Enquanto Houver Champanhe, Há Esperança
Capítulo 38
A Seleção brasileira na Copa do Mundo de 1994, nos Estados Unidos, jogava um futebol eficiente, mas aborrecido. Zózimo, escalado pelo Globo para a cobertura, era o contrário. Nem sempre efetivo, quando entrava em campo era diversão garantida. Algumas de suas primeiras jogadas:
• Conclusão extraída do jogo Camarões 2 x Suécia 2.
Camarões tem aquilo na cabeça e a Suécia, nos pés.
• Coitado do jogador de Camarões M’Fede. Deve ser
detestado pelos pais.
• San José, Silicon Valley — a terra dos computadores. Não
é, como muita gente pensa, a terra dos travestis.
A delegação do Globo ficou hospedada em San José, na Califórnia, próxima a San Francisco. Árida, sem atração turística. Zózimo trombeteava a decepção no jornal: “San José, dá para perceber meia hora depois de se chegar à cidade, é uma choldra.”
Durante trinta e dois dias, a partir de 17 de junho, enquanto Valéria Blanc e Vanessa Bueno, as novas repórteres assistentes, fechavam sozinhas a coluna do Segundo Caderno, ele escrevia a coluna da Copa, uma meia página, no caderno de Esportes. Como sempre, tentava ver o que ia ao redor dos acontecimentos, de preferência onde a bola não estivesse rolando. Com a colaboração dos colegas, mandava tudo pronto para publicação. O escritor João Ubaldo Ribeiro, cronista do time, era parceiro nos imensos intervalos entre os jogos. Estreitaram a amizade e Zózimo aproveitava-se da intimidade para encher a coluna com aquela celebridade das letras. Em 18 de junho, com o título “Must”, tirou um sarro do amigo:
• O grande must de Palo Alto em matéria de indumentária
é a camiseta térmica de João Ubaldo. Não que esteja frio,
muito pelo contrário, mas quando sopra aquele ventinho
que vem do Alasca e se está na sombra os cinquentões ficam
a um passo da gripe.
• Ubaldo, único imortal na Copa, resolve o problema com a
camiseta térmica que tem jeito de ter sido comprada na
butique da Nasa.
Zózimo criou o truque de abrir a coluna com um editorial, o que ajudava a ocupar o espaço. Não era papel jogado fora. Funcionava como leitura comentada sobre a maneira de os jornais noticiarem o futebol do Brasil. Numa época ainda não on-line, fazia-se de ombudsman dos outros. Uma das curiosidades que apontou foi a de a Seleção ser unanimidade gloriosa entre os estrangeiros e, apesar de ir vencendo, tornar-se saco de pancada da imprensa paulista. Gostava do time e enfrentou o negativismo. Para o pessoal da Rede Bandeirantes fez a nota “Surpresa”, após o Brasil vencer os Estados Unidos por 1 x 0:
• Quem estava perto do locutor Juarez Soares, da TV
Bandeirantes, não entendeu por que ele ficou petrificado e
seu semblante exibiu expressão quase transtornada, de
profunda decepção, quando Bebeto fez o gol da vitória.
• A surpreendente reação de Soares chegou a provocar um
incidente.
• O repórter da TV Globo Telmo Zanini, poucos metros à
frente, gritou “gol” com todas as forças que ainda lhe
sobravam e, ao olhar para trás e perceber o ar taciturno do
locutor, não se conteve. Atirou-lhe, aos berros:
— Secador, secador.
Seis dias depois, com o título “Pingos nos ii”, Zózimo peitou uma tentativa de Juarez Soares de conseguir um desmentido.
• Chega de má-fé e enrolação.
• Esta coluna não disse que o locutor Juarez Soares torceu
pelos Estados Unidos contra o Brasil.
• Relatou apenas um fato testemunhado por dezenas de
pessoas: quando Bebeto marcou o gol da vitória, Soares
ficou apoplético, deu um murro na mesa e passou a exibir
uma expressão de fúria incontida. (...)
• O único detalhe omitido — em consideração ao próprio
locutor — foi o palavrão com que Zanini o insultou.
• O resto é blá-blá-blá.
Para a Folha de S.Paulo, que comentou a rivalidade, mandou, em “Jeca”:
• Funcionária do Departamento de Marketing, a
ombudsmãe da Folha, uma vez por mês em média, faz
desaforos para O Globo. Jeca como ela só, inventou agora
uma tentativa desse jornal de criar polêmica do gênero
carioca versus paulistas a propósito da Seleção brasileira.
• O problema de dona Jânia é de queí ou de tepeême.
