Enquanto Houver Champanhe, Há Esperança

Joaquim Ferreira dos Santos · Capítulo 6 de 50

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Enquanto Houver Champanhe, Há Esperança

Capítulo 6

Zózimo, agachado, fazia asas de borboleta com giz no chão da sala do Colégio Andrews, como se sinalizasse um voo da bichinha do fundo da classe até a porta, talvez o roteiro de fuga que idealizasse para si próprio — o de bater asas e cair fora, matar a aula. Ele tinha a companhia do colega Ary Coslov, futuro diretor de teatro e TV. De cócoras, lá iam eles, aproveitando o intervalo entre as aulas de português e matemática para ilustrar o chão com aquela traquinagem — mais uma no currículo de Zózimo, um ótimo aluno na nova escola, só que um tanto ou quanto bagunceiro.

A borboletinha começava a bater asas perto das últimas carteiras e, sempre rabiscada no chão, já estava chegando à porta de saída quando, agachado e de costas, o estudante encostou nas pernas de alguém atrás dele. Era o professor, que entrava na sala. Com o impacto, Zózimo chegou a cair para a frente. Nada de grave, fisicamente — o pior mesmo foi ser obrigado a abandonar, como se fosse uma borboleta travessa, a aula que nem sequer iniciara. Naquele dia também foi impedido de ir ao recreio. Enquanto os colegas brincavam no pátio, ele limpava com um pano de chão tudo o que fosse borboletinha. Estava outra vez de castigo. Deus não servia mais de bedel, como no Santo Inácio, mas a educação liberal também tinha seus rigores.

Boy e Elza, com a reprovação da quarta série ginasial pelos padres jesuítas, haviam transferido o filho para o Andrews, da família Flexa Ribeiro, de suas relações pessoais. Era um colégio moderno e, ao contrário da maioria dos outros que recebiam a elite carioca — São Bento, Santo Inácio, Santo Agostinho, Bennett, Sion —, sem orientação religiosa determinante. Cada um que seguisse seus mandamentos, e, desde que não fosse durante a aula, Carlos Zéfiro que educasse os interessados. A liberdade religiosa fazia com que o Andrews abrigasse uma expressiva massa de jovens judeus, já que as escolas da comunidade iam só até o primário.

Havia judeus, católicos, espíritas, talvez umbandistas — isso, porém, era o de somenos. Não se usava uniforme (o que dava mais uma chance de Zózimo se exibir em suas roupas bem cortadas) e, acima de tudo, o Andrews desfilava deliciosamente misto, um colégio onde se dava o paraíso bíblico de homem e mulher conviverem na mesma classe. Não havia havaianas seduzindo jovens escoteiros na praia, mas quase. Uma das colegas chamava-se Maria Lucia Dahl, que, vinte anos depois, como já deixava insinuar o corpo adolescente, topou fazer um ensaio fotográfico para a Playboy. O pecado morava ao lado e, ao contrário do que pensavam os padrecos do Santo Inácio, devia ser vivenciado com naturalidade. No Andrews, ninguém ia para o inferno por ter maus pensamentos. No máximo, seria posto para fora da sala, suspenso ou advertido por mau comportamento. E essa via-crúcis pedagógica, vivida sem a culpa cristã, porém cheia de anotações na caderneta, foi mais ou menos rotina para Zózimo no Andrews.

Em 30 de agosto de 1957, seu primeiro ano no colégio, ele “foi surpreendido fumando”. Na semana seguinte, em 3 de setembro, foi “excluído” da aula de português e suspenso por dois dias por “atitude desatenciosa com o professor”. No dia 30 de outubro, outra carimbada em vermelho na caderneta. Chegara atrasado.

Em 1958, no segundo semestre, foi expulso da sala quatro vezes — por conversa, brincadeira, desobediência ou por estar sem o material.

Em 1959, também no segundo semestre, nos dias 17 e 29 de setembro, foi expulso da sala por estar “lendo revista” e “conversando”. Nas duas ocasiões, em aulas de filosofia.

Em 1960, foram dois casos de expulsão, agravados com suspensão. Em agosto, ficou em casa cinco dias, “por ter formulado pergunta imprópria, maliciosa”, ao professor Maia, de história natural. Mais adiante, em 4 de novembro, foi a vez de o professor Leslie, de filosofia, botar o rapaz para fora da aula e puni-lo com dez dias de suspensão. “O aluno”, segundo a ficha de Zózimo no arquivo do Andrews, “apresentou o pé descalço e sem meia. Ao ser tirado da sala, esmurrou violentamente a porta”.

