Enquanto Houver Champanhe, Há Esperança
Capítulo 43
A coluna de Ibrahim Sued naquele 1o de outubro de 1995, um domingo, abria com uma das mais persistentes obsessões do autor: a etiqueta. Notório por seus modos abrutalhados, Ibrahim adorava publicar listas de pequenos toques para, no final do século XX, continuar educando seus leitores como se eles ainda estivessem vivendo em 1950. Paulo Francis dizia que Ibrahim escrevia sobre o que gostaria de aprender. A nota, com o título “Um pouco de etiqueta e comportamento”, recomendava:
• Caroço não se sopra no prato porque ele pode pular e
cair no decote da vizinha. Sopre na mão, fechando-a como
uma concha.
• Não se deve comer de boca aberta, falar com comida na
boca e dar gargalhadas estridentes. Coisas que muitas
societyanas não respeitam...
• A mulher não deve fazer aquele barulhinho que os
refrigerantes provocam nos lábios...
• Homem pode mandar flores para homem. Quando
escrevi isso no meu primeiro livro de etiqueta me chamaram
de bicha... Principalmente se você não pode visitar o doente.
• Quando está sem empregada, o anfitrião serve a bebida.
A mulher, o café.
Nada contra a necessidade de se continuar balizando o comportamento. “Como aprender boas maneiras se os garotos não veem nenhuma?”, perguntava o elegantérrimo Fred Astaire. Mas as questões em 1995 eram outras. “Como sair do armário?” ou “Como dispensar uma carreira de cocaína numa festa?” eram as dicas que Danuza Leão estava dando naquele momento em seu livro Na sala com Danuza.
Ibrahim pingava um ponto-final na página com a nota “Filosofia”, uma espécie de pensamento do dia. O daquele domingo dizia: “Sorria, sorria, três vezes por dia. Quarenta e dois anos de colunismo e otimismo. Até pra semana, tá?” Infelizmente, quando aquela edição chegou às bancas Ibrahim Sued estava morto, aos setenta e dois anos, vítima de um enfarte agudo do miocárdio. Morreu dormindo, ao lado da segunda esposa, Simone Rodrigues. Tinha chegado na madrugada daquele domingo de um jantar na casa de Humberto Saade, onde exercera, feliz, uma atividade aprendida recentemente: a arte de abrir garrafas de champanhe com facão como Eddie Barclay, produtor de música e bon-vivant francês. O “Turco” não apresentava maiores problemas de saúde. Andava, no entanto, preocupado.
Estava entre os quinhentos nomes, a maioria da sociedade, lesados pelo doleiro Jorge Piano, um português que chegara ao Brasil em 1975, foragido da Revolução dos Cravos. Através da sua Casa Piano, de câmbio, na avenida Rio Branco, ele aplicava as economias dos ricos brasileiros no Piano Remittance Corp., banco de sua propriedade, em Nova York. Em julho, o esquema quebrou depois que Jorgina de Freitas Fernandes, envolvida em golpes contra o INSS, sacou 32 milhões de dólares. Piano fugiu para os Estados Unidos.
Zózimo também guardava dinheiro com Piano, o que facilitava suas viagens a Miami. Em 2 de agosto de 1995, uma semana depois de o doleiro fugir e o pânico se instalar entre os bacanas, inclusive no coração de Ibrahim, Zózimo saíra em defesa do doleiro. Considerava-o, ecoando boa parte da sociedade, não só um homem de negócios, mas um par simpático nas reuniões. Estavam todos chocados. A nota era de irrestrito apoio:
• Aviso aos hipócritas e sicofantas: a amizade só é bela
como sentimento quando manifestada em qualquer
circunstância e não apenas na hora do bom vinho e da mesa
farta.
• O sr. Jorge Piano não tem feito outra coisa em Nova York
senão tentar uma solução que satisfaça todos seus inúmeros
clientes.
• E quem o conhece intimamente sabe que ele conseguirá.
