Enquanto Houver Champanhe, Há Esperança
Capítulo 25
“Não sei se seria pretensão eu me definir como liberal, mas, desses rótulos, é o que eu prefiro. Eu não tenho compromisso com ideia alguma.” O liberal Zózimo, preso como subversivo pelos militares e olhado de soslaio pela esquerda por causa das relações com a burguesia foie gras, também andou se autorrotulando “politicamente bege”. Quando o Nordeste estava nas Ligas Camponesas, ele fez Ionesco com o Grupo de Orla; quando os jovens da sua idade estavam queimando Paris, ele estava a trabalho nos salões da alta-roda, reivindicando, no máximo, que seu uísque fosse sem gelo. Na coluna, dava opiniões de todos os matizes. “A coluna não tem uma cor política forte, mas não pode se eximir porque as pessoas procuram uma opinião — além de eu possuí-la”, disse numa entrevista. Um exemplo: “O empresariado brasileiro é, de modo geral, escrotérrimo. Ele é incapaz de ceder um mínimo que seja nas questões que envolvam seus ganhos. É um conjunto de pessoas que se habituou a receber tudo dando pouco em troca. A relação deles tanto com os empregados quanto com o país é de mão única: só querem receber, e nada mais.”
Por causa dessa liberalidade descompromissada não foi exatamente uma surpresa a boa acolhida que deu a Leonel Brizola quando o político de esquerda, cassado pelos militares de 1964, voltou anistiado do exílio, em setembro de 1979. A coluna publicou uma foto da velha raposa gaúcha tirada em Nova York por Candice Bergen, disse como ele estava sendo paparicado por onde aparecesse na noite do Rio e, mais adiante, em 1982, com o lançamento de sua candidatura ao governo do estado, saiu na frente informando que Caetano Veloso liderava as adesões dos artistas.
Com o anarquismo pulsando desde a juventude, Zózimo encantava-se não tanto com o ideário político esquerdizante de Brizola, feito de arroubos antiamericanos e uma quase humorística campanha baseada no bordão de luta contra as “perdas internacionais” — mas com a sua personalidade extravagante, o palavrório cheio de advérbios de modo, pronunciados com um sotaque gauchamente anedótico. Zózimo animava-se com o protesto que Brizola representava diante dos anos de ditadura, com o potencial de novidade que poderia surgir da eleição daquele que até uma década atrás era o inimigo número um da sua classe social. Noticiava com simpatia a movimentação do ex-governador do Rio Grande do Sul em sua luta por uma educação de crianças em tempo integral, inclusão social dos mais pobres e democracia full time.
Um dos personagens da trupe de Brizola era o cacique Mário Juruna, da tribo xavante de Mato Grosso. Ele surgiu no noticiário por ter simbolizado, num objeto prosaico, quase cinco séculos de desconfiança dos índios para com o “homem branco”. O cacique falava com autoridades da Fundação Nacional do Índio, a Funai, não mais armado de tacape, e sim de um gravador de fita cassete. “Homem branco” falava, Juruna registrava — ele fez isso com o coronel João Carlos Nobre da Veiga, que no governo Geisel comandava o órgão. Quando o coronel não cumpriu a promessa, Juruna rodou a fita para os jornalistas. Numa época em que o país voltava a respirar democracia, desafiar os milicos era tudo o que a imprensa queria — e o índio virou sensação. As forças primitivas da nação também queriam se manifestar.
A primeira aparição do cacique debaixo da marca de Zózimo foi em 12 de outubro de 1980. A coluna noticiava com seriedade que ele recebera sinal verde da Funai para participar do Tribunal Bertrand Russell, em Roterdã, contra crimes de guerra. A nota de 4 de novembro de 1980 também não deixava o índio mal. Numa reunião em Brasília, “tomando ímpeto irresistível”, Juruna teria se levantado e produzido o seguinte discurso:
• “Índio no Brasil não pode acabar.
• Índio no Brasil tem que viver.
• Se índio acabar no Brasil, acaba Funai.
• Se Funai acabar, acaba emprego pra general.”
• Juruna sentou-se e foi ovacionado por cinco minutos.