Sebastião Lacerda, o futuro editor de livros, fundador da Nova Fronteira, estava na classe. Alguém começara a bater ritmicamente com os pés no chão, e como Zózimo era sempre o primeiro suspeito dessas bagunças, o professor chamou-lhe a atenção. Para pretextar inocência — de vez em quando não tinha culpa se a humanidade zoava no lugar dele —, tirou o sapato. Sem meias, colocou os pés em cima da mesa — queria mostrar que estava prenhe de inocências. Foi quando o professor Leslie expulsou o futuro colunista, que seria responsável por centenas de notas explicando como se comportar bem nos ambientes.

Zózimo adorava o Andrews. Apesar das baguncinhas, era reconhecido pelos professores como ótimo aluno. Fez os três anos do Clássico, curso que direcionava o estudante para matérias de humanas dando pouca ênfase a cadeiras típicas do Científico, como física, química e matemática. Se em 1958 sua média em português foi 6,51, em 1960 ela pulou para 8,81. Tirou 10 num trabalho sobre Dom Casmurro.

No Andrews, dois professores mudaram em definitivo a vida de Zózimo. Chamavam-se Olmar Guterres da Silveira, de latim, e Fábio Freixeiro, de português, mestres na arte de fascinar os alunos com os fatos da evolução da língua. Davam também gramática histórica. Anos depois, sempre que houvesse uma oportunidade, Zózimo e o colega de classe Renato Machado, futuro repórter da TV Globo, os citariam. Diziam ter sido eles que consolidaram em suas inteligências as noções básicas do português e permitiram que, a partir de suas aulas, tivessem prazer e segurança em escrever.

Eça de Queirós, um dos autores mais citados nas aulas, tinha entre os alunos um fã de carteirinha: Sebastião Lacerda. Este conheceu os primeiros livros do escritor português através do pai, Carlos Lacerda, jornalista e governador do então estado da Guanabara no início dos anos 1960. Zózimo leu a Cidade e as serras e O primo Basílio no Andrews. Gostava de ficar ao telefone citando trechos para Renato — e sentia tanta alegria ao ler alguns, principalmente aqueles em que Eça reforçava a tecla humorística, que caía na gargalhada.

Uma palavra do primeiro capítulo de O primo Basílio lhe era especialmente querida na época: “Jorge enterneceu-se, pôs-lhe sobre as pálpebras dois beijos chilreados.” E Zózimo foi logo ao dicionário, um gesto que Freixeiro estimulava entre os alunos e ele faria por toda a vida, para saber que o adjetivo empregado, pouco familiar aos ouvidos brasileiros, queria dizer beijinhos com ruídos delicados aplicados em sequência.

Claro que passou algum tempo pedindo às colegas um “beijo chilreado”, o que a repressão da época nem sempre permitiu, mas o prazer do vocabulário original marcou-o. No futuro, a busca de palavras especiais persegui-lo-ia — e, a propósito, o uso abusivo dos pronomes, principalmente com sentido cômico, nonsense, era outra brincadeira do grupo de Zózimo, Renato e Sebastião. Adoravam uma mesóclise despropositada.

Para quem vinha de colégio religioso, o Andrews parecia o céu na terra. Maria Lucia Dahl, ex-aluna do Sion, só de meninas, lembra-se do ritual a que as freiras submetiam as alunas flagradas em algum malfeito abominável — conversar na sala de aula, por exemplo, era considerado uma ofensa a Deus. Segundo as regras divino-escolares, a pecadora não merecia carregar o crucifixo ao pescoço, um acessório fundamental do uniforme. Marcava-se então o dia em que, no pátio do Sion, a moça devolveria a cruz à direção do educandário. Ficaria suspensa de Cristo por alguns dias.

O liberalismo do Andrews situava-se no avesso do avesso do que boa parte da turma sofrera nos colégios religiosos. Zózimo escrevia com giz o aviso “Senhor inspetor, favor não alimentar os animais” na portinhola de vidro através da qual os bedéis olhavam do corredor para dentro da sala de aula. No Santo Inácio, a diatribe adolescente seria crime suficiente para o responsável passar a meia hora do recreio pregado na cruz.

