Enquanto Houver Champanhe, Há Esperança

Joaquim Ferreira dos Santos · Capítulo 20 de 50

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Enquanto Houver Champanhe, Há Esperança

Capítulo 20

“Tá cada vez mais down o high society”, cantava Elis Regina em 1980, e parecia que os autores, Rita Lee e Roberto de Carvalho, tinham tirado as palavras da boca de Zózimo com este “Alô, alô, marciano”. Carmen Mayrink Veiga (vista em mais um jantar como diablement sensas, com um longo de estampado panné, “o tecido da moda”) já pouco aparecia por aqui, dedicada a longas temporadas no apartamento de Paris. Lourdes Catão, sua rival na arte de bem receber, com a vantagem de ter um casarão na Urca com quintal para espalhar os convivas sob as árvores, começou a chamar artistas, como o casal Tarcísio Meira e Glória Menezes, que nem conhecia pessoalmente. Eram esforços bem-intencionados, cada vez mais raros, de animar a festa. Maria Eudóxia da Cunha Bueno, na ausência de Carmen, ganhava o título de “hostess número um da cidade” e abria os salões com mesas em que “os centros se compunham de candelabros e coroas de prata de cujo interior emergiam pequenas rosas vermelhas e miosótis. Os acordes do piano de Casemiro ajudaram a compor o ambiente”.

O ciclo em que os casais endinheirados abriam seus salões para o congraçamento com seus iguais estava com os dias e os colunistas contados. Ibrahim, depois de os padrões terem explodido com a revolução dos jovens, cada um vestido do jeito mais extravagantemente contrário ao que pudesse caber nos ditames da elegância, parara com as listas dos dez mais. Zózimo ria dos novos-jecas:

 

• A sociedade carioca inova em matéria de indumentária

introduzindo o que se pode dar o nome de sport-habillé.

Nem carne nem peixe. Combina o esplendor dos longos de

gala para as mulheres com a descontração esportiva das

mangas de camisa para os homens. Como o homem

brasileiro tem inclinação irresistível pelo carnavalesco,

sendo capaz de usar camisas de estampados como não se vê

em nenhuma outra parte, os anfitriões pedem que se

combine camisa branca com calças pretas — é o sport-

habillé.

• O perigo, nesse tipo de transação, corre por conta da

proverbial falta de elegância da maioria, sendo mais bem

disfarçada por baixo de um terno ou um smoking. Se todos

soubessem usar calça e camisa como faz Eric Waechter,

ainda vá lá. Como não sabem, é comum jantares

supostamente elegantes acabarem dando a impressão de

uma concorrida e movimentada convenção de croupiers.

 

Os banquetes faustosos morriam — às vezes, literalmente. Num deles, na virada para os anos 1980, mais de quarenta pessoas presentes, um senhor teve um enfarte. Como estava num quarto dos fundos da residência enorme, foi providencialmente retirado de cena sem que ninguém visse e o brilho do evento não fosse empanado por tão lamentável incidente. Em outra festa, na mesma época, em Copacabana, o dono de boate e colunista social paulistano Álvaro Luiz Roberto Assumpção, um homem alto e bastante forte, não à toa apelidado “Meninão”, sentou-se inadvertidamente sobre o pequinês da madame que dava o ágape. Matou-o — e “Meninão” atirou-o pela janela. No outro dia, descoberto pelo porteiro, o cachorro teve sepultamento digno. A anfitriã achou que ele se suicidara, assustado com o barulho do événement.

Era o enterro dos ossos. Num trabalho de freelancer para a revista Vogue, Zózimo aproveitou a fascinação que o resto do Brasil ainda tinha por esse tipo de evento — como comia a sociedade carioca! — e narrou o melhor de suas mesas:

 

• O cappeletti de receita secreta de Carmen Mayrink Veiga.

• O fettuccine de Fernanda Colagrossi.

• A moqueca de lulas de Ângela Mallmann.

• O peixe enrolado com molho de alcaparras de Iara

Andrade.

• O pato no estilo do Tour d’Argent de Lourdes Faria.

• O cassoulet de Josefina Jordan.

• O terneiro importado de Porto Alegre, assado segundo

receita de Guiomar Magalhães.

• A mousse de chocolate como sobremesa, para terminar,

de Adelaide Castro.

 

O colunista raspava o prato. Numa nota, que poderia ter sido intitulada “De saco cheio”, mas que elegantemente foi publicada como “Beco sem saída”, ele dizia que havia algo de podre no reino das Carmens e Josefinas.