Era uma nota engraçada pela repetição do tatibitate vernacular, porém embutia um aplauso pela lógica indígena diante do quadro nacional. E dar cascudo em general era uma vingança que jornalista branco ainda não estava seguro de poder fazer, apesar da distensão lenta e gradual promovida no governo Figueiredo.
No mês seguinte, em novembro de 1980, Zózimo disse que não seria surpresa para a coluna se o cacique fosse indicado ao Prêmio Nobel da Paz — e esta deve ter sido a primeira piada. A superexposição de Juruna nos jornais e na TV, ao mesmo tempo que o fez ser eleito para um cargo de deputado federal nas eleições de 1982, deixou o índio nu. A passagem de “bom selvagem” para uma figura risível não levou muito tempo. Toda a carga de protesto foi se esvaziando. Virou piada nativa. Zózimo foi o primeiro a perceber. Com o auxílio de Fred Suter, que não gostava de Carnaval, de saci-pererê nem de qualquer coisa com cara de Brasil, os leitores foram servidos de dezenas de notas em que Juruna foi transformado em personagem. Zózimo flagrou, antes do resto da imprensa, que o índio virara um “homem branco”, com as mesmas mazelas lamentáveis. A primeira nota crítica seria em 22 de novembro de 1980:
• Depois de introduzir o gravador nas conversas com
autoridades, aderir ao terno e gravata e jantar nos melhores
restaurantes de Brasília, o cacique Mário Juruna incorporou
ao seu comportamento o mais característico dos hábitos do
homem branco — a paquera.
• Não há secretária de autoridade ou parlamentar em
Brasília que consiga passar na frente de Juruna sem receber
pelo menos uma piscadela de olhos.
• Com as mais jeitosas, como a secretária de um conhecido
deputado de São Paulo, ele chega até a ser mais incisivo.
• Convidou-a a se mudar para a sua aldeia, onde entre
todas as suas mulheres seria a principal.
• A primeira-dama da nação Xavante.
Ainda não estava em voga o politicamente correto, e todas as chamadas minorias, os não privilegiados, tinham o mesmo direito que os poderosos de serem ridicularizados (“Ora, bolas, só porque é índio o Juruna está acima do bem e do mal?”, disse Zózimo numa entrevista). Gays, mulheres, ninguém escapava. Numa dessas notas, o pugilista negro Adilson Maguila, campeão brasileiro dos pesos-pesados, levou um direto:
• Diálogo rápido trocado entre o pugilista Adilson Maguila
e um fã:
— E aí, Maguila, é ouro ou prata?
— É d’água.
Nordestinos também foram atingidos pelo coco do preconceito:
• E o baiano Bobô, hein?
• Com aquela cara, se não fosse jogador de futebol, seria
vendedor de pentes na Central do Brasil!
O silvícola adotado pela coluna foi visto saindo de restaurantes sem pagar a conta (“o beiço de Juruna”), vigiado pela Receita Federal (“se não for tratado com rigor, acaba virando lenda: o leão e o índio”), acompanhando “jurunetes” e se esbaldando na noite:
• No primeiro dia da Semana do Índio, Mário Juruna
estará na plateia do espetáculo de variedades da boate Fox,
em Brasília.
• Como a comunidade dos xavantes é democrática, cada
um festeja sua semana como bem entender.
Logo depois de fazer propaganda da Atalaia Jurubeba, o cenário era um avião:
• Melhor propagandista de remédio para o fígado ao vivo
do que na TV, Juruna repetiu três vezes o strogonoff com
vinho rosé servido no jantar, abrindo os trabalhos com uma
flute de champã e arrematando-os com duas latinhas de
cerveja.
• Por pouco não paga excesso de peso.
A curtição com o cacique, que a coluna descobriu se chamar Mario Dzuruna Butsé, era implacável e impagável. Em uma nota, Zózimo deu sua opinião sobre o deputado — chamou-o de “demagogo”. A fonte, em off, era um filho do ex-ministro da Justiça Carlos Medeiros, do governo Castello Branco. Ele morava no prédio em que o índio tinha seu apartamento funcional. Em 12 de novembro de 1983 lá estava na coluna o tacape certeiro de Zózimo:
• Não passou despercebido o new look com que o cacique-
deputado Juruna tem desfilado em Brasília.