Sebastião, Renato e Zózimo chamavam-se Os Três Mosqueteiros. De curtição, faziam espadas de papel e fingiam duelos no meio do recreio, o que sempre chamava atenção de alguma garota. Viviam juntos o tempo todo. Tinham em comum os colégios religiosos do passado, a vibração por Eça, a euforia pela vizinhança das meninas. O que lhes era diferença foi aos poucos se acertando.

Renato sentiu-se de início deslocado, até mesmo tratado com desprezo por Zózimo, um aluno reconhecido em todo o colégio como dono de uma ironia afiada, arma mortal na arte de cutucar o próximo. Quase um pré-bullying. As frases curtas do colega, sopradas sempre com um sorrisinho de lado, feriam o espírito sensível e acuado de Renato, rapaz vindo do interior do estado, de Nova Friburgo, de uma classe social mais baixa.

Zózimo personificava o garoto Zona Sul típico, representante da classe média carioca, sócio da Hípica, com os pais na coluna de Jacinto de Thormes, e ainda por cima inteligente, antenado com os modismos, cada vez mais bonito. A futura promoter Anna Maria Tornaghi, de uma turma mais jovem, suspirava de longe. As meninas eram disputadas por Renato e Zózimo com os resultados previsíveis, ou seja, a favor do segundo. Foi o caso da nadadora Ana Maria Horta, atleta do clube Guanabara, primeira namorada firme de Zózimo, aluna do Andrews. Renato queria ser Zózimo. Da mesma maneira que Arnaldo Jabor no Santo Inácio, ele se impressionava com seu estilo. Tinha-o, já na escola, como “figura decisiva na formação de gostos, de princípios, de juízos de valor sobre as pessoas, sobre o que elas queriam da vida, o que é correto na sociedade, uma inteligência fundamental para aqueles últimos anos de inocência”.

Renato procurava saber onde o colega encomendava os mocassins (ele fazia os seus no Motta, eram ok, mas o quente, de Zózimo, ficava numa loja da rua Dona Mariana, em Botafogo), e ia atrás dos endereços. Queria saber onde Zózimo fazia as calças (num calceiro do Largo do Machado), onde fazia as camisas (Otto, Copacabana) e onde os blazers (no mesmo Ernesto Marques que fazia alguns de Boy). Queria se vestir com o mesmo glamour — e, quem sabe, um dia conseguir garotas tão lindas quanto as de Zózimo. A família de Renato uivava, pois o padrão Barrozo do Amaral fugia ao seu escopo financeiro. De imediato, sem grandes custos, Renato seguiu o look do clã ao usar um lenço no bolso do paletó, uma maneira econômica de emular o visual de Boy.

Quando ficaram parecidos, os mesmos mocassins nos pés, Renato e Zózimo passaram a formar uma dupla da qual as meninas deviam manter certa distância. Eles davam pequenas reuniões na casa de Renato, em Copacabana, com pais bem liberais. Festinhas simples, com o mesmo ritual matador de sempre. Papo e cuba-libre para começar. Com as coisas bem encaminhadas, colocavam Frank Sinatra na vitrola e aumentavam a excitação do momento. Chamavam a moça para dançar e colavam nela. Roçavam as pernas, mais os genitais, com o máximo de vigor que a parceira, fingindo não saber o que acontecia, permitisse — tudo na evolução do ritual que anos mais tarde ganharia a alcunha de “mela-cueca”. Garotas não davam, ou seriam estigmatizadas pela pecha de “galinha” — mas aos poucos se preparavam para ir à forra, na década seguinte. Os rapazes saíam doloridos dessa esfregação, que chamavam de “Chico contra Chico”, numa tradução maliciosa para a dança do cheek to cheek. Alguns ganhavam beijinhos sem língua. Pouco prazer, todavia era a aproximação possível com o corpo feminino. Daquele roça-roça arrumavam assunto para conversar e charlar mais tarde entre eles.

Estudavam juntos após o colégio na casa de Renato, onde havia um quadro-negro, e também na Frei Leandro, 35, onde, na lembrança de Sebastião Lacerda, sempre havia menos família (“o velho Boy ia para a cidade, para o Jockey, a Izabel estava no colégio, a mãe estava não sei onde”). Os três ficavam no torpor adolescente do nada fazer, pouco estudar, muito fumar e pegar o carro de Boy para andar, andar, até gastar toda a gasolina. Uma noite, nesse endereço, o intervalo entre os exercícios do colégio tornou-se inesquecível.

