Enquanto Houver Champanhe, Há Esperança
Capítulo 9
Na virada para os anos 1960, o Brasil já era um país cercado de colunistas sociais por todos os lados, e o mineiro José Mauro Gonçalves, que se iniciara na atividade em Belo Horizonte e mudara-se para o Rio, resolveu fazer um recenseamento. Dividiu em grupos os personagens que frequentavam aqueles espaços.
Havia o horseligne, o conglomerado dos grandes ricos, cheios da grana havia pelo menos três gerações. Discretos, reuniam-se em pequenos eventos, seguindo velhas etiquetas do servir à mesa e se comportar nos salões. O empresário e colecionador de arte Raymundo Castro Maya, dono da Cia. Carioca Industrial, que fabricava a Gordura de Coco Carioca, era horseligne.
O grupo dos big shots enfileirava empresários mais interessados em negócios do que em folguedos. Nas telas dos cinemas, atendiam pela alcunha de tycoons. Eram os Peixoto de Castro, que tinham a concessão da Loteria Federal, e os Monteiro Aranha de Carvalho, ligados à indústria do papel e à implantação da Volks no Brasil. Ao final do jantar, segundo José Mauro Gonçalves, retiravam-se para um salão onde fumavam charutos e bebiam armagnac.
A turma salon société manifestava veleidades intelectuais — devia inclusive usar palavras como “veleidade” ao curtir a nostalgia dos cafés literários europeus. Gostava de se reunir ao redor de algum escritor francês que passasse pelo Rio, tudo dentro de rigor compenetrado e austero. O pintor e crítico de arte Oswaldo Teixeira do Amaral e a cantora lírica Gabriella Besanzoni Lage puxavam o grupo. Cultivavam esculturas de Rodin, detestavam modernistas.
Os mais divertidos de todos, que desde os anos 1940 começaram a dar o tom das colunas, eram os do café-society, em bom português carioca, o café-soçaite. A turma vivia em festas em lugares públicos, restaurantes, cafés, clubes noturnos. O ponto de encontro mais glamoroso de todos, apresentado em seu início por Jacinto de Thormes, era o Vogue, que seria consumido por um incêndio em 14 de agosto de 1955 no qual morreriam cinco pessoas.
Ser do café-soçaite era perder os pudores dos ricos antigos, enclausurados nos salões, e brincar de aparecer ou, como se diria no século XXI, “causar”. Ao contrário dos horseligne, os do café-soçaite não viam problema em terem as festas veiculadas no jornal. Pelo contrário. Convidavam os fotógrafos. Posavam sorridentes. O registro social transformara-se na prova cabal, sem necessidade de reconhecimento em cartório de propriedade imobiliária, de que eles existiam. Estavam vivos. O capital deixava de ser apenas financeiro. Alguns dos membros do café-soçaite só carregavam no bolso o charme milionário de ter borogodó. Não tinham grana, mas lábia. Levavam a vida numa maciota tal, numa falta de suor tamanha, que pareciam ser de fato o que lhes era apenas sonho: ricos.
Era o caso do colunista Ibrahim Sued, o divulgador definitivo do grupo e ele próprio um membro da espécie. Ele está entrando em cena. Não é mais apresentado pelo piano de Sacha Rubin, que, a propósito, antes do fim do Vogue, já tinha aberto uma boate com o seu nome no Leme, a Sacha’s. Ibrahim é anunciado aqui pelo samba “Café-soçaite”, de Miguel Gustavo.
Doutor de anedota e de champanhota,
estou acontecendo no café-soçaite.
Só digo enchanté,
muito merci, all right,
troquei a luz do dia pela luz da Light.
Agora estou somente
contra a Dama de Preto,
nos dez mais elegantes eu estou também.
Adoro River Side, só pesco em Cabo Frio,
decididamente eu sou gente bem.
Enquanto a plebe rude na cidade dorme
eu ando com Jacinto
que é também de Thormes.
Terezas e Dolores falam bem de mim,
eu sou até citado na coluna do Ibrahim.
