Enquanto Houver Champanhe, Há Esperança
Capítulo 18
Em qualquer noite dos anos 1960 que se entrasse no restaurante Le Bec Fin, em Copacabana, seria possível encontrar Ibrahim Sued. Ele tinha um ponto, gostava dali, e isso o tornava vulnerável a um dos seres mais repugnantes no horizonte de um colunista social: o chato de galocha. O cara que quer empurrar uma nota de seu interesse para a coluna. Ibrahim andava blindado, sempre com dois ou três amigos. Sentavam-se à mesa, sendo o mais constante deles o empresário Fuad Nadruz, e a barreira inibia a aproximação. De vez em quando um mala sentava-se, contava sua história, era rejeitado e, no segundo movimento para emplacar a nota, ouvia do “Turco” — que não tinha culpa se a humanidade era mal-educada, ele estava apenas revidando — um estrondoso “vai tomar no cu, seu merda, e se manda da minha mesa”. Fazia assim também no almoço do Bife de Ouro e do Nino, outros restaurantes que frequentou em épocas diversas.
Zózimo, paciência infinita para os que conseguiam chegar aos seus ouvidos, não tinha ponto fixo, o que dificultava abordagens premeditadas. Se um chato chegava junto, ele acionava um olhar de quem ouvia com a maior atenção, mas estava apenas dando uma volta por Marte e mandando mensagens telepáticas inaudíveis por humanos. Pedia que o cara fosse para o mesmo lugar das vítimas de Ibrahim. Sabia, porém, se defender de jeito mais ostensivo. No Le Relais, do Plaza Athénée, em Paris, jantava com Boni, da Globo, quando um brasileiro os reconheceu. O que seria só um cumprimento de patrícios foi se prolongando. O sujeito queria saber o que a dupla tão bem-informada dos segredos do bom gosto estava comendo e bebendo. Zózimo serviu ao estranho um copo do pinot noir que estava no decantador. O homem provou com displicência, continuou falando, afastou o vinho e pediu cerveja. Mal o garçom acabou de servir, Zózimo, sem dizer nada, entornou o que restava do vinho no copo da cerveja do chato — que se percebeu como tal e foi cantar noutra freguesia.
Ser colunista social, ainda mais num momento em que as colunas abriam o leque e abordavam de tudo, era missão perigosa. Todo mundo queria dar um pitaco sobre aquela nota que ele publicara ontem, dizer que discordava, que não era bem assim... O colunista paulista Giba Um, chegado mais às fofocas do que às elegâncias da matéria, estava na boate Flag, em Copacabana, quando um colunável paulista, Fernando Muniz, jogou-lhe um copo de uísque no peito. Era um revide a uma nota que julgara caluniosa. Ibrahim Sued partiu para cima de Fernando e, na mais correta versão do que possa ser “espírito de corpo”, defendeu o colega, tendo início uma pancadaria das boas, com Fernando sendo expulso da boate.
Neste capítulo passaremos por cima desses inconvenientes. Não teremos notas, não teremos que fechar coluna e, espantados os chatos, seguiremos em frente. Vamos apenas acompanhar Zózimo circulando em pleno final de 1975 pelos principais restaurantes e bares do Rio. Ainda é uma cidade para maiores de trinta anos, com uma vida noturna moldada por grupos — jornalistas no restaurante Lamas, perto do Largo do Machado; atores no La Fiorentina, no Leme. Como dizia o empresário Ricardo Amaral, na noite todos tinham sobrenome e ela não era ocupada por “um bando de parvenus”, como Zózimo gostava de falar.