Zózimo lembrou aos amigos que, embaixo da escada para o segundo andar, Boy, mais uma vez ausente de casa, mantinha uma adega — que tal se dessem um tempo nos estudos e fossem assaltá-la? Beber começava a ser um dos detalhes marcantes do perfil do rapaz. Nenhum grande porre ainda, no entanto, além de fumar mais do que todo mundo e ser mais descolado que todo mundo, começava a se destacar também por ser o que mais participava do esvaziamento de garrafas. Ele foi o primeiro da turma a achar cuba-libre “uma bebida para garotas”.

Aberta a adega, Zózimo deu prioridade a uma garrafa de bordeaux francês, o Saint-Émilion, que ouvira numa conversa do pai ser um dos carros-chefe da coleção. Não se estudou mais naquela noite — e Zózimo abria em sua biografia a primeira das muitas garrafas que lhe seriam prazer e assombrada maldição. Para Renato Machado foi uma aventura memorável. Mais tarde um especialista em vinhos, naquele momento ele se introduzia no assunto em que se destacaria pelo conhecimento e pela elegância do bom uso das palavras para descrevê-lo. Um dia, já profissional de renome no reconhecimento das boas safras, narrou o que aconteceu naquela noite:

 

Não soube nem me dei conta do primeiro contato que tive

com um vinho de Bordeaux. Foi na casa de Zózimo Barrozo

do Amaral. Nas nossas cabeças intensas, naqueles anos de

descoberta e exageros, existia sempre em primeiro lugar a

travessura, a transgressão.

Por impulsão nos lançamos a um armário embaixo da

escada, que fazia de adega. Os adultos não estavam. Iríamos

quebrar regras, entrar num lugar proibido, roubar o que nos

era vedado ver. Tínhamos visto um filme da Nouvelle Vague

em que Jean-Claude Brialy presidia uma festa intelectual

avançada, à luz de velas, recitando para moças vestidas de

negro um poema alemão ao som de Wagner. À volta, havia

vinho.

Nada estava certo naquela cena, muito menos no filme,

uma bobagem cult, chatíssimo. Mas, embalados pela

modernidade do filme, tentamos repetir o clima de

tresloucada poesia, o que certamente nos fazia diferentes.

Não sabíamos que éramos iguais a outros ridículos de outras

épocas, inocentes como todos.

O Saint-Émilion acabou roubando a cena porque nada

mais sem graça do que acender velas e fazer pose

existencialista. Mas pouca gente se lembra dos

existencialistas franceses, de Sartre, de Juliette Gréco ou do

franco-belga Jacques Brel.

Com a vela, percorremos os rótulos na esperança de

encontrar poeiras antigas que nos contassem alguma

história. As garrafas estavam maltratadas — não pelo

tempo, mas pelas condições impróprias de guarda. Na cena

que fabricamos, o vinho adquiriu significados poéticos,

fantasiosos. Era proibido, deveria ser caro e estava

escondido dos jovens malcomportados. Não era para

boêmios sem lei.

 

Os três existencialistas — Renato, Sebastião e Zózimo — divertiam-se tanto à luz de vela como à luz da Light, que lá fora iluminava um novo Rio de Janeiro. A cidade oferecia uma agenda cultural, pós-rock and roll, pós-existencialismo francês. A grande novidade, em cartaz desde a estreia, em 1956, era o filme Ao balanço das horas, com Bill Haley e Seus Cometas. Os jovens começavam a dar as cartas. A Black Horse, boate perto do Copacabana Palace, não exigia terno e gravata. Também não apresentava música ao vivo — era boate hi-fi. O toca-discos reproduzia a música dos melhores artistas, e o som que saía da caixa, escolhido pelo discotecário, era o rock de Elvis Presley e Little Richard. A noite ficara jovem.

Zózimo estava na noite (Beco da Fome, Galeria Dezon) da mesma maneira que seu pai continuava (Boy, a propósito, usando as influências de um amigo general, liberara o filho do temível serviço militar). Aos poucos, graças à turma do Andrews, o rapaz foi se interessando por acontecimentos com um verniz mais cultural (onde se incluíam os filmes exibidos no Cine Paissandu), uma boemia impregnada de informação além da safra do uísque. Mas nada ainda muito claro. Em alguns momentos da adolescência, dava demonstrações de que poderia embicar para versões atualizadas daquela de Boy dando tiro no Vogue.

