Enquanto Houver Champanhe, Há Esperança
Capítulo 24
É dura a vida de colunista. Um leitor, visitando a redação e espantado por encontrar Zózimo atrás da máquina de escrever, disse que o imaginava sempre como um Fred Astaire, de casaca e cartola, dançando com alguma Cyd Charisse pelos salões elegantes do Rio. Nada disso. Sua função era dar furos no próprio jornal, uma corporação, em meados dos anos 1980, com quinhentos jornalistas correndo atrás da mesma caça. Zózimo tinha criado um monstro: a responsabilidade de melhorar o café da manhã dos brasileiros. Como todos os monstros, aquele se mostrava insaciável — e agora voltava suas garras contra a jugular do colunista, que, a propósito, mantinha-a sempre escondida atrás de colarinhos bem altos. No início, a coisa era simples. Um jantar atrás do outro, boas doses de humor, notas da cidade, pitacos políticos, e mandava-se a coluna para a oficina. Zózimo complicou o evento ao ampliar sua área de atuação.
Sempre que tinha oportunidade, deixava bem evidente a dureza do ofício, como um grito de alerta para que os chatos tomassem tenência e pelo menos o deixassem dormir em paz. Em 26 de maio de 1978, “O sono dos justos” tentava educar os que se pretendiam colaboradores, mas eram só “enchedores de saco”:
• Roga-se às pessoas que costumam telefonar para
colunistas às sete e meia da manhã pedindo notinhas que
não se irritem sempre que lhes for dito que eles estão
dormindo.
• Afinal, colunismo é uma atividade que impõe a quem a
exerce exaustivas incursões noturnas. Logo, o fato de o
colunista ser surpreendido dormindo às sete e meia da
manhã não deve constituir surpresa nem gerar indignação.
Mesmo porque para encontrar colunista acordado ainda não
se inventou nada mais conveniente e próprio do que seus
locais de trabalho, ou seja, as redações dos jornais.
Era um sabão. Porém, até quem o levou deve ter morrido de rir com a elegância do texto. Pela necessidade de encher a página, mas também pela compreensão de que o making of de seu trabalho virara assunto, Zózimo comentava em público as dificuldades de um colunista, esse star da era da comunicação. O que é notícia? O que o público quer saber? E por que não abrir as cortinas para os curiosos sobre os bastidores da grande padaria intelectual de fazer pãezinhos em forma de notinhas? Uma vez, voltando de uma viagem a Paris, fez um elogio deslumbrado ao espetáculo Liquid Theatre, que acabara de ver, e emendou a nota em outra menor, com o título “Dúvida nacional”:
• O jornalista viaja, corre o mundo, visita vários países, lê
jornais e vê a televisão nas mais variadas latitudes. Em
determinados momentos se vê esmagado diante das
dúvidas, contradições e complexidades dos problemas e
assuntos que sacodem o mundo. Volta, desce no Galeão,
toma o carro de volta para casa, liga o botão do rádio e o
primeiro noticiário que aparece o informa de que a dúvida
nacional no momento reside em saber se Zagallo deve
convocar Sérgio ou Renato para o lugar do goleiro Félix na
Seleção.
Dureza. Em 3 de maio de 1993, uma segunda-feira, depois de dar plantão num 1o de maio, sábado, quando supostamente todos os trabalhadores do mundo estavam de folga, Zózimo desabafou numa nota enorme:
• Não se pode dizer que esta coluna tenha comemorado
condignamente o 1 o de maio. Afinal, o Dia do Trabalho é
consagrado paradoxalmente ao lazer, à vagabundagem, à
coçação.
• Esta coluna traiu o espírito da data. Ralou.
• Nota zero para ela.
• É curiosa a compreensão idiota que a maior parte das
pessoas tem do colunismo. Presume-se que seus autores
movem-se num mundo de fausto e fantasia e que, uma vez
diante do computador, basta estalar os dedos para o
conteúdo das colunas estampar-se no vídeo. Não lhes ocorre
nunca pensar em trabalho, esforço, stress, aflição, cansaço,
aporrinhação etc.
• Ainda outro dia, o assessor de um figurão da República
instalou-se gostosamente na sala de um colunista com o
intuito evidente de matar o tempo enquanto o chefe
cumpria agenda reservada com o diretor do jornal.
• Depois de uns cinco minutos de conversa jogada pela
janela, ao primeiro sinal de impaciência do colunista, que
tinha a tela à frente ainda virgem e dezenas de telefonemas
a dar, o assessor não se deu por achado:
— Ora, meu velho, você tira isso de letra.