Ele sai quase todas as noites. Faz a ronda atrás de notícia, mas gosta do agito. Quando não está em festas, ou depois delas, circula pelo modesto roteiro gastronômico da cidade e se dá à falta de luxo de frequentar restaurantes sem ar refrigerado e com cardápios estrelados por pratos como filé com caviar. Ele circula a bordo de seu Puma, uma versão atualizada daquele de Boy. Vamos acompanhá-lo tendo como base um roteiro traçado por ele para a revista Status acrescido, aqui e ali, de comentários publicados em sua coluna. São pontos que eram o fino do contrafilé da época — e desapareceram, fritados por pragas diversas como o modismo e a má administração.
Todos a bordo — não há cinto de segurança e é permitido fumar — nesse luxo que é ter como guia Zózimo Barrozo do Amaral, o mais jovem e sofisticado colunista social da cidade. Em algumas casas ele paga a conta, em outras tem um abatimento, em outras se deixa homenagear pelo proprietário, que faz questão de brindá-lo com a cortesia. A viagem começa e é o nosso cicerone quem fala:
O roteiro noturno de um homem de status no Rio não
começa por um bar. Bar carioca, a partir do momento em
que a noite desce, é o lugar de esticada, nunca de iniciar
programas. Os restaurantes que se prezam têm a equipá-los
bares simpáticos e movimentados, embora nem sempre
confortáveis. É do movimento do bar que os restaurantes
extraem seus lucros. A comida — dizem os restaurateurs, eu
não acredito — pode até dar prejuízo que o bar garante.
O visitante de fora pode começar sua incursão indo direto
ao Antonino, na Lagoa. É, dos restaurantes cariocas de
prestígio, o único que tem bar e sala de jantar em locais
distintos, separados apenas por uma escada. Atrás do
balcão, rodeado de mesas e cadeiras de bambu e estimulado
pelo som suave de um piano, o barman Guilherme se
empenhará em produzir drinques que vão dos banais
martínis secos ou whisky sour até o Singapore Sling, uma
raridade alcoólica na noite do Rio. A sequência, o jantar, é
no andar de cima, o que obriga o cliente a passar por óleos,
gravuras e tapeçarias de artistas brasileiros de renome.
Tudo correto, sem maiores pretensões. Nos fins de noite,
aficionados do jazz reúnem-se ao redor do piano do bar para
improvisadas jam sessions a cargo de Jorginho Guinle,
Marcos Szpilman, para citar dois amadores, e até feras como
Victor Assis Brasil.
O Michel, em Copacabana, é pretensioso. Se o cliente
optar pelo carro-chefe da casa, o filé com molho de caviar,
uma combinação esdrúxula que faz muito sucesso,
acompanhado de um bom rouge estrangeiro, a despesa vai
atingir níveis inusitados. Ou, quem sabe?, acompanhar o filé
com caviar de um correto blanc, pois, se há carne, há
também o caviar.
É no Michel que os habitués são distinguidos numa
espécie de homenagem com a fixação nas paredes de seus
nomes em placas de esmalte azul e branco que imitam as
indicações dos logradouros públicos. Há a rua fulano de tal,
avenida sicrano etc. Uma respeitável senhora, rubra de
constrangimento, se viu emplacada com a designação de
largo.
Lugares a serem frequentados por homens que prezam a
sua reputação são também o Le Bistrô e o Open. Os dois vão
citados juntos porque se notabilizaram como lugares da
predileção de dois ministros da Fazenda, o primeiro, do sr.
Delfim Netto, o segundo do atual, Mário Henrique
Simonsen. É o ponto de encontro do mundo financeiro e
econômico desde o governo Costa e Silva.
O Nino, irmão quase gêmeo do Antonino, é frequentado
nas noites de domingo pela sociedade tradicional e, sempre
que estão no Rio, pelos políticos e jornalistas do setor.
Invulnerável a modismos, vem se mantendo como casa de
sucesso desde 1964. Seu proprietário, Manuel Águeda Filho,
mantém a casa com apuro, mas seu negócio principal é a
construção civil.
