Enquanto Houver Champanhe, Há Esperança
Capítulo 46
Zózimo era míope. Usava lentes de contato de vidro, duras, e de uma maneira um tanto extravagante: sem se preocupar com a higiene apropriada, ficava dias e noites com elas. Dormia, inclusive. Ao se deitar, empurrava cada uma para um canto do olho, na parte branca. De manhã, com outro toque, retornava-as ao centro. O resultado eram olhos sempre vermelhos ao acordar. Esse hábito foi o primeiro suspeito. Quando as dores na cabeça começaram, Dorita deu uma bronca e apontou o dedo para as culpadas. O que se podia esperar depois de anos seguidos fazendo uso das lentes daquela maneira?
Desde a volta do Nepal, no fim de junho de 1997, o marido reclamava que lhe doía o frontal, com irradiações para o lado direito, impactando forte por debaixo do olho. No início de julho, assistindo a um jogo do Flamengo no Maracanã, comentara com o botafoguense Armando Nogueira — os dois não iam ao estádio havia tempos — que num lance tivera a sensação de ver a bola pela metade. Caíram na gargalhada.
Uma tarde, escrevendo na redação, as dores não só se tornaram insuportáveis, como foram seguidas de uma pane visual de segundos, numa espécie de continuação do que acontecera no Maracanã. “Engraçado”, comentou com Valéria Blanc, “vejo só metade da letra.” Como esses episódios iam e vinham, Zózimo, como lhe era do feitio, foi deixando de lado qualquer providência. Passariam. Anunciou para Kiki Garavaglia que voltaria às quadras com Kiko Malzoni, estava curado do tennis elbow, dor que acomete jogadores de tênis, e queria prosseguir o projeto saúde, espantar também por meio de raquetadas a assombração do cigarro e do álcool. “O problema é que agora estou vendo as coisas meio turvas”, disse para Kiki.
Magro, a expressão abatida, quem o encontrou naquele mês de julho ficou impressionado com a mudança. Envelhecera, ninguém lhe dava apenas cinquenta e seis anos. Afora essa impressão estética, trabalhava normalmente. Sem os problemas do alcoolismo, tornara-se um funcionário-padrão, batendo o ponto todo dia. Abriu julho com a nota “Fim da picada”, acusando a Souza Cruz de ter usado de má-fé ao esconder num anúncio o alerta obrigatório de que cigarro faz mal (“expediente torpe e por se tratar de fraude contra a saúde do cidadão merece punição exemplar”). Fechou o mês dizendo que Antônio Carlos Magalhães, Michel Temer e Edison Lobão, todos do Congresso Nacional, estavam em Paris — e que diante de tais visitantes Paris podia estar tudo, “menos uma festa”. A julgar pelas estocadas, o humor parecia bem.
No início de agosto foi até Itaipava com Dorita, o arquiteto Sergio Rodrigues e a mulher deste, Vera. Estava interessado em comprar um terreno para, juntando ao projeto Miami, construir uma casa e radicalizar o desejo de uma vida mais sossegada, longe das badalações. Deixaria o jornal, abriria um escritório perto de casa, numa sala que já havia escolhido e que podia ser vista da cobertura de Dorita. Trataria de viver da publicação de livros e de outros projetos menos estressantes que a coluna diária. Estresse, só o benigno, na hora de escolher se passaria dias de folga nas praias de Miami ou em meio ao verde de Itaipava.
O quarteto viu terrenos, subiu e desceu morros, almoçou no Mes Amis, de Geraldo Casé, e, num intervalo dessas movimentações, Sergio ouviu o amigo se queixar da dor de cabeça. Estava cansado e pediu que suspendessem a procura, que deveria se estender também pela tarde. No fim de semana seguinte voltariam para recomeçar a busca de um cantinho com a cara do que Dorita e o marido desenhavam para o resto de seus dias.
Zózimo só resolveu se mexer e investigar o que acontecia com a saúde após um jantar com Paulo Marinho no Cipriani, no Copacabana Palace. Ao sair do restaurante, não percebeu a porta de vidro e bateu de cara. Poderia ter cortado o rosto, mas o vidro, duplo, não se espatifou. Novamente tinha tido uma súbita cegueira — e aí, no dia seguinte, pressionado por Marinho, o mesmo que o obrigara a visitar um cardiologista em São Paulo no fim dos anos 1980, marcou um oftalmologista do plano de saúde, perto de casa.