• E concluiu, batendo com o dedo indicador na rombuda
cabecinha:
— Está tudo aqui dentro.
• A educação do colunista impediu que ele retribuísse a
bobagem com um palavrão.
Zózimo era o Sísifo moderno, mandando suas vinte notas por dia para a gráfica e no dia seguinte tendo que começar toda a operação de novo. Aos poucos, percebeu que poderia desabafar as agruras desse cotidiano. Afinal, ele já era uma celebridade do primeiro time — e o público adora consumir a intimidade dessa gente. Assunto não faltava. Durante o regime militar, quando parte da produção intelectual brasileira usava linguagem cifrada para escapar da censura, ele publicou uma nota em que o ex-governador Carlos Lacerda, cassado, colhia no seu sítio no Alentejo, em Portugal, plantas para replantar no seu sítio no Rocio, na região fluminense de Petrópolis. A fim de “adicionar alguma graça” ao texto, Zózimo escreveu ironicamente, segundo explicaria depois, “num momento de total inspiração”, a expressão “plantas com sotaque”. Leitores telefonaram tentando descobrir o que quereria dizer o colunista com a expressão. Senha para algum protesto? Algo a ver com a música de 1973 de Gilberto Gil e Chico Buarque que, no título, por escrito, trazia “Cálice”, mas, cantada, virava “Cale-se”? Continuando seu passeio pelos bastidores da coluna, Zózimo respondeu às dúvidas sobre o que pretendia com sua plantação de palavras numa nota intitulada “A nova profissão”:
• Está surgindo no Brasil uma nova e excitante atividade
que num futuro próximo poderá vir a se tornar até lucrativa:
criptógrafo de colunas (ditas) sociais. Partem do princípio
de que por trás das aparentemente inofensivas notinhas
divulgadas se escondem as mais tenebrosas intenções.
• Uma linha inocente, uma notícia despretensiosa sobre
qualquer pessoa e zás, o criptógrafo aparece imediatamente
de recorte à mão a destilar mil e uma versões sobre um fato
corriqueiro sem a menor importância. (...)
• Foi um deus nos acuda. O que estaria querendo o
colunista dizer com essas três palavras cabalísticas: “plantas
com sotaque”? Que recado e a quem estava sendo dado?
Ninguém chegou a uma conclusão segura, o que contribuiu
para multiplicar ao infinito as versões.
• A coisa chegou a tal ponto, fui tão pressionado,
espremido, inquirido, que tenho desde então quebrado a
cabeça para achar uma explicação para as tais plantas com
sotaque. Uma explicação que satisfaça o apetite dos
criptógrafos de colunas que se sentem infelicíssimos porque
até hoje não conseguiram encontrar uma segunda intenção
plausível que consiga decifrar a misteriosa frase.
Zózimo tinha alguns mantras que o pacificavam diante das dificuldades do fechamento da coluna. Repetia:
1. “Em branco não sai.” Usava a expressão quando telefonava para alguém, pedindo nota, e, diante da inexistência de qualquer informação nova, bem-humorado, respondia para a fonte: “Sem problema. Você vai ver: em branco não sai” — e gargalhava.
2. “Uma hora fecha.” Na confusão de diagramar a coluna, fazer as notas caberem no espaço, legendar fotos, preencher buracos, atender a telefonemas de fontes que precisavam ser bem tratadas mas que, naquele momento, não tinham nada de relevante a informar — no estresse cotidiano dos jornalistas para cumprir os prazos e evitar os prejuízos financeiros da operação industrial envolvida nisso, Zózimo tentava manter a calma com o mantra. Quando o chefe de redação vinha lhe cobrar o fechamento no horário, dizia: “Relaxa, uma hora fecha.” E raramente estourou o deadline.
Confessar em público o drama de ocupar o espaço que o jornal lhe dera mostrava-se uma saída inédita e original. Na matemática de Zózimo, toda notícia, desde que tivesse alguma graça, valia a pena — assim sendo, por que não dizer o que ia pela redação de um dos maiores jornais do país? “Vida dura” foi publicada em 23 de junho de 1984, após um feriado de Corpus Christi:
• Nada é mais duro do que a sexta-feira de um colunista,
sobretudo espremida contra o fim de semana por um
feriado.
• Desaparecem as fontes, só aparecem os pedintes.