 

• O motivo da reunião é sempre festivo, mas, em pouco

tempo, o necessário à ingestão de dois ou três uísques, a

atmosfera se torna pesada e a irritação começa a brotar. O

resultado final é sempre desagradável. A tensão é tão grande

que não sai ninguém, e a reunião acaba se estendendo até as

tantas, ou saem todos juntos, a uma mesma hora, que

ninguém é besta de se retirar sozinho e servir de pasto aos

que permanecem.

• Há algo de errado com as reuniões ou com as pessoas.

Cansadas da relação repetitiva, dão a impressão de que não

se suportam mais, daí a irritação dos encontros. O pior é

que, se não se suportam mais em grupo, também não estão

preparadas para enfrentar a solidão. Um beco sem saída.

 

Zózimo continuaria indo a festas na década de 1980. Jamais às daquela senhora que, como dizia numa nota, estava servindo o café na calçada — porque assim que os convidados se levantavam da mesa fugiam espavoridos e, quando chegavam lá embaixo, já havia o garçom com a bandeja e eles tomavam o café por ali mesmo. Ele restringiria sua presença a endereços especiais, como o do casal Regina e Paulo Fernando Marcondes Ferraz. Ela, assim como Carmen Mayrink Veiga, nascera em São Paulo. Chegara ao Rio casada com Luiz Roberto “Baby” Guinle. Criada nos Jardins, saía na coluna do Tavares de Miranda, na Folha de S.Paulo, mas continuava segredo local. Toda semana com foto no Zózimo, Regina, adornada por uma trança sem um fio fora do lugar, virou referência nacional de mulher fina, elegante e sinceramente bonita. Numa noite na boate Le Bateau, animada pelas carrapetas do DJ Ademir, conheceu Paulo Fernando, o jogador de polo ex de Sílvia Amélia. Formaram um casal festeiro, com pegada mais descontraída que Carmen. As pessoas perguntavam a Regina por que ela estava sempre rindo nas fotos, um sorriso que ia de um canto a outro da página. Regina era sincera na resposta a essa curiosidade alheia: “Meus amores, vocês querem que eu saia como? A vida é uma festa, ou, pelo menos, precisa ser vivida como uma festa.”

Anos depois, Regina passaria um dia brigada com Zózimo. Ela havia sido convidada por um partido para sair candidata a vereadora e quase morreu de susto ao ver o comentário publicado pelo amigo — ou seria ex-amigo? O título era “Tudo pelo social”:

 

• A plataforma de Regina Marcondes Ferraz é 8,5.

• Resume-se por enquanto a três itens: lanchas para o

povo, tênis para as domésticas e golfe para os metalúrgicos.

 

Refeita do espanto, telefonou para Zózimo. O que teria acontecido? Passou um sabão daqueles, disse que a brincadeira seria possível na intimidade de amigos, mas não em público, num jornal sério. No dia seguinte, ela teve nova surpresa, agora benigna:

 

• Esta coluna cometeu ontem uma leviandade com a

querida Regina Marcondes Ferraz. Não só pede desculpas,

como acredita que ela terá sucesso em sua nova carreira.

 

Outra perda que ajudou o down do high foi a da francesa Odile Marinho, née Odile Marie-Josèphe Léonie Bérard. Ela entrara em cena no colunismo, o internacional, como Odile Rodin, sobrenome que se deu em homenagem ao escultor, numa espécie de chamamento das atenções gerais para o desenho perfeito de seus volumes. A pose que fazia nos filmes, época em que chegou a ser colega de Brigitte Bardot, não tinha nada a ver com as do Pensador, de Rodin. Odile era um vulcão louro de sensualidade negra, dona de uma bunda africana, carregada de todos esses clichês de fogaréu sexy — e logo chamou atenção de um playboy internacional. Porfírio Rubirosa, nascido na diminuta República Dominicana, era dono de um órgão sexual de proporções folclóricas, segundo a lenda que corria nos bastidores das camas cinematográficas. Odile confirmou — e os dois, casados, ele com vinte e um centímetros, ops!, vinte e oito anos a mais, divertiam-se pelo mundo. Esbanjando dinheiro e loucos por aventura, formavam um casal jet-set — até que em 1965, Rubi, bêbado, bateu com a Ferrari a cento e trinta quilômetros por hora no Bois de Boulogne, em Paris.

