Enquanto Houver Champanhe, Há Esperança

Joaquim Ferreira dos Santos · Capítulo 47 de 50

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Enquanto Houver Champanhe, Há Esperança

Capítulo 47

O piloto do avião, ar compungido, chegou para Gisela Amaral, sentada numa das primeiras filas, e ofereceu-lhe a mão em cumprimento: “Meus pêsames, minha senhora, que seu marido descanse em paz.” A bordo, no bagageiro, fazendo o trajeto Miami-Rio, estava o corpo de Zózimo. O comandante, sabendo que Gisela era a acompanhante do caixão e também de sobrenome Amaral, julgou-a a viúva (Dorita embarcara antes para o Brasil). A senhora Ricardo Amaral aceitou os cumprimentos. Aquela confusão teria dado uma boa nota na coluna.

Na quarta-feira, 19 de novembro de 1997, enquanto o corpo de Zózimo viajava para o sepultamento no São João Batista, em Botafogo, o Globo publicava a última coluna com seu nome no alto da página. Ela já estava fechada, com o Segundo Caderno impresso, quando chegou a notícia do falecimento (ocorrido às vinte horas e quarenta e sete minutos de terça-feira, dia 18 de novembro, hora de Brasília). Não houve jeito senão mandá-la para as bancas, como se fosse um fantasma fazendo a última visita a seus leitores. Era ilustrada, em dia tão triste, pela foto de uma jovem sorridente, vestido vaporoso, com a legenda: “Com o coração batendo a mil, Betina Haegler só podia estar mesmo com esse ar de felicidade.” Foi sem querer, mas Zózimo aprovaria a despedida alto-astral.

Havia dois meses, Valéria Blanc responsabilizava-se em manter a meia página com respiração artificial, na esperança de que o titular voltasse e tudo não tivesse passado de mais uma ausência. O mix de notas daquela última coluna seguia a fórmula aprimorada por Zózimo. Incluía notícias sobre o governo FHC, um festival de cinema em Búzios, a venda da fábrica de água San Pellegrino para a Nestlé, a onda de violência no Rio — e, claro, a nota do Beaujolais Nouveau 1997, que, já no dia seguinte, na mesma quinta-feira que os franceses, poderia ser degustado no Rio. Embaixo da coluna, um enorme anúncio convidava a cidade a abrir suas garrafas e informava os restaurantes que já teriam o privilégio de poder oferecê-las. Pelo menos em duas notas Valéria tentava a difícil arte de emular o humor do chefe e dar a impressão de que ele estava na redação. Com o título “Crescido”, noticiou:

 

• Com a sua longa existência, o El Niño já pode ser

chamado El Hombre.

 

A nota “Tem lógica” era inspirada no espírito moleque de Zózimo:

 

• E Tóquio, hem?

• Mexeu os pauzinhos para as bolsas levantarem.

 

Se no Segundo Caderno Zózimo ainda estava vivo, na capa o jornal anunciava a sua morte com o título “O Rio perde o seu colunista” e o subtítulo “O jornalista que criou o jeito carioca de dar notícia”. Zózimo foi pranteado num obituário carinhoso que somou sete páginas ao longo de três dias seguidos (contra sete páginas de Ibrahim em duas edições). O presidente Fernando Henrique Cardoso disse que desaparecia uma expressão do espírito do Rio. O Senado aprovou, por iniciativa de Antônio Carlos Magalhães e Guilherme Palmeira, inserção em ata de voto de pesar.

O sepultamento seguiu ritual católico, com seiscentas pessoas. O caixão estava coberto com a bandeira do Flamengo (discretamente, o assessor de imprensa Roberto Mota, seu padrinho no posto de Copacabana, colocou junto ao corpo fichas dos Alcoólicos Anônimos) e emoldurado por quarenta coroas de flor. Foi carregado pelo filho, Fernando, o cunhado, João Paulo dos Reis Velloso, o amigo Sergio Bermudes e o inevitável Jaiminho, tipo folclórico da cidade que pegava carona nas alças dos caixões famosos para virar celebridade. Paulo Marinho e Ricardo Amaral acompanharam o féretro. Dona Elza aproximou-se do caixão já na cova, jogou uma rosa e murmurou: “Vá em paz, meu filho.”