E quando alguém pergunta como é que pode,
papai de black tie jantando com Didu,
eu peço outro uísque, embora seja pronto.
Como é que pode?
Depois eu conto.
Lançada em 1955, “Café-soçaite” explicava em três minutos, em linguagem sapeca, as ramificações entre a sociedade e a imprensa. Era a oportunidade de um “pronto” (sem dinheiro), como Ibrahim Sued, jantar com o empresário Didu de Souza Campos e virar gente “bem”. Como é que pode? Ora, a grana já não estava necessariamente no banco, mas no nome colocado por um amigo influente na lista de convidados, na beleza de uma mulher ou na desenvoltura coloquial do cidadão. O capital era outro. A família Guinle, notabilizada antes pela construção de portos, usinas e estradas, surgia agora nas colunas catapultada por novos valores. Os negócios estavam decadentes, no entanto um de seus filhos, Jorginho Guinle, virara playboy internacional e conquistara a atriz hollywoodiana Rita Hayworth. Essa era a nova fortuna.
O novo brilho social valorizava o fato de se fazer engraçado, ter informações para trocar e até arriscar palavrório entre o francês e o inglês. Principalmente, e era o caso do herói do sambinha, ter muita esperteza, merci e all right. Ouvir atento, silenciar surdo quando preciso e ser elogiado por Tereza de Souza Campos, a mulher do Didu. A Dolores da letra era a americana Sherwood Bosshard, casada com o mesmo Jorginho Guinle. Era o mundo enchanté do depois-eu-conto e do descanso na River Side, a residência de verão do casal Leda e Vicente Galliez, na serra de Petrópolis (a propósito, a música não deu sorte aos dois, que se separariam em janeiro de 1956).
E quem seria a Dama de Preto? Ninguém. Era uma personagem criada por Ibrahim na coluna que mantinha na página 4 do primeiro caderno de O Globo. Tratava-se de uma senhora sempre de mau humor e disposta a exalar veneno e contrariedade. Um truque, uma maneira de o colunista se manter fora das situações negativas e inventar um contraponto às notícias, em sua maioria pontuadas por elogios. Algumas pessoas diziam que era Beki Klabin, outras, Elisinha Moreira Salles, e as duas — tão Damas de Preto! — ficavam aborrecidas.
O tom descontraído de noticiar o café-soçaite mostrava que o grand monde serioso dos ricos pomposos já era. Dépassé. Pesado, papos sem gargalhada, baixa libido. Viva o verdadeiro século XX trazido pelo fim da guerra, pela reprodução do comportamento dos ricos que se viam no cinema e pela algaravia contente do café-soçaite! Tudo publicado por seu arauto, Ibrahim Sued, em notinhas como estas, todas da década de 1950:
• A senhorita Vera Dolabella, que andava desaparecida,
reapareceu em companhia de um conhecido bachelor da
cidade, e tornou a desaparecer.
• Enquanto não se inaugura a linha de ônibus Méier-
Arpoador, o lugar mais “bem” da praia continua sendo o
quarteirão do velho castelo dos Catão. A sra. Tereza de
Souza Campos usou no sábado e repetiu no domingo o
mesmo maillot azul.
• Bife de Ouro está sendo chamado o restaurante da
sucessão, frequentado pelos principais nomes da política,
como o presidente Café Filho, o ex-presidente Dutra.
• Do international set: minha amiga Kim Novak saiu
muito com o galante instrutor de ski Tony Kastner.
• Até hoje não apareceu a estola da senhora Gisa Faria.
• Com as centenas de colunas que inflacionam os jornais
categorizados e os descategorizados, continuamos
encontrando em letra de forma nomes de pessoas cujos
cadastros são o mais shangai possível e senhoras e
senhoritas que compõem o grupo cocktail-girls e cocktail-
ladies da cidade.
• O sr. e sra. Carlos Guinle receberam para elegante jantar
en petit comité.
• E por hoje é só. Existe muita gente trabalhando com cola
e papel.