A jornalista Míriam Leitão, em início de carreira, antes ainda da opção pela cobertura da economia, participou por um breve período da equipe de Zózimo e estava no grupo que numa noite de sexta-feira tentava fechar a terceira coluna daquele dia de “pescoção”. Todas as suas notas já estavam nas páginas, as de Zózimo e de Fred Suter também. Não havia mais ninguém a quem se pudesse suplicar, dando um telefonema, por algo que não precisava nem ter todas as características de nota, bastava um esgar. Nada — e, no entanto, ainda havia um buraco na página encarando os três. Zózimo então colocou o papel na máquina — Fred e Míriam observando atrás de sua cabeça, todos loucos para partir para o fim de semana — e começou a escrever o bordão que muitas vezes o salvava: “Não será surpresa para esta coluna...” E parou.
Nem aquele truque, naquele momento, todos exaustos, funcionava. Míriam não tinha nenhuma ideia de como continuar a frase. Foi quando viu o mestre, depois da estancada, colocar umas reticências e terminar célere com o problema. Em seguida, puxou o papel da máquina e anunciou o fim de semana a todos. Estavam lá, para gargalhada de Míriam, a continuação e o fim da nota:
• Não será surpresa para esta coluna...
• ...Nada mais é surpresa para esta coluna.
Outro macete para fechar o espaço era lançar mão do “hein?”. Virou uma das suas marcas mais fortes, pela repetição do uso e por remeter à graça de uma conversa de rua. Não anunciava uma grande nota, mas um papo vadio. Em “Colosso”, de 15 de agosto de 1983, ele falava da atriz do filme Flashdance, um dos sucessos daquele ano:
• E a Jennifer Beals, hein?
• Nossa Senhora!
“Falante” é de 6 de outubro de 1989, sobre o candidato à Presidência da República Enéas Carneiro:
• E o Enéas, hein?
• É o Macaco Tião que fala.
Nos bastidores da coluna de Ibrahim no Globo, a senha para chamar nota era a expressão “vai chegar o telefonema do Vitorino Freire”. Tratava-se de um deputado que, numa noite de desespero, sem notícia alguma, deu um telefonema salvador e que para sempre ficou marcado na memória do colunista e de seus assessores como uma bênção que se deveria repetir nos momentos dramáticos de seca. Ninguém rezava. Dizia-se: “Cadê o telefonema do Vitorino que não vem?”
Na coluna do Swann, também no Globo, quando faltava nota, a inspiração era uma foto do próprio Zózimo. Fernando Zerlottini, Anna Maria Ramalho e Carlos Leonam, os colunistas, tinham na parede da sala em que trabalhavam uma foto do concorrente, elegantérrimo, em black tie, dançando um cheek to cheek com Marcia. Achavam que trazia bons fluidos. Estavam cansados de perceber que às vezes eles tinham mais informação, mas não adiantava. Com Zózimo a mesma notícia ficava melhor porque vinha com mais molho. O estilo era o homem, a dança estava com ele.
Em 31 de março de 1988, com o título “Desespero”, Zózimo publicou:
• Um colunista desesperado com a iminência dos feriados
telefonou ontem para uma fonte em Brasília atrás de
notícias.
• A fonte foi curta e rápida:
— Hoje eu estou de calças curtas.
— Quer dizer que Brasília é um deserto de homens e de
ideias?
— Não. Só de homens. De ideias já é há muito tempo.
Um dos formatos mais originais que inventou para essa construção, tijolo por tijolo, foi a variação obsessiva sobre o tema de uma nota só. O mesmo assunto aparecia quase todos os dias, só que com pequenas variações, criando no leitor a expectativa sobre o que ele iria inventar daquela vez e até quando conseguiria manter aquela pipa ao vento da sua imaginação. A coleção de notas em série sobre os tipos de cheque foi um de seus sucessos mais espetaculares, obra de criação coletiva que surgia de conversas com fontes como Rogério “Senador” Monteiro, Ricardo Amaral, Marcos Sá Corrêa, Roberto Mota, Aloysio Salles e outros. Foram mais de vinte notinhas, entre junho e julho de 1983. O leitor, do outro lado, recebia o chorrilho dos cheques falsos com a moeda mais verdadeira e estimada por Zózimo — um sorriso.