Havia no São João Batista uma multidão de personagens da coluna, um name-dropping interminável que ia da atriz Mila Moreira ao advogado Luis Octavio da Motta Veiga, do colunista Maneco Muller, o Jacinto de Thormes, à modelo Adriane Galisteu. Todos deram depoimentos emocionados aos jornalistas dos principais jornais brasileiros, que publicaram o falecimento em suas primeiras páginas. Joyce Pascowitch fez na Folha de S.Paulo o perfil do colunista social, atividade que ela também exercia, com influência das inovações de Zózimo. O título do artigo era “Ele sabia das coisas”:

 

Segurar a barra de ser colunista “social” não é tarefa das

mais fáceis. Tem seus encantos, mas o preço é também

muito alto, tipo vale quanto pesa — ou talvez pese mais do

que valha. Depois de mais de 20 anos de batalha, ele já

estava cansado. Cansado, aliás, era pouco — ele parecia

exausto de todo aquele brilho, aquele congestionamento de

egos inchados, aqueles falsos brilhantes. Como foi ele o

primeiro a sacar a mudança, isto é, a sair daquele mundinho

high society e ver o que estava por trás de tudo, o poder, a

política, o estado das coisas, foi para ele que a desilusão

deve ter chegado primeiro.

 

Nas páginas internas do Globo, o título mais forte era “O último tributo da corte ao príncipe do colunismo”. Paulo Marinho fez texto revoltado, com o título “O que ele não conseguiu dizer”:

 

Digo-o como alguém que acaba de testemunhar o fim de um

irmão querido e com o sentimento de estar tornando

público o protesto que o destino não lhe deu tempo de fazer.

Zózimo morreu vítima do cigarro, um flagelo capaz de

produzir mais vítimas que todas as guerras. Tenho

esperança de que algum dia nossos governantes tomem

decisões efetivas para impedir a continuação desse

massacre. Era isso, acredito, que Zózimo pretendia dizer se

não partisse tão cedo.

 

Coube a Telmo Martino, no caderno Ela do sábado seguinte, redigir a crônica social do evento. Não se fez tão venenoso, evidentemente, mas uma víbora nunca economiza os dentinhos afiados quando tem oportunidade de exibi-los. Com o estilo que Zózimo sonhara ter a seu lado desde os tempos do JB, traçou rápidos perfis do comportamento de alguns personagens da coluna no momento em que foram se despedir do criador:

 

Noel Rosa deixou instruções, exigindo, por exemplo, o nome

dele na fita amarela. Zózimo, bem mais experiente, não

exigiu nada. Tinha certeza de que tudo aconteceria dentro

do comme il faut carioca. Sabia que Marcia e Dorita não

iriam disputar o papel de viúva. Era inevitável que Paulo

Marinho roubasse esse papel para desempenhar com uma

primorosa perfeição por todos observada.

Os grandes amigos, como Ricardo Amaral, solene como

um remador, e Sérgio Figueiredo, agitado como um coelho

sem cartola, comportaram-se com a honestidade de suas

emoções. Nada como Hélio e Silvinha Fraga, que saíram do

carro e caminharam rápido e em linha reta, como se

decoração tivesse outra realeza que não fosse aquela

emprestada com o humor de um colunista irônico. (...)

Karmmita Medeiros estava com aquele destaque de

sempre. Totalmente diferente de Glorinha Paranaguá. Não

só na bolsa que usava, como também na maneira diferente

de carregá-la. O jeito de Glorinha era de amiga da família.

Tânia Caldas também foi vista vestindo uma rede como se

tivesse sido pescada. É verdade. Elas estão sendo

protegidas.