Em sua coluna, Ibrahim recuou uma casa — escrevia mal — na revolução que Maneco Muller, o criador do personagem Jacinto de Thormes, fizera no Diário Carioca. Mas avançou meia dúzia de outras. Radicalizou a impressão de que havia mudança de guarda na sociedade — o dinheiro, agora, era trazido também pelo comércio urbano e pela atividade imobiliária que transformavam o Rio. A imprensa se modernizava e seguia a onda social. Uma nova burguesia industrial aparecia enquanto o Brasil se despedia dos barões do café, dos Orléans e Bragança e do que cheirasse a passado imperial e agrícola. Ibrahim, sem esse discurso todo, representava isso.
Ninguém sabia mais onde estava o dinheiro: paquerando vedetes do chorus line do Night and Day? Na festa que Guiomar e Gustavo Magalhães deram para a atriz Ginger Rogers? No quadro de Alberto Giacometti, de meio milhão de dólares, que a também atriz Hedy Lamarr pediu a Jorginho Guinle por uma noite de amor? Ou estourando um champanhe na nova geração de boates pós-1953, como Arpège, Drink, Cabeça Chata, Plaza Hi-Fi Bar, Au Bon Gourmet, Fred’s, Texas Bar e Cangaceiro?
Na sabedoria de sua sintonia fina aos novos tempos, Ibrahim abriu a porta da esperança para todos os candidatos. Sua coluna café-soçaite misturava empresários (“o sr. Aloysio Salles, que deve estar chegando dos EUA, foi muito feliz nos negócios do cacau nos States”), profissionais liberais, políticos, governos (“estou informado que o governo inclina-se a entregar a exploração do petróleo boliviano aos cinco grupos que participaram do final dessa altíssima concorrência. Em sociedade tudo se sabe”), artistas (“Silvio Caldas e Jorge Veiga preferiram não mais dividir o microfone do Vogue”), mulheres notáveis pela beleza (“Ava Gardner portou-se como uma lady na abertura do Festival de Cannes, eu estava lá”). Todos cabiam no café-soçaite. Os escroques, os aproveitadores em geral e as aspirantes a ascensão social também podiam ser bem-vindos, desde que tivessem a misteriosa entidade do charme. Eram os donos da nova riqueza mundana, os “colunáveis” (outra expressão de Ibrahim). Mais do que nunca a coluna social passava a ser de variedades e subia o tom, pretensiosa, querendo ser um jornal dentro do jornal. Tinha sido coisa de veado. Com Ibrahim, virava coisa de jornalista — pela primeira vez um repórter estava no comando.
Ou se era kar (o que fosse bonito, bacana e bem apresentado) ou shangai (cafona, chinfrim). Ibrahim inventava até palavras. Havia quem o achasse, com seu ginasial incompleto, um tanto ou quanto shangai, mas seu estilo novidadeiro era kar. Os cães ladravam, como garantia uma de suas expressões mais usadas, mas a caravana ia em frente. E a caravana era ele próprio. Sozinho. Os cães, coitados, que não passavam de shangais, eram os intelectuais furrecos, ladrando suas incompetências e invejas. Outras do seu vocabulário diário: champanhota, caixa-alta (rico), caixa-baixa (metido a rico), locomotiva (líder), su (de sucesso), rebu (confusão), bomba (notícia importante), dragar (namorar), geração pão com cocada (juventude dourada), cocadinha (moça bonita), pantera (mulher deslumbrante), NI (pessoa de Notória Importância), linda de morrer, boneca e deslumbrada (novas-ricas), bola preta (para rejeitar), bola branca (para enaltecer), periferia (não colunáveis), sorry, periferia (para confirmar um furo) e não convide para a mesma mesa (referindo-se a inimigos).
