Enquanto Houver Champanhe, Há Esperança
Capítulo 15
Surpreendentemente inflamado, o sempre discreto escritor Otto Lara Resende, redator dos discursos de Roberto Marinho, permanece de pé em cima de uma cadeira por longos minutos. Ele vocifera radicalmente contra o governo e tudo o mais que é ordem constituída no país naquele início dos anos 1970, as prisões cheias de dissidentes políticos. Manda brasa. Otto está sem papas na língua, prenhe de indignação cívica: “Não tenho medo, apenas orgulho e determinação nas minhas crenças. A tal ponto chegam minhas convicções que quero deixá-las assinadas com coragem e destemor. Nada que nos é presente a qualquer futuro presta. Quero o melhor para meu país, quero liberdade de expressão. Quem for brasileiro que me siga e grite seu nome também. Eu digo o meu. Eu me chamo José Aparecido de Oliveira.”
O restaurante Antonio’s, na rua Bartolomeu Mitre, no Leblon, onde se passou a cena, era uma casa de falsos loucos — todos com nome e sobrenome conhecidos no país inteiro. Aparecido de Oliveira, por exemplo, frequentador do local, amigo de Otto, tinha sido secretário do presidente Jânio Quadros. Em 1967, quando foi inaugurado, a boemia intelectual da Zona Sul começou a se reunir ali. Um grupo expressivo era o de artistas e, como no caso do pândego Otto, de diretores da TV Globo, emissora criada dois anos antes no bairro ao lado, o Jardim Botânico. Havia ainda gente de música, da imprensa e da alta sociedade mais liberal.
Zózimo estava sempre por lá. Ele levara para o Jornal do Brasil a sua já expressiva agenda de telefones, mas sabia que às vezes ninguém respondia do outro lado da linha. Há dias tão beges na vida de um colunista que os telefones nem sequer dão linha, ou as pessoas, finalmente localizadas, não verbalizam o que sabem ou definitivamente não sabem de nada digno de sair impresso no grande jornal da capital — nesses momentos desesperadores é preciso ir à caça.
A praia ajudava. Ele frequentava o trecho em frente à rua Montenegro, aquela faixa de areia que desbancara a do Arpoador e do Castelinho como centro do modismo da turma “por dentro e inserida no contexto”, como pregava o bordão de O Pasquim para identificar os de comportamento moderno (sexo, drogas e rock and roll) e politizado (Mao, Morin, Marcuse e McLuhan).
Havia na areia as barracas do jornalismo (Zuenir e Mary Ventura, Ziraldo e Vilma, Scarlet Moon de Chevalier, Fernando Gabeira, Darwin e Guguta Brandão, João Luiz Albuquerque, Carlos Leonam...); do Cinema Novo (Cacá Diegues e Nara Leão, Glauber Rocha, Arnaldo Jabor, Zelito Viana...); das mulheres incríveis (Maria Lucia Dahl, Tânia Scher, Tânia Caldas, Noelza Guimarães); e do Trio Tumba, a trinca das falsamente deprimidas, sempre de preto, mas escandalosamente gostosas (Dorinha, Solanginha e Ionita, que a partir de 1967, casada com Jorginho, carregaria o sobrenome Guinle). Armavam-se ao lado das barracas do teatro (o casal de namorados Marieta Severo e Carlos Vergara, Jô Soares, Maria Clara Machado...); da literatura (Antonio Callado, Tite de Lemos...); da boemia (Jaguar, Hugo Bidet, Maria Gladys...) etc. Foi essa turma que começou a aplaudir o sol pondo-se ao lado dos Dois Irmãos.