Jânia, no caso, era um trocadilho com Júnia Nogueira de Sá, a ombudsman da Folha.
Outra guerra de jornalistas por pouco não aconteceu. Quem andava por perto de Zózimo era outro inimigo seu na imprensa esportiva, o locutor Orlando Batista. Nos anos 1970, Zózimo o criticara por uma verborragia qualquer, pois Orlando era notório pelo uso de quanto mais palavras melhor, e se fossem de muitas sílabas, melhor ainda. O locutor ficara furioso e mandara brasa em seu programa na Rádio Mauá: “Hoje não vamos falar de futebol, mas de um cidadão que nos atacou injustamente através de sua coluna social, que é lida somente pelas dondocas da sociedade que não têm o que fazer. O senhor Zózimo Barrozo do Amaral teve a ousadia de nos criticar desonrosamente. Meus amigos, este senhor Zózimo é conhecido por filar a boia dos ricaços. Ele chega quando o jantar já está servido e come os restos. Parece o pessoal que chega no final da feira para comprar os legumes mais podres e baratos. A diferença é que ele não paga nada. Seu Zózimo não passa de um xepeiro das mesas dos grã-finos. É isso que ele é, um xepeeeeiro! Xepeeeeeeiro!” Por muito tempo os colegas no JB brincaram com ele, chamando-o de “xepeeeeeiro”, sempre imitando a voz exaltada de Orlando Batista. Pois em 1994, Orlando Batista e o filho, também radialista, Luiz Orlando, cruzaram várias vezes nos estádios com o colunista, porém sem se atirarem legumes podres e baratos uns nos outros.
Inimigos fora, Zózimo realizou seu mix de informações com a graça de sempre, e não faltou um ingrediente fundamental — o mulherio. Publicava a foto de uma mulher bonita, muitas vezes clicada por ele mesmo no perímetro em que ficara hospedado. Gostava de ir, por exemplo, à Casa da Brahma, aberta para receber jornalistas e craques nas folgas entre os jogos. No mesmo dia em que publicou a foto da loura Karina Oliva (“a gata número um de Los Gatos”), informava em outro canto da coluna, com o título “Loucurita”:
• E a Christina Trielli, hem?
• Loucura.
• Amanhã a gente mostra.
E no dia seguinte estava lá, posando meio sem jeito para as lentes de Zózimo, a morena (“o sorriso da estonteante Christina Trielli em Los Gatos, uma atração a mais na Copa do Mundo”). Foram muitas as musas da temporada, algumas surgidas em notas bilíngues:
• We’ve just met a girl named Amandaaaaa.
• É capaz de fazer um dry martini que não é deste planeta.
A ausência de notícias não esportivas tornava um sacrifício o garimpo das notas. Zózimo tinha experiência desses vazios e ia lançando mão de seus truques. Nas Olimpíadas de 1992, em Barcelona, quando se viu sem o indispensável dicionário, mandou pela coluna um recado humoradamente desesperado para a mulher: “Dorita, afanaram o meu Aurélio!” Mais adiante foi a vez de “Furto”, onde reclamava: “Dorita, roubaram o meu sossego!” — e sabe-se lá o que dessa vez tinham levado. Na Copa dos Estados Unidos, burlou a falta de assunto no largo intervalo entre os jogos com notas sobre o que ia de pândego nos bastidores do torneio. É o caso de “Morbidez”:
• Seis dólares é quanto custa um bilhete para visitar a
janela da qual supostamente Lee Oswald alvejou
mortalmente o presidente John Kennedy.
• Se dependesse desta coluna, quem engendrou a atração
morreria falidinho da silva.
• A morbidez tem limites.
Não poupou sarcasmo com o populacho que tinha ido para lá com a torcida, descrevendo cenas típicas ao gosto de um cronista:
• A brazucada é mesmo capaz de produzir episódios
impagáveis.
• Como o do rapaz de camisa canarinho, bermuda e
sandália de dedão, que entrou numa cafeteria e, misturando
português com inglês, perguntou desembaraçadamente ao
rapaz que atendia no balcão:
— Tem fried eggs?
— Sure.
• Minutos depois viu perplexo aterrissar à sua frente,
alinhados lado a lado numa travessa, dez ovos fritos.
Os que conheciam Zózimo preocupavam-se com o excessivo número de notas em que o perfume do álcool estava entre as vírgulas. Em quase toda coluna havia um bar servindo de assunto ou cenário. Em “Point” já dava dicas de quem estava por dentro daquele roteiro:
• Um bar.
• E que bar!
• O Stickney’s.
• Sobretudo se você for servido pela Janice, uma garçonete
para pinguço nenhum botar defeito.