Ao contrário do criador de Jacinto de Thormes, de família rica, Ibrahim Sued não tinha onde cair morto. Sua dinastia começava nele mesmo. Filho de imigrantes árabes do bairro da Tijuca (nunca perdoou o pai, um camelô, por ter abandonado a família), dormiu em pensões de Copacabana, foi caixeiro de loja, colocava a calça do terno embaixo do colchão para acordar com o vinco passado... Teve a dieta típica de certo tipo de vitorioso perfeito para biografias de autoajuda: o sujeito que comeu o pão que o diabo amassou e não gostou. A natureza, e agora começam as boas notícias, jogara esteticamente a seu favor. Ibrahim era bonito, olhos verdes, moreno alto, atlético e sensual. Circulava pela pérgula do Copacabana Palace com uma estatura física que compensava a falta de berço. Pé-rapado apenas para quem o conhecia. Aos demais — e o escritor Oscar Wilde dizia que só os muito superficiais não julgam pelas aparências —, Ibrahim parecia um sultão chegado na véspera de algum emirado árabe cheio de petróleo.
No momento em que Jacinto de Thormes começava no Diário Carioca, em 1945, Ibrahim fazia-se notório apenas pelas eventuais performances na Turma dos Cafajestes. Tudo gente fina, funcionários do Banco do Brasil, como o jornalista Sérgio Porto, oficiais da Força Aérea Brasileira, boêmios como o futuro documentarista de cinema Carlinhos Niemeyer, milionários como Mariozinho de Oliveira (herdeiro do Moinho da Luz, dos cigarros Veado e da cerveja Cascatinha), arruaceiros especializados em brincadeiras como colocar pedras de gelo dentro do biquíni de coristas no Golden Room do Copacabana Palace. Faziam as festas do Caju Amigo. Numa delas, no Au Bon Gourmet, a atriz americana Jayne Mansfield dançou com os seios desnudos em cima de uma mesa — e Ibrahim estava na turma do gargarejo.
Os cafajestes, as hospedarias, a pérgula do Copa, a luta pela vida e a grana curta, eis as suas faculdades. Começou a trabalhar em jornal como fotógrafo da madrugada. Em 1946, clicou o líder da UDN Otávio Mangabeira numa posição em que o brasileiro parecia beijar a mão do general americano Dwight Eisenhower. Foi uma humilhação para as cores nacionais — e o início da arrancada de Ibrahim, até que em 1954 se tornou colunista do Globo: no alto da página vinham o logotipo de Reportagem Social e, ao lado, o seu nome.
Ele não queria ser elegante no texto, não queria ganhar a glória literária, essas abstrações as quais não tinha ideia de como atingir — e para que mesmo atingir? Queria o palpável. Ganhar a vida. Era o invasor. Era o que era, sem disfarces, sem cachimbo. Queria chamar atenção com um estilo de boxeador rude, sem prosopopeias, e logo no início mandou seu recado:
• Determinados cavalheiros, que estão sempre
acompanhados de senhoras que estão caindo pelas tabelas,
deviam andar de atestado de óbito no bolso, para, quando
elas caírem mortas, não terem trabalho, é só puxar o
atestado e mandar para o necrotério. E por hoje é só. Para
falar a verdade, aos sábados eu tenho preguiça de escrever.
Jacinto de Thormes jamais escreveria período tão longo, sem ponto de respiro, e tão carregado de “quês”, vírgulas e outros paralelepípedos estilísticos. Também não seria tão grosso. Mas eis o jeitão da fera. Tudo truncado, aos tropeções, meio gago, porém com sangue pulsando. Numa coluna de 1955, na revista Rio Magazine, Ibrahim explicou no feitio que lhe era inerente, sem teoria, mas com informação, o que, afinal, era esse tal de café-soçaite:
• Os jantares de Didu e Tereza de Souza Campos, de Baby
e Eva Monteiro de Carvalho, de Dirceu e Vera Fontoura são
preocupações da crônica social que fala do café-society. O
café-society está numa conversa de fim de noite dos
compositores Antônio Maria e Marino Pinto, o que às vezes
impede muita gente de trabalhar no dia seguinte.