A primeira, no dia 22 de junho, tinha o título “Na moda” e informava que “há agora na praça, largamente difundida, uma nova modalidade de cheque — o cheque cowboy. Recebe quem saca primeiro”. No dia seguinte, já havia outra dizendo que, além do cowboy, “abunda na praça também o cheque peixe. Bate no banco e nada”. E daí em diante, sempre com o título “Mais um”, não parou de aparecer cheque no guichê da coluna:
• O elenco de cheques exóticos, introduzido pela crise na
praça do Rio, ganhou ontem um novo tipo — o cheque
boemia.
• Aqui me tens de regresso.
• Apareceu ontem mais um cheque inusitado na praça
carioca — o cheque atleta.
• Emite-se e se sai correndo atrás para cobrir.
• Mais um tipo de cheque está fazendo carreira no
anedotário da cidade.
• É o cheque Sabiá.
• Vou voltar, sei que ainda vou voltar, este é o meu lugar...
• O leque dos cheques da crise incorporou ontem um novo
tipo — o cheque bailarino.
• Quem o apresenta na boca do guichê dança.
• O leque dos cheques incorporou ontem um novo tipo — o
cheque bumerangue. Vai e volta.
• Costuma atender também pelo nome de cheque pingue-
pongue.
• O mais novo cheque a circular na cidade é o cheque
Drury’s.
• Dá uma dor de cabeça...
• Como nem tudo ainda está perdido, um banco da Zona
Sul detectou ontem a presença de um novo cheque — o Deus
é grande.
• Bate no guichê e é pago sem problemas.
• O cheque do dia é o cheque mendigo.
• Está sempre descoberto.
• Os cheques da crise incorporaram ontem um novo
espécime — o cheque Brasil.
• Todo mundo sabe que não tem fundos, mas ainda há
sempre alguém que acredita nele.
Os detratores — e quem colocava diariamente a cara a tapa no jornal não podia deixar de tê-los — acusavam Zózimo, entre outras coisas, de “cascateiro”. Em jargão jornalístico, é aquele profissional que inventa uma história e ainda adiciona detalhes para valorizá-la. Na realidade, confundiam leveza de texto com falta de consistência jornalística. Estavam acostumados com notícias escritas de um jeito duro e sem janelas de humor, sem cheques voando para todo lado arejando o espaço.
No início dos anos 1980, o cabeleireiro Silvinho, jurado do programa do Chacrinha na TV, desenhou para a modelo Marina Montini, musa mulata de Di Cavalcanti, uma cabeleira espetacular. O penteado era um enorme aplique encaracolado, uma juba de leão num momento em que as mulheres eram chamadas de “panteras”. Na tentativa de dar uma tesourada no colunista, Silvinho, com a complacência de Marina, chamou o penteado de “Cascata Zózimo Barrozo do Amaral”. Do lado de Marina, a pinimba existia desde que Zózimo publicara uma nota dizendo que ela, para sair de uma crise financeira, vendia quadros presenteados por Di. Tudo verdade, mas Marina se sentiu exposta de modo cruel. Sua reclamação, em tom destemperado, não agradou a Zózimo, que voltou à carga:
• Seis meses depois de colocadas à venda, as oito telas
assinadas por Di Cavalcanti retratando Marina Montini
continuam nas mãos de sua proprietária, a modelo.
• Não deverão trocar de mãos tão cedo.
• O preço que a manequim, atualmente em Hamburgo,
pede por cada uma não motiva sequer o mais perdulário dos
colecionadores do pintor.
Do lado de Silvinho, o problema era ciúme. Zózimo dava muitas notas sobre Jambert, o espanhol naturalizado brasileiro que construíra no Leblon um palácio de mármore para cortar cabelos. Os dois disputavam a alta sociedade, mas o estilo popularesco do funcionário Silvinho fazia com que os vips valorizassem o proprietário do salão, Jambert, de temperamento discreto e capaz de trabalhar falando francês.
Era uma vida pesada essa de colunista, esgrimindo contra tesouras e todo tipo de farpa. Ricardo Boechat, que desde 1984 assinava a Coluna de Carlos Swann, sabia como era. Uma vez recebeu na redação uma enorme caixa ricamente embrulhada para presente. Zózimo noticiou com o título “Galinha de Troia”:
• (...) Boechat abriu-a cuidadosamente, cercado da
admiração dos colegas, para encontrar em seu interior, já
quase em estado de coma, sufocada, uma pavorosa galinha
preta, meio depenada e com olho troncho.
• Boechat jura que no dia em que descobrir o remetente da
brincadeira vai abrir o seu empoeirado baú de perversidades
guardado no sótão para situações de emergência e persegui-
lo até o final dos séculos.