A confiança foi inútil. Piano não devolveu um centavo dos milhões de dólares que causou de prejuízo aos clientes-amigos. Ninguém admitiu publicamente ter sido vítima, com exceção da mais bela de todas as lesadas. A ex-miss Brasil de 1954 Martha Rocha, cunhada de Piano, foi o caso mais notório de desmoronamento financeiro. Todo o seu dinheiro estava investido com ele, inclusive o que havia conseguido com a venda, na véspera, de um apartamento na avenida Atlântica. Martha passou a morar de favor na casa do filho, em Volta Redonda.
Zózimo esteve no velório de Ibrahim, na Assembleia Legislativa do Rio. Foi ali, ao disparar a Speed Graph e fotografar Otávio Mangabeira beijando a mão de Dwight Eisenhower, em 1946, que o “Turco” colocara a caravana em marcha. O Globo pranteou o velho colunista em seis páginas. Escreveu Zózimo:
• A morte colheu Ibrahim num domingo, “dia de pernas de
fora”, refrão que ele usava na coluna para incentivar as
“cocadinhas” a exibir as belas pernocas.
• Era inesgotável sua capacidade de inventar expressões, a
sua impressão digital aplicada ao pé da coluna.
• Quantos de nós, colunistas, não usam até hoje, fingindo
tê-los aprendido na escola ou em compêndios, termos de
Ibrahim Sued? Para citar um exemplo: o eufemismo “não
convidem para a mesma mesa fulano e beltrano”, para
noticiar o rompimento entre duas pessoas, é marca
registrada dele. Se Ibrahim não inventou o gênero —
“coluna social”, rótulo que se mostrou depois inadequado
pela conformação que as colunas ganharam (a começar pela
dele), transcendendo o mundanismo e passando a noticiar
todos os tipos de assunto —, é inegável que criou um estilo.
Zózimo estivera três vezes com o colega nas últimas duas semanas: num show de Liza Minnelli, no casamento dos Araújo Pinho e no tal jantar de Humberto Saade. (Ibrahim comparecera ainda ao casamento do oftalmologista Almir Ghiaroni com Georgia Wortmann.) A onda de abrir champanhe com facão era uma das brincadeiras da turma de Barclay, que Ibrahim frequentava em Saint-Tropez, na França. Depois de a rolha explodir com um golpe certeiro, ouvia-se o grito de guerra da turma — nada mais do que um sonoro “Cucurucucuuuu, Paloma!”. Foi esse o fecho de ouro do artigo, cujo título era “Uma amizade de duas gerações”.
O jornal fez enterro fino para seu colunista mais antigo, com direito a texto na capa assinado por Roberto Marinho — “(...) era (...), num traço com o qual sempre me identifiquei, um otimista teimoso, sempre confiante no futuro do Brasil”. Dias depois, mostrando que a sisudez de outrora não lhe cabia mais no perfil, O Globo publicou a coluna de humor de Agamenon Mendes Pedreira. Também era uma “homenagem”: “O falessimento do meu hamigo Ibrahim Sued é a prova kabal de gue o mundo tá ficando cada veiz mais cem grassa”, dizia Agamenon, que teve o cuidado de no início do texto pedir aos revisores que não mexessem em nada, pois “os eros de português ção intessionais e fassem parte da omenagem extéstica deste colunista” ao colega morto. O artigo encerra com a lembrança da “mássima” de Ibrahim: “Os cães lavam e a caravana passa.”
Sepultado o amigo, a caravana de Zózimo em busca das notas foi em frente. Aos solavancos, atabalhoada pelas crises de saúde, pelo tédio em seguir por uma estrada tantas vezes percorrida. Não tinha outro jeito. Se Ibrahim morria rico (“sou um dos maiores contribuintes da Receita Federal”, jactava-se na TV), Zózimo estava mais classe média do que quando começara. Vivia só do jornalismo. Seu contrato havia sido combinado em dólar, mas quando o Plano Real, em 1994, deixou essa opção em desvantagem, O Globo corrigiu. O filho, Fernando, formou-se em economia e já era independente, um bem-sucedido profissional do setor. A vida, porém, não empatava com o contracheque. Precisava pagar as prestações do Mercedes roxo (“cor de gelatina Royal”). Se os bilhetes das passagens aéreas saíam de graça, devido a seu prestígio, as despesas no estrangeiro ficavam por sua conta. Era preciso equilibrar o borderô — e lá ia ele à redação matar seus leões para no dia seguinte exibir os escalpos aos leitores.