• Os artistas americanos que passam pelo Rio são sempre
recepcionados pelo casal Jorge e Dolores Guinle. As grandes
noitadas dos rapazes do Jockey (Waldemar e Lucio Schiller,
João Neder, Daniel Tolipan, João Carlos Osório) podem ser
assunto do café-society.
• Os papos do Fernando Ferreira, Carlos Souza Gomes,
Armando Pires do Rio, Ladislau de Abreu, Hermes
Machado, Roberto Leão Veloso e Renato Ladeira, nos
jantares do Vogue, são quase sempre transformados em
letras de forma. As reuniões na residência do Galeão do
ministro Nero Moura (um dos bons partidos do Rio) são
assuntos dos colunistas sociais.
• As peladas no Arpoador, as feijoadas das tardes de
sábado ou os almoços na pérgula da piscina estão no
dicionário do café-society.
• As preocupações chaplinianas de Sérgio Figueiredo, o
bikini de Carmem Terezinha Solbiati e os namoros de
Danuza Leão também entram nas conversas do café-society.
Cabia todo mundo, desde que se estivesse empenhado em festejar a vida em alto-astral e apostar nas forças ocultas do magnetismo pessoal. A expressão café-soçaite, dependendo do pesquisador e de sua origem, pode ter sido criada pelo escritor James McKinley Bryant, em 1941, no livro Cafe society register, onde alinhavava nomes de artistas, jornalistas, grã-finos, garotas lindas de atividades duvidosas, industriais... Mas quem a colocou em moda foram os colunistas americanos Maury Paul e Lucius Beebe. Tinha origem no fim da Lei Seca, em dezembro de 1933, quando os ricos saíam para se divertir nos night-clubs e restaurantes, espaços semiabertos onde se misturavam aos astros do cinema, dos esportes e afins, na farra de raças que no futuro seria chamada de vips. Aquelas pessoas podiam se conhecer, entretanto não eram íntimas, não se frequentavam. Festejava-se estar vivo, num encontro registrado pelas recentes máquinas fotográficas portáteis e em meio ao novo fundamentalismo mundano que Walter Winchell formatara para o jornalismo: a fo-fo-ca. Ainda não havia a necessidade de se apurar com duas fontes. Bastava ter “ouvido dizer”.
Ibrahim Sued misturou-se a esse teatro no lado de dentro da cena e contou aos leitores o mundo de fantasia dos ricos. Virava o rosto quando via traições conjugais — isso era coisa para os Mexericos da Candinha, a coluna fofoqueira especializada em flagrar artistas pulando a cerca, geralmente com gente do soçaite, da Revista do Rádio. Ibrahim não traía os seus. Gostava de exibir com sutileza a rapidez dessa impressionante escalada social. Nos textos usava sem parcimônia o pronome “nós”. Como nesta nota de 13 de janeiro de 1955, sobre a festa de aniversário de Tereza de Souza Campos, que continuava sendo a grande musa do elenco social carioca.
• O sr. Ari de Castro foi o host da noite. Reuniu em casa
antes do jantar no Sacha’s para uma champanhota. A sra. de
Castro encontra-se em sua fazenda no Uruguai e seu marido
estava com a dupla incumbência de festejar os aniversários
da sra. Tereza de Souza Campos e do sr. Gabriel Ferreira.
Tereza, logo que chegou, me disse: “Meu maior presente de
aniversário foi você ter incluído o Didu na lista dos
elegantes.” Ele, de terno escuro, camisa vermelha, colarinho
branco, gravata preta e cravo na lapela. Ela, com um bonito
vestido vermelho. O casal mais elegante do Brasil justificava
o título. Depois de gastarmos um pouco do estoque de Dom
Pérignon do anfitrião, partimos para a noite do Leme. A sra.