Quando lhe fazem críticas ao serviço, exigindo
equipamento mais sofisticado, à altura da categoria da casa,
como copos de cristal, talheres de prata e toalhas de linho,
Águeda explica que a sua única experiência nesse terreno
resultou em fracasso. Tentou começar pelos saleiros de
prata importados da Inglaterra. Não duraram uma semana,
retirados das mesas para os bolsos dos cavalheiros e bolsas
das senhoras. Como se tratava, na maior parte das vezes, de
gente ilustre, Águeda, entre submeter os clientes a um
vexame e perdê-los para sempre, ou fazer vista grossa,
arcando com os prejuízos, preferiu a segunda e prudente
hipótese, substituindo as perdas com material inferior. O
best-seller é o fettuccine.
O fettuccine também é uma das pièces de résistance do
Monte Carlo, um restaurante parecido com o Nino, tanto na
atmosfera quanto no menu — o que não quer dizer nada,
porque 80% dos pratos dos menus dos restaurantes do Rio
são idênticos, com imperceptíveis variações de sabor.
Pode ocorrer a quem pretende desvendar a noite carioca
mais sofisticada uma incursão pela culinária italiana. Há o
Máfia, cuja cozinha é a que está mais próxima da capitosa
tradição gastronômica peninsular, mas ainda assim distante
da autenticidade conseguida pelas cantinas italianas de São
Paulo. É dos raros lugares do mundo (se é que existem)
onde é possível degustar um cappelletti ao preço de caviar.
Como exemplo de razoável cozinha italiana pode-se citar
a Sorrento e sua filial, a Tarantella, mas a ausência de ar
refrigerado não as recomenda.
O Concorde e o Special, assim como o Mário e o 706,
podem ser citados aos pares. O Concorde é o restaurante e o
Special, a boate. Da mesma forma, o Mário e o 706.
Dificilmente alguém jantará em uma sem esticar na outra,
pois, funcionando em conjunto e pertencendo aos mesmos
donos, se interligam, permitindo que pela simples
transposição do umbral de uma porta se passe da
tranquilidade à loucura, do céu ao inferno.
O Special tem samba a cargo do conjunto de Ronald
Mesquita, que só conseguiu ser conhecido aqui depois que
se lançou em Paris como o músico preferido de festa de
milionários. A exemplo do Michel, o Concorde tem a
preocupação de afagar a vaidade de seus habitués vips. Só
que em vez de emplacá-los na parede, personaliza seus
pratos colocando-lhes os nomes nas bordas. O freguês
lança-se com apetite sobre um entrecôte mirando
antropofagicamente o próprio nome estampado no prato.
Foi no 706, a boate do Mário, que surgiu a onda de o
samba não ceder lugar aos ritmos estrangeiros, tão ao gosto,
pelas suas características, das alegres cigarras que enchem
com seu vozerio aflito as noites do verão.
Sobram poucas casas que o forasteiro poderá visitar sem
susto, embora com poucas possibilidades de encontrar
nomes que façam notícia. Como o Café de la Paix, única
exceção feita por esta relação a restaurante de hotel
(Méridien), e o Casa Nostra, cuja maior atração é servir
faisões e perdizes ainda com o chumbo despejado pela arma
que os abateu. Um achado que beneficia mais os protéticos
do que a sensibilidade dos gourmets, que reconhecem no
chumbo um sabor perfeitamente dispensável.
Falta muito ao Rio para se transformar numa cidade
gourmet. Falta caráter aos restaurantes. Eles se copiam no
que têm de pior. É só surgir uma novidade gastronômica
para o prato provincianamente figurar em todos os menus.
Lembram-se do surto do baby-beef? Ou das trutas
importadas não sei de onde? Não se pode dizer de um
restaurante que ele tem uma especialidade. A especialidade
de um é a especialidade de todos. A razão do mal está na
ausência de um restaurateur na direção dessas casas. São
todas pessoas simpáticas, perfeitas como relações-públicas.