É claro que nenhuma das presentes caminhava de

maneira tão discutível como a Glória Maria, de bolsa

Vuitton e aquele jeitinho de quem não usa todas as peças da

lingerie. Glória Maria provocou o interesse total do grupo

de favelados que a tudo observava. “É ela mesmo. Foi ela

que apareceu na Xica da Silva.”

Do mundo dos espetáculos, Maitê Proença se destacou

com uma abertura de grande profundidade. Era tão

inquietante a abertura, que o suspiro de Adriana Marinho

foi quase tão profundo quanto o do Zózimo quando a Maitê

se retirou da sala. (...)

Hélio e Silvinha Fraga não se demoraram. Não havia

nenhum faux bois no caixão importado dos Estados Unidos.

Como a paulista Bia Duarte, que estava lá como parte do

sempre encantador séquito do Amaral. Por falar nisso,

Perico e José Hugo Celidônio conversavam amenamente.

Outros restaurateurs de menos prestígio também estavam.

Zózimo era adepto de um picadinho nunca modesto para

recuperar as forças depois de um longo dia de furos, sempre

preocupado com o mot just que o colunista de muito boa

leitura nunca dispensa.

Ninguém se atreveu a falar. Principalmente os que

ganharam sua melhor fama como personagens da coluna.

Ivo Pitanguy sempre se destacava por mais importante que

fosse a celebridade que com ele conversava. Mesmo quando

não fosse o Gilberto Chateaubriand seu grisalho

companheiro de prosa. Pitanguy era o único que ainda

conservava escuros os seus cabelos.

Pouco faltava para o fim do velório, quando um carro que

se abriu mostrou que Adriane Galisteu e seu Julio chegavam

para se despedir de quem lhes deu a melhor existência

impressa. Ela, surpreendentemente, estava vestida, mas

rotineiramente de preto. Se mostrava alguma preocupação

só poderia ser decorrente da dúvida de quem escreveria

sobre ela com verve parecida, já que idêntica não será mais

possível.

 

Elio Gaspari, o jornalista-referência, escreveu que Zózimo “era um craque”:

 

Era capaz de acordar um amigo, puxar meia dúzia de

assuntos, jogando a conversa da última crise do ministério

para a cruzada de pernas de Sharon Stone em Instinto

selvagem e sair com duas ou três informações sem

demonstrar a menor ansiedade em obtê-las. Fazia assim

porque era bem-educado. Se as pessoas que cruzam o

caminho das outras sem jamais aborrecê-las, dispostas a

ouvir mais do que falar, são uma prova da existência de

Deus, ele foi um missionário numa grã-finagem tapuia.

 

Entre as declarações recolhidas pelos jornalistas estavam as de autoridades do Rio, algumas atingidas por duras críticas de Zózimo, como o governador Marcello Alencar e o jogador Zico (“talvez por ser torcedor fanático, algumas notas eram do torcedor e não do colunista”), todas elogiosas e sentidas. Manoel Francisco do Nascimento Brito, do JB, parecia não ter, quatro anos depois, digerido a saída do funcionário. Das declarações publicadas no dia 19 de novembro, a sua foi a mais lacônica: “Eu conheci o Zózimo, foi um grande jornalista do Brasil.” Horrível, mas podia ter sido pior. Meses antes, quando Sergio Bermudes lhe comunicou o câncer do ex-colunista e ex-grande amigo, Brito foi ainda mais fundo: “O Zózimo procurou isso.”

Na Veja, Marcos Sá Corrêa, seu ex-diretor de redação no JB, traçou um perfil de página e meia com o título “Colunista colunável”. Lembrou a elegância de Zózimo ao escrever e como ele dissipou a saúde no embalo de muito trabalho, muito cigarro, drinques não só de champanhe e noites maldormidas. “Essa era a marca registrada de Zózimo. Tratava todo mundo muito bem. Mas se tratava muito mal.”