Ivone Monteiro, com um bonito vestido rosa, estava mesmo
uma boneca. Lourdes e Álvaro Catão, Maria Helena e Luis
Fernando Lopes, Irene e Carlinhos Guinle, Lilian e Joaquim
Xavier da Silveira, Murilo e Marilu Montenegro, Nininha
Leitão da Cunha, Nicole Hime, Dulce Cardoso de Almeida
Flyn, Carmen Terezinha Solbiati, Daysi Quentel, Roberto
Seabra, Osvaldo Vidigal, Antonio Alberto Torres e os sempre
simpáticos Célia e Robert Singery participavam do
acontecimento. A sra. Maria Luisa Ferreira, com a sua
palestra de sempre: “Este lado da boîte é uma beleza!” Nós,
sentados na pequena pista de cima, ocupávamos todo o
“lado das velas” da boîte do sr. Carlos Machado. Aliás, é o
lado “bem” da boîte em questão. Para as pessoas “bem”, as
celebridades, como no El Morocco, de Nova York, e como no
Vogue do Rio. Convencionou-se que o trace de cima é
“bem”. Coisas que acontecem nas melhores sociedades do
mundo.
Conforme foi crescendo na profissão, Ibrahim tornou-se truculento no trato pessoal, irascível com os comandados que não seguiam seu pique. O homem não perdia tempo com pequenas educações, fingindo-se gente boa, fazendo salamaleques com a plebe rude e ignara dos invejosos. Dava a todos “bola preta” e saía altaneiro: “Sorry, periferia.” Gostava do poder da coluna e exercia-o ao gosto do momento, sempre fiel ao seu temperamento vulcânico. Uma vez meteu-se numa briga no Sacha’s e ficou surpreso quando Sacha Rubin tomou as dores do oponente. Avisou: “Sacha, eu vou fechar esta casa” — e com o seu bombardeio de notinhas logo as portas estavam, temporariamente, cerradas. O Bife de Ouro do Copacabana Palace teve mais sorte. Quando chegou à sua mesa uma cerveja quente, sinalizou que a preferia gelada jogando a garrafa para o alto. Apesar do noticiário negativo dos dias seguintes, o restaurante sobreviveu e, magnânimo, continuou a dedicar ao intratável freguês o mesmo desconto de 20% de antes.
Aos poucos, foi aumentando seu caderninho de fontes. Em meio à mundanidade festiva, pingavam notícias quentes da política, da economia, do que julgasse importante. Ninguém ensinou, não havia escola de jornalismo nem para os ricos. Aquilo era uma terra de ninguém, dando sopa. Foi juntando tudo num cassoulet com tempero próprio, a feijoada de feijão-branco servida como jornalismo e todos os outros ingredientes no mesmo caldeirão da página 4 do Globo: os novos príncipes do comércio urbano, sucessores dos duques imperiais e do baronato rural, fervidos com rumores do Itamaraty, mexericos culturais e o vaivém do quem-come-quem pelos pontos sofisticados do Rio (“Genaro Acetta circulando nos clubes noturnos devidamente acompanhado por uma brunette” — uma morena, no estilo Ibrahim). Ao fundo, como faziam as vedetes do teatro rebolado, todos pareciam levantar os braços e gritar “oba!”.
Ibrahim aparecera no momento certo, no meio da cidade que vivia os chamados “anos dourados” do Rio, a década de 1950, o auge da felicidade de ser brasileiro — e a coluna, com o tom para cima, irradiava isso.
Lá vinha Jorge Eduardo Guinle, o Jorginho, já separado de Dolores, conquistando Jeanne Crain, na coluna de 20 de setembro de 1956. No mês seguinte, lá estava o jovem diplomata Afonsinho de Mello Franco diplomando-se advogado com um show de italiano na defesa da tese em Roma. E lá estava o próprio Ibrahim, único jornalista brasileiro no casamento de Grace Kelly em Mônaco, na fila de cumprimentos do casamento do xá da Pérsia, mergulhando na piscina dos Matarazzo, em São Paulo, e levando um papo cheio de gargalhadas com Getúlio Vargas na varanda do Catete.