O diagnóstico do médico foi servido horas depois na redação do Globo numa visita ao aquário de Merval Pereira. “A velhice é mesmo o diabo”, comentou às gargalhadas, entremeadas de tosses. “O médico disse que eu tive enfarte nos olhos. Vê se pode uma coisa dessas? Ainda bem que não foi no coração. Vou dar uma nota dizendo que a coisa anda tão feia que os olhos estão enfartando.”
Em condições normais, a nota poderia até ter ficado boa. Zózimo, porém, não chegou a escrevê-la. Precisou sair mais cedo. As dores de cabeça voltaram após deixar a sala de Merval, os “enfartes” começaram a ficar mais próximos um do outro e ele foi direto para o consultório do oftalmologista Almir Ghiaroni. Na sala de espera encontrou a embaixatriz Glorinha Paranaguá e conversaram animadamente. Ela ficou com a impressão de que a consulta do amigo devia ser de rotina, para acertar o grau das lentes. Não notou nada estranho.
Um exame de campimetria feito no consultório observou uma lesão homônima, com alteração do campo visual. Havia compressão da área, com todo o jeito de ter origem neurológica. Preocupado, Ghiaroni pediu que Zózimo fizesse uma ressonância do cérebro e procurasse seu clínico, Pedro Henrique de Paiva. O resultado da ressonância, na clínica de Luiz Felipe de Queiroz Mattoso, foi recebido por Dorita em duas etapas. A primeira em forma de suspeita: no fim do exame, ao passar pela clínica para pegar Zózimo, notou que o rosto de Felipe Mattoso, o médico, um homem bonito, dos mais sedutores da sociedade carioca e personagem da coluna, ganhara coloração assombrada. A segunda veio mais tarde, por telefone, do mesmo Mattoso. Ele confirmava a impressão inicial que motivara o espanto percebido por Dorita. “Dorita, há dois tumores no cérebro, em estado adiantado, provavelmente uma metástase.”
A providência imediata foi marcar consulta com o neurocirurgião Paulo Niemeyer, principal referência nacional na especialidade. As urgências eram evidentes. Zózimo foi operado no dia 3 de setembro na Clínica São Vicente. Os dois tumores foram extirpados pelo bisturi firme do cirurgião e mandados para biópsia. A cicatriz na cabeça não estava bonita, típica de filme de terror, mas logo desapareceria com o crescimento do cabelo. E quem lhe deu a terrível notícia, ainda no CTI, foi o amigo Paulo Marinho. Era o primeiro a pronunciar o nome da doença na frente dele. A guerra apenas começara. Todos os ataques seriam desfechados agora contra o pulmão, onde estava o início do câncer produzido por aqueles anos regados a até oitenta cigarros por dia. Um pulmão estava atacado, o outro funcionava bem, por isso ele não sentia dor na região. O alarme, “o enfarte nos olhos”, se deu com a metástase. A chance de sobrevida era razoável.
Zózimo ficou com os olhos marejados, todavia não chorou ao receber a notícia. Tinha vencido a batalha do cérebro, a confusão visual cessara imediatamente e se sentia capaz de partir para a próxima. Como sempre na vida, usou de humor para lembrar que estava sem fumar e sem provar sequer uma gota de álcool: “Poxa, que sacanagem, logo agora que eu estava cheio de saúde...” Quando José Hugo Celidônio o visitou, levando um chá indiano raro, continuou a brincar com a sua infelicidade: “Xi, quando começa com isso é sinal de que o caso é sério. Em seguida virão os amuletos.”
Um ano antes, acometido pela depressão e pelas crises de alcoolismo, poderia até ter admitido a doença como alívio final, uma solução do destino para o que ele não conseguia realizar. Não era o caso agora. Andava feliz, com projeto de futuro sem a companhia dos vícios. Depois do diagnóstico, a sós com Sergio Bermudes, revoltado com a má sorte, decidiu chutar o balde da saúde tão arduamente conquistada. Ela não tinha sido leal, não merecia respeito de volta — e pediu um cigarro. Sergio achava que se desse abalaria ainda mais o quadro do doente. Negou e pelo resto da vida se arrependeu de não ter presenteado o amigo com a felicidade daquelas baforadas.