Na sala da coluna, Marly reclamava que quando o chefe sumia, Valéria Blanc não publicava as suas notas — “e olha aqui, garota, eu não vou ficar me humilhando, pedindo pra você dar minhas notas, ouviu? Já fui bonitinha, corpo violão, sei que tudo passa. Minha história com Zózimo é porque sei trabalhar, tenho meu mérito”, vituperava Marly em meio a um barraco assistido por toda a redação. Zózimo estava viajando. Quando voltou e soube da confusão, conseguiu que a secretária retirasse todas as indenizações a que tinha direito e, juntando com a aposentadoria do funcionalismo público, fosse descansar em Teresópolis.
Era uma rotina massacrante, mixuruca. Enquanto não aparecia uma ideia melhor, preenchia a meia página. Um dia o presidente Fernando Henrique Cardoso se anunciou ao telefone e Zózimo, estressado com o fechamento, pediu que Valéria Blanc lhe anunciasse a ausência. Um presidente da República ao telefone era um tremendo prestígio e a certeza de notinhas aos montes. Zózimo preferiu não — e deixou a operação para o dia seguinte, quando recebeu novamente o alô presidencial e se pôs a ouvir as informações de FH. Continuava tratando a classe política com desapego.
Em 18 de dezembro de 1996, a revista Veja publicou na sua seção de frases da semana uma cunhada na coluna. Zózimo chegara ao mínimo denominador comum: uma nota com não mais do que duas linhas, mas de quatro vocábulos. Continuava afiando a faca e desbastando as gorduras das frases. Merval Pereira, companheiro de Zózimo no JB, ocupava o lugar de Evandro Carlos de Andrade, que se mudara para fazer outra revolução, agora no telejornalismo da Globo. Dizia que Zózimo estava mais para Carl Bernstein do que Bob Woodward, comparando-o com a dupla que destronara Nixon com o Watergate nos anos 1970. Woodward era o factual, Bernstein, o burilador do texto. Zózimo, mais plantado na redação, sem apurações em festas ou rondas pela cidade, caprichava atrás de uma síntese inédita. Menos, cada vez menos. Aquela frase da semana escolhida pela Veja era típica. Tratava-se de um escândalo republicano em que o deputado Pedrinho Abrão (PTB-GO) fora flagrado pedindo um “capilé” à Andrade Gutierrez, mais exatamente uma comissão de 4% para manter a construtora no orçamento das obras de uma barragem no Ceará. Foi aí que Zózimo resumiu em oito palavras o perfil do Pedrinho: “É Abrão ou Adrão?”
Não foi a sua melhor temporada profissional. Cravou furos discretos, antecipou futricas políticas... A coluna parecia acompanhar os tempos. A charmosa boate Sacha’s, em mais uma encarnação, em 1993, segundo Zózimo, servia a seus fregueses um menu executivo que sintetizava tudo:
• Quarta-feira, o prato do dia era mocotó; ontem, rabada.
• Não se faz mais Sacha’s como antigamente.
Nada era mais como antigamente. A coluna, inclusive. No dia 12 de junho de 1996, ela parecia estar com saudade de si mesma e republicava a nota de 22 de março de 1985, que tinha sido rascunhada por Henrique Schiller de Mayrinck, e Zózimo lhe dera arte-final nos tempos do JB. Era a do “conhecido socialite”, na primeira versão, agora transformado em “um gozador”, que gostaria de ter as cinzas espalhadas pelos andares do Bloomingdale’s, pois só assim seria visitado pela viúva. Na primeira vez saíra com o título “Último desejo”, agora intitulava-se “Última vontade”. Era como se Zózimo tentasse uma ligação direta com o passado para o carro pegar o embalo de novo. Em 28 de fevereiro de 1994, já havia se lembrado de uma brincadeira em parceria com Fred Suter. Zózimo aproveitara que o senador Marco Maciel reclamara da falta de quórum no Congresso (“votar qualquer projeto na sexta-feira é jogá-lo na cesta do lixo”) e se citou:
• Há colunista que quando não gosta de uma nota promete
ao divulgador colocá-la na sexta.