A praia era um bom lugar para se pegar nota — a não ser nos dias de chuva, quando o grande concerto carioca do papo, do mergulho e da troca de casais ficava suspenso. Quando todas as opções falhavam, era urgente ao colunista ir à caça também na floresta noturna, “a praia” na varanda do Antonio’s. De início, o restaurante chamava-se Strangers in the Night, nome do sucesso de Frank Sinatra naquele ano da inauguração. Armando Nogueira, diretor da Globo, achou cafona. Para abrir o restaurante ele tinha ajudado a arrumar empréstimo no Banco Nacional, com o diretor José Luiz de Magalhães Lins, sujeito de juro zero para celebridade. Considerou-se com direitos. Junto com Otto Lara Resende e a socialite Vivi Nabuco, tacou a apóstrofe de propriedade no nome do chef, Antonio Luiz Pereira, e pronto — seja bem-vindo ao grande show do Antonio’s.
Na edição de 5 de março de 1979, a nota “Primeiro, os seus” dizia:
• Duas coisas não se pode negar ao restaurante Antonio’s,
ponto de encontro de um segmento muito exclusivo da
boemia do Rio: autenticidade e sobretudo personalidade.
• O que para qualquer outra casa do gênero — a presença
em suas mesas de Ursula Andress — seria motivo de grande
júbilo e fogos de artifício, para o Antonio’s soou como um
fato normal e corriqueiro.
• Tão normal que a atriz lá chegou, com amigos, não
encontrou mesa e, como a casa se recusasse a passá-la na
frente de outros clientes que esperavam a vez, se viu
obrigada a bater em retirada depois de esperar mais de meia
hora.
Os famosos do Antonio’s tinham de se conformar com o fato de que aquele ambiente nivelava — e nivelava por baixo. Eram todos tão importantes que era melhor desconsiderar todo mundo. A expressão “ih, lá vem a chata da Brigitte Bardot de novo” surgiu ali. O bar continuava a saga da boemia intelectual carioca na tentativa de se encontrar um ponto para discutir o mundo, esbarrar com o amor de sua vida (pelo menos o daquela noite) e, nos intervalos, falar mal dos outros. Na virada do século XIX para o XX, esses encontros se faziam à tarde, quando Emilio de Meneses, Olavo Bilac e outros literatos trocaram a Confeitaria Pascoal pela Colombo, as duas no Centro. A revista Fon-Fon publicava potins garimpados lá.
Houve o período dos bares da Lapa, com Noel Rosa no restaurante Capela, cercado de prostitutas e malandros. No samba “Conversa de botequim”, ele diz ao garçom: “E ordene ao seu Osório que me mande um guarda-chuva aqui pro nosso escritório.” Foi o primeiro a relacionar a mesa de bar com a mesa de trabalho. Na varanda do Antonio’s, batucando numa Remington portátil, Carlinhos Oliveira continuou a tradição e escreveu dúzias de crônicas para o JB.
No Café Nice, na avenida Rio Branco dos anos 1940, o ambiente era radiofônico, com Chico Alves, Orlando Silva e todo o cast da Rádio Nacional, que ficava logo ali, na praça Mauá. Pixinguinha preferia o Bar do Gouveia, na travessa do Ouvidor. A cultura boêmia espalhou-se pelo Centro, a região mais charmosa da cidade até o fim dos anos 1940. Tinha o Vermelhinho, na esquina da Graça Aranha com a Araújo Porto Alegre (na mesa da calçada, Vinicius de Moraes, Lúcio Rangel e Ismael Silva cantaram “Tens um olhar que me consome”, de autoria do último); o bar do Hotel Serrador (bom, segundo avaliação do cronista Paulo Mendes Campos, que o frequentava com o jornalista Joel Silveira, mas problemático para um bêbado porque era preciso subir a escada para fazer pipi); o Westphalia (“Meu amigo Pedro Nava/ Em que navio embarcou/ A bordo do Westphalia/ Ou a bordo do Lidador?”, escreveu Vinicius); o Lidador; o Villarino (onde Tom e Vinicius foram apresentados por Lúcio Rangel); o Pardellas (na Santa Luzia, onde um dia o compositor Antônio Maria encontrou uma antiga namorada e depois escreveu sobre a tristeza de dar um beijo de “como vai?” na bochecha de um ex-amor).
