Enquanto Houver Champanhe, Há Esperança

Joaquim Ferreira dos Santos · Capítulo 42 de 50

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Enquanto Houver Champanhe, Há Esperança

Capítulo 42

 

Paulo de Deus era um mulato de mais de dois metros, o que fazia com que os colegas dissessem, juntando o sobrenome à altura, que ele via o mundo do alto de uma nuvem. Era um fotógrafo e o seu planeta, nos anos 1990, limitado pelas paredes das casas de Ricardo Amaral, seu patrão, era um jardim das delícias entre Hippopotamus, Banana Café, Gattopardo, Pizza Palace e qualquer outro estabelecimento que o empresário viesse a ter. Paulo de Deus se rotulava “paparazzo do bem”. Toda noite, entre as onze horas da noite e as seis da manhã, clicava pelo menos duzentas e dezesseis vezes o botão de sua Nikon e fazia rodar seis filmes Kodak de trinta e seis chapas, quatrocentas ASA, geralmente puxado para oitocentas a fim de permitir melhor impressão de luz. Muitas vezes, para economizar, eram usados filmes Ilford HP5. Eles vinham em grandes latas de alumínio e eram rebobinados para dentro de caixinhas originalmente da Kodak.

Paulo não tinha nada a ver com os dois mais famosos colegas de profissão noturna, astros da missão de jogar flash na cara da madrugada e registrar sua crônica desvairada. Um era o americano Weegee, dos anos 1930 e 40, que cobria principalmente os casos policiais e, quando mirava os ricaços entrando nos teatros, fazia-o com risinho de escárnio crítico; o outro era o paparazzo também americano Ron Galella, dos anos 1960 e 70, que, depois de perder cinco dentes entre os dedos de um soco de Marlon Brando, começou a trabalhar com um capacete de jogador de futebol americano. Paulo era filho de uma doméstica e um operário. Não havia outro negro nas boates que frequentou, a não ser atrás do balcão. Ele se sentia em casa entre as almofadas zebradas do Hippo. Desde 1987, ao ser contratado pelo Jornal do Commercio para cobrir as festas pautadas pela coluna social de Ivan Monteiro, os bons salões da cidade eram seu cenário. Tomou gosto, e quando saiu do jornal ficou por ali.

Ricardo Amaral era o dono da ideia: ter um fotógrafo fixo toda noite para no dia seguinte distribuir fotos pelas redações. Ele próprio tinha sido colunista. Sabia a coisa linda que era ter na mesa, já pela manhã, uma foto inédita, quentinha, de uma gata fazendo charme. A possibilidade de ser publicada com o nome da casa na legenda era enorme. E, na noite do Rio, as mulheres procuravam entrar no foco de Paulo de Deus porque sabiam onde ia parar aquilo — dois dias depois elas apareceriam, lindas e divertidas, com o melhor sorriso da coleção, na coluna Zózimo. Podiam ser descobertas por um milionário, um diretor de cinema, ou recolheriam mais uma cena para a caixa de retratos — os propósitos de uma mulher que frequenta a noite são variados.

Amaral pagava pouco, mas Paulo de Deus não reclamava. O contato com os endinheirados rendia outros trabalhos, de casamentos a batizados. Além disso, havia as colunas sociais dos jornais. A de Zózimo, onde publicou mais de trezentas fotos (servia como um book para as modelos), era a consagração de sua grife de “fotógrafo a favor”. A senhora poderia estar com o rímel borrado, o cabelo esparramado — nada disso seria fotografado. Paulo de Deus, solidário àquele que lhe emprestara o sobrenome, só se interessava pela humanidade nos seus momentos de beleza e bom enquadramento. Usava para as fotos o mesmo critério do escritor Álvaro Moreyra para selecionar as memórias de seu livro, As amargas, não. Toda tarde Paulo levava para a apreciação de Zózimo uma coleção de cinquenta fotos, copiadas no laboratório de casa. Eram em papel brilhante da Kodak, 10 x 15, pilhas daquilo que já merecera reflexão de Millôr. “Olho com atenção as fotografias das colunas sociais”, escreveu, “e não vejo ninguém suando honestamente.”