• E efetivamente a coloca.
• Na cesta.
Continuava batendo em Leonel Brizola, ex-governador do Rio desde março de 1994, mas também parecia cansado desse número. Os homens tidos como elegantes passavam a usar mochilas com terno, e a música do momento — ele havia se lançado no colunismo ao som da bossa nova — era a axé music. O ano de 1995 foi aquele em que se dançou “na boquinha da garrafa”.
Zózimo decepcionava-se com o país. “Era um Brasil amável, cordial e razoavelmente correto, gigante pela própria natureza, que os cidadãos nascidos com menos de cinquenta anos jamais suspeitarão que existiu”, escreveu na Vogue de dezembro de 1996. Estava especialmente desesperançado e botou na roda JK, transformado num “megalomaníaco”, responsável pelo “insano processo de chinfrinização do país” ao levar a capital para o sertão goiano. “Varreram para debaixo do tapete o que o Brasil tinha de glamour e charme.”
Sem nenhum humor, fazia um balanço dos últimos anos. Criticava as relações dos ricos com os militares (“a elite, sócia do golpe dos militares, tentou levar a vida como se nada houvesse acontecido, achou que podia manter florescentes os salões, atraindo para a sua festiva órbita o deslumbramento da caserna, mas, ao primeiro arreganhar de dentes do presidente-general Deus-pátria-família, entendeu que o buraco era mais embaixo”). Salvava a pele dos colunistas (“sem a censura, eles enfunaram as velas e foram à luta, a tempo de registrar em todos os seus lances a decadência da vida brasileira e a retratar este novo Brasil, meio chinfrim, meio ordinário”). Era o que achava ter feito em sua carreira.
Fernanda Colagrossi não falava com Zózimo havia algum tempo. Adorava sua inteligência e senso de humor, estrelas das temporadas de verão na serra no início dos anos 1970. Desde que ele se separara de Marcia, os encontros rarearam — e, no clássico problema que se segue às separações de amigos, baixou nela a sensação de que estava sendo evitada por ser mais próxima da ex-mulher. Logo depois de Zózimo ter assumido a coluna no Globo, deu um jantar e convidou o antigo amigo mais sua nova mulher, Dorita. A noite foi agradável, um pequeno grupo da velha sociedade reunida. Dois dias depois, ao procurar a notícia, qual não foi sua surpresa ao notar que nada estava publicado. No terceiro dia também — e se quedou aborrecida. Achava que era uma maneira de o amigo, ou seria ex-amigo?, dizer que as relações estavam estremecidas.
Evidentemente, não era isso que queria dizer a não nota. Fernanda Colagrossi, uma das senhoras mais citadas em toda a década de 1970, não percebeu que Zózimo no Globo, como já estava acontecendo no JB, passara a ignorar os jantares e as festas. Ele comparecia cada vez menos a esses eventos. Quando ia, a presença não significava a garantia de que os leitores, dois dias depois, ficariam babando, invejosos, do ágape para o qual não haviam sido convidados. As senhoras bem-vestidas não eram mais exibidas para suspiro reverente de toda a nação. Aquelas mil e uma noites não inspiravam mais o sonho de ninguém, todos vibravam agora com a possibilidade de uma temporada no castelo de Caras — embora dessa chinfrinização Zózimo também quisesse distância.