• Seus cabelos passaram por uma tosa, ficaram bem mais
curtos, já preparados para enfrentar o verão.
• A um amigo interessado em saber quem era o autor do
penteado, Juruna não escondeu: ele próprio.
O título da nota era “Nasce um coiffeur”.
Um dia, irritado, com roupas civis, mas o rosto pintado para a guerra, Juruna foi ao JB. Seria dos mais sensacionais encontros do arco da sociedade, agora com flecha e tudo. A segurança do jornal barrou. O confronto seria encerrado em novembro de 1986 na nota “Funéreo”. Anunciava a derrota de Juruna na eleição e lembrava a situação do índio na sociedade brasileira: “Juruna volta, assim, à minoridade.”
Em abril de 1984, ao mesmo tempo que ainda trocava flechadas com a nação xavante, Zózimo enfrentou novos rivais — o mulherio. Quem apresentava os litigantes era Sérgio Augusto, repórter da Folha de S.Paulo, em matéria de 4 de maio de 1984. O título ribombava — “As mulheres ameaçam levar Zózimo à lona”:
Na véspera do Dia do Trabalho, o mais lido, bem-humorado
e elegante cronista daqueles que em geral pouco ou nada
trabalham enfrentou mais um round de sua luta contra as
mulheres que não se preocupam só com futilidade. Para
quem perdeu o começo da briga, as identificações
necessárias: deste lado do ringue, o colunista social do
Jornal do Brasil Zózimo Barrozo do Amaral; do outro, como
direi?, as amazonas das eleições pró-Diretas Já.
O motivo da pugna a que se referia Sérgio Augusto foi uma nota com o título “Perplexidade”, em que Zózimo dizia:
• Quem melhor expressou sua surpresa ao ser informado
da invasão do Congresso por uma manada de mulheres
furibundas foi o ex-presidente Geisel, que, do alto da serra,
resumiu seu espanto numa única pergunta:
— Por que é que eles as deixaram entrar?
Ex-colega de Jornal do Brasil, Marina Colasanti não gostou dos termos e, como mulher, se disse ofendida. Zózimo já tinha chamado de “grosseria e falta de educação” a performance delas na mesma manifestação em defesa da emenda Dante de Oliveira, que pedia eleições diretas para presidente da República. No dia 30 de abril, Marina publicou na seção dos leitores:
Havia 4 mil mulheres em Brasília, 4 mil mulheres não são
uma manada. Eram juristas, psicólogas, viúvas de pessoas
assassinadas pela “revolução de 64”, escritoras, jornalistas,
profissionais competentes e sérias que haviam se deslocado
para Brasília no intuito de acrescentar o seu protesto ao da
nação. É provável que o colunista ainda não saiba, mas o
mundo mudou.
No outro dia, com a nota “Efeméride”, Zózimo tentava uma maneira elegante de se reposicionar, ou acenar em missão de paz.
• Comemorou-se ontem o Dia Internacional das Mulheres.
• As homenagens desta coluna.
O 30 de abril é o Dia Nacional das Mulheres, sendo o Internacional em 8 de março, mas isso não tinha importância. Zózimo tentava se levantar de um escorregão e seguir em frente na firme determinação de exercer seu ofício, com os erros e acertos embutidos na operação. Na reportagem, Sérgio Augusto acusava outro golpe do colunista contra elas:
Semanas atrás, Zózimo desferiu um jab de direita na atriz
Christiane Torloni só porque ela havia espinafrado o modelo
econômico do governo Juscelino Kubitschek. Argumento do
colunista: a atriz não tem idade para opinar sobre o que só
testemunhou em olhos de criança. Argumento da atriz: por
esse raciocínio ninguém com menos de 200 anos poderia
criticar a Revolução Francesa. Nesse round, Zózimo perdeu
por pontos.