O Brasil já era um roteiro de Odile desde os tempos em que metia o pé no jato com Rubirosa, e em 1972, viúva, ela estava em uma feijoada na Barra da Tijuca. Vestia um short verde cavado atrás. A lembrança é de Paulo Marinho, então um jovem ligado ao efervescente mercado da Bolsa de Valores. Ele se virou para Justino Martins, diretor da revista Manchete, e foi sonhadoramente sincero: “Vou comer essa mulher!” Paulo era conhecido como “Coelho”. Nunca ficou muito claro se assim o era por causa do desenho dos dentes ou por causa das lendas que corriam a propósito de seu desempenho sexual. Paulo “comeu” Odile. Apaixonou-se em seguida pela alegria, inteligência e vivacidade dela. Casaram-se e foram felizes por muitos anos na coluna de Zózimo. O primeiro encontro de Paulo com o colunista foi em francês, a língua falada na festa de Carmen Mayrink Veiga para a condessa francesa Jacqueline de Ribes, em 1973. “Por tua causa o Roberto Marinho ficou aborrecido comigo”, disse Zózimo. “Eu coloquei teu nome na coluna e ele achou que eu tinha feito uma confusão com o filho dele, falecido.” “Não seja por isso, pede ao Roberto Marinho para me adotar”, devolveu Paulo.

As festas de Paulo e Odile tinham nomes como os cantores Rod Stewart e Mick Jagger, o costureiro Valentino, as atrizes Marisa Berenson, Ursula Andress (que no início da carreira morou com Odile), Candice Bergen e Elsa Martinelli. Odile transformou-se numa “carioca”, de tomar batidas de limão, desfilar em escola de samba e vestir camiseta durante o dia e, de noite, virar femme fatale (sem preconceitos, teve caso com Catherine Deneuve). O estilista Guilherme Guimarães fez um vestido transparente para ela e sugeriu que, por baixo, usasse uma calcinha cor da pele. “Quem disse que Didile vai usar calcinhas?”, reclamou — e quem estava no Chiko’s Bar certa noite confirmou. Didile subiu no piano, dançou um can-can e, de fato, não havia nada por baixo, a não ser a alegria de sempre. Outra cena que deixou impressa na vida noturna da cidade foi no Regine’s. Apertada que estava para chegar ao banheiro, madame Odile aliviou-se ali mesmo, no salão, usando como anteparo um balde de gelo.

Odile separou-se de Paulo Marinho e... mais um escândalo! Foi morar com um irmão dele em Visconde de Mauá — distrito de Resende (RJ) que se tornou reinado de hippie, bicho-grilo e afins — depois de passar adiante o guarda-roupa de longos e vestir-se de hippie. A relação durou pouco, mas foi suficiente para Didile confirmar o que pretendia da vida. Gostou de ficar por lá, no mato, longe das badalações, e foi assim que a coluna de Zózimo perdeu mais uma de suas musas.

Logo ele começou a confessar em público o que já era de conhecimento dos amigos. Estava cansado daquele ritual de salamaleques que entrava em sua segunda década de existência. Em dezembro de 1981, numa entrevista a Ivo Cardozo para a Playboy, desabafou: “As pessoas são sempre as mesmas, a comida é a mesma, os garçons são os mesmos. A vida social está em baixa, as pessoas estão recebendo menos, por causa do medo de ostentar e da grana curta. Já se começa a ver champanhe nacional, vinho nacional.” Os salões estavam mudando, segundo ele, porque lá fora, nas ruas, o mundo não era mais o mesmo. A abertura do general Figueiredo, que se anunciava como o último presidente militar, era para valer. Na leitura de Zózimo, esse ato político tinha repercussões na alta sociedade. “As festas vicejam com mais intensidade nos períodos fechados”, afirmou na entrevista. “Quanto mais abertura, menos festas. Talvez porque as pessoas que dão festas se sintam mais protegidas quando o regime é duro. Hoje, se você oferece champanhe e iguarias para os convidados, você se expõe mais do que numa época de medo generalizado, com um sistema de censura. Quem dava festas em 1971 não se importava que todo mundo soubesse, porque sabia que não haveria reação. Hoje, se eu noticiar uma festa faustosa, no dia seguinte o sujeito é criticado em outras colunas.”

A patrulha social murchava o pique da turma: “Hoje eu identifico no anfitrião uma culpa por estar dando aquela festa. Me chamam no canto: ‘Por favor, se você noticiar meu jantar, maneire um pouco. Não diz que tinha champanhe.’” A impressão geral era de que uma fase tinha se encerrado, embora as explicações variassem. “Você se aborrece com frequência em sociedade?”, perguntou Alice de Jenlis, da revista Interview, para Kiki Garavaglia, na edição de novembro de 1981. “O tempo todo”, a socialite respondeu. Alice: “A que se deve isso?” Kiki: “Ao fato de que no Rio estamos sempre convivendo com as mesmas pessoas. Tudo se repete cotidianamente, ao passo que em Paris ou Nova York você encontra sempre caras novas.”

