ótimo francês, faziam sucesso com as mulheres, só usavam camisas azuis e adoravam rir de todo mundo, embora Zózimo fosse mais generoso com as pessoas.
Uma moça perseguiu Fred por muito tempo com instintos amorosos vorazes, até que ele, sem empolgação, resolveu convidá-la para ir ao apartamento onde morava, no Morro da Viúva. Tomaram os drinques de costume, trocaram os beijos de praxe e, quando não havia outro jeito senão partir para o inevitável congraçamento carnal, Fred impôs uma condição cruel. Ela deveria pegar o elevador, ir até o primeiro andar e voltar do mesmo jeito que desceria — nua. Era alta madrugada. A moça contabilizou o risco de ser surpreendida. Parecia uma nova versão da roleta-russa, quando se atira na própria cabeça apostando que não será deflagrada a única bala posta no tambor do revólver. A proposta de Fred era uma roleta-russa da moral. A moça achou que o rapaz valia a pena. Pelada, desceu os sete andares, numa época em que as câmeras de segurança ainda não estavam instaladas em todos os cantos, e subiu de volta, virgem de olhares — dando-se só aí os finalmentes pelos quais, ao capricho típico de Fred, ela tanto se humilhara.
Fred tinha poucos amigos, apenas os capazes de conviver em paz com essas idiossincrasias. Tinha paixão por cachorros da raça pastor-alemão (foram três, em épocas diversas, Dick I, Dick II e Dick III, como se nobres distintos de algum império fundado por Fred, a propósito, defensor da monarquia). Ele colecionava stirrers (aqueles pauzinhos com que se mexe a bebida) e carros antigos, esta última era outra mania herdada do pai. Chegou a ter um Rolls-Royce de peças falsas, um Mustang, um Alpha Romeo e um Porsche. Na tentativa que sempre manifestou de emular um Zózimo (os dois usavam estranhíssimas camisas de gola alta), quando este teve um Puma vermelho de capota preta Fred repicou com um Puma preto de capota branca. Chegou a brincar que era um Flamengo e Botafogo, mas não era verdade — não torcia por clube nenhum.
Foi num Galaxie Landau LTD, que com uma acelerada gastava um tanque de gasolina, que certa vez subiu até Teresópolis para passar um fim de semana com o amigo e assessor de imprensa Roberto Mota na casa da jornalista Anna Maria Ramalho. Criaram, num exercício debochado bem ao gosto de Fred, a Vigaristur, empresa que se dedicaria com esmero a meter o turista em roubadas. Ao final dos trabalhos, segundo Anna, decidiu-se que “o cliente, estrangeiro de preferência, compraria uma viagem a Gramado e iria parar em Teresópolis, onde os carneirinhos prometidos seriam os bodes da pracinha do Alto, cobertos por colcha de chenile branca. A viagem para os cantões suíços terminaria em Campos do Jordão — e os diretores da Vigaristur só embolsando uma grana preta à custa dos incautos”.
Anna apelaria para o mote da Vigaristur para melhorar o astral sempre que Fred se mostrasse melancólico — e não era difícil encontrá-lo assim. Seu relacionamento com a mãe tinha complicações — e lá ia ele se aproximando mais uma vez de Zózimo –, pois se declarava desconsiderado por ela na infância. Também bebia muito (de preferência o uísque Cutty Sark em copo longo), até ser desaconselhado pela diabete. O perfil era de um homem triste, carente, mas dedicado a cobrar do mundo, com humor ácido, tudo o que ele lhe tirara de esperança.
Se Álvaro Americano, impressionado com o jeito e os ternos de Zózimo, o pescara no oceano de bagres da reportagem do Globo, o mesmo fez Zózimo com Fred, um corpo estranho vestindo azul na acinzentada redação do JB. “Quem dos seus repórteres você acha que tem o meu perfil?”, Zózimo perguntou a Armando Strozenberg, que em 1970 tinha deixado o cargo de correspondente em Paris e, em 1973, era editor de Reportagem, um dos cargos criados por Dines. Strozenberg não teve dificuldade em fazer a escolha. Os repórteres vinham de várias áreas de formação, como Fritz Utzeri, médico. Fred falava cinco línguas, tinha visual e interesses mais compatíveis com o trabalho de colunista. Zózimo, com sua gargalhada altíssima, não conhecia Fred, que ria para dentro. Os dois sonhavam com a carreira no Itamaraty, e Fred, num detalhe que impressionou Zózimo, cobria o Ministério das Relações Exteriores. Não podia dar errado.
Fred já circulava pela sociedade. O jeito arrogante assustava por um lado, mas lhe dava um ar de superioridade que às vezes colava. Parecia acrescentar um patrimônio que deveras não tinha. De Zózimo também emanava uma riqueza que de todo não possuía, chique pela própria natureza. Além dessas parecenças, os dois tinham um texto ótimo e a vontade de rir, elemento de Telmo Martino que Zózimo via em Fred. Era tocar em frente. Com as bênçãos de Dines e Strozenberg, formou-se a dupla. Na esteira ainda de Gil e Caetano, Primo Pobre e Primo Rico, Niemeyer e Lucio Costa, eles partiam no início de 1973 para se colocar no panteão das grandes duplas de criação nacionais. “Nós somos Ginger e Fred do jornalismo brasileiro”, dizia Zózimo, lembrando a dupla de dançarinos do cinema americano, Ginger Rogers e Fred Astaire. E como se não bastasse a gracinha, e dependendo do que já tinham tomado da garrafa de uísque escondida na redação, os dois começavam a simular passos gaiatos de sapateado. Mais de uma vez foram vistos assim, entrando na sala para embicar a pipa diária, e sempre bem aprumada, de mais uma coluna.