Enquanto Houver Champanhe, Há Esperança
Capítulo 39
Na terça-feira 29 de novembro de 1994, Zózimo publicou uma nota sem título, quase um editorial, versando, irado, sobre questões morais. Era uma espinafração em alguém que lhe tinha feito uma trapaça. Ninguém poderia supor que ele se referia ao amigo Ricardo Boechat, o Swann da coluna do primeiro caderno.
• Entre as experiências estimulantes proporcionadas pela
redação de um jornal estão o companheirismo e a lealdade.
• Quando acontecem.
• Quando não acontecem, deságua-se sempre na mesma e
inelutável constatação.
• Caráter não é artigo que se compre em loja.
• Ou se tem ou não se tem.
Em 1989, a amizade entre Zózimo e Boechat tinha levado os dois colunistas a se unirem para fazer uma brincadeira com Sonia Racy, nova colunista de O Estado de S. Paulo, havia pouco mais de dois meses no cargo. No mesmo dia, numa evidente operação casada, os dois deram, cada um em seu jornal, praticamente com o mesmo texto, uma nota que a paulista jamais entenderia. A de Zózimo dizia:
• Não convidem para a mesma mesa as colunistas Sonia e
Racy.
• As divergências entre as duas são incontornáveis.
A de Boechat especulava que Sonia e Racy brigaram “pela primazia de enfrentar a aridez das sextas-feiras plantando abobrinhas agrotóxicas”. Era uma piada cifrada com a necessidade que os colunistas têm de, às sextas-feiras, quando fecham várias colunas, dar asas à imaginação para criar “abobrinhas”, assuntos sem importância mas capazes de ocupar com palavrinhas a imensa horta jornalística sob suas responsabilidades.
A jovem Racy, perplexa, mas se sentindo “homenageada” pelos veteranos, procurou uma explicação com Augusto Nunes, diretor de redação do Estadão, amigo de Zózimo e Boechat. O chefe, que ela suspeitava fazer parte da armação, mandou que respondesse à altura — e aí foi a vez de, no dia seguinte, a colunista paulista alertar seus leitores. Que ninguém convidasse os dois cariocas para uma festa, pois tinham se tornado inimigos.
Zózimo e Boechat ostentavam um velho histórico de amizade, com dezenas de brincadeiras como a de Racy. Passavam fins de semana no Méditerranée com as respectivas famílias. Os temperamentos, no entanto, eram bem diferentes. Zózimo, suave, não à toa era chamado pelos amigos de “Barrozinho”; Boechat, sempre a mil, também carregava uma boa definição de princípios num apelido dado por amigos. Certa vez ele estava na fazenda do banqueiro Ronaldo Cezar Coelho, em Vassouras, no estado do Rio, com Zózimo, Henrique Schiller de Mayrinck e Roberto D’Ávila. Divertiam-se na piscina quando o filho de Boechat, Rafael, cinco anos, puxou, de farra, o calção de D’Ávila. Mais tarde, ao levar o troco, emburrou. “Pô, Boechat”, disse D’Ávila, sem jeito, “esse teu filho é mais mal-humorado que o Chernenko”, referindo-se ao presidente da hoje extinta União Soviética. Todos riram. Passaram a chamar o menino de “Chernenkinho” e a Boechat de “Chernenko”, devido também, como o próprio admite, a seu temperamento de “dar eventuais pontapés na própria sombra”.
A boa relação entre o suave “Barrozinho” e o inquieto “Chernenko” conseguia sobreviver ao inevitável, mas nunca declarado, desconforto de estarem agora trabalhando no mesmo jornal. Algumas fontes serviam aos dois colunistas, tentando agradar a cada um em suas especialidades. Boechat era mais hard news, vinte e quatro horas enfurecidamente dedicadas a catar notícias, de preferência as que a redação chamava de “denúncias”. Andava numa fase espetacular, com furos atrás de furos (o superfaturamento das fardas do Exército, o estouro de um cassino clandestino num clube de bacanas da Gávea, o plágio do escritor José Guilherme Merquior em artigo assinado pelo presidente Fernando Collor etc.). Zózimo definia-se mais pela “insustentável leveza do ser”. Entretanto a operação dos dois era a mesma: correr atrás da notícia. Se “Barrozinho” queria o leitor morrendo de rir, “Chernenko” queria-o indignado.