A boataria sobre a saúde do colunista se espalhou por todos os cantos e a Clínica São Vicente, na semana em que ele precisou ficar internado, transformou-se numa coluna social. Todos os personagens a que dera vida no jornal resolveram aparecer para votos de pronta recuperação ao criador. Parecia um coquetel. Na coluna, daria até um daqueles name-droppings extensos em que ele antigamente elencava os presentes às festas.
A visita mais emocionante foi a da mãe. Mesmo com o passar dos anos, a relação com Elza não melhorara. Ela se separara de Boy no início dos anos 1970. Deixara a casa da Frei Leandro, no Jardim Botânico, e fora morar na Fonte da Saudade, na Lagoa, com um novo companheiro. O encontro na São Vicente foi provocado por Izabel, que, ao contrário do combinado com o irmão, não foi junto, forçando os dois a conversar. Zózimo comentou com Paulo Marinho que ainda se sentia um estranho diante dela. Para Izabel, disse que gostaria de vê-la outras vezes e finalmente se aproximar. Ao filho, Fernando, Zózimo dedicou uma conversa profunda e íntima, “daquelas que se tem duas ou três vezes na vida”, segundo o rapaz. Falou da disposição de enfrentar a doença com dignidade e frisou: “Nem que seja para te dar um último exemplo.”
Os amigos ficaram aborrecidos de não terem a entrada permitida na São Vicente, quando a família passou a evitar que Zózimo fosse visto com as sequelas de um pós-operatório na cabeça. Dorita contratou um segurança para o trabalho desagradável de informar que as visitas estavam restritas aos parentes. Em casa, o telefone não parava, movido pela ânsia benigna de todos quererem saber como estavam as coisas. Assim, era impossível cuidar de um doente que respirava com dificuldade. Os médicos recomendaram que Dorita aproveitasse o apartamento em Miami e se mudasse. Zózimo teria privacidade e ficaria a poucas quadras do Mount Sinai Medical Center, o hospital que era uma das maiores referências internacionais de combate ao câncer e com um médico brasileiro de grandes recursos, Rogerio Lilenbaum.
Quando chegou aos Estados Unidos, o quadro geral do paciente era bom, se é que isso podia ser dito de alguém diagnosticado, depois da biópsia, como portador de um carcinoma raro e agressivo, um vilão que se instalara nos pulmões e já dera como manifestação paralela de sua hediondez a metástase no cérebro. Zózimo mantinha-se esperançoso. Na primeira consulta com Lilenbaum teve um choque de ordem. Como evitava falar o nome explícito da tragédia, fugindo como fez pela vida toda em relação a outros assuntos graves, foi forçado pelo médico a pronunciá-lo com todas as letras. E o que o paciente identificava nas conversas como “doença” passou a ser referido com toda a crueldade semântica pelo nome próprio: câncer.
Zózimo chegou em meados de setembro à sua Miami querida (“isso aqui é bom até com câncer”). Estava com Dorita e Fernando, que ficariam a seu lado durante toda a internação. Logo, Paulo Marinho se juntaria ao grupo, levando a empregada e sua receita de picadinho. De início, Zózimo ganhou peso. Entre uma passagem e outra pelo Mount Sinai, também ia ao Joe’s Stone Crab, restaurante especializado em caranguejo. Aos domingos, o casal frequentava a igreja de Saint-Patrick. Dorita comprou um santinho com o poema “Don’t quit” (Não desista). Lia os versos como se fosse uma prece. Tentava fazer com que cada palavra penetrasse a alma de cada célula, seguindo o processo de reconstrução celular de Carmen Viana, com quem se mantinha em contato por telefone. Acreditava que ajudaria a travar a chegada da morte.