As fotos das colunas mudaram muito com o tempo, não o suficiente para Millôr reescrever o que achava do suor que pingava ali. Paulo de Deus, longe de discutir a integridade do suor alheio, notou que precisava imprimir nas imagens novos rostos, pois foi percebendo que Zózimo procurava um outro tipo de foto. Passara anos publicando senhoras de roupas austeras, sentadas em mesas de restaurante ou de alguma festa. Elas encaravam a câmera com o olhar reprimido, tensas, preocupadas em se mostrar educadas. Zózimo não se interessava mais por essas socialites fazendo o antigo elegante. Também não se impressionava com as celebridades artísticas que à noite passavam aos montes na frente da câmera. Zózimo queria carne nova. “Eu nem conheço essas meninas”, dizia, “mas acho que uma mulherzinha bonita, gostosa, sempre enfeita. Se você for restringir o nível de fotografia da coluna a senhoras mais velhas, a coluna fica para baixo. O leitor fica mais up com uma foto da Márcia Dornelles ou da Marcella Praddo do que com uma da Perla Lucena. Ou não?”

Ele não queria mais as colunáveis d’antanho porque eram exatamente isso, de tempos idos. Ele continuava vivo e carente de novas atrações. Pedia agora as modelos que queriam aparecer a qualquer preço, a qualquer clique — as “coxonáveis”. Paulo de Deus — e mais Rogério Ehrlich e Ronaldo Zanon, todos do Hippopotamus, em épocas diferentes — notou que Zózimo “avançava em toda foto que tivesse muitas coxas, braços, ombros e seios à mostra”. “Eu disse ‘ah, é’, e comecei a dar o que ele queria.” O Rio, celeiro dessas personagens, cidade da garota de Ipanema (Giovanna Antonelli apareceu pela primeira vez na coluna de Zózimo clicada por Paulo de Deus no Hippo), vivia fase exuberante com as agências Ford e Elite — e ainda havia a Rede Globo despejando starlets. A morena Valéria Monteiro virou locutora de telejornal no início da década de 1980, depois de reverenciada em repetidas fotos na coluna.

Ricardo Boechat também ajudou a trazer essas garotas para o jornal. Sua coluna, Swann, crescera para a página ao lado, a fim de valorizar a centimetragem do comercial, que passou a cobrar mais caro para o anunciante ficar perto daquele ponto de prestígio editorial. Ele não podia fazer mais texto, porque haviam lhe aumentado o espaço mas não a equipe de repórteres. Encheu-o de fotos — eram de graça. “Com o crescimento da coluna eu precisava de cinco fotos, mas não há celebridades suficientes, ou pessoas em situações curiosas ou que mereçam aparecer em tantas fotos diariamente. Aí abaixei o padrão, o pedigree. Comecei a dar fotos de moças que estavam nas festas, não importando quem eram, só porque eram bonitas.” Paulo Fernando Marcondes Ferraz lhe fez a crítica-amiga: “Chernenko, você fica dando essa gente que ninguém conhece...” “O problema”, respondeu Chernenko, “é que nós estamos dando as mesmas pessoas há quarenta anos, e ninguém aguenta mais.”

O fotógrafo Armando Araújo, um ex-técnico em contabilidade, entrou no circuito de caçador de imagens por meio da churrascaria Esplanada Grill, em Ipanema. Era contratado para fotografar e depois espalhar pelas colunas os ágapes sangrentos dos almoços de sexta-feira, quando Boni, da Rede Globo, carregava para uma mesa, das treze às dezoito horas, um elenco estelar. Armando lembra que fotografou Claudia Raia degustando uma picanha na pose que o colunista adorava. “Quando a moça cruzava a perna eu clicava, já imaginando o Zózimo sorridente”, diz Armando. “Perna cruzada era publicação imediata.”

Além de oferecer nacos fabulosos de coxas e decotes começando a ser inflacionados pela onda do silicone, Paulo de Deus usava outro truque. Procurava fotografar suas musas dançando. O resultado é uma das mais impressionantes coleções de beldades dos anos 1990, algo que está para o fotojornalismo desse tipo de assunto com o mesmo jeito clássico dos registros que Augusto Valentin fez das Certinhas do Lalau nos anos 1950 e 60. As “coxonáveis” de Zózimo eram jovens criadas praticando esporte, malhando em academia e com a liberdade gestual que Josefina Jordan jamais imaginaria numa moça de família. Por mais soltas que estivessem, por mais que porejasse de suas coxas um novo suor, algumas ainda carregavam sobrenomes reconhecidos na espetacular performance da nova mulher dona de seu corpo.