“Eram noites muito felizes”, lembrava Colagrossi, lamentosa, “e na manhã seguinte ele me telefonava para fazermos os comentários, para perguntar se tinha lhe escapado alguma observação, e depois vinha a maravilhosa notícia no jornal. Dessa vez, Zózimo foi ao jantar, mas não só não me telefonou para comentarmos, como não deu uma linha.” Não foi por mal, Colagrossi precisava compreender. Essa coisa de ontem foi há muito tempo. Yonita Salles Pinto, numa nota de 5 de fevereiro de 1994, agora ia à luta como corretora de imóveis, exclusiva dos condomínios dos edifícios Chopin, Prelúdio e Balada (“Que disposição!”, comentava Zózimo). Carmen Mayrink Veiga, que declarou jamais desse amargo ter que provar, também trabalhava. Escrevia uma coluna de etiqueta e sociais no jornal popular O Dia e colaborava com os figurinos da peça Está lá fora um inspetor. Não que ela gostasse disso (“não nasci para esta época, adorava depender de marido e até toparia ser decapitada no final e ser Maria Antonieta em Versailles”), só que 1995 exigia. No seu caso, a roda da fortuna mudara de rotação.
Em 11 de maio daquele ano, às nove da manhã, dois oficiais de Justiça e um funcionário do Banco do Brasil haviam batido na porta de Carmen, a mesma onde bateram outrora os Agnelli e os Rothschild. Não estavam para festa. Vinham em missão de penhora por conta de uma dívida de 23 milhões de reais, fruto de maus resultados de operações financeiras de seu marido. Era uma imensa trapalhada envolvendo calotes em vários bancos. Tony pegara 1 milhão de reais com Carlos Villar, seu colega do Country e dono do Banco Duarte Rosa. Não saldara a dívida, os juros se avolumaram, juntaram-se a empréstimos também não pagos com o Banco do Brasil. O Banco Duarte Rosa quebrou — era a vez de Tony.
“Meu Deus, é uma tragédia que se abate sobre mim”, disse Carmen, abrindo alas para que os homens listassem os bens que poderiam servir como pagadores da dívida: quarenta quadros (Volpi, Portinari, Di Cavalcanti, Lasar Segall, Guignard e outros), um piano de cauda Steinway, tapetes persas, aparelho de chá de prata da Companhia das Índias Ocidentais, joias etc., sem esquecer o Rolls-Royce 51 na garagem do apartamento em Paris. O apartamento do Rio, um dos cenários mais elegantes da cidade nas três últimas décadas, já estava hipotecado. Antes da razzia no Morro da Viúva, os confiscadores passaram pelos cinco andares que a Casa Mayrink Veiga mantinha na cidade, a empresa que desde a Guerra do Paraguai intermediava negociações de armamentos. Não havia muito a pegar. O negócio também estava decadente. Zózimo deixou que Ricardo Boechat tratasse do assunto e anunciasse o arresto de bens do empresário para pagar as dívidas. O drama que se abatia sobre a amiga confirmava: o high devia ser deixado na paz de sua tumba e memória.
Quando Fernando Collor tomou posse, em março de 1990, ele e Dorita foram até Brasília, num jatinho de Maurinho Viegas, da Concremat — e na cobertura, que se estendeu por três dias, em notas políticas e bem-humoradas, não havia uma única referência ao que pudesse ser o social da festa. Era o mesmo Zózimo que na posse de Costa e Silva tinha visto a barata saindo da casaca de um distinto. O olho agora estava em outras coisas.
Ele não foi ao aniversário dos cinquenta anos de Gisela Amaral nem aos quarenta de colunismo de Ibrahim. Os dois amigos captaram a mensagem sem reclamação. Zózimo quase não saía de casa, bastava ler a coluna. Rareavam as notas em que ele observava as cenas com seu olhar especial. Uma delas foi em setembro de 1996. Jantava com Dorita quando o quadro se formou à sua frente:
• O ministro Sergio Motta protagonizou quinta-feira no
restaurante Arlecchino, em Ipanema, uma cena patética.
• Titular da pasta das Comunicações, não carregava um
celular, o que o obrigou a recorrer ao telefone da casa.
• Passou boa parte da noite engalfinhado com o aparelho
até conseguir, depois de muito esforço, disparar a ligação.
• Sentiu na carne a inapetência do ministério que
administra.