Além da falta de notas, era preciso enfrentar macumbas de quem não conseguia sair na coluna. A página em branco estava sempre lá, olhando de olho arregalado no olho apavorado do colunista e perguntando, apressada, “comé que é?”. Toda semana chegava para Zózimo uma daquelas tradicionais cartinhas com lembranças do tipo “Limite-se à sua área de vestidos e festas. Não venha tratar de coisas que você não entende”.
Havia o preconceito com o rótulo de colunista social — até mesmo por parte dos colegas mais modernos. Durante as Olimpíadas de 1984, em Los Angeles, Zózimo fez participações como comentarista na TV Bandeirantes. Dias depois de um desses pitacos, em 13 de agosto, o Informe JB, editado na época por Hamilton Almeida Filho, publicou a seguinte notinha, com o título “Fora do galho”:
• Diz a sabedoria popular: “Cada macaco no seu galho.”
• Cronista social deve fazer a crônica da sociedade;
comentarista esportivo comentar esportes; analista político
analisar política.
• É um enorme desastre quando os cronistas sociais
resolvem se meter nos galhos dos outros. Os comentários
sobre a atuação dos atletas brasileiros nas Olimpíadas de
Los Angeles, então, são de morrer de rir.
• Como os jogadores da seleção brasileira de basquete,
arremessam muito. Mas as bolas não dão nem aro.
Hamiltinho, um craque da imprensa independente que na década de 1970 resistira à ditadura militar em publicações como a revista O Bondinho, fazia parte da equipe de jornalistas vindos de São Paulo, Murilo Felisberto à frente, que comandava o JB. O período é tido como o da “malufada”, quando o jornal, prenhe de dívidas, teria flertado com o capital associado à candidatura de Paulo Maluf às eleições indiretas à Presidência da República. A redação viveu dias de Rio versus São Paulo, com os preconceitos soltos e as animosidades comuns ao bairrismo. “Fiquei puto!”, lembraria Zózimo tempos depois. “Fiz um alvoroço no jornal. Dr. Brito e dr. José Antonio [Josa, filho de Nascimento Brito] ficaram do meu lado. Não foi nessa que o sujeito saiu do jornal, mas saiu logo adiante.”
O período dos paulistas na redação coincidiu com a chegada de Zózimo ao cargo de editor do Caderno B. Não se entenderam aí também. Nascimento Brito lhe pedia pautas elitizadas, que não tivesse medo de subir o nível do caderno e procurasse o que sempre fora a aspiração do jornal: a classe alta, esclarecida e desejosa de informação qualificada. Já os paulistas pensavam exatamente o contrário. Queriam pegar novas camadas de leitores e para isso seria preciso abaixar o nível, procurar pautas populares. Em 10 de outubro de 1983, Zózimo deu uma página sobre a indústria de discos de música erudita no Brasil, analisando como estava o espaço que as gravadoras dedicavam a eles. A cúpula da redação chamou Zózimo para uma advertência. “Ninguém lê isso, vamos popularizar a cultura do jornal e melhorar a vendagem.” Foi um período ruim que se encerraria em 1985, quando Marcos Sá Corrêa chegou para dirigir a redação e todos respiraram aliviados. A rivalidade RJ x SP agora voltaria a ser assunto apenas nas matérias de comportamento.
Ser colunista, independentemente das chefias de redação, era atividade de alto risco. Ou se levava esse fogo amigo, atirado das próprias trincheiras, ou se fraquejava pela saúde despendida no esforço da operação. Eram pelo menos oito horas diárias dentro do jornal, por muitos anos folgando apenas um domingo por mês. Champanhe à noite, suor ao dia. Certa vez, um colunista social do interior foi ao JB e, acostumado aos métodos de trabalho provincianos, levou um susto ao ver o colega, às oito da noite, fechando uma página ao lado do diagramador. “Mas é você mesmo que escreve a coluna?”, perguntou. Zózimo não só apurava, como escrevia, fechava com o diagramador e no dia seguinte fazia tudo de novo. Em 1989, a revista We conseguiu juntá-lo com Ricardo Boechat para um papo sobre as delícias e agruras do ofício.
— Boechat: Você está com o saco cheio de fazer coluna?
— Zózimo: De saco cheio, não, mas estou cansado. É
estressante, mas tem coisas piores. Numa época, o Elio
Gaspari, o jornalista mais equipado e brilhante da nossa
geração, acumulava no Jornal do Brasil a editoria de
Política e o Informe JB. Eu perguntei: “Como vão as coisas,
como vai o Informe?” Ele respondeu: “É, meu caro, estou
aqui, carregando minha cruz de isopor.” É isso que eu
queria falar sobre o ofício de colunista. É cruz, mas uma
cruz light.