A turma foi se deslocando. Passou pela Taberna da Glória (onde o produtor musical Hermínio Bello de Carvalho descobriria a voz de Clementina de Jesus), depois foi para o Lamas, no Largo do Machado (de jornalistas), e, aos poucos, a partir dos anos 1950, chegou à orla da Zona Sul. Ocupou as mesas do La Gondola e do La Fiorentina (da classe teatral) e de mais uma infinidade de bares, boates e afins, como Le Rond Point (em cuja calçada Antônio Maria cairia enfartado), Alcazar, Lucas, os becos da Fome, das Garrafas, do Joga a Chave Meu Amor, e muitos etc., quase todos entre o Leme e o Posto 6.
Quando a década virou para os anos 1960, descobriu-se Ipanema através da patota do Pasquim. E aí foi a vez do Zeppelin, do Varanda, do Veloso (onde Tom e Vinicius viram a garota de Ipanema passar) e do Jangadeiro (onde o cartunista Jaguar viu um rato correndo entre as mesas, porém não falou nada, assustado com a possibilidade de o problema não ser de saúde pública, do bar, mas dele mesmo, talvez em pleno delirium tremens).
Sempre fugindo dos chatos que se esgueiravam atrás deles, os bêbados famosos inventavam novos bares — e a movida carioca chegou ao longínquo Leblon. A partir dos anos 1970 ficaram celebrizadas as mesas do Degrau, do Le Coin, do Alvaro’s, do Luna e, acima de todos, do Antonio’s — que é para onde voltamos desse périplo em torno da história de alguns dos bares que fizeram a fama do Rio, a fim de encontrar Zózimo e a turma do Boulevard Leblon, conforme era chamado, por seu frenético vaivém, o referido estabelecimento.
Uma das diferenças para a geração anterior é que não se cultuava a fossa nem a dor de cotovelo, como ao gosto da turma samba-canção nas boates à meia-luz de Copacabana. O Antonio’s era o primeiro bar no Rio a surgir com força depois dos Beatles, da pílula anticoncepcional, da minissaia e da nuca pelada de Jean Seberg em Acossado. Moças de família estavam colocando os pés num boteco com pedigree — e não precisavam estar acompanhadas da respeitabilidade de um marmanjo. Tom Jobim passou pela mesa em que Leila Diniz almoçava com a também atriz Ana Maria Magalhães. Cumprimentou-as: “Quanta saúde, deixa eu me matar lá nos fundos com meu uísque.” Dominava o ambiente uma euforia existencial libertária, como se fosse um constante coquetel comemorativo do fim do pecado — de todos os tipos. “O tabu já era”, dizia no balcão do bar o cineasta Rogério Sganzerla.
A varanda do Antonio’s funcionava como a ilha da fantasia, onde, na definição do colega de Zózimo no Santo Inácio, o cineasta Cacá Diegues, tudo era permitido dizer, desde que não fosse parar na calçada, ainda ocupada pelos ditames dos generais. Era o Country Club da esquerda. Zózimo dava declarações em reportagens sobre o bar (“É lugar aconchegante, as pessoas se descontraem”, disse à revista Veja) e catava notas que entrariam nas antologias do colunismo:
• Um júri de solteiros empedernidos, reunido há dias na
varanda do Antonio’s, escolheu como a melhor frase do ano
até agora a sentença de uma conhecida dama da sociedade
carioca sobre a infidelidade conjugal:
— Antes à tarde do que nunca.
Uma das damas mais constantes em sua mesa era Tônia Carrero. Zózimo gostava de sua companhia, sempre alegre. Uma noite, eles dividiram a mesa com a jornalista Lucia Rito, que preparava um perfil da atriz encomendado pela revista Nova. “Qual a fórmula para ter o rosto sempre jovem?”, perguntou Lucia. “Eu passo porra”, respondeu, sem constrangimento, a grande atriz. A declaração irreverente era ótima, típica de Tônia, só que o calendário ainda estava em 1974. Como publicá-la numa imprensa vigiada pela censura? Como manter a cútis da atriz sempre lisinha e saudável sem usar o creme proibido da sinceridade feminina e provocar o fechamento da revista? Consultada, a editora Eda Romio deu a solução: “Escreva que ela passa no rosto ‘as sobras do amor’” — e assim foi para as bancas, poetizada, a fórmula tão Antonio’s, tão três doses acima dos seres humanos, da beleza de Tônia Carrero.