Nas velhas e boas terças-feiras do JB, Zózimo publicava resumos de seus rolés pelas festas no fim de semana, um pulo ao palacete dos Catão na Urca, depois a esticada ao apê de Jorginho Guinle na praia do Flamengo, 284, e a saideira com os Souza Campos na rua Marechal Mascarenhas de Morais, em Copacabana. Agora o rolé era pela TV a cabo. Na terça, 28 de janeiro de 1997, noticiava como havia sido o “finde” (expressão de Hildegard Angel):
• O fim de semana, de tão pródigo em transmissões
esportivas pela TV, foi uma encrenca.
• Na madrugada de sábado, ficou-se espremido entre o
boxe (Globo), o basquete na NBA (ESPN) e a final feminina
do tênis na Austrália (SporTV).
• Já no domingo, acavalaram-se o quarto tempo do
Superbowl (Band) e a pancadaria do Ultimate (SporTV).
• Chegou a sair fumaça do controle remoto.
O fato de estar numa empresa do grupo Globo não inibia as críticas (“é pain, pain, fromage, fromage, como diz a elegante Carmen Mayrink Veiga”). Nenhum elogio nem paparico aos artistas da casa. A coluna informava que as locadoras de vídeo estavam faturando os tubos porque as TVs não exibiam um filme que prestasse (“são verdadeiras abacaxitecas”). Zózimo, capaz de um laço de Windsor impecável, caçoava até do que andavam amarrando ao pescoço dos locutores dos telejornais:
• Quase todas as gravatas exibidas no Jornal nacional por
Sérgio Chapelin e Cid Moreira só podem ter sido ganhas de
presente — dadas por alguém muito sacana.
• Ninguém compra aquilo, para aparecer na televisão, de
moto-próprio.
A eterna possibilidade de ir ao ar e mostrar o valor de uma gravata, ainda mais agora que estava nas Organizações Globo, piscava a todo momento — e logo parava. Ricardo Boechat brilharia mais adiante apresentando notícias no Bom Dia, Brasil e mais ainda quando improvisava. Não era o caso de Zózimo. Continuava com a gagueira, discreta no dia a dia, porém expressiva quando evidenciada pela exposição aos microfones.
Escrever um texto, lapidá-lo ao infinito até encontrar a palavra certa, acertar as vírgulas e mostrar um bom resultado era diferente de se apresentar em close, com rapidez de raciocínio. Um tímido pode ser o melhor escritor do mundo, todavia falar com graça num programa ao vivo da TV requer outros talentos. Zózimo admitia não tê-los — e isso ficou mais uma vez claro na entrevista que deu a Luis Erlanger, seu ex-colega na redação do Globo, e agora na TV, num telejornal noturno de 16 de fevereiro de 1996.
“Você revela namoro de artistas? Gostaria que fizessem isso com você?”, perguntou Erlanger.
“Só revelo o que é público”, respondeu Zózimo, “um jogador que namora em churrascaria, por exemplo, o que torna o caso oficial. Nada que aconteça só entre quatro paredes. Não gostaria que fizessem comigo, mas quando faço essas coisas faço bem-feitas.”
“Você disse que coluna não precisa de exatidão, que isso é coisa de relógio suíço.”
“É uma brincadeira. As colunas tentam ser precisas, quando não são é por falta de talento. Desde que a coluna social passou a ser feita por jornalistas, essa fama não existe mais. Acho apenas que não é só informação que conta. Humor é importante.”
“Você sofre assédio de pessoas interessadas em comprar espaço?”
“De início as pessoas confundiam as coisas, mas já rodei tanto que elas já sabem com quem estão falando.”
“Você é responsável pela fama no Brasil de um suco de banana com o rótulo de Beaujolais Nouveau. Como se sente?”
“Não é verdade que se fala mais do Beaujolais Nouveau no Brasil do que na França. São 60 milhões de garrafas vendidas na França. É um bom vinho.”
“Então, Zózimo, boa noite, boas notícias e muito Beaujolais que não seja nouveau.”