Mas de comida entendem tanto quanto este colunista de
física nuclear. Não entram na cozinha, e aí o cozinheiro faz o
que quer.
Quais são os grandes restaurantes da França? São
aqueles em que os proprietários são também os chefs: o
Bocuse, o Troisgros, o Raymond Oliver, o Alain Chapel... No
dia em que nossos adoráveis amadores culinários
aprenderem que o sucesso do restaurante não está no
volume das contas que apresenta, mas na originalidade e
qualidade da comida, então se terá dado mais um passo na
direção da civilização.
Enquanto isso, uma vez jantado, um recurso ao homo
nocturnus e sua vaga companhia é a esticada. Além do
Special ou 706, encontrará tudo o que precisa no Privé,
onde os frequentadores têm compromisso apenas com a
garrafa e a pista de dança, ao som do que há de mais
moderno em matéria de música pop, a mesma ouvida em
qualquer boate famosa do mundo, como o Regine’s, o
Annabel’s ou o Hippopotamus, de Nova York ou São Paulo.
O que o Privé tem de mais espetacular são as noitadas de
fim de semana, que se estendem até o sol alto. Um
estrangeiro que passou pelo Rio no último Carnaval ficou
pasmo no dia em que entrou no Privé às sete da manhã e
teve a noção exata pela frequência, disposição e animação,
de que a noite estava começando. O Privé é de 1956, ali se
dança entre objetos e esculturas de artistas da moda.
Mas há, e como!, quem prefira, em seguida ao jantar,
música soft que permita a continuação da conversa ou que
funcione como intermezzo da atividade gastronômica,
separando o que já foi do que está para vir. O lugar ideal é o
Balaio, no Leme, casa frequentada pelos nostálgicos do
Sacha’s, que lá reavivam a memória à custa do piano do
Sacha Rubin. Pode-se dançar à antiga, que o Sacha não é
chegado a excentricidades.
Não tão soft, mas brilhante, é a música do Chiko’s Bar, a
cargo de Luiz Eça, lugar predileto dos cantores e músicos
que querem dar canja. O Flag, de José Hugo Celidônio, em
Copacabana, é referência da música popular. Chico Buarque
fez temporada de um mês. Janis Joplin tentou entrar, mas o
porteiro achou que fosse uma hippie suja — e barrou-a.
A próxima escala, dependendo da competência do atleta,
pode ser a Barra da Tijuca, cujos motéis, feéricos,
reproduzindo a luminosidade colorida de Las Vegas,
apresentam uma variedade de opções que compreendem a
existência ou não de piscinas particulares até o formato das
camas, que podem ser tradicionalmente quadradas,
redondas, giratórias (um perigo, dizem, para as senhoras de
cabelos compridos, dada a proximidade das engrenagens) e
até, pasmem, fixas.
O Vip’s, por exemplo, na avenida Niemeyer, debruçado
sobre o Atlântico, é uma sugestão sensata. Como é também
o King’s, precursor de um novo estilo, pois antes dele só
havia o caos, o Holiday, o Playboy, o Maxim, o Dunas, o Xá
Xá Xá, o Mayflower etc. — menos o Tropical. Projetado
originalmente para uma rotatividade mais baixa, o Tropical
acabou subindo de giro, o que obriga o seu frequentador a
utilizar-se do elevador, o que é, no mínimo, constrangedor,
para não dizer imprudente.
Num outro sentido, tanto geográfico quanto filosófico,
há, em plena rodovia Rio-Petrópolis, o Pink’s, com as
mesmas características de conforto de seus similares, mas
com a peculiaridade de enviar aos jornalistas que o citam,
mesmo como ponto de referência, “uma cortesia de suíte
presidencial, inclusive despesas de bar e restaurante”.
No caso do Pink’s, Zózimo falava de si próprio, proprietário de uma carteirinha de cortesia do motel, que ficava, estrategicamente, próximo ao Jornal do Brasil, onde o clima era divertido e sexy.