A revista Veja percebia que os colunistas sociais estavam perplexos e não encontravam respostas para questões básicas: por que não se fazem mais colunáveis como antigamente? O que teria acontecido com a sociedade paulistana, subitamente insegura diante dos milagres operados pela Bolsa de Valores e desfeitos pelos novos preços do petróleo? Quais as razões da crise de imaginação da atual jeunesse dorée? Os colunistas estavam desconsolados pela carência de novos valores, dizia a Veja, que apresentava como exemplo o triste quadro da sociedade paulistana, onde o grande assunto em outubro de 1976 era o processo que o playboy Chiquinho Scarpa movia contra o também playboy Toninho Abdalla Filho por plágio de imagem. Chiquinho, através do importante escritório de Washington de Barros Monteiro, acionava o rival por imitar seus ternos, copiar sua placa de automóvel (CS 0007) e olhar sua namorada.

Os playboys da Turma dos Cafajestes dos anos 1950 eram mais animados, diria Zózimo, que desconheceu a ridicularia paulista — ainda que convivesse com o drama das perguntas sem respostas apontadas pela Veja. De vez em quando, tentava educar a patuleia deslumbrada para a necessidade de se exibir menos e curtir a vida com outros valores que não os regulados pela grana. Explicava pela coluna a sabedoria cool do esnobismo:

 

• Ser snob é chegar à noite em casa, olhar em cima da

mesa três ou quatro convites para acontecimentos sociais de

expressão, vestir uma roupa qualquer, uma capa velha, e ir

ao cineminha da esquina. Agora, o cúmulo da infelicidade é

chegar em casa, não ver convite nenhum sobre a mesa,

vestir uma roupa qualquer, uma capa velha, e ir ao

cineminha da esquina.

 

Implicava com a falta de educação dos que agora invadiam a plateia onde antes só havia ricos. Anos antes, em 1974, foi ver o Ballet da Ópera de Paris, no Teatro Municipal carioca, e chocou-se com os retardatários trançando às cegas pelos corredores, em meio ao balé Capriccio, para encontrar seus lugares. Reclamou com veemência na nota “Boas maneiras”:

 

• Ou a plateia brasileira se civiliza de uma vez, nem que

seja através de leitura de manuais de boas maneiras, ou

melhor será passar a programar para o Municipal

espetáculos de lutas de boxe, show de striptease e coisas

congêneres, mais de acordo com a mentalidade circense do

nosso público.

 

A sociedade tradicional havia sido submergida pelo dinheiro da especulação imobiliária, do frenesi da Bolsa e de golpes diversos, com todos os novos-ricos usando o mesmo relógio Cartier num pulso e no outro uma enorme pulseira de ouro Van Cleef enquanto pediam o filé com caviar. Em 1985, aproveitando que havia engordado um pouco e não cabia mais no smoking, Zózimo passou adiante o único que restava no guarda-roupa — e ganhava uma desculpa para não aceitar mais festas a rigor, um dress code que insistia em aparecer nos convites de saudosistas. Outro gesto espetacular, exibição pública de que estava cansado daquela “relação repetitiva de nomes e jantares”, veio na última coluna da década de 1970. Deixou as notinhas de lado e fez um enorme editorial em 30 de dezembro de 1979 intitulado “Apocalipse, não!”. Como ilustração, uma foto de — Josefina? Carmen? Catão? — Marcel Proust!

No texto, Zózimo lembrava que o escritor havia se chocado quando, ao sair de um longo tratamento de saúde num sanatório, encontrara o príncipe de Guermantes casado com madame Verdurin. Ele era o que havia de mais ilustre na nobreza francesa, representante do melhor do Faubourg Saint-Germain, e, como é que pode?, casara-se com uma deslumbrada como madame Verdurin, cuja única credencial era a gordíssima conta bancária! Foi aí que Proust concluiu o que meia dúzia de décadas depois pulsaria no título da coluna de Zózimo. Aquela união subvertia todos os princípios que orientavam o comportamento da sociedade francesa da época, um período que ninguém soube melhor descrever do que o próprio escritor. E Zózimo usou a decepção de Proust para desdenhar o presente — do jeito que o mundo desandava, disse na coluna, estava longe de prever o futuro das relações sociais:

 

• Proust teria sucumbido ao constatar no decorrer da

década de 70 a subversão total, permanente e definitiva de

todos os valores aos quais viveu preso. A década de 70

decreta para a sociedade a morte de um estilo e uma

maneira de viver que tiveram no luxo sua exacerbação, na

frivolidade e na inconsequência seu lado mais negativo, e

em Proust o seu melhor retratista. Não se pode nem dizer

que tenha sido um caso de morte súbita, mas de desenlace

precedido de uma lenta agonia que talvez tenha tido o seu

início na famosa festa oferecida no final dos anos 60, em sua

quinta de Portugal, pelo big shot Antenor Patiño. O

acontecimento não resistiu ao próprio fausto e contra ele se

levantou a indignação mundial — sinal de que alguma coisa

começava a mudar.