• A 600 metros do Centro de Imprensa do estádio de
Stanford.
No dia 15 de julho, a Copa aproximando-se do fim, ele publicou a foto da bartender Melanie. Deixou de lado os pruridos de estar escrevendo para um jornal brasileiro e mais uma vez fez em inglês metade da legenda, que se parecia com a que dera sobre Amanda:
• Meeeeelanie! We’ve just met a girl named Meeeeelanie!
Serve drinques no bar do Marriott e exibe uma saia preta
rasgada no lado até o alto da perna que embriaga a clientela
antes de o copo chegar à mesa.
Adaptava piadas e as colocava em campo. Em 1o de julho, a bebida era servida com o título “Motel”:
• De um porrista inglês, roxo de indignação no bar do
hotel ao perceber que ao seu lado um cidadão acabava de
pedir um copo d’água:
— Como você tem coragem? É nojento. Não percebe que os
peixes trepam dentro dela?
O inevitável acabou acontecendo. Estava no mesmo hotel da equipe do Globo o jovem Bernard Monteiro, filho do jornalista Rogério “Senador” Monteiro. Bernard não bebia, e Henrique Caban, na chefia da equipe, escalou-o para acompanhar Zózimo. Foram à Disney, por exemplo. Zózimo precisou de um carro para ir até San Francisco, onde estavam os cartolas da CBF, e Caban só permitiu se Bernard fosse dirigindo. E assim foi, tudo dando certo, o jovem e o colunista amicíssimos e sóbrios.
No terceiro jogo da primeira fase, no entanto, o Brasil foi a Detroit jogar contra a Suécia e nem Bernard nem Caban, este envolvido com a conferência da Associação Americana de Jornais, em Las Vegas, puderam ir. O Brasil empatou o jogo. Zózimo foi derrotado. Ele estava no bar do Radisson Plaza, em Detroit, no sábado 25 de junho, concentrando-se para a partida da terça-feira, 28, quando caiu fulminado por doses a mais. Os amigos tentaram levá-lo para o quarto, por se tratar de apenas um porre, mas a direção do hotel não permitiu. Ligou para os paramédicos e logo duas ambulâncias com o estardalhaço de suas sirenes chegaram. No prontuário, o médico diagnosticou “coma alcoólico”. Quando acordou, no hospital, estavam a seu lado o companheiro João Ubaldo e um médico de dois metros, quase um jogador de basquete. “Eu não vou ficar aqui”, vociferava Zózimo, com as forças possíveis, tentando se levantar. “Ou o senhor deita ou vou ser obrigado a amarrá-lo na cama”, rebateu o médico.
Zózimo permaneceu o dia inteiro no hospital e a coluna durante dois dias foi enviada graças aos esforços da equipe. Cada repórter colaborava com o que podia, no entanto, como também tinha que fazer o trabalho para o qual estava escalado, ficava pesado pensar em notinhas. Caban informou Evandro, no Rio, sobre a situação. Ouviu dele que Zózimo era especial e deveria ser dada mais uma chance. Se não se recuperasse, talvez, quem sabe, seria publicada uma nota dizendo que o colunista caíra doente e o jornal estava suspendendo sua participação. Não foi preciso.
Zózimo diminuiu o ritmo alcoólico, mas ajustou as contas com o que julgou excesso das autoridades médicas. Publicou uma espinafração no Departamento de Controle de Bebidas Alcoólicas:
• Desde a vitória do Brasil sobre a Suécia entrou em cena
mais uma face da proverbial babaquice americana pelas
mãos de uma sinistra e truculenta organização que atende
pela sigla de ABC (Department of Alcoholic Beverage
Control).
• É um pessoalzinho de lascar: entra nos bares e aterroriza
quem vê de copo na mão, prende com algemas quem está
mais pra lá do que pra cá, autua barmen e tem poderes para
caçar a licença para venda de álcool aos donos das casas. (...)
• A caça do ABC a tranquilos pinguços lembra muito a
ação policial em outra Copa, a da Argentina, em 78. Aquela
que foi disputada sob a sangrenta proteção da ditadura do
nefando general Jorge Videla.
Entre mortos e feridos, salvaram-se todos e a Copa do Mundo pela quarta vez era nossa. Em 15 de julho, usando interjeições como se fossem fogos explodindo, Zózimo já se sentia campeão (o Brasil só levantaria a taça dois dias depois). Começava a encerrar a temporada americana publicando uma nota que era puro orgulho:
• Ontem, 14 de julho, um ano de coluna.
• O tempo passa, o tempo voa, e neguinho aqui continua
numa boaaaaa!!!!