Décadas antes, as vedetes de Stanislaw Ponte Preta eram fotografadas ao gosto estético daquela época, de frente, ainda sem a valorização do bumbum arrebitado. O importante era o desenho do violão esculturado pela cintura fina e o volume equilibrado de seios e quadris. Havia certa tensão nas poses das vedetes. Agora, as Certinhas do Zózimo estavam igualmente lindas, mas com os braços jogados para o céu, um sorriso escancarado como se não houvesse amanhã e mais o volume milagroso do bumbum bem desenhado pela roupa justa. Botavam pra quebrar, não estavam nem aí. Guiado apenas pela necessidade prática de fechar uma página todos os dias, Zózimo e seus fotógrafos tinham inventado uma nova sensualidade no cantinho mais sofisticado do jornal. Os nomes já não diziam muito? A grana carioca não enchia os olhos do leitor? Viva a nova burguesia da carne dura e ostensiva!

A sensação para o leitor, diante da jovem dançando com os braços levantados, o vestido em meio ao regaço da coxa, era de que a noite anterior, agora exibida no jornal, tinha sido da pesada. A vida valia a pena — e a máquina do sonho, do desejo de ascensão, ou o nome que se dê ao jeito para se chegar aos braços daquelas mulheres, era posta em movimento. “Eu gosto de fazer com que meu leitor comece o dia rindo”, repetia Zózimo, “e se eu posso ilustrar o bom humor das notas com a foto de uma mulher bonita acho que é um bom caminho para se inaugurar a jornada.”

Evidentemente, não havia um critério jornalístico rigoroso na seleção. “Saúde é o que interessa, o resto não tem pressa”, escreveu Zózimo embaixo da foto da promoter e musculosa Alicinha Cavalcanti — e essa poderia ser a estratégia editorial para a escolha do material. Gostava tanto das fotos de Paulo de Deus que assinou uma delas como Paolo di Dio, dando um ar de papa ao fotógrafo. “Paolo” também reconheceu a importância do colunista em sua vida. Em 2012, ao lançar uma revista de circulação dirigida, distribuída em pontos comerciais e só com fotos de pessoas em eventos, fez o que achava ser uma homenagem ao amigo. Colocou o nome “Zózimo” como título de uma seção. Elegantemente, Fernando, o filho do colunista, pediu que “Paolo” guardasse a homenagem para outra ocasião e o nome da coluna ficou sendo “Zum”. De resto, a parceria funcionou quase sempre perfeita. Quase.

Numa tarde, Zózimo viu Paulo na redação mostrando fotos para Ricardo Boechat antes de passar em sua sala. Ficou aborrecido. Tinham um trato de preferência na escolha do material. Quando Paulo foi procurá-lo, Zózimo disse que não ia mais publicar suas fotos porque o combinado fora rompido. Deixou o fotógrafo seis meses na geladeira. Paulo não via necessidade da briga. Boechat gostava de fotos que tivessem assunto, mesmo que ralo, como a aparição da socialite há muito afastada da noite. Zózimo procurava na foto a mesma ordem que dava aos repórteres na busca de notícia: o assunto não era importante, queria o irreverente, algo com assinatura própria. Queria nas fotos a exuberância das garotas do Rio, esse mito nacional — e sem qualquer contrapartida, nem sequer conhecia a maioria delas, oferecia sua vitrine. Alguns amigos pediam que ele publicasse paqueras particulares de cada um, para facilitar a aproximação e a exibição de poder. Zózimo topava.

Foi ali que apareceu, pela primeira vez sem a cafona faixa no peito, todo o contorno da miss Brasil Leila Schuster — e ela imediatamente se deixou fisgar pelo megaconquistador Julio Lopes. A foto na coluna valorizava o, digamos, passe de muita moça. Mais adiante, ou seja, uma dezena de fotos publicadas depois, Leila se tornaria a senhora Helio Viana, empresário de Pelé e dono de uma deslumbrante casa na Barra da Tijuca, cenário de novelas da Rede Globo. Sair numa foto da coluna de Zózimo era a maneira mais rápida de, no estilo Ibrahim, que continuava a publicar coroas, “chegar lá” — e esse “lá” dependia do gosto da freguesa. Podia ser um bom casamento, um emprego na Globo...