 

Zózimo achava que chegara a hora brasileira de encarar o fausto com pudor. O editorial não só encerrava a década, como colocava pá de cal no que o colunista andara fazendo naqueles anos. O papo, a partir do dia seguinte, precisava ser outro, sob o risco de a coluna ficar por fora.

 

• É provável que a década de 70, que pulverizou um estilo

de vida mais elitista, mais fechado, praticado pela sociedade

tradicional, tenha da mesma forma marcado o aparecimento

de uma sociedade mais descontraída, mais democrática, à

qual se poderia dar o nome de société de discothèque.

• Basta consultar as colunas sociais para constatá-lo: os

nomes de Marie-Hélène e Guy de Rothschild, por exemplo,

locomotivas da vida mundana de Paris, frequentam hoje

com muito mais assiduidade a relação de presenças em

lugares como Le 78, o Castel ou Regine’s do que os carnets

de festa com anfitriões ou convidados. (...) Em Nova York,

Roma, Londres ou no Rio, quem convida amigos para jantar

hoje o faz muito mais em lugares públicos do que na sua

própria casa.

 

Os rituais, madrugada adentro, de longos e black ties tinham perdido a mão. Ele decidiu que chegara a hora de dizer adeus às grandes festas de Carmen no Morro da Viúva, dos Moreira Salles, na casa da Gávea, e dos tabules simpáticos de Josefina Jordan, no Chopin. Na virada para os anos 1980, fechava-se um ciclo. O café-soçaite da década de 1940 tinha saído para o Vogue, depois passara os anos 1970 nos salões das famílias. Agora abria-se de novo para os espaços públicos. Os Beatles, os hippies, os punks, as drogas e todos os movimentos culturais que visavam subverter as noções de bom gosto tinham feito um bom estrago. A moda era contrariar as listas de “pode” e “não pode”.

Em meados de 1970, o casamento em Paris de Olavo e Betsy Monteiro de Carvalho, com convidados brasileiros transitando entre o castelo de Nandy e um bateau mouche no Sena, locais das festas, tinha sido espetacular, coerente com a época. Soava aos olhos dos leitores como o reino encantado dos príncipes urbanos, e o colunista fora até lá para relatar in loco os detalhes de mil e uma noites modernas. Meia dúzia de anos depois, nem os noivos estariam mais interessados numa coisa daquelas. Guilherme Guimarães, o estilista, lembrava que uma noite Elisinha Moreira Salles lhe disse uma frase a princípio estranha, que, no entanto, com o passar do tempo, agora na virada para os anos 1980, começava a ganhar sentido. “Guilherme, o luxo do século XXI vai ser o anonimato.”

O que dizer das festas do decorador Julio Senna na cobertura da Urca? Sua casa se esparramava pela pedra da Urca e, entre um plano e outro do terreno, havia uma pirambeira de trinta degraus em forte aclive. Para poupar os convivas daquele esforço de subir escada, principalmente as mulheres mais velhas, o decorador colocava quatro negros troncudos para fazer o transporte das tais senhoras em liteiras. Parecia gravura de Debret, animada com a presença de uma orquestra de vinte músicos, mas era o início dos anos 1970 — e como ninguém podia reclamar de nada, pois corria o risco de ser torturado pelos militares, a cena patética passava sem comentários. Com a abertura política, a anistia trazendo os socialistas de volta do exílio, aquela cena, que Zózimo divulgara como “uma atração extra da festa”, agora provocaria reações inflamadas. Os movimentos negros reclamariam do preconceito — e toda a sociedade teria a sensibilidade já emancipada para se tocar do mau gosto do espetáculo.

As confrarias das grandes riquezas e dos sobrenomes quase majestáticos iam sendo substituídas no poder pela presença dos novos-ricos e suas manias. Estes gostavam de se trancar em seus iates, nos jatos particulares, nas pistas de esqui — tudo menos ficar abrindo e fechando salões para festas caras. Era um dinheiro de perfume estranho, vindo de endereço longe da Zona Sul carioca, e aí mais uma vez é necessário se lembrar de outra frase de Elisinha Moreira Salles para Guilherme Guimarães: “Guilherme, há três coisas em que eu não acredito: inteligência de baiano, macheza de gaúcho e dinheiro de paulista.”