“Era uma disputa, sim”, reconhece Boechat. “Não havia como ignorar que duas colunas com dois titulares com a mesma trajetória estavam superpostas no jornal. Por mais que a dele tivesse esse DNA mais leve, a ossatura era a mesma de qualquer coluna. Estávamos atrás da informação exclusiva. O Barrozinho procurava fazer isso sem que se configurasse nada hostil. Nunca se posicionou como alguém que competia pela notícia. Não era da natureza dele, embora tenha feito sua trajetória com grandes notícias. Eu é que me colocava assim.”
A direção da redação tinha trabalhado para aplacar os ciúmes. Com a ida de Zózimo para O Globo, ganhando quatro vezes mais que ele, Boechat conseguiu um aumento de salário. O cotidiano seguia na paz (em algumas ausências de Zózimo, Boechat socorria cedendo notas a quem estivesse na coluna), até que o álcool, sempre ele, agora em forma de cerveja derramada, ameaçou fazer tudo escorrer pelo ralo. Os dois colunistas brigavam por causa de uma informação — esse era o motivo do editorial enfurecido de Zózimo — sobre a cervejaria Brahma e seu contratado número um, o cantor Roberto Carlos. No domingo 27 de novembro, Zózimo publicava em “Briga feia”:
• Estão estremecidas as relações de Roberto Carlos com o
seu principal patrocinador, a Brahma.
• O pau comeu esta semana entre o cantor e o alto-
comando da cervejaria, e o desenlace poderá ser a não
renovação, em fevereiro próximo, do contrato que os une.
• Além do cancelamento de um último comercial para a TV
acertado, a duras penas, entre o rei e a empresa.
No mesmo domingo, no primeiro caderno, a coluna do Swann noticiava o contrário na nota “No 1”:
• Roberto Carlos renovou na sexta-feira seu contrato com
a Brahma.
• As cifras do acordo estabeleceram um novo recorde no
cast publicitário da cervejaria.
• Isso porque nos próximos anúncios o cantor não apenas
emprestará a sua imagem à cervejaria.
• Pela primeira vez na vida, aparecerá em anúncios
falando das qualidades da bebida.
A nota de Boechat era a certa. Irritado pela desmoralização, Zózimo estrilou pelo jornal de terça-feira a traição que o amigo, ou já seria ex-amigo?, poderia ter evitado no jornal de domingo. Chegava a público a operação de bastidores dos colunistas.
O Segundo Caderno de domingo fechava na noite de quinta para sexta. As tiragens dominicais eram sensacionais. O Globo estava em torno dos 600 mil, todos os jornais impulsionados por uma estratégia de marketing que presenteava os leitores com brindes como panelas, fascículos da Bíblia, CDs etc. Para não sobrecarregar o parque gráfico e não atrasar a chegada às bancas, a edição de domingo ia sendo rodada aos poucos. O Segundo Caderno, onde a coluna de Zózimo era publicada, fechava com quarenta e oito horas de antecedência. Na tarde de sexta-feira começava a ser encartado, junto com outros cadernos “frios”, ou seja, com notícias menos apegadas ao fato do dia. No primeiro caderno, com direito a fechar só na sexta, ficava o Swann de Boechat.
Zózimo, então, fechara a nota sobre RC na quinta à noite. Exemplares do Segundo Caderno já circulavam na redação, prontos, impressos, na tarde de sexta. À noite, quando entregou sua coluna de domingo com a nota sobre o mesmo assunto, Boechat ouviu de um editor executivo que Zózimo estava dando nota também sobre a Brahma — e dizia o contrário. Boechat leu a nota de Zózimo. Tinha certeza de que a sua era a informação correta, pois havia sido passada à coluna por Dody Sirena, o empresário do “Rei”. Chegou a pensar em pegar de volta a coluna e retirar a sua nota para não expor o amigo ao ridículo. “Se essa nota não está coincidindo com a do Barrozinho e a dele já fechou, vou jogar essa merda fora”, conjecturou.
Nem precisava jogar “a merda” fora. Era mais simples: podia segurar a nota por uns dias. Quando todos tivessem esquecido a informação de Zózimo, voltaria com algo do tipo “reviravolta na transa de RC e Brahma”. Mas a tensão do fechamento venceu. A página em branco pedia algo quente para a edição dominical, a de maior número de leitores. Já na madrugada para o sábado, extenuado por fechar duas colunas, a do sábado e a do domingo, Boechat acionou a tecla F — e fechou a coluna com “a merda” da nota que desmentia a de Zózimo.