Ricardo Boechat, entrevistado por Timóteo Lopes, primeiro colaborador de Zózimo na volta para o Globo, lembrou o lado crítico do amigo:

 

No fundo, Zózimo foi um verdadeiro anarquista, um

Groucho Marx, que observava com elegante desdém o

grand monde que circulava em sua coluna. Ele sabia

aproveitar o que esse mundo tinha de gostoso, no sentido do

tato e do paladar, mas não o reverenciava, não era seu

escravo, não era um devoto. A sua morte apressa o fim desse

colunismo de variedades, um jornalismo em extinção por

viver da pretensão suicida de dar um furo diário nas

editorias de Economia, Esporte, Política, Cultura. É uma

forma de jornalismo que caminha para o mesmo

despenhadeiro da coluna social, que foi irremediavelmente

morta com a derrocada dos palácios, dos personagens, dos

grandes capitais.

Carmen Mayrink Veiga não foi ao enterro. Um vírus tropical a atacara da cintura para baixo, o que lhe provocava desequilíbrios e dificuldades de locomoção. Depois de muitos anos de bengala, usava cadeira de rodas. O problema apareceu em 1985, logo após o casamento da filha, Antonia, que tentaria a carreira de atriz e trabalharia em novelas da Globo, ostentando o sobrenome Frering por casar-se com o herdeiro de um grupo de mineração de ferro e manganês (o casal ajudava Carmen e Tony, em situação financeira ainda ruim devido à falência). Carmen seria diagnosticada com uma espécie de esclerose múltipla e vivia à custa de altas doses de cortisona, surgindo daí novos problemas. Dizia que podia entrar no Guinness Book, tantas ressonâncias magnéticas tinha feito.

Manuel Ribeiro Romar, o Manolo, do Antonio’s, já fechado, estava no interior da Espanha, vivendo como padre num mosteiro. A baronesa Sílvia Amélia, que acabara de comemorar em seu castelo próximo a Paris os vinte e quatro anos de casada com Gérard Waldner, mandou telegrama sentido. Odile Marinho, que depois de casar com o cunhado, Luiz Carlos Marinho, irmão de Paulo, virou hippie, casou-se de novo com James Moss, roqueiro americano dezesseis anos mais novo que conheceu em 1985 no primeiro Rock in Rio. Em 2015, continuavam juntos numa casa de campo em New Hampshire, Estados Unidos. Ela passava os dias pintando e lendo. A última notícia que enviou ao Brasil foi numa carta para a amiga Kiki Garavaglia. Vinha em forma de uma foto em que Didile, aos sessenta anos, posava de biquíni de oncinha. No verso da imagem, dava a informação que Zózimo adoraria publicar: “Diga a todos que a bundinha de Didile continua a mesma.”

O Jornal do Brasil deixou de circular em papel no dia 31 de agosto de 2010. Manteria apenas a versão digital, para onde carregou suas duas colunistas de notas: Hildegard Angel e Heloisa Tolipan. O jornalismo impresso vivia uma crise provocada pelo noticiário on-line, que agora despejava gratuitamente informações que antes eram tornadas públicas apenas por jornalistas. Quando Zózimo se tornou o Carlos Swann do Globo, no longínquo 1965, a cidade ainda contava com duas dezenas de jornais diários. Em 2016, havia apenas O Globo, O Dia, Extra, Meia Hora, Expresso e Lance!. Nas ruas, Destak e Metro eram distribuídos gratuitamente.

A prefeitura fez duas homenagens a Zózimo. Na Zona Norte, colocou seu nome em um Centro de Referência de Assistência Social nas vizinhanças do Mercadão de Madureira, a maior reunião de lojas consagradas ao comércio de artigos de umbanda da cidade. Na Zona Sul, em 25 de novembro de 2001, levantou uma estátua na praça no final do Leblon, de frente para a praia e de lado para uma estação de tratamento de esgotos. Zózimo está de pé, com o rosto que tinha em 1982, olhando para a orla. Sorri com a boca fechada. Com a mão direita, segura o paletó jogado sobre os ombros. O cotovelo apoia-se num muro, que abriga uma máquina de escrever, uma agenda de telefones e reproduções de dois artigos publicados no dia de sua morte: o “Era um craque”, de Elio Gaspari, e o de Armando Nogueira (“escrevia deixando escondida, atrás de cada frase, uma segunda intenção, nos fazia ver o fato com os olhos entreabertos da sutileza”). A placa com o seu nome e as informações fundamentais (“Carioca, jornalista e Flamengo”) foi roubada na semana seguinte.