O até então milionário Jorginho Guinle aproveitou os anos 1980 para vender a casa da família na Granja Comary, na serra de Teresópolis. No início do século, todo o terreno da Granja era de propriedade daquele brasão fabuloso, uma dinastia começada com a exploração do porto de Santos, na virada do século XIX para o XX, depois dona do Copacabana Palace, do Banco Boavista, do palacete que se transformaria no Palácio Laranjeiras e outras pepitas de classe. Jorginho, seu descendente mais notório nas colunas sociais, torrou cerca de 100 milhões de dólares de herança em farras (as hollywoodianas Marilyn Monroe, Lana Turner, Jayne Mansfield e Kim Novak eram algumas de suas namoradas) e precisava agora passar o imóvel nos cobres para pagar as contas. O clã se desmoronava, vítima do mau gerenciamento da fortuna. Se no início da sua história o escândalo era o fato de o patriarca, Eduardo Palassim Guinle, e o sócio, Cândido Gaffrée, dividirem, além dos negócios, a cama com Guilhermina, mulher de Eduardo — morando os três numa mansão de Botafogo —, o escândalo agora era a falta de grana. Com o Copacabana Palace já transferido para um grupo internacional, Jorginho almoçava e jantava ali, de graça, por consideração dos novos donos. A mansão da Granja Comary ele vendeu para o comediante cearense Renato Aragão, o Didi do programa televisivo Os Trapalhões.

Não era só a grana que tinha mudado de mão. O humor também, a elegância nos costumes idem. Havia pouco Jorginho conquistara uma de suas mulheres dizendo: “Tenho cinquenta e dois anos, você vinte. Me dê dois anos de sua vida. Para você, isso não é nada, para mim é a vida inteira. Casa comigo.” Agora o playboy da vez estava em São Paulo, também tinha um sobrenome importante, mas, se lhe sobrava grana, faltava a elegância na abordagem das moças. “Gosto de mulher burra, que não atrapalha”, anunciava o paulista Chiquinho Scarpa. O homem confessava ter um fichário com o nome de todas essas mulheres burras, as datas em que saíra com elas e as performances praticadas com cada uma.

Assim descaminhava a humanidade. Outro brasão carioca, o Peixoto de Castro, da família proprietária da Refinaria de Manguinhos, que saía de casa de Rolls-Royce para ver seus cavalos vencerem no Hipódromo da Gávea, sofrera o golpe da morte de seu patriarca, em 1979, e começava a se desfazer do patrimônio para pagar dívidas. Didu de Souza Campos, profissional de apresentar pessoas e torcer para que elas fizessem negócios, também reduzira à classe média a fortuna que o sobrenome juntara desde o império. As festas do Rio iam pelo mesmo trilho — decaíam, perigosamente avacalhadas, na descrição de Zózimo em meados da década de 1970:

• Imaginem uma casa deslumbrante, jardins paradisíacos,

piscina sensacional e acrescentem a esse décor de sonho uns

200 convidados, a maior parte deles da melhor categoria,

todos elegantíssimos e dispostos a dar tudo para o maior

brilho da noite.

• Aí coloquem apenas dois garçons para servir uísque,

refrigerantes e canapés a esse mundo de gente e esperem

pelo resultado. Mais: atrasem o jantar ao máximo, à espera

de que parte da turma capitule e acabe abandonando o local.

Aos perseverantes foi concedida, já às quatro da manhã,

com todos à beira do desmaio, a graça de um picadinho com

arroz, ainda assim insuficiente.

• Mesmo entre as pessoas altamente civilizadas a fome é

capaz de levar a cometer prodígios, e duas convidadas se

viram de repente praticamente engalfinhadas lutando pela

última colherada de arroz.

• Para não falar na figura hierática e bem-posta do

embaixador José Manuel Fragoso, que, por volta das duas

da manhã, entrou pela cozinha e pediu um pouco de

presunto, invocando uma hipotética anciã que desfalecia à

míngua de alimentos, e saiu triunfante com duas fatias

embrulhadas num pedaço de papel.

• Até o conde de Barcelona despiu-se de suas vaidades e

deu-se por muito satisfeito com o quinhão que lhe coube:

um sanduíche de mortadela.