As fotos costumavam ilustrar verticalmente a coluna, quebrando bem no meio as listas de notas. A diagramação era feita por “Nimrod”, apelido do designer Maurício dos Santos por gostar daquela fonte tipográfica. Eram projetos graficamente bonitos. “Nimrod” equilibrava a página com bossa, “recortava” o braço da moça ou o joelho dobrado. O problema era legendar diariamente, de um jeito criativo, uma foto que, mudando apenas a personagem, e muitas vezes nem isso, era sempre a mesma. Quando estava presente, Zózimo, com sua imaginação divertida, resolvia o problema:

“O nome dela é Denise Leão, mas pelo porte e pela cor, gata assim tão rara, poderia se chamar Denise Leão Dourado” — legendou embaixo da imagem da moça.

“A figurinha esvoaçante de Monique Vidal cegando a noite do Hippo com a luminosidade de seu farol alto” — escreveu sob a foto em que a futura delegada de Copacabana dançava com os seios explodindo dentro do decote.

“Andrea Carvalho em clima de pode vir quente que eu estou fervendo” — embaixo de uma foto de Andrea Carvalho, dançando de boca aberta, certamente cantando uma música, cigarro na mão, e blusa amarrada para deixar o umbigo respirar.

“Gisele Fraga se preveniu do calor no Gattopardo, ou então brigou com um gato” — na legenda em que Gisele, como era moda, rasgara a camiseta do evento, “customizara-a”, para diferenciá-la das outras.

“A pantera Luciana Jennings, sentada solitária e pacientemente no sofá, espera, com tudo em cima, o príncipe encantado chegar” — debaixo da foto em que o primeiro plano é o par de coxas da pantera.

“Sabrina Ramsay: caso raro de avião com para-choques” — na legenda em que Sabrina aparece com um decote espetacular.

“Cheia de charme, Bruna Lima Duarte segura os cabelos e solta os bichos na fervilhante madrugada do Hippo” — sob a foto da beldade dançando.

“Cristina Pitanguy e Claudia Queiroz levando a vida que pediram a Deus e Deus deu” — na legenda de uma foto de Ronaldo Zanon em que as duas, sentadinhas, se divertem na noite.

“A modelo Ângela Oliveira porejando charme na noite do Rio” — para a foto da moça com um metro de perna de fora.

“A jovem Luciana Tassano, réplica carioca do furacão da Flórida” — com a colunável balançando os cabelos.

“A modelo dinamarquesa Any Waldemar, a mais nova pupila do senhor reitor.”

Zózimo gostava de escrever essas legendas (para Verena Ribeiro, namorada de Paulo Marinho, fez o poema “Verena, Vereninha, vamos todos Verenar....”), um trabalho que em qualquer outra coluna seria delegado a um profissional com menos atribuições. Quando ele não estava na redação, no entanto, o problema desabava no colo de Valéria Blanc. “Fazer legenda quando você só tem o nome da pessoa é fogo”, reconhecia. De vez em quando, ela chamava os colegas do aquário ao lado, Arthur Dapieve e Luciano Trigo, da editoria Opinião. O olhar masculino, reforçado pelo humor e o equilíbrio perfeito entre a visão sofisticada do mundo e o humor moleque das ruas do Rio, aproximava-os de Zózimo. “Verônica Castiñera foi com tudo e não deixou nada em casa” — perpetrou Dapieve para identificar uma foto em que a moça fora flagrada com uma promessa de calcinha na cruzada de pernas.

É um livro que ainda está para ser escrito e pode parecer risível cobrar seu lançamento, mas quem opera no dia a dia das miudezas jornalísticas sabe de sua necessidade: A arte de fazer boas legendas e não atrasar o fechamento. Nos anos 1950, ficou clássica a solução, que teria sido dada por Samuel Wainer, ao editar uma manchete de Carnaval. Diante dele estava a foto clássica daqueles eventos: uma jovem em cima da mesa se abanando com uma ventarola. Os fotógrafos ainda não tinham o hábito de fazer o clique e perguntar, no meio da confusão, o nome da gata. Disparavam o flash e passavam o problema para diante. Quando a foto desabou em sua mesa, o relógio correndo, Wainer fez o que pôde — e teria ficado rico se, pelos anos afora, tivesse cobrado um centavo de royalty sobre a autoria daquela simples linha de legenda: “A morena sambou a noite inteira em cima da mesa.”