Tudo tinha sido muito rápido. Num passeio, encontraram uma brasileira. “Mas eu te vi outro dia no Rio e você estava tão bem”, ela disse. “Pois é, querida”, respondeu Zózimo, “por fora, bela viola, por dentro, pão bolorento.”
Entre os telefonemas, recebeu o de Nelita, agora já com o sobrenome Leclery. O tom da conversa era o de balanço de uma existência. “Você, junto com a Marcia e a Dorita, foi das três mulheres mais importantes da minha vida”, disse o cavalheiro Zózimo para a ex, que telefonava de Nova York. “Olha, querido, não vou mentir”, devolveu Nelita, rindo, “mas numa lista dos meus homens você não está nem numa lista de dez.” E os dois caíram na gargalhada.
Outra manifestação de bom humor (além de só chamar Lilenbaum de “doutor Lullaby”) era a imprecação contra o químico americano Linus Pauling. Prêmio Nobel por duas vezes, garantia que com altas doses de vitamina C evitava-se uma série de doenças, inclusive câncer. Zózimo (e o mundo inteiro) acreditara. Na tentativa de atingir a quantidade de mil gramas por dia da vitamina mais outros tantos de outros minerais indicados por Linus, chegou a um coquetel de catorze pílulas por dia, incluindo Prozac. Tomava, é claro, uma pílula de cada vez. Numa manhã, atrasado para um compromisso, jogou todas dentro da boca. Só não morreu engasgado porque, em busca de socorro, pulou um andar inteiro de escada, dentro da cobertura de Dorita, e na queda as pílulas saíram goela afora. Linus Pauling que esperasse: “Gastei uma fortuna em vitamina C, quando eu sair dessa vou pedir ao Sergio Bermudes para requerer judicialmente meu dinheiro de volta.”
A quimioterapia foi lhe devastando o cabelo e coube a Paulo Marinho passar a máquina zero para acabar com o que restava. “Eu sou o novo Yul Brynner”, pilheriou. Para melhorar a aparência, Marinho enfeitou o amigo com um chapéu estilo Indiana Jones. Como se estivesse no papel do aventureiro das telas de cinema, Zózimo pedia que empurrasse sua cadeira de rodas em movimentos audazes e fingia domar um potro bravio. Estavam sempre juntos. Um dia, Zózimo beliscava uma comida na lanchonete do hospital. Pediu uma Coca e, depois, com ênfase, acrescentou o diet, para deixar claro que por maior que já fosse o estrago não só o humor sobrevivia, como também a força de vontade.
As cenas de medo ante o futuro apareciam. Num lindo dia de sol, depois do golfe, foram comer pizza em Fisher Island. No restaurante vazio, o sol se pondo na hora da ave-maria, Zózimo teve uma crise de choro. “O que eu posso fazer pra te ajudar, meu irmão?”, perguntava Marinho com seu sotaque carioca. “Eu estou chorando porque foi o primeiro dia feliz que tive neste último mês, o primeiro em que não me senti um doente. É um choro de alegria.” Eram altos e baixos, uma montanha-russa emocional. O empresário Roberto Kreimer estava no quarto quando, depois de uma dieta de cinco dias sem comer ou beber, a enfermeira ofereceu um copo d’água a Zózimo. “Melhor que um Château Petrus”, balbuciou, sem perder a piada.
Constança Teixeira de Freitas, da Clínica Solar do Rio, e o amigo Julinho Rego telefonaram. Aos dois, Zózimo reforçou o novo credo. “Não bebi, hein, não bebi”, dizia em sua defesa contra o antigo inimigo, agora superado por outro mais cruel. “Estou com a espada na cabeça, mas se sair dessa, garanto, vou continuar, nunca mais vou beber.”
O médico indiano radicado nos Estados Unidos Deepak Chopra foi consultado, graças à interferência da amiga em comum Anna Maria Tornaghi. Autor de best-sellers de autoajuda como A cura quântica (“Todas as grandes mudanças são precedidas pelo caos”), atendeu a um telefonema de Zózimo. Chopra estaria na lista que a Time publicaria no fim daquela década com o nome das cem personalidades mais importantes do século XX. Tentava-se de tudo.