Ibrahim circulava pela festa carioca, mas sempre que podia colocava em prática outra de suas invenções semânticas: botava o pé no jato. Mandava notícias de Hollywood (onde a indústria do cinema se mostrava anfitriã generosa na tentativa de cooptar jornalistas na luta contra a TV). Namorou as atrizes Ava Gardner e Elaine Stewart. Seguia pelo menos uma vez por ano até Paris, ou aonde mais o convidassem para a cobertura de algum festival ou inauguração de hotel. Um colunista tinha todos os bilhetes aos paraísos que escolhesse. Corria atrás do prejuízo, como se diz, de anos e anos mal vividos. Topava quase todas as ofertas.
Às vésperas de publicar a relação das debutantes que adornariam o seu concurso glamour girl (os colunistas sociais José Rodolpho Câmara, da Manchete, e o Barão de Siqueira Junior, de A Noite, também se dedicavam ao negócio de agenciar festas, um subproduto da profissão), Ibrahim recebeu a visita de uma bela senhora da sociedade. “Quero que minha filha seja glamour girl — e faço qualquer coisa por isso”, ofereceu-se a mulher. Ibrahim — contando a história décadas depois, sem nomes — diz ter demorado a reparar que ela usava blusa de musselina, transparente. Foi aí que ele tergiversou. Garantiu que a lista estava pronta e, delicadamente, levou a mãe até o elevador.
Em 1955, preferia usar o poder de colunista para ensinar a plebe rude a lustrar seus modos e se comportar dentro da etiqueta vigente.
• Moça solteira faz uso de cartão de visita apenas no meio
feminino, abrindo exceção para os seus professores, o padre
e o médico da família.
• A roupa clara nunca deve ser usada em reuniões à noite.
• Nas festas dos 15 anos, os pais devem presentear a
debutante, que pela primeira vez se apresenta vestida de
baile, com uma joia.
• Os saleiros modernos, pequeninos, devem ser sempre
usados à mesa, mesmo nos jantares de cerimônia.
• Senhora acompanhada de cavalheiro jamais se dirige ao
garçom.
• Um rapaz solteiro retribui convites, convidando casais
para jantar em lugares públicos, restaurantes ou boates.
• Para peixe, vinho branco; para carne, vinho tinto; à
sobremesa, champagne. Ou, então, champagne para todos
os pratos.
• Na rua, uma mulher não dirige cumprimento a um
homem. Aguarde que a iniciativa seja deste, mesmo que
haja toda a intimidade.
• Nunca se deve pedir lenço emprestado.
• É de mau gosto perfumar excessivamente o papel de
cartas.
• O homem deve evitar ao máximo o uso de joias. Um
homem sóbrio e elegante usa apenas cigarreira e
abotoaduras.
Ibrahim lançou a lista dos Dez Homens Mais Elegantes. Nomes de grã-finos e políticos como Octávio Guinle, Aloysio Salles, Oswaldo Aranha, dom João de Orléans e Bragança, Paulo de Oliveira Sampaio, Marcelo Garcia, Eduardo Bahouth, Cesar Mello Cunha, Didu de Souza Campos (casado com Tereza, o casal 20), Negrão de Lima e o sambista Ataulfo Alves. Seus limites entre o jornalismo e o empreendedorismo comercial eram largos, podia até misturar os dois. Uma vez deu notas favoráveis aos negócios da família Marcondes Ferraz, que, entre outras atividades, estava introduzindo no Brasil a marca GE. “Quero agradecer pelas notas”, disse um dos diretores da empresa. Ibrahim sugeriu uma geladeira — e o empresário, tomado de carinho pelo “Turco”, como era chamado, ensinou-lhe que uma coluna de notas tinha um poder de fogo superior. Ibrahim aprendeu. Como as definições de ética ainda não estavam muito claras para a profissão, logo seria sócio silencioso de restaurante. Enriqueceu. Jacinto de Thormes passaria seus últimos anos morando de favor na casa da ex-mulher.