 

Era o down society de que falava a música cantada por Elis. Rareavam as festas como a dos Moreira Salles para o banqueiro David Rockefeller, noticiada em 24 de maio de 1976, quando Zózimo destacou que havia na mesa “um rouge do porte da noite: Chateau Lafitte, 1964”. Em geral, na mesa começavam a faltar elegância e comida e sobrava um novo e polêmico convidado — a cocaína. A droga virara uma atração. “Mas vocês são atrasados”, debochava com um socialite o cantor Mario Reis, da família proprietária da fábrica Bangu, de tecidos, e morador do Copacabana Palace. “No meu tempo, eu ia à farmácia e comprava esse negócio de cocaína no balcão. Se não tivesse, telefonava para um funcionário, o Galo na Testa. Sem frisson, sem tensão.”

Uma elite avançada começou a fazer festas onde a expectativa não se centrava mais na qualidade do bufê, mas na pureza da cocaína. Kiki Garavaglia ouvia falar da existência de um certo “Professor”. Assim como o Walter White do seriado Breaking Bad, estrela da TV no século seguinte, aquele carioca dos anos 1980 também era doutor em química e apresentava uma cocaína sem anfetaminas, em cristal. Ninguém conheceu o “Professor” pessoalmente. Seus funcionários entregavam a droga. “Ainda não havia bandidagem ao redor da cocaína”, diz Kiki. “Era como tomar uma taça de champanhe, um up numa festa. Na Inglaterra, eles chamam de tot. Ninguém ficava até as cinco da manhã cheirando.” Uma vez, numa reunião em sua casa, um casarão na Fonte da Saudade, na Lagoa, uma das filhas de Kiki viu uma cena estranha: “Mãe”, disse a menina, “eu vi o tio Neville [D’Almeida, cineasta] e o tio Eric [Waechter, colunável] entrando no banheiro juntos.” “Filha”, explicou Kiki, “é que sumiu a chave, então um fica segurando a porta, enquanto o outro faz xixi.”

Havia também o lança-perfume. Era mais comum no Carnaval, brincadeira de salão, até que, proibido pelo presidente Jânio Quadros, virou item de diversão praticado mais ou menos às escondidas nas festas da sociedade. Um desses elegantes, com o primeiro nome Nelson, já nos tempos de Zózimo tinha em casa uma bomba de lança-perfume tão grande que precisava ser carregada por empregados para o meio do salão, onde todos os convivas molhavam o líquido no lenço e cheiravam até sentir aquele “zuuummmm” do barato e da vertigem.

A cocaína já estava nos bastidores do Réveillon de 1976, quando o empresário paulista Doca Street assassinou a tiros a pantera mineira Ângela Diniz num casarão da praia dos Ossos, em Búzios, no litoral fluminense. Eles usavam cocaína aos montes, potencializavam-na com álcool aos litros. Um dia, quando Ângela disse para Doca que estava fazendo sexo com uma mulher porque ele não dava conta do recado de satisfazê-la, foi morta com quatro tiros. Num primeiro julgamento, Doca conseguiria a absolvição na Justiça usando o argumento da legítima defesa da honra. Tinha sido humilhado na sua condição de macho. Num segundo julgamento, em novembro de 1981, foi condenado a três anos e meio.

Zózimo, amigo de Ângela, ex-namorada de Ibrahim Sued (que, poucos dias antes, numa boate do Rio, puxara, enciumado, um revólver para atirar nela), passou batido pelo assunto. O fim da década se aproximava com respingos de pó, sangue e cansaço no perfil do rái soçaite. O glamour, aquela qualidade que faz com que as pessoas sejam reconhecidas como sedutoras, agradáveis e prenhes de borogodó, continuava sendo buscado a todo custo. Era poder. Se antes era propriedade exclusiva dos ricos tradicionais, que o desfilavam nas festas de suas mansões cinematográficas, na virada para os anos 1980 aquele valor sutil tinha se democratizado na société de discothèque. Era possível pagar um ingresso e comprá-lo. Em janeiro de 1980, ao assistir a Frank Sinatra no Hotel Rio Palace, no Posto 6 da praia de Copacabana, e não reconhecer ninguém nas mesas ao lado, Zózimo viu que a alta sociedade era uma coluna de jornal antigo. Naquela noite não havia boca-livre e o ingresso custava cerca de quinhentos dólares, mesmo assim o salão estava cheio, só que “cheio de ninguéns”, expressão que ele adorava usar.

