Enquanto