Estava por cima da carne-seca. Seguro, dono da situação, começou a curtir com a cara dos seus personagens. Chamava os inimigos de “chumbetas” ou “chumbregas”. Um dia anunciou a chegada ao Brasil do príncipe Waterman, um nobre alemão com castelos na Bavária, casa em Biarritz e apartamentos em Sutton Place, em Nova York, e na avenida Foch, em Paris. Fez com que passeasse por todas as boates, e os chumbregas começaram também a vê-lo nos salões. Era tudo mentira, era sua maneira de denunciar os que queriam alardear prestígio a qualquer custo. Não morria de amores pela sociedade, um agrupamento em que via um monte de desocupados nadando no dinheiro preguiçoso das heranças, enquanto a plebe rude ralava e não tinha nada. Estava agora do lado dos contemplados pela sorte, mas vinha do outro lado da cidade — e sabia da injustiça.
Com a fome resolvida, procurava outras vitaminas no bufê das festas. Os jantares, que podiam parecer acontecimentos de papos vazios e anotações para crônicas cínicas de Jacinto de Thormes, para Ibrahim revelavam-se aquários para pescar notícias. Entre um canapé e outro, desde que bem observadas, havia manchetes. O ministro, animado por duas taças, mostrava a minuta de um decreto ainda inédito, o industrial abria o jogo sobre uma grande fusão de empresa e o banqueiro dava uma informação de bastidores da bomba que agitaria o mercado nos dias seguintes.
Foi ele quem introduziu a mística do “furo”, da “bomba” e da hard news no cenário frívolo do colunismo. Apurar as informações, na escala industrial que o formato exigia, com duas dezenas de notícias exclusivas por dia, tornou-se operação de guerra e pela primeira vez um colunista passou a ter auxiliares na operação (os jornalistas Elio Gaspari, Ricardo Boechat, Fernando Carlos de Andrade e Márcia Bahia trabalharam com ele). Ralava. Guimarães Rosa, que não falava com jornalistas, passava os bastidores do Itamaraty, contudo isso só foi divulgado depois da morte do escritor. Ibrahim não revelava fontes. Falava com presidentes, banqueiros. Gaspari jamais ouviu dele a frase que considera a pérola máxima da egolatria jornalística: “O rei me contou.”
“Olho vivo que cavalo não desce escada”, dizia em outro de seus intermináveis bordões — e o caravaneiro do colunismo tocava em frente. Para os revisores do Globo, sempre ávidos por mexer em seus escorregões vernaculares, o “Turco”, ao crescer de prestígio, inventou uma cutucada. Mandava as laudas encimadas com um carimbo orgulhoso e brigão: “Favor esquecer Camões. Não mexer no meu estilo. Merci.”
Algumas colunas, para evitar constrangimentos, eram revisadas pelo diretor-secretário, Ricardo Marinho, irmão de Roberto, dono do jornal. Ibrahim circulava com o patrão, praticante de salto a cavalo, na Hípica. Numa tarde, no final de 1963, quem acompanhava os dois era Boy, sócio do clube. De pouca intimidade com Ibrahim, das noites do Vogue, e menos próximo ainda de Marinho — o tycoon indo para a pista com os cavalos e ele, para o carteado —, Boy declarou-se preocupado com o filho. Relatou o abandono dos cursos de direito, de sociologia, as brigas, a paixão mal resolvida, a relação extravagante com um grupo de teatro — e, a favor, disse que o garoto escrevia bem, argumento que na época fazia as pessoas se interessarem por jornalismo. Zózimo já fizera um texto para o Instituto Brasileiro do Açúcar e do Álcool, sobre o qual conversara entusiasmado com o pai. Escrever poderia ser a solução para seu impasse profissional. Autorizado pelo filho querido, Boy avançou na conversa com Marinho. Será que ele não tinha um lugar para Zózimo no Globo? Marinho tinha: “Manda ele lá no jornal amanhã.”
E assim, em 18 de dezembro de 1963, aos vinte e dois anos, animado, Zózimo Barrozo do Amaral vestiu um terno feito no Alberto Marques e — para sempre agradecido por Ibrahim estar próximo no momento em que seu destino foi selado — apresentou-se ao chefe de reportagem do Globo, Leonídio de Barros. Tornava-se o novo repórter para assuntos da cidade.