O Beaujolais Nouveau era um ícone da coluna desde o início dos anos 1980 e fruto das relações de Zózimo com o casal Anette e Robert Bergé, do Hotel Le Méridien, embaixadores dos prazeres da França no Rio. Foi com eles, em viagens gastronômicas repletas de paradas em vinícolas, que aperfeiçoou o paladar. O lançamento das garrafas, na terceira quinta-feira de novembro, ganhava ares de coleção de moda francesa e era anunciado com estardalhaço. No Le Méridien, depois das sucessivas notas de Zózimo, o evento ganhou um ar francês, com banda, acordeão e um chansonnier autêntico. Zózimo gostava do vinho, considerado moço e macio demais pelos experts, mas publicava o outro lado:
• Um paulista endinheirado entrou no três estrelas Jamin,
do chef Joël Robuchon, em Paris, e com ar de grande
connaisseur perguntou ao maître d’hôtel se a casa já tinha
recebido o Beaujolais Nouveau. Ouviu o que não queria:
— Perdão, monsieur, aqui nós só servimos vinho.
Em 1995, o Rio de Janeiro era uma cidade brasileira quase desaparecida — e o Beaujolais Nouveau, os espigões da Barra, tudo parecia confirmar isso. A coluna estava de acordo quanto ao fato de o Rio estar diferente. Em 16 de fevereiro daquele ano, Zózimo dizia que “as balas perdidas, o must dos céus do Rio”, haviam encontrado dois novos alvos ilustres. Esburacaram a casa do conde Modesto Leal, a mansão de Laranjeiras onde havia se realizado o casamento de Antenor e Patrícia, e a do advogado Antonio Alberto Gouvêa Vieira, em Botafogo. Em alguns momentos, quando não havia bala perdida, divertia-se com o anúncio dessa decadência.
Na nota “Que delícia de cidade”, contava a história da integração sociorracial de um amigo, mantido anônimo, com uma moradora da favela. Zózimo ainda colocou tudo no plural para evitar que a mulher do cidadão o identificasse — de resto, é tudo verdade, mais uma crônica e o retrato do ano em que a sociedade dançou na boquinha da garrafa.
• O Rio é uma cidade realmente extraordinária de tão
aberta e democrática.
• Que o digam os representantes de mais recente aliança
celebrada sob o sol tórrido do fim de semana. Junta
esculturais jambetes da Rocinha e atléticos golfistas de
meia-idade que se exercitam nos greens da Gávea.
• O ponto de encontro é o buraco 11, próximo à praia, e no
último sábado, graças à intermediação de um caddy,
formou-se um grupo de jambetes e golfistas que só
conseguiu se desfazer depois de um banho de piscina com
champagne na casa de um deles, por volta das quatro da
madrugada.
As referências à cidade, aos seus problemas, aos seus modismos de rua ou de salão diminuíram — e o jeito de João do Rio, flanando pelo Centro e lamentando o estado do Largo da Carioca, virara coisa do passado. Trancado na redação, Zózimo burilava as sacadas. Um dos grandes momentos da temporada no Globo foi em 25 de abril de 1995. Ele tinha a nota de uma aproximação sentimental entre dois personagens da cena nacional, no entanto não quis bancar o romance abaixo do manjado “Novo par”. Arrumou uma saída tecnicamente original — e para bom entendedor a sutileza bastaria. Dividiu a coluna ao meio, atravessada por uma foto vertical da estonteante Leila Schuster (“nas pistas agitadas do fim de semana no Rio”). De um lado, à esquerda, misturada a outras notas, colocou:
• Depois de espairecer uma semana em Paris, incógnita,
está de volta ao Brasil a bela Thereza Collor.
• Voltou a sorrir.
De outro lado, à direita, o mesmo texto, os mesmos verbos e vírgulas, só que tudo regido por um sujeito masculino:
• Depois de espairecer uma semana em Paris, incógnito,
está de volta ao Brasil o empresário Sérgio Alberto Monteiro
de Carvalho.
• Voltou a sorrir.