Gostava, por exemplo, de ir até a favela da Catacumba, na Lagoa, para comprar cabeça de negro, uma bomba junina mais forte que as usadas para comemorar os santos do mês. Só que não havia nada de cristão no que fazia com elas. Depois da compra, seguia até as margens da Lagoa Rodrigo de Freitas, a um quarteirão de casa, num ponto muito usado pelos casais para namorar dentro dos carros. O filho de Boy então ganhava vulto.

Ele acendia a cabeça de negro, jogava embaixo do carro e ficava esperando o resultado. Em geral, os casais saíam assustados e, do mesmo jeito que Ali Khan, correndo com as cuecas na mão para fora do banheiro, tentavam ajeitar as roupas que tinham tirado para ajudar o namoro. Assim como Boy não era da Turma dos Cafajestes, Zózimo estava longe da Juventude Transviada surgida com o embalo do rock — mas, cada um a seu tempo, inspiravam-se naqueles modelos extravagantes de diversão.

Quem via, agora durante o dia, o adolescente Zózimo pescando caraúna na mesma lagoa podia tê-lo como exemplo de alguém empenhado em relaxar dos estudos com lazer saudável. Qual o quê! Ao final da jornada — e qualquer um retirava quilos de peixe da água ainda limpa —, o destino de parte da pescaria não era o proveito gastronômico. Ele deixava que os peixes passassem um pouco do ponto de saúde e, já donos daquele cheirinho nauseabundo, gostava de ir para a rua Jardim Botânico com todos espetados numa fieira de barbante. Era só esperar o bonde despontar lá longe e se aproximar, junto com os outros moleques da rua, alguns mais tarde situados em altos postos da vida da cidade, para jogar, sem dó, a enfiada de caraúna dentro do corso de trilhos urbanos.

Continuava brigão, jamais propenso a levar desaforo para casa. E tinha um termômetro sensível para registrar o que seria um desaforo — uma frase de Boy: “A dimensão do insulto quem avalia é o insultado!” Se Boy, na padaria da esquina, engalfinhou-se com o padeiro por causa do atraso de uma fornada de bisnagas, falar mal do Flamengo ou levar fechada no trânsito eram insultos avaliados como de grande dimensão por Zózimo, que voava para cima do oponente. Não tinha técnica de luta. Apanhava e batia em proporções semelhantes.

Carlos Eugênio Lopes, o Carlô, colega desde os bancos do primário, esteve próximo de Zózimo em muitas dessas brigas e salvou-o de complicações maiores. Numa delas, o rubro-negro se atracava com o jornaleiro tricolor da esquina da Frei Leandro com a Jardim Botânico, numa segunda-feira pós-Fla-Flu. O homem jogou Zózimo ao chão e ia golpeá-lo na cabeça com uma barra de ferro quando Carlô segurou seu braço e encerrou a pugna.

Continuava em vigor a saga dos Zózimos, todos com o sangue subindo rapidamente à cabeça. Aproximando-se dos vinte anos, o Bráulio encontrava no Andrews uma turma ligada em outras diversões (brigou apenas uma vez na escola, em defesa de um colega que sofria bullying por certos trejeitos efeminados). Divertia-se com as brincadeiras da idade, mas também com livros, filmes, peças de teatro e demais badulaques culturais. O Museu de Arte Moderna, recém-inaugurado no Aterro do Flamengo, começava a ser uma grande referência de eventos na cidade, e ele gostava de andar por lá com Sebastião e Renato. Juntou a seus prazeres a música clássica e passou a frequentar com o pai concertos no Teatro Municipal.

Outros colegas do Andrews juntavam-se aos Três Mosqueteiros, como Ary Coslov, Joaquim Vaz de Carvalho, aquele que já estudara com ele no Santo Inácio e se tornaria produtor de cinema, Rubens Gerchman, futuro artista plástico, e também uma das mais belas meninas da escola, loura de olhos verdes, extremamente meiga e discreta, interessada nos movimentos das artes modernas, uma jovem culta. Era Marcia Kuperman, futura artista plástica, marchand — e algo mais.