Era irresistível a combinação de inteligências soltas, malte envelhecido e histórias que não acabavam mais. Às vezes Zózimo pedia uma folha do bloco dos garçons. Em geral, guardava na memória o que ia vendo e ouvindo. Em 27 de fevereiro de 1972, encontrou lá o cineasta Louis Malle (“figura agradabilíssima”), que jantava com o casal Madeleine e Renato Archer. Juntaram as mesas e dois dias depois estava na coluna a notícia de que Malle ia à Amazônia pesquisar a possibilidade de rodar um documentário sobre a floresta. “Para ele”, escreveu Zózimo, “a batalha homem-natureza, a última da história da humanidade, não pode ficar sem ser documentada.”
Infelizmente ficou — o filme jamais foi feito. Dezenas de outros foram bolados naquelas mesas, todos ao redor gritaram “genial”, mas nunca chegaram às telas do cinema, esquecidos na ressaca da manhã seguinte. Não importava. Mudava-se o mundo toda noite, valia pela poesia. Os bem-sucedidos no boom financeiro da Bolsa de Valores, os exilados trazidos de volta pela anistia, todos comemoravam no Antonio’s. Comia-se o filé à Chico Buarque (com patê de fígado e vinho Madeira) acompanhado de uísque Black & White. O contrafilé à Marcos de Vasconcellos (não tinha carne, apenas ovo mexido com farofa, cebola e arroz) com Chivas. O crítico de gastronomia do JB, Roberto Marinho de Azevedo, o Apicius, achava o cardápio apenas razoável. Degustava-se acima de tudo o papo, o festival de gente, o folclore inesgotável e o culto à liberdade. A comilança era outra. Cacá Diegues elogiava o novo filme de Joaquim Pedro de Andrade quando uma jovem atriz, até então silenciosa, foi instada a tecer seu comentário sobre o grande diretor. A moça foi sincera e no dia seguinte a declaração, em off, estava no Zózimo: “Já dei muito pro Joaquim, mas nunca tive intimidade com ele.”
Jacinto de Thormes esteve no Vogue, Ibrahim no Golden Room e agora Zózimo via um pedaço do Brasil diretamente da varanda do Antonio’s. Um psicanalista da moda contava em detalhes as idiossincrasias da mais recente conquista, com nome e sobrenome, que havia passado na noite anterior por sua cama, heterodoxamente freudiana. “Uma arena de angustiados”, definia Cacá Diegues, “onde a agonia de trabalhar para o poder se acalmava depois do primeiro uísque.”
Carlinhos Oliveira foi personagem da mais clássica história do Antonio’s, tornada pública pela coluna. Assaltantes prenderam sete fregueses e mais o escritor no banheiro do bar. Quando faziam a limpa no caixa, ouviu-se a voz fraca, no entanto indefectível, do cronista prisioneiro. Educadamente, ele pediu: “Senhor ladrão, não se esqueça de levar esses papeizinhos aí do lado direito.” E lá se foram os “penduras”, aumentando o prejuízo da casa.
Outra de Carlinhos relatada por Zózimo:
• O amigo, cambaleante, saiu do Antonio’s e, amparado
por Carlinhos Oliveira, sugeriu:
— Vamos tomar um táxi?
• E Carlinhos:
— É melhor não. Não convém misturar.
A cada história dessas, o restaurante era invadido por novas levas de ninguéns, todos interessados na glória carioca de se sentar à mesa ao lado de algum boêmio intelectual. Uma noite o jornalista Edson Afonso, da editoria de Esportes do JB, chegou no meio do salão e bateu palmas. Na esperança de que alguma mesa desocupasse, gritou: “Senhores, trago uma triste notícia. Não adianta esperar. Hoje o Chico Buarque não vem.”