Em Miami, nos dias em que pouca coisa acontecia além da agenda de tomar remédios, Dorita e Zózimo tinham longas conversas. Continuariam a procurar terreno fora do Rio e manteriam o projeto de dividir seus dias entre a serra carioca e o mar de Miami — longe do carnet social. Ele escreveria um livro que denunciasse os malefícios do álcool e do cigarro e outro reproduzindo suas melhores notas. Contaria os bastidores da coluna. Poderia se meter em projetos especiais, como cobrir a Copa de 1998, na França. Redação, nunca mais.
A primeira sessão de quimioterapia foi devastadora. Zózimo começou um processo de infecção que não cedia. José Hugo Celidônio e Marialice, Marcia, Ricardo Amaral e Gisela, Regina Marcondes Ferraz e Roberto D’Ávila foram visitá-lo. “Será que se eu continuasse de porre esse câncer não ficava lá no canto dele e me deixava em paz?”, brincava. “Agora que eu apostei na saúde, me aparece isso. Acho que era melhor morrer bêbado.” Numa internação motivada por uma febre alta, uma enfermeira tentou injetar boas palavras no quarto e, diante da janela, fez-se vibrante: “Que bela vista o senhor tem...” Ao que Zózimo respondeu, imediatamente: “Oh, como eu sou sortudo...”
Dorita foi testemunha do dia em que, numa enfermaria, todos acompanhavam um jogo de beisebol entre Marlins e Indians. Entubado, Zózimo não podia falar, e no justo momento em que os Marlins pontuaram ele acenou para a enfermeira pedindo que levantasse mais a cabeceira da cama. Torcedora dos Marlins, ela entendeu a mão estendida como tentativa mal-ajambrada de o brasileiro comemorar com um americaníssimo gimme five — e assim o fez, batendo na mão espalmada do enfermo.
A quimioterapia trouxe efeitos dilacerantes sobre partes antes saudáveis do corpo, tudo já agravado por comprometimentos passados, como o enfisema pulmonar. O câncer não regredia. Dorita nem sempre concordava com a submissão dos médicos aos poderes daquelas máquinas — “elas podiam salvar vidas, mas matavam outras tantas, pela depressão e pelo sofrimento a que submetiam o paciente”.
Durante todo o drama hospitalar, Dorita e Carmen Viana tentavam fazer com que a Reprogramação Genética do DNA tivesse efeito. Faziam “um trabalho espiritual buscando ajuda em outras dimensões, na esperança de refazer os glóbulos brancos de Zózimo”. Depois de passar noites em claro nesse esforço conjunto, Dorita chegava de manhã ao hospital, consultava os exames e eles estavam normais. Ouvia dos médicos que era quase um milagre. Ela não receava o que os cientistas pudessem achar. Acreditava na sua fé, na energia do processo provocado por Carmen. Diante da possibilidade de mais uma entubação de Zózimo, pediu que não o fizessem.
“Recebi uma mensagem de que entubá-lo será o começo do fim.”
“De quem é a mensagem?”, quiseram saber os médicos.
“Acho que foi Deus.”
“Como?”
“É, tenho certeza. Foi Dele mesmo.”
Dorita responsabilizou-se pelas consequências de se contrariar as ordens médicas. E daquela vez a entubação não só não prosseguiu, como Zózimo, segundo ela, foi manifestando melhoras. Dias depois, porém, Carmen foi clara ao telefone. A luta chegara ao fim: “Perdi a conexão.” A partir daí não houve manifestação de melhora.
“Não sofra, está ruim viver. Não me segure aqui”, Zózimo disse, como numa nota telegráfica para Dorita. Ela sussurrou aos prantos a sua despedida: “Amorzinho, estamos juntos há mil anos e vamos continuar mais mil. Busca a luz, vai em paz. Você não queria conhecer teu anjinho? Chegou a hora. Chama ele. Você foi tão corajoso, vai ser agora também. Eu só quero um presente. Me dá um pouco da tua força. Boa viagem, companheiro.”
Zózimo morreu no dia 18 de novembro. Era terça-feira, a terceira do mês de novembro, a antevéspera da data que todo ano ele esperava ansioso. Deixava o mundo dois dias antes da chegada do Beaujolais Nouveau 1997.