Ele desconhecia um agravante que naqueles dias sensibilizava a paranoia de Zózimo. Na coluna de sábado, fechada na quinta, portanto antes de toda a confusão sobre Brahma e RC, ele incluíra uma nota enigmática, decifrada apenas pelo público interno da redação. Continha a mesma pontuação da ira enfática contra inimigos ocultos. Com o título “Macacada”, em 26 de novembro de 1994, dizia:
• Entre as notas em primeira mão publicadas esta semana
pela coluna, uma denunciava a manobra para se estender
por mais um mês o mandato dos deputados estaduais do
Rio e a outra revelava que o INSS iria cassar a
aposentadoria do deputado José Nader.
• Depois da publicação, a macacada saiu correndo atrás e
deu as duas notícias no dia seguinte.
• Como se tivesse descoberto a pólvora.
A “macacada” era a turma da reportagem geral. Zózimo desconfiava que os pauteiros daquela editoria liam suas colunas com antecedência para pautar os repórteres a partir de suas notas, mas sem lhe dar o crédito nas matérias. Quando, depois de desconfiar de todos os repórteres de Cidade da casa, Boechat lhe deu a rasteira, Zózimo ficou aborrecido para valer. Estava havia pouco mais de um ano no Globo, era bem tratado, recebia sinais de acarinhamento, todavia ainda não podia se considerar em casa. Foi aí que aumentou o volume na nota sobre “o companheirismo e a lealdade”.
Boechat percebeu que a estocada era com ele, mas não passou recibo. Ficou “puto”. Achou que o amigo (ex-amigo?) devia chegar na sua cara e botar tudo para fora. Ele se desculparia imediatamente, pois ao ver o jornal de domingo impresso percebeu que tinha errado. Não só editorialmente (um colunista desmentindo o outro, em quem o pobre do leitor deveria confiar?), como também no plano do comportamento.
A agressividade de Boechat justificava-se, segundo ele, pela necessidade de sobrevivência. Ele ficara impressionado com o esforço do Globo em tirar Zózimo do JB por 15 mil dólares mensais. Temia perder o emprego. Em suas especulações noturnas, a cabeça no travesseiro, o jornal começava um processo para acabar com Swann e deixar a página livre para a publicação de notícias mais ao feitio do primeiro caderno, sem a intromissão de uma coluna como as que ele fazia, com fotos de senhoras da sociedade e outras levezas. Isso era coisa de Segundo Caderno, voltado para cultura e comportamento, e era para lá que o jornal levara Zózimo. Portanto, não precisariam mais de colunista no primeiro. Os perfis eram próximos, para que gastar com dois? Definitivamente, pensava Boechat, estava com os dias contados — e passou a entender qualquer mexida no tabuleiro como ameaça à sua integridade. Tinha quatro filhos na época, precisava do trabalho. Não seria surpresa se alguém da direção viesse com a despedida: “Obrigado, Boechat, mas agora temos o Zózimo.”
Os pelos do colunista estavam eriçados a qualquer sintoma que confirmasse o horizonte que julgava ter sido traçado para ele pela direção do Globo. Foi nesse contexto, além da tensão do fechamento da edição na madrugada, que se deu a publicação da nota RC x Brahma. Era a disputa real por prestígio. O golpe em Zózimo poderia lhe angariar trunfos. Para agravar a situação, a Veja Rio publicaria, no dia 7 de dezembro, a nota “Roupa suja no planeta Globo”, em que tentava explicar a charada das notas. A revista dava o desdobramento do caso na redação com ironia:
No fogo cruzado, o diretor da redação, Evandro Carlos de
Andrade, endossou a tese de espionagem adotada por
Zózimo — a Brahma teria sabido de sua nota e corrido a
fechar o contrato —, mas garantiu que Boechat não estava
envolvido na conspiração. Os colunistas acabaram se
entendendo. “Ele jurou que a nota não se referia a mim, mas
a uma situação”, diz Boechat. Os dois continuam
trabalhando no mesmo endereço.
A história de que a Brahma correra a fechar o contrato para desmentir Zózimo é fantasiosa, claro, e a Veja não deu que o juramento de Zózimo havia sido insuficiente para aplacar o mal-estar. A roupa suja dos colunistas, e na imaginação do leitor eles só usavam black tie, estava no meio da rua. Por dois meses, a vida na redação seguiu desagradável para eles. A fofocada após a divulgação da Veja infernizara-lhes ainda mais a bílis. Cruzavam-se várias vezes, sem se falar. Um dia, no meio de uma roda que paparicava alguém que visitava o jornal, Zózimo — como se não houvesse acontecido nada, como se caráter fosse algo que merecesse uma segunda chance — chamou o colega que passava próximo. “Ô Boechat, vem aqui ouvir essa...” — e tocaram o barco, voltando imediatamente a ser os grandes amigos de vinte anos.