Mesmo separadas pelo enorme par de coxas de Leila Schuster, qualquer um juntaria as notas, redigidas com a mesma estrutura. Foi o que a própria Thereza fez — e pediu a um assessor que ligasse ao colunista: “Zózimo, a Thereza me garante que em Paris só falou com o Sérgio Alberto por telefone.” Do outro lado da linha, Zózimo boquiabriu-se, fingindo surpresa, e obtemperou, cínico: “Mas eu nem sabia que eles tinham se falado por telefone.”
O politicamente incorreto ainda estava liberado e o alvo podia ser a terceira idade (“O enterro do ex-presidente Ernesto Geisel registrou a maior concentração jamais vista de senhores de cabelos pintados em tons de acaju. Parecia um funeral de irlandeses”) ou a mulher feia (“A semana da moda em cartaz no Jockey tem o seu casal 20: Túlio e Entúlio”). A reação era a de sempre. Havia quem gostasse e quem se dirigisse, agora por e-mail, ao chefe de redação, pedindo providências — ou cortaria a assinatura. Uma feminista reclamou quando, noticiando a festa de Natal do Hippopotamus, ele disse que José Luca de Magalhães Lins saíra de lá brandindo como troféu a bela modelo Dominique Scudera: “Onde já se viu reduzir a mulher a um troféu?”
Zózimo não respondia a e-mails desaforados. Era do tempo em que o leitor lia o que lhe fosse posto na mão, e não um reizinho a ser ouvido, publicado e reconhecido como um encaminhador do que se deveria dizer no jornal. Fazia a sua parte, mesmo que a plateia estranhasse a ousadia:
• Se Luiza Brunet se candidatar a prefeita de Búzios, muda
tudo. Em vez de eleição, Búzios terá uma ereção.
• Visto que a maior obra de integração da cidade, a Linha
Amarela, vai ligar a Barra ao Fundão, por que não chamá-la
desde logo de Via Bundão?
• Julia Roberts está comendo o seu personal trainer,
Pasquale.
• O frango pode estar em alta, mas o pinto está em baixa.
• Fernanda Venturini está namorando Mauricio, os dois
das seleções de vôlei. Ambos são levantadores. Quem corta?
• Estaria prestes a ir para as bancas uma nova Playboy
destinada a homens casados. A mesma mulher todo mês.
Em 15 de setembro de 1994, bem dentro desse espírito da mais bem fornida sacanagem carioca, Zózimo outra vez recorreu a uma memória dos bancos escolares do Andrews. O título da nota era “Verão de ouro”:
• O sutiã Wonderbra, que empina e encorpa as peitocas do
mulherio, está chegando às praias.
• A sua modelagem está sendo usada na confecção de
biquínis. Vai ser o verão da gata peituda.
• Faz lembrar o ideal de mulher de um grande amigo desta
coluna, o jornalista Renato Machado, que na adolescência,
época da gandaia rasgada, só curtia mulheres magras de
busto farto.
• Costumava defini-las de modo singular:
— Eu gosto mesmo é de fiapo com peitão.
Todos torciam pelo príncipe que tratava o contínuo e Roberto Marinho com a mesma atenção. Henrique Caban, diretor de redação, já casado com Marcia Barrozo do Amaral, o que serviu para estreitar as relações com Zózimo, preocupava-se. Dizia-lhe do desgaste que as suas ausências na redação, cada vez mais frequentes, podiam provocar na grife. A temporada que os dois passaram nos Estados Unidos, na Copa de 1994, tinha impressionado Caban. Zózimo precisava de proteção e O Globo faria tudo para mantê-lo. Era um patrimônio do Rio. Sem ele em cena, imprimindo charme em papel-jornal, poderia ser colocada na entrada da cidade a placa da qual Paulo Francis havia muito desconfiava que ela era merecedora: “Fim do asfalto.” Telmo Martino achava o mesmo: “O Rio e as pessoas só ficam interessantes quando o Zózimo quer. Quando ele se ausenta ou se distrai, os bárbaros emergem e atacam. Inutilmente. Nunca são vistos. A miopia deliberada do Zózimo é a melhor defesa que a cidade tem. Dorme-se em elegante paz no Rio.”