Zózimo gostava de dividir a mesa com homens mais velhos, como o médico Clementino Fraga, o político Renato Archer, os empresários Nelson Batista e Aloysio Salles, o arquiteto Maurício Roberto e também o showman Miele. Este chegou a combinar uma reação aos Alcoólicos Anônimos. Queria formar a Sociedade dos Alcoólicos Famosos (SAFos), partindo da premissa de que nunca ninguém criara nada depois de tomar um copo de leite. Os membros da SAFos se reuniriam semanalmente para depoimentos: “Meu nome é Shakespeare, eu agora só bebo gim” ou “Meu nome é Truman Capote, estou há três dias sem beber uísque, só vodca russa”. Para a confirmação de que se tratava de um SAFo, o teste seria simples. O candidato precisaria entrar no Antonio’s e ser reconhecido por cinco pessoas. Miele contou a história para Zózimo, que morreu de rir e prometeu publicar — jamais o fez.
Outro velhinho de admiração e mesa de Zózimo era o cronista Rubem Braga. A nota “Experiência”, embora não citasse o restaurante, foi colhida lá:
• Do mestre Rubem Braga, do alto da sua sabedoria e
experiência: “Fazer amor depois dos 75 anos dá ressaca.”
Em 8 de agosto de 1972, Rubem reapareceu na nota “A reconciliação”. Referia-se à noite em que ele e o pintor Di Cavalcanti, depois de uma briga em que trocaram basicamente barrigadas (numa discussão sobre vaguidades), deram-se as mãos com muita desconfiança:
• A bomba dos meios boêmios foi a reconciliação entre Di
Cavalcanti e Rubem Braga, celebrada na arena onde os dois
já haviam se enfrentado algumas vezes — o Antonio’s. Os
dois se encontraram e, instados pela sra. Madeleine Archer,
caíram nos braços um do outro.
• Florentino [um dos donos da casa], comovidíssimo,
pensou imediatamente em abrir uma garrafa de champã,
mas Rubem puxou-o pelo braço: “Espere um pouco, ainda
não tenho certeza se vai dar certo.” Mas deu.
(Tempos depois, na varanda, os dois velhinhos temperamentais voltariam a brigar, pela mesma falta de motivos e pelas mesmas doses de uísque a mais. Braga encerrou a discussão com um “ô Di, vê se para de pintar essas mulatas que você não come”, e saiu porta afora.)
Muitas vezes, era só chegar, olhar e depois, geralmente com o título “Cena carioca”, imprimir no jornal:
• Ao entrar no Antonio’s, na sexta-feira, um porrista,
habitué da casa, pensou que estava tendo alucinações.
• Diante de seus olhos embaçados estava sendo realizada,
em pleno restaurante, uma missa em português castiço, com
sotaque da ilha da Madeira. Achou que tinha errado de
porta e foi tomar um trago no bar da esquina. Ficou sem
saber que a missa era real, encomendada por Manolo, outro
sócio da casa, a um padre de Funchal.
Como se não bastasse o festival de estranhezas, no segundo andar do Antonio’s havia uma dezena de aves empalhadas. Manolo (o espanhol Manuel Ribeiro Romar), além de carola convicto, praticava taxidermia. Os bebuns não subiam até ali, e ainda bem — acreditariam, diante daquelas corujas empalhadas, estar tendo um delirium tremens. No fim da noite, havia sempre alguém emborcado sobre a mesa ou em posição de pugilato. Brigava-se muito, mas sem maiores consequências físicas. As academias de lutas marciais não haviam se espalhado pela cidade e os socos e pontapés quase nunca acertavam o oponente. Uma noite, encerrada uma briga, Manolo reclamou da quizumba e ouviu do empresário Zequinha Estelita: “Você serve uísque e quer comportamento de casa de chá?”