— Boechat: A coluna equivale, na área diplomática, a ser
embaixador em Paris. É uma atividade em que você é
bajulado. Puxam teu saco numa intensidade que não
acontece nem mesmo nos cargos de direção do jornal,
profissionais importantes mas que estão excluídos daquela
vitrine que é a coluna assinada. O fato de você determinar
todos os dias o que põe e o que não põe, se fulano entra ou
não, claro que com os critérios profissionais de seleção, mas
entram os componentes de amizade, relações pessoais, tudo
isso implica um retorno que te dá uma tremenda cruz de
isopor mesmo.
— Zózimo: Tá parecendo que você gosta de ser bajulado.
— Boechat: Não, mas é infinitamente mais confortável ser
um colunista de jornal do que chefe de redação de O Globo.
— Zózimo: Mas quem te disse que eu quero ser chefe de
redação de O Globo? Eu quero ser o Antonio Carlos de
Almeida Braga, quero ser um Braguinha, quero ser o dono
do Bradesco!
Os dois colunistas passaram ainda pelo tópico da corrupção, uma antiga suspeita que, como borbulha de champanhe, sempre circulou na relação com os personagens daquela festa diária. Zózimo chegou a devolver, no início dos anos 1970, um aparelho de TV colorida que estava em testes no Brasil. Uma caixa de champanhe, presente de um sujeito que mal conhecia, também foi mandada de volta. Todo cuidado era pouco.
Um amigo do general João Baptista Figueiredo, Georges Gazale, não sabia com quem estava falando. Tentou um lance para comprar a alma do colunista e foi desmoralizado em 7 de julho de 1984. O título da descompostura era “Assessoria”:
• O sr. Georges Gazale dispõe agora de uma assessoria
promocional que tem entre suas atribuições telefonar para
jornalistas elogiando-os e dando conta do apreço de que
gozam junto a seu cliente.
• Em certos casos o apreço é tanto que chegam a ser
convidados a tomar drinks com o cliente.
• Em outros, a volúpia de agradar pode beirar a grosseria.
• Como aconteceu anteontem com um jornalista cuja
mulher é pintora. Foi-lhe sugerido pela assessoria que
mandasse uns quadros da artista para Gazale que ele
apreciaria comprá-los.
• Não faltou sequer a recomendação:
— Pode mandar os mais caros.
• Não é a primeira vez que jornalistas sofrem de Gazale
esse tipo de investida. Decididamente, no Brasil de hoje
desfizeram-se por completo os contornos da decência.
A pintora da nota era, evidentemente, Marcia Barrozo do Amaral.
As tentações surgiam sempre, enormes, mas o apreço de Zózimo, como se viu pela colocação irônica da palavra, não tinha preço. Em alguns momentos, ele chegou a andar com carros cedidos por empréstimo por fábricas, porém depois os devolvia, conforme outros jornalistas de prestígio. Era de praxe. Chico Buarque brincou com essa suspeita de corrupção que rondava os colunistas. No início dos anos 1970, ele teve todas as suas pendengas com a Divisão de Censura corajosamente divulgadas pela coluna. Veio a abertura política e a vida mudou, o tipo de nota também. Zózimo publicava agora os avanços financeiros do artista:
• Um acordo e tanto o que Chico Buarque fechou com a
PolyGram pra relançar, em compact-disc, os 18 títulos de
sua obra.
• Embolsou exatos US$ 1,2 milhão.
Um dia, irritado com a defesa que o colunista fazia de algum fato considerado por ele de direita, Chico foi até um botequim no Recreio dos Bandeirantes, ao lado do campo de futebol de sua propriedade, onde joga o seu time de pelada, o Polytheama. Comprou duas garrafas do pior vinho Sangue de Boi em estoque e mandou com um bilhete amável, de boas-festas, para o colunista. Terminava com “você é um fofo”. Zózimo recebeu as garrafas, percebeu a crítica por trás do presente e retribuiu, numa nota que anos mais tarde, em depoimento à jornalista Regina Zappa, Chico reconheceu como tendo um toque de fino humor e fair play. Zózimo, curto e inteligente, witty, escreveu apenas:
• Chico Buarque abriu sua adega e mandou duas
preciosidades para a coluna.