Em meados dos anos 1990, na mesa de Zózimo já desabavam fotos identificadas com o nome da fotografada e o local onde a cena se dera — o resto precisava ser resolvido com a criatividade que o tempo permitisse. Legendas, embora tenham alto índice de leitura, não merecem o esmero dedicado a outras etapas da edição — e Zózimo nem sempre podia curtir uma especial. A sua legenda-clichê, o seu “A morena sambou a noite inteira em cima da mesa”, tinha muitas versões. “A top model Georgia Wortmann enfeitando a noite do Rio” saiu em 26 de julho de 1993; e “Cristiane Fernandes, Fernanda Rodrigues e Suzana Werner enfeitando o Sambódromo”, em 20 de fevereiro de 1996. Essas legendas, apenas com os sujeitos e o cenário mudados, repetiram-se dezenas de vezes.

As legendas eram todas elogiosas e, como se viu, enfeitadas de furacões, poemas e o que mais as modelos inspirassem. O mais comum era se ver a figura feminina “esbanjando charme e alegria” (Daniela Rangel, em 17 de abril de 1994) ou “charme e elegância” (Lizandra Souto, em 25 de maio de 1994). Havia uma forma preestabelecida em que se mudava apenas o verbo. Mulheres também eram vistas na coluna “iluminando” ou “botando para quebrar”. Se faltasse ainda algum espaço para preencher, Zózimo, por mais que tivesse abandonado o vocabulário francês do início da coluna no JB, cometia um ato falho e tascava que a moça estava “comme il faut”.

Em geral, ele se esforçava. Tirante os clichês inevitáveis à prática diária de uma atividade capaz de poucas nuances, como a de legendador de fotos em que nada estava acontecendo, dava tratos à imaginação. Em 3 de junho de 1994, diante da foto de Erika Sanches dançando com os braços levantados na pista do Hippopotamus, não teve dúvida: “Erika Sanches, atual favorita do sultão, na pista do Hippo.” A moça deve ter morrido de ciúmes, porque poucas semanas depois lá estavam Adriana Matoso e Suzane Carvalho também apontadas como favoritas do sujeito. A um leitor desavisado poderia parecer que as beldades sofriam assédio ou tinham correspondido a ele, algum milionário árabe em trânsito pelo Rio. Ledo, e ivo, engano. “Não havia sultão nenhum”, diz Valéria Blanc. “Era uma forma de o Zózimo dizer que aquela mulher especial, linda, que se destacava no harém da noite carioca, despertaria a atenção até mesmo de um sultão cheio delas. E se era capaz disso, essa mulher era mesmo do balacobaco.”

Décadas depois, ainda dá para ouvir a gargalhada de Zózimo diante da legenda que perpetrou para a foto publicada em 3 de novembro de 1994, com a modelo corpulenta Magda Cotrofe. Ela dançava animadíssima numa festa. Zózimo, deixando qualquer exigência de elegância fora da página, como se depois do black tie também resolvesse jogar fora os bons modos, escreveu embaixo daquele montepio de carnes: “A modelo Magda Cotrofe, esfuziante, na noite de Halloween no Lokau. É bruxa? Não. É fada!”

Eram raríssimas as fotos de homens, exceções praticadas para premiar Ricardo Amaral, José Hugo Celidônio, Paulo Fernando Marcondes Ferraz, Rodolfo Garcia, Julio Lopes, Ivo Pitanguy, Julinho Rego e outros poucos amigos íntimos de Zózimo. Se as mulheres tinham a garantia de que, no dia seguinte, estariam registradas em seus melhores closes, sem celulite nas coxas e com o mais alvo sorriso nos lábios, os homens também podiam ficar tranquilos. Só sairiam na boa.

“Cuida de mim, Zanon”, pedia o jovem político Aécio Neves quando chegava a algum evento da noite do Rio e via à sua frente a câmera de Ronaldo Zanon, um nordestino de cabelo comprido, a camisa aberta para mostrar os tufos do peito. Era um código entre os dois. Não podiam se dizer amigos, mas depois de se encontrarem muitas vezes nos lugares da moda noturna carioca, ficara clara a simpatia. Não adiantava ao fotógrafo registrar Aécio atracado romanticamente com alguma moça, como ele presenciou tantas vezes, nem trocando as pernas depois de uma libação alcoólica, como viu outras tantas. Os colunistas evitavam aquilo. O melhor então era proteger os companheiros da noite.