A marca de Zózimo permaneceria sendo lembrada pelos colunistas que nas décadas seguintes tentariam preservar a saga de fazer diariamente um jornal dentro do jornal. Danuza Leão continuou até 2001 no JB, pautando suas notas pela descrição detalhada dos vestidos das madames nas festas e a modernização das etiquetas, aquele tópico que um século atrás já era criticado pelo escritor Lima Barreto. No Globo, Ancelmo Gois daria muitas notas com o título “À la Zózimo” e o bordão “e o fulano de tal, hem?”. Fred Suter, no Dia, carregava num humor que, segundo Marcos Sá Corrêa, “era capaz de cortar a língua de um personagem sem lhe arranhar a fisionomia”.

Quem sucedeu Zózimo foi o ítalo-paulista Alessandro Porro, que havia anos trabalhava em redações da Editora Abril. O Globo fez uma pequena mudança para abrigá-lo: Ricardo Boechat, que assinava a coluna Swann, passou a ter seu nome no alto da página e continuou no primeiro caderno. Porro assumiu Swann, com a coluna transferida para o Segundo Caderno, no espaço onde Zózimo tinha reinado.

A partir do retrato de Porro no alto da coluna, com o pescoço coberto por uma gravata-borboleta que nem Jacinto de Thormes toparia, tudo logo se mostrou um equívoco. Porro criou uma personagem de extremo mau gosto, uma mulata a quem observava da janela de seu apartamento em stripteases diários — parecia querer fazer uma ode ao verão do Rio e seu liberalismo comportamental, mas só aumentava a saudade que os leitores sentiam do colunista anterior. Não tinha fontes, não acertava o tom da piada, não conhecia o carioca. Procurava encarnar um papel de dândi decadente solto nos trópicos. Ficou no cargo por oito meses. Fracassou em parte por culpa dos próprios equívocos. Poucos jornalistas, no entanto, não teriam sido escanteados para a mesma vala comum da derrota. Os leitores tinham se acostumado com o padrão Zózimo de qualidade.

Para relembrá-lo, Fernando Barrozo do Amaral, trabalhando como economista em São Paulo, fez uma homenagem mais profunda. Em 2005 lançou uma biografia fartamente ilustrada, com a colaboração dos jornalistas Fred Suter e Maurício Villela. Diariamente trazia na capa uma foto que era uma celebração do espírito alegre do pai. Em preto e branco, em meio a uma pista de desfile do Sambódromo do Rio no Carnaval de 1982, aparece Zózimo, rindo, com o cigarro que ainda usava o tempo todo no centro da boca. Ele é carregado no colo por um homem bem mais forte, que usa para a operação de levantá-lo apenas um dos braços. Zózimo parece, divertidamente, querer se livrar da situação, enquanto ao fundo a multidão assiste à brincadeira daqueles dois no meio da avenida Marquês de Sapucaí. O crédito da foto, em preto e branco, perdeu-se pelos arquivos, mas, apesar da qualidade sofrível da imagem, dá para ver que o homem que carrega o peso-pena Zózimo, como se levantasse uma pasta, é um peso-pesado do jornalismo, Elio Gaspari.