Nessas cenas de pugilismo amador era assídua a presença do economista Ronald Chevalier, o Roniquito. Magro, baixo e prognata, estava sempre oferecendo o queixo ao soco alheio. “Boa noite, senhores, está chegando o economista Ronald Russel Wallace de Chevalier. Em alguns minutos, Roniquito” — era como anunciava a sua inevitável transformação, mais aterrorizante do que a de Dr. Jekyll em Mr. Hyde, do médico no monstro, porque era absolutamente real e na mesa ao lado. O homem citava Rimbaud de cor, cultíssimo, todos se orgulhavam de dividir espaço com alguém tão especial. Dois goles depois, já Mr. Hyde, ou melhor, Roniquito, virava-se para Tom Jobim:
“Você conhece Cole Porter?”
Tom, prevendo sacanagem, murmura um “sim”, contrariado.
“Então você sabe que você é um merda!”
Zózimo evitava-o desde que Roniquito discursara sobre “as frivolidades da imprensa para dondocas”. A coluna nunca publicara o nome do desafeto folclórico. Outros muitos não tiveram a mesma paciência com Roniquito e partiram para a pancadaria. Do jornalista Tarso de Castro ao jornalista Fausto Wolff, todos foram unânimes em saudar com socos seus destemperos verbais. Roniquito merecia. Passou uma noite fazendo o sinal de “V” com dois dedos para um casal, a mulher lindíssima. O casal devolveu o cumprimento com outros “Vs”, até que o marido foi pedir a Roniquito que parasse com aquele negócio de “paz e amor”.
“Que paz e amor, que nada”, disse o monstro. “Eu estou oferecendo duzentos paus pra comer ela.”
E tome porrada.
“Quer mais?”, disse-lhe um homem que o socava no chão do restaurante depois de ser esculachado por seu furacão verbal.
“Você não acha que já bateu bastante, imbecil?!”, devolveu Roniquito com a empáfia de sempre.
Havia até cenas de amor explícito. A mais célebre delas, e Zózimo deu o furo, juntou Tarso de Castro, conquistador notório, e Candice Bergen. Ao vê-la no restaurante, Tarso jogou-se-lhe aos pés. Num inglês lamentável, elogiou a beleza da atriz. Candice já tinha sido louvada em todas as línguas e de maneira mais romântica — mas vai entender as mulheres!? Achou exótico, charmant — e naquele mês em que esteve no Rio foi a namorada de Tarso, a ponto de ter sido vista num consultório dentário de Copacabana, onde levou pela mão o namorado, dono de um borogodó irresistível, todavia com dentes em frangalhos de tanto tabaco e malte escocês. Quando soube, tempos depois, que Candice estava se casando com o cineasta Louis Malle, Tarso foi o de sempre. Além do encanto pessoal, tinha texto e desabafou: “Dos Malles, o menor.”
Zózimo saía da redação ou de alguma festa e gostava de fechar a noite nesse cenário de real valor carioca, certo de que lá encontraria alguém para se sentar ao lado e relaxar após um dia extenuante atrás de notinhas ou de papo forçado nos salões finos. Uma dessas mesas impossíveis juntou-o com o ator Jack Nicholson, as socialites Alexandra Stewart, Odile Rubirosa e Regina Lecléry e o cineasta Roman Polanski, o que, evidentemente, foi noticiado na coluna.
• Há quem considere o Antonio’s um clube ou uma
extensão da própria casa. É uma impressão que se solidifica
no fim da noite, quando os forasteiros já abandonaram a
cena e as mesas se inter-relacionam, formando um bloco
único e sobretudo alegre de amigos. Quando o astral que se
forma nessas ocasiões sobe além do normal, chega-se à
divertida situação que já ocorreu inúmeras vezes: eleva-se o
volume da música de fundo, retiram-se as mesas do centro
da sala e na clareira aberta dança-se como nas festas de
formatura.
Uma das músicas que Zózimo, pé de valsa contumaz, sempre pedia para tocar ao fundo era a que dera início a tudo — e, coladinho com amigas como Regina Lecléry ou Tônia Carrero, ele dançava o cheek to cheek romântico ao som de Sinatra em “Strangers in the night”.