“Cuida bem de mim” era um apelo de Aécio, no início da noite, para que Zanon não o deixasse cair na tentação do ridículo desvairado diante da câmera, da falta de compostura quando já não estivesse em condição de avaliar nenhuma das categorias comportamentais. Numa festa no Jardim Botânico, os empresários Alexandre Accioly, Luiz Calainho e Tuca Maia, entre outros, montaram uma cena carregando Aécio no colo. Pediram que Zanon registrasse. O fotógrafo fingiu o clique — a chamada “chapa treze”, nome que remonta ao tempo em que se trabalhava com filmes de doze fotos — e mandou para a redação apenas a foto de todos os amigos juntos, em pé, confraternizando, felizes. Era seu jeito de “cuidar bem” de Aécio.

Outro com quem Zanon cultivava ótima relação de proteção era Olavo Monteiro de Carvalho. Dono de farta cabeleira, às vezes o empresário estava com ela um pouco desalinhada. Zanon, antes do clique, tinha o cuidado de fazer a mímica, passando a mão sobre a própria cabeça sem que ninguém percebesse, informando a Olavo que ele precisava de um pente. Olavo, amigo de Zózimo, um dos poucos homens a ilustrar a coluna, ia imediatamente ao banheiro e voltava com todos os fios no lugar.

Eram cuidados que proporcionavam uma convivência pacífica entre as partes, fotógrafos e celebridades, espremidos todas as noites dentro de boates ou festas. Alice Tamborindeguy reclamou com Zanon que ele havia registrado a filha, Narcisa, com um naco de coxa além do que ela, mãe, julgava condizente a uma moça de respeito exibir em público. Mal sabia Alice que Narcisa convocara Zanon, em meio à alegria de uma festa, para registrar o instante em que ela se jogaria, de roupa, dentro da piscina. Zanon, bom de cumprir ordens, fotografou. Como sabia que no dia seguinte as pessoas estão sempre mais sensatas, antes de mandar as fotos para a redação teve o cuidado de mostrar a série à própria Narcisa, que, já refeita da euforia, não a liberou. Assim foi feito, e assim todos ficaram protegidos e unidos pela grande escuridão dos pactos noturnos.

Zanon era uma das estrelas da coluna de Zózimo. Ganhava pouco das casas noturnas que o contratavam — revelava as fotos na pia da cozinha, fixando-as contra a porta da geladeira —, mas tudo bem. O importante era manter o nome impresso e ser lembrado pelas famílias da sociedade para registrar seus eventos privados. Foi ele quem fez as fotos das bodas de Patrícia Leal e Antenor Mayrink Veiga. Antonio Joaquim Peixoto de Castro, o Totão, se cansou da Nikon F3 que havia acabado de comprar, novinha, e resolveu presentear Zanon, seu companheiro de todas as noites no Hippo, com a traquitana. Separados durante o dia pelos contracheques da vida social, à noite todos os gatos eram pardos — e pobres e ricos, fotógrafos e celebridades circulavam cúmplices.

Quando a modelo e capa da Playboy Monique Evans tentou furar a barreira das castas e se casar com Antenor Mayrink Veiga, Zanon foi chamado a participar do bloqueio à ascensão social da moça. Chegou-lhe o aviso, pelo cerimonialista Ricardo Stambowsky, de que Carmen Mayrink Veiga, mãe de Antenor, e contra o casamento, ia almoçar com Monique no badalado Mr. Ramos, em Ipanema. Carmen sugeria que Zanon registrasse o evento discretamente (pediu também que ele buscasse um ângulo longe de seu perfil direito, pois estava com um problema cutâneo). Na hora aprazada, lá estavam as duas mulheres numa mesa e Zanon distante, com uma teleobjetiva. O fotógrafo não sabia o que aconteceria, porém logo ficou claro. Monique estava sendo demitida do posto de noiva. Dias depois a foto serviria nas colunas sociais para ilustrar a informação de que o casamento do jovem Mayrink Veiga e a playmate estava cancelado.