Ele tropeçaria outras vezes no politicamente correto, o que irritava alguns e alegrava a manhã de outros. Em 30 dezembro de 1988, publicou nota em que uma senhora provocou um grande frisson ao chegar para almoçar no Salão Assyrius, anexo ao Teatro Municipal do Rio. Todos pensavam que fosse a nova prefeita de São Paulo, Luiza Erundina, mas tratava-se de Heloneida Studart, misto de jornalista, feminista e, naquele momento, deputada estadual também. Zózimo concluiu que a semelhança era impressionante, mas fê-lo com a linguagem vulgar que usaria no Antonio’s — e como as duas não eram exatamente mulheres bonitas, muitos fizeram uma leitura esteticamente preconceituosa: “Uma está os cornos da outra.”
Leonel Brizola também conheceu o punch dessa liberdade de expressão quando foi eleito governador do Rio, em novembro de 1982. Num jantar, em julho, na casa de Bocayuva Cunha, estavam Zózimo, José Antonio do Nascimento Brito, o jornalista Wilson Figueiredo, editorialista do JB, e o candidato a vice de Brizola, o antropólogo Darcy Ribeiro. Brizola tomou conta da reunião, afinal era um palco montado para apresentá-lo ao colunista, que já andava lhe dando notas simpáticas. Contou causos, divertiu a todos com o charme que o general Golbery do Couto e Silva classificara, em entrevista a Elio Gaspari, de “inegável e perigoso carisma”. Segundo o militar, Brizola era o “Duce dos Pampas”.
A coluna, um palanque perseguido por todos os candidatos, foi fundamental na arrancada nas urnas do até então rejeitado caudilho. Num jantar em seu apartamento, na avenida Atlântica, em Copacabana, chegou a haver um início de namoro partidário com Zózimo. O jornalista Roberto D’Ávila, que privava da intimidade da corte do PDT, partido de Brizola, e seria um dos seus deputados mais bem votados, estava com os dois quando Brizola convidou Zózimo para ser candidato ao Congresso. Não era uma ideia extravagante. O colunista estava cansado daquele trabalho e, em plena abertura política, num momento em que o mote era reescrever o país, o cargo ressoava um idealismo romântico. Por que não?, pensou, e chegou a comentar o seu entusiasmo com D’Ávila. Passou uma semana candidato — mas os outros candidatos do partido eram Juruna e o cantor Agnaldo Timóteo. Então preferiu declinar. O seu partido era o dos jornalistas. Eleito Brizola, Zózimo chegou a participar de um comercial de TV, pedindo que os cariocas deixassem seu dinheiro no Banco do Estado do Rio de Janeiro, o Banerj. “Foi uma mancada”, reconheceria depois.
Em poucos meses de atuação do “socialismo moreno” no Rio — expressão usada por Darcy Ribeiro para indicar uma adequação do socialismo aos trópicos —, o que se julgava alazão revelou-se pangaré ultrapassado. Ao assistir ao musical Vargas, com texto de Ferreira Gullar e Dias Gomes, Brizola quis que os autores reescrevessem tudo para incluir na trama João Goulart e o PTB, partido do qual Brizola já fora um dos expoentes. Zózimo, em 1o de janeiro de 1984, debochou:
• Sobre a inapetência do governo Brizola corre no Rio uma
fábula, repetida de boca em boca. Conta a história de uma
tartaruga, ganha de presente pelo governador, que
conseguiu fugir dos jardins do Palácio Guanabara.
Em 8 de agosto de 1986:
• Do governador Leonel Brizola no Canal livre de quarta-
feira, na TV Bandeirantes, definindo sua política e a de sua
gente: “Somos como ervas daninhas, o fogo passa e a gente
fica mais forte.” Acertou em gênero, número e grau,
principalmente na primeira parte. O pobre, bom e sofrido
povo carioca que o diga.
Brizola revidou. Declarou que “coluna social é a lata de lixo do jornalismo”. Aos domingos, em espaço comprado no Globo, publicava a coluna Esclarecimento à População, também chamada de “tijolaço”. Em 21 de outubro de 1984, escreveu:
(...) como sabem os leitores, entre as tantas coisas que se
passam entre Rio e São Paulo, estão os furibundos editoriais
dos srs. Nascimento Brito e Mesquita Neto contra o meu
governo, sem nos referirmos aos seus escribas de
encomenda, todos procurando inutilmente
incompatibilizar-nos com a opinião pública.