Fred Suter fez entrevistas para o livro e estava combinado que participaria de sua elaboração final, mas, com o temperamento difícil de sempre, desentendeu-se com Fernando e abandonou o projeto. Em outubro de 2007, publicou um perfil carinhoso de Zózimo na revista J.P., de Joyce Pascowitch (“Foi o professor que todo mundo aprendeu a respeitar e a admirar porque era ético, culto, viajado, brilhante e inteligente. Viveu a vida que sempre quis e que sempre teve”). Depois do Dia, passou pelo Jornal do Commercio, sempre com colunas em que seu nome vinha no alto da página. Como Zózimo, Fred também tratou muito bem o texto, mas se tratou muito mal. Morreu em 2011, com Alzheimer, paupérrimo, pedindo dinheiro emprestado a todos os nomes que constavam em sua agenda de telefones.

Dona Elza alugou a casa da rua Frei Leandro para o cineasta Guilherme Fontes usar como escritório de produção da cinebiografia de Assis Chateaubriand, o ex-marido de Branquinha, irmã de Boy. No final de 2016, o imóvel não pertencia mais à família e abrigava uma escola de sapateado e dança urbana da coreógrafa Gisela Saldanha. Elza morreu de câncer em 2003, aos noventa anos.

Dorita fechou as lojas de paisagismo e continuou dividindo sua vida entre Miami, a cobertura do Jardim Botânico e São Paulo, onde manteve uma casa. Na primeira semana de dezembro de 1997, publicou na contracapa do Segundo Caderno do Globo um depoimento emocionado sobre seus últimos momentos com Zózimo. O título, “Amorzinho... Merry Xmas...”. O texto era ilustrado com foto do casal, Zózimo de bermuda e boné, pronto para entrar no jipe que o levaria para mais uma aventura na sua derradeira viagem, ao Nepal. No livro Relatos de uma alma, lançado em 1999, Dorita trataria de seus encontros místicos e também da vida com Zózimo, dando um destaque especial à viagem feliz pelos templos budistas e depois à dolorosa via-crúcis pelos corredores do Mount Sinai:

 

No final, já quando mal podia falar, resolvi testá-lo e

perguntei:

“Zózimo, como eu me chamo? Qual é o meu nome?”, insisti.

E ele, piscando o olho, cheio de charme, balbuciou:

“Amorzinho...”

Foi sua última palavra.

 

A mística Dorita continuou sentindo a presença de Zózimo pela vida. Sempre brincalhão, ele lhe apareceu num sonho, numa banheira cheia de mulheres. Quando fazia um cruzeiro pelo Caribe, o famoso médium americano James Van Praagh perguntou a Dorita de quem era a foto na mesa de cabeceira dela — era de Zózimo. Praagh disse que estava se comunicando com ele. “Ele me diz”, continuou o vidente, “que ficou aborrecido e contrariado de ter de partir. Não queria de jeito nenhum. Ama você.”

Em 7 de abril de 1998, dia de seu aniversário, Dorita pegou a cachorrinha, batizada por Zózimo de Penélope, e foi dar uma volta na orla da lagoa. Mal chegou ao parque, Penélope avistou uma folha de jornal e resolveu fazer xixi em cima dela. Dorita reconheceu algo e se aproximou. Era uma página do Globo com uma coluna de Zózimo. Ela afastou a cachorra, salvando a página. A coluna era a de 31 julho de 1997, uma semana antes de Zózimo ser diagnosticado com câncer e parar de trabalhar. Entre as notas, Dorita encontrou uma com as marcas que consagraram o estilo do marido — um swing carioca de charme, inteligência e bom humor. Com o título “Barbas brancas”, tratava do “chupa-cabra”, uma lenda urbana que impressionara o interior do estado do Rio. A nota provocou uma das últimas gargalhadas com que Zózimo, durante vinte e oito anos, desde que passou a assinar seu nome no Jornal do Brasil, ajudou a melhorar o café da manhã do brasileiro. Dorita, feliz, abraçada a Penélope, começou a caminhar por aquele belo dia de sol e parecia ouvir a voz de Zózimo enquanto lia a nota:

 

• Suspeita-se que o Chupa-Cabra seja um velhinho. Se

fosse moço, comia.