Surgia “o evento”. Noitadas de arromba com champã francesa, caviar russo, cascata de camarão — era o lançamento de uma marca de cerveja ou o show patrocinado de um grande artista. Pagava-se pelo luxo, não se exigia mais sobrenome. Qualquer um tinha acesso ao que antes era privilégio de casta — desde que estribado na “granolina”, como diria o vocabulário mal-ajambrado dos novos-ricos sem pedigree. Eram os que chegavam para a festa dos anos 1980, dispostos a comprar mais um brinquedo — o glamour, o chiquê. “Os brasileiros são extremamente charmosos, não leem nada, não sabem nada, gastam como loucos e não têm a menor vergonha de serem nouveaux riches”, disse a princesa e socialite italiana Ira de Furstenberg, e Zózimo publicou, para exemplificar o que estava acontecendo na cena social. “São os pobres mais ricos do mundo”, completou Ira.

Zózimo desdenhava dessa gente. Em 1983, olhou a lista dos homens mais ricos do Brasil. Nenhum era personagem da sua coluna. “A atual elite brasileira é mais provinciana do que quando comecei no colunismo”, já declarara ele na entrevista a Ivo Cardozo. “A elite era mais fechada, com mais background. Não que isso seja importante, mas o fato é que o dono das Casas da Banha é mais provinciano do que era o Raymundo Castro Maya (empresário e colecionador de arte). A elite hoje é feita de sujeitos que fizeram fortuna rapidamente — e para a família de dinheiro antigo, o dinheiro é coisa incorporada à vida.”

No início dos anos 1980, o endereço mais caro do Rio já era o edifício Juan Les Pins, na praia do Leblon, contudo, ele não abrigava nenhum sobrenome colunável. Todos os que moravam ali tinham feito fortuna havia pouco tempo. Trabalhando, especulando na Bolsa de Valores, fosse o expediente que tivesse sido, mas correndo atrás. Não tinham culpa se a velha sociedade dilapidava seu patrimônio dando banquetes nababescos. Os endereços tinham mudado. A camada mais evidente dessa turma, que queria a qualquer preço suceder os ricos d’antanho, ficou conhecida como “os emergentes da Barra da Tijuca”. Dinheiro a rodo e gosto duvidoso.

A colunista Hildegard Angel, no caderno Ela, do Globo, tratava de suas festas. Eram figuras como o empresário Janualdo Borges de Sousa, dono da Mardil, uma das maiores marmorarias da América Latina; a senhora Vera Loyola (duas vezes eleita pelo Jornal do Brasil a mais deselegante do Rio), dona de uma rede tradicional de padarias, localizada em São Conrado, com o nome de Biruta; o senador pela Paraíba Ney Suassuna; a senhora Joana Macedo, dona de uma rede de lavanderias; Ricardo Igayara, dono dos Frangos Rica; e até o técnico de futebol Carlos Alberto Parreira, dono de um casarão monumental, mas não suficiente para abrigar em suas salas e paredes todas as imagens, móveis e tapetes que trouxera de suas andanças treinando times no Oriente Médio (“todas as dissidências religiosas muçulmanas e chinesas estavam representadas”, revelou o decorador oficial dos emergentes, Eder Meneghine, que levou algumas peças para um depósito).

Zózimo, que já achava down o high, ignorou a turma. “O deslumbramento é primo-irmão da cafajestice, da ostentação e da cafonice. Uma grande festa de alguém habituado ao dinheiro, rica há várias gerações, é comedida. O buffet do novo-rico é um desperdício, é uma alegoria de sua maneira de encarar a vida. Onde estão cento e vinte convidados há comida para quatrocentos. A louça do rico tradicional é gasta. Nada reluz, nada é feito para impressionar. Aquilo existe, é algo que acompanha a sua vida. Com o novo-rico é diferente. Tudo novo, sem história ou gosto.”

Uma vez deu um mole e se aproximou rapidamente deles. Um empresário da região conseguiu que José Antonio do Nascimento Brito, o Josa, filho do dono do JB, realizasse seu sonho de conhecer o grande colunista. Para agradar ao amigo e patrão, Zózimo foi até o casarão do homem, ligado ao comércio do café, na Barra da Tijuca. Percorreu uma multidão de salas, de quartos e de mau gosto. Tudo em excesso. O anfitrião queria impressionar o nobre visitante e, quem sabe?, ganhar uma notinha no jornal. Mostrou o seu melhor, da coleção de uísque aos carros na garagem. Empolgado, fez com que Josa e Zózimo adentrassem também o closet da sua digníssima esposa para compartilhar a intimidade do casal. Foi quando mostrou, com fartura de sorrisos e orgulho, as calcinhas da amada. As rendas íntimas da madame eram todas salpicadas de brilhantes. Era a tara do emergente. Novo-rico até na cama.