Brizola escrevia os tijolaços do próprio punho. As palavras, preferencialmente com mais de três sílabas, como era do gosto para os discursos, não surgiriam da pena de um redator profissional.
Um dos “escribas de encomenda” que ele cita seria Zózimo. Numa nota da semana anterior, o colunista informara que Brizola estava tendo o salário aumentado, e que de 2,5 milhões de cruzeiros passaria a embolsar 8,5 milhões, incluída aí a verba de representação. Zózimo finalizou com o breque: “Se o governador já representava bem, agora então vai representar muito melhor.”
A resposta de Brizola no tijolaço não tinha tanto humor, mas procurava pegar o colunista também pelo bolso:
O “Gozmo”, como diz o deputado Juruna, intensifica suas
alfinetadas e fofocas, pretendendo ridicularizar-nos. A mim,
ao prefeito, ao nosso governo em geral. Suas notas têm,
invariavelmente, este propósito. Nada conseguirá com seus
cafunés ao chefe. O Zózimo não perdoa o meu governo pelo
fato de o termos convocado para trabalhar. Há anos era
funcionário-fantasma do estado. Isto explica a oposição
sistemática do referido colunista social.
Zózimo corrigiu que ainda fosse funcionário público, cargo que ganhara na década de 1960, do amigo Álvaro Americano, e do qual já se demitira. O título da nota era “Mentira e empulhação”:
• Além de molecagens e vulgaridades, o governador Leonel
Brizola utiliza agora as colunas que publica como matéria
paga nos jornais para contar mentiras. É falsa a nota sobre
este colunista publicada em sua última matéria paga.
• Antigo funcionário do estado, este colunista já não o era
mais quando o sr. Brizola tomou posse em 15 de março de
1983. Não poderia, portanto, como afirmou, tê-lo convocado
para trabalhar.
• Até porque, se o conhecesse um pouco melhor, saberia
que há um tipo de gente com quem ele jamais trabalharia,
entre várias outras coisas porque não sabe e não gosta de
trabalhar.
O duelo entre os dois se desenrolaria por muitas notas, sem que Zózimo deixasse de anunciar com imparcialidade assuntos em que o governador aparecesse, fosse citado ou mesmo tivesse o papel de protagonista. Não lhe era do feitio ficar ronronando o rancor. Encontrou-se socialmente com ele outras vezes, cumprimentaram-se e cada qual foi para o seu lado. Numa entrevista à revista Veja, responsabilizou o político gaúcho pelo agravamento dos problemas do Rio: “Com Brizola, o Rio sofreu o governo de pessoas que não gostavam da cidade, que a usavam como trampolim. Eu posso falar de cadeira, porque votei no Brizola, fui simpático ao discurso dele, mas em seis meses estava totalmente decepcionado. Mas não o considero um inimigo. Faço críticas a ele como governante, como pessoa é de convívio afável.”
Era um país altamente politizado aquele dos anos 1980 e Zózimo, sem partidarizar, sem se deixar trancafiar em rótulos, ia fazendo suas escolhas, mesmo que, como no caso de Brizola, tivesse que reconsiderá-las. Com a candidatura de Paulo Maluf no Colégio Eleitoral que apontaria o primeiro governo civil depois da ocupação do poder pelos militares, não teve dúvida: pau puro o tempo todo, e olhe que Nascimento Brito simpatizara pela candidatura. Em 25 de outubro de 1984:
• Já há quem tenha identificado a diferença fundamental
entre os possíveis governos Tancredo Neves e Paulo Maluf.
• Um seria o da transição.
• Outro, o da transação.
E em 30 de outubro de 1984:
• Da relatividade das coisas:
• Paulo Maluf, com 53 anos, personifica o Brasil velho.
• Tancredo Neves, com 74 anos, o Brasil novo.