Durante três dias seguidos, mais exatamente 18, 19 e 20 de dezembro de 1994, as fotos da modelo Juliana Galvão, catorze anos, uma morena desconhecida do mundo da moda ou de qualquer outro, uma linda e adorável anônima, foram a única ilustração da coluna. Nunca na história do jornalismo de notas alguém tivera tanta repetição, pois a trifoto contrariava o princípio básico da atividade — a necessidade de uma novidade a cada dia. O que quereria dizer o colunista com aquele Festival Juliana Galvão? Moradora do Ingá, Niterói, a menina levou um susto quando se viu em três edições seguidas — ela, que nunca tivera uma foto publicada. Aluna do Primeiro Grau, estava começando a carreira de modelo, se é que aqueles pouquíssimos trabalhos anteriores, quase amadores, mereciam o rótulo. Tinha optado pela passarela quase empurrada, cansada de tanta gente palpitando que ela era bonita e, afinal, media um metro e oitenta. Numa palestra sobre moda em Niterói, foi carregada pela mãe para que Carla Souza Lima, a grande modelo, desse um parecer. Carla aprovou e Juliana, sempre acompanhada pela mãe, foi em frente.

As três fotos de Zózimo traziam a assinatura de Zanon e tinham um ar de escândalo — afinal, era uma adolescente em trajes sensuais, adornada de rendas, um tipo de cena que poucos anos depois seria criticado por incentivo à pedofilia. Foram feitas num desfile de lingerie italiana, à tarde, no Hippopotamus. A primeira e a última fotos publicadas eram parecidas, traziam Juliana sentada e de pernas cruzadas. Na segunda ela estava de pé, séria, enfrentando a câmera com todas as sinuosidades do corpo querendo escapar da adolescência, e já com uma circunferência de coxa que parecia anunciar os coxões musculosos que virariam moda duas décadas depois. Deve ter sido aí que o colunista, com os critérios jornalísticos à flor da pele, se decidiu pela overdose editorial.

Juliana tinha um rosto de anjo, uma boca num rosa-bebê parecido com o de Julia Roberts. As demais carnes expostas ofereciam uma consistência diabólica. Era o tipo de foto em que a coluna havia se especializado. Mulheres com grandes fatias de gostosuras à mostra, mas com uma classe distinta em algum canto da imagem, no sorriso, na roupa, no tratamento dos cabelos — algo que dava o ajuste fino da civilidade clássica e a nova liberdade feminina. “A plástica irrepreensível da modelo Juliana Galvão em tarde de desfile de moda” — disse a legenda da primeira foto, um domingo. “O repeteco, a pedidos, agora exibindo lingerie italiana, da modelo Juliana Galvão, gatinha para ninguém botar defeito” — vibrou a legenda da segunda foto, publicada na segunda-feira. “A pedidos, e bota pedidos nisso, o tripteco de Juliana Galvão, caso inédito na história desta coluna” — comemorava a legenda da foto da terça.

Ninguém pediu nada, as três colunas foram fechadas no mesmo dia. Era uma curtição pessoal do colunista, uma aposta atrevida de que suas fantasias macho-jornalísticas se valiam do senso comum para o bom exercício da profissão. Afinal, é uma profissão que não mede sua exatidão por fórmula científica. É faro, sensibilidade, crença de que se vai falar com outras pessoas interessadas naquela mesma observação, e elas entenderão. Nenhuma grossura ou vulgaridade. Zózimo cravou as fichas editoriais em Juliana. E em setenta e duas horas de exposição ininterruptas na mais importante coluna de notas da imprensa brasileira, ela foi contratada pela Ford.

Os outros colunistas acreditaram em Zózimo, a grande referência de todos eles, e começaram a disputar imagens da moça. Fred Suter, em O Dia, brigou com Zanon por este não ter lhe oferecido as fotos — e o fotógrafo provou que mandara para a coluna fotos dela no mesmo desfile de lingerie. O tríptico de Juliana carregava o traço de Zózimo. Qualquer coisa carimbada por sua chancela virava marca de charme. Zanon mandara as fotografias para todos os colunistas. Todos viram Juliana de lingerie. Só Zózimo percebeu a bela verdade dos fatos — aquilo não se via todo dia.

Zózimo continuou publicando fotos dela em 1995, a ponto de na legenda da última, em dezembro, ter resumido a temporada: “Juliana Galvão, para quem o Papai Noel sorriu o ano inteiro.” A moça chegou a pensar em mandar um cartão de boas-festas, agradecendo o prestígio e dizendo que o nome do Papai Noel dela começava com Z. Pensou, pensou. Discreta, achou melhor continuar assim e tocou a carreira que, depois do casamento, foi arquivada e nunca teve momento tão glorioso quanto aquele. Ela nunca viu Zózimo pessoalmente.