Em alguns momentos daquele período, confirmando a impressão que Josa tinha dele (“politicamente é um anarquista”), atirava em quem se mexesse nas hostes governamentais. Em agosto de 1985, o ministro da Justiça, Ibrahim Abi-Ackel, teve o nome envolvido num contrabando internacional de pedras preciosas quando o americano Mark Lewis, preso no aeroporto de Miami com um carregamento delas, citou um cliente do escritório de advocacia do ex-ministro. A participação do político jamais foi comprovada. Enquanto isso, Zózimo fez a sua parte e destampou uma mina de notas:
• Quem tem acompanhado pela televisão a evolução do
affair do contrabando das pedras preciosas está tendo a
oportunidade de constatar que o ministro Abi-Ackel não se
deixou até agora acuar pelas acusações de que vem sendo
vítima nem tropeçou diante de nenhuma pergunta dos
repórteres.
• Suas respostas têm sido brilhantes.
• Não convidem para a mesma mesa o ex-ministro Abi-
Ackel e o cantor Roberto Carlos.
• Sumiu o diamante cor-de-rosa.
• Há quem jure ter visto o ex-ministro Abi-Ackel entrar
ontem à tarde no Cine Joia, em Belo Horizonte, para
deliciar-se com um filme de bang-bang.
• Estrelado por Giuliano Gemma.
• Consta que Abi-Ackel tem telefonado insistentemente de
Belo Horizonte nos últimos dias para o vice-presidente da
Motion Pictures Association, no Rio.
• Não se chamasse ele Harry Stone.
• Parece que tem algum assunto a discutir sobre a Screen
Gems.
• Não é nada bom, segundo seus amigos mais próximos, o
estado de espírito do ex-ministro Ibrahim Abi-Ackel.
• Ele está se sentindo muito solitário.
• Consta que há pelo menos três municípios mineiros
interessados em ter o ex-ministro Abi-Ackel como prefeito a
partir de novembro:
• Pedra Azul, Diamantina e Esmeraldas.
• Todo mundo pode ter em sua vida uma pedra no
caminho.
• O ex-ministro Abi-Ackel tem várias.
• Um amigo cruzou na rua com o ex-ministro Abi-Ackel e o
foi logo saudando:
— Como vai ministro, tudo bem?
• E ele:
— Tudo joia.
• Abi-Ackel tem passado os dias fechado em casa ouvindo
música — “Ruby”, com Ray Charles, e todo o repertório
nostálgico de Neil Diamond.
Mais adiante, embarcaria na campanha de Collor, personagem da sociedade desde que se casara, nos anos 1970, com Lilibeth Monteiro de Carvalho. Os jornalistas Sérgio Augusto e sua mulher, Maria Lucia Rangel, ouviram do colunista que um dos motivos para a adesão era o fato de ele ser rico e que por isso estaria longe de um dos grandes males dos políticos — “Collor não roubará”, garantia Zózimo. Por Lula, nenhuma empolgação (“não tenho a menor boa vontade, é uma pessoa nociva para o Brasil”).
Em 29 de maio de 1991, pouco mais de um ano depois de ter assumido a Presidência e um ano antes de ser retirado dela pelo impeachment, Collor colocou no peito de Zózimo, no Palácio do Itamaraty, em Brasília, a Ordem de Rio Branco, no grau de oficial, a mais alta condecoração do Ministério das Relações Exteriores. O liberal “bege” Zózimo ia fazendo suas apostas, ao sabor das intuições. Seus votos em Collor mais uma vez revelavam má sorte. Começado o governo, cobriu-o com notas de bastidores, em geral simpáticas. No máximo, divertiu-se com um dos mais ridículos acontecimentos da República brasileira, seja a Nova ou a Velha. Ele foi o primeiro a publicar que dois ministros de Collor, mal fechado o primeiro semestre de trabalho, alheios ao fracasso que já se podia observar da gestão do “Caçador de Marajás”, estavam tendo um romance à moda antiga. O jornalista Augusto Nunes, no Estado de S. Paulo, já havia insinuado o relacionamento, pois estivera na festa em que os enamorados deram a bandeira de dançar enlevados o bolero “Besame mucho”. Foi Zózimo, ajudado por informações de Nunes, quem continuou o baile em uma dezena de notas. Sempre que dava esse tipo de informação, sobre novos pares, lançava mão do refrão “o amor é lindo”; agora, preferia o texto cifrado. Afinal, havia um problema: o namorado, ministro da Justiça, Bernardo Cabral, era casado. A namorada era a ministra, solteira, da Economia, Zélia Cardoso de Mello — aquela cuja calcinha Nascimento Brito tinha visto antes de ela assumir o governo e imediatamente cantara a pedra: não ia dar certo. A primeira nota de Zózimo saiu em 23 de maio de 1990:
• Desde o início do governo nunca foi tão harmonioso o
relacionamento dos ministérios da Justiça e da Economia.
Os ares primaveris de Nova York ajudaram a desanuviar o
ambiente entre seus titulares, Bernardo Cabral e Zélia
Cardoso de Mello, e tornar mais estreitas as relações entre
os dois principais pilares do governo Collor.
Uma semana depois, voltava ao assunto dizendo que a ministra recebia nos últimos dias braçadas e mais braçadas de rosas brancas.
• Ela não é a única titular de cargo do primeiro escalão a
acreditar nos poderes das flores brancas.
• O ministro Bernardo Cabral partilha igualmente dessa
crença.
• Vez por outra seu gabinete também ostenta um vaso com
rosas brancas.
Era como uma novela que o Brasil acompanhava pela coluna, capítulo por capítulo, riso a riso. Apareceu até um “gavião” querendo roubar a noiva, conforme relatou em 29 de junho a nota “Injustiça”.
• Segundo o próprio jornalista Florestan Fernandes, da TV
Manchete, insinua aos amigos mais íntimos, mas nem por
isso menos inconfidentes, seria ele o alvo da paixão secreta
da ministra Zélia Cardoso de Mello.
• Não é.
Em seu programa de entrevistas, Jô Soares desafiou o escritor Paulo Coelho a usar de seus superpoderes e revelar o nome da paixão secreta da ministra. Coelho disse as iniciais, BC, e avançou na risadaria nacional, garantindo que “não é Banco Central”. Zózimo gargalhava. Reproduzia no jornal o diálogo de Jô com Coelho — ou qualquer outro suspiro da chanchada romântica em plena alcova federal. O assunto era seu. Dizia que o anúncio do romance no New York Times ganhara mais espaço do que a negociação da dívida externa — e seguia em frente, como no dramático capítulo de 16 de outubro de 1990:
• A ministra Zélia Cardoso de Mello teve a reação mais
humana do mundo ao saber consumada a demissão do ex-
ministro Bernardo Cabral.
• Chorou.
As notas só cessariam um ano depois. Em 27 de junho de 1991, Zózimo anunciava o fim próximo da novela com a nota “Desencanto”:
• O ex-ministro Bernardo Cabral voltou a despachar
exclusivamente na matriz.
• Fechou a filial.
• Desencantou-se com o balanço.
Três dias depois, o The end com a felicidade de todos os casais formados. Eram duas notas, uma em cima da outra. “Novo par” dizia:
• Tem novo dono o coração da ex-ministra Zélia Cardoso.
• O jornalista, compositor e produtor Nelsinho Motta.
E em “Cifrado”:
• De Paris, o ex-ministro Bernardo Cabral mandou a um
íntimo interlocutor um recado enigmático:
— Volto ao Brasil no dia 7 para ficar com a no 1. E não se fala
mais nisso.
A longa agonia de Collor, da denúncia dos malfeitos junto com PC Farias ao impeachment, foi acompanhada pela coluna sem piadas. “Ganhou com meu voto. Fazer o quê? Paciência!”, resignou-se em 1993, em entrevista ao repórter Aydano André Motta, da revista Caras.
De volta à política municipal, as opções corriam cheias de surpresa. O moderno Fernando Gabeira, ex-colega da Pesquisa do JB, candidato ao governo do estado do Rio em 1986, apontado como grande novidade da política carioca, defensor da livre manifestação sexual e das práticas alternativas, não merecia apoio. “É um candidato com paletó cortado de tecido de estofado”, disse Zózimo em uma entrevista naquele ano. “Eu acho o Gabeira engraçado, mas ser só engraçado não é requisito para político. O programa do Gabeira é uma maluquice. Tá certo, vamos batalhar pela ecologia, mas, pelo amor de Deus, tem muita coisa antes para se cuidar.”
Era diferente sua opinião sobre outro candidato a prefeito do Rio no ano anterior, o deputado Alvaro Valle, considerado conservador: “Ele é um liberal no sentido exato da palavra. Daria um puta prefeito, um puta governador. É um puta cara. Sério. Tem background. É um sujeito com opiniões definidas, não faz cambalacho, é um cara por quem tenho amizade. A cidade precisa mais do Alvaro Valle do que do Gabeira.”
Para a eleição de 1986 ao governo do estado, Zózimo apoiou Wellington Moreira Franco (não por ele, mas porque era o anti-Brizola), que acabou vencedor (todas as suas apostas eram consagradas nas urnas). A coluna publicada no dia seguinte à posse deveria ter sido assinada por Zózimo, Augusto Nunes, Paulo Marinho e Ricardo Boechat, pois os quatro saíram da festa no Palácio Guanabara e foram para a redação fechar a oito mãos a página. Era março de 1987 e Boechat deixara a Coluna de Carlos Swann para ser secretário de Comunicação de Moreira Franco. Uma das notas, com o título “Das Arábias”, focalizava o próprio Boechat:
• No início da cerimônia de transmissão do cargo ontem,
no Palácio Guanabara, só era permitido o acesso aos
secretários e suas mulheres.
• Quando o secretário de Comunicação Social, Ricardo
Boechat, que acompanhava a atriz Maitê Proença e a
jornalista Belisa Ribeiro, quis entrar, o segurança lhe
perguntou quem era a primeira:
— É minha mulher, disse Boechat.
• Belisa, que vinha atrás, seguiu os dois, e o segurança
voltou a perguntar:
— E essa, quem é?
— É minha mulher, também. É que eu sou árabe.
E foram em frente, que atrás vinha muita gente.
A coluna que os quatro fizeram na redação, retratando o ambiente de festa, estava uma pândega. Tirou-se um sarro do psicanalista Eduardo Mascarenhas, ex-colega de Zózimo no Santo Inácio e vítima de brincadeiras por causa do terno de lã preta que usava durante o calor infernal da posse (“deve estar precisando fazer análise”). Na coluna daquele dia tratou-se também da eleição que mais mobilizava o anarquista Zózimo — a de Rainha do Baile das Panteras de 1987.
O Carnaval tinha acontecido dias antes e mais uma vez o colunista havia integrado o grupo de jurados, sempre presidido pelo dono da festa, o empresário Ricardo Amaral. Quatro anos atrás, na primeira eleição direta para governador durante o regime militar, o JB denunciara um cambalacho para prejudicar Brizola na contagem de votos. Fora o escândalo da Proconsult. Na eleição anual da Rainha do Baile das Panteras a marmelada era instituição patrimonial típica da festa. No primeiro concurso, a vencedora teria sido uma tal de Maira, mas, por imposição do olho sagaz da colunista Hildegard Angel, do Globo, quem acabou levando foi a gaúcha Xuxa Meneghel. Zózimo, no júri, ficaria para sempre amigo da manequim e futura apresentadora de TV.
Naquele ano de 1987, quem por debaixo dos panos mexeu os pauzinhos para eleger a atriz Débora Duarte foi Zózimo — e era ela quem estava, de biquininho e bracinhos levantadinhos, na foto que ilustrou a coluna comemorativa da posse de Moreira Franco (vencedor de uma eleição honesta, diga-se). Na nota, redigida na gandaia com os amigos, todos partidários do novo governador, o decisivo cabo eleitoral de Débora informava que a moça havia passado o fim de semana posando para a Playboy. Desnudara-se em pontos de ônibus de Ipanema e até diante de um soldado da Aeronáutica que guardava o Monumento aos Pracinhas, no Aterro do Flamengo. “A moça estava endiabrada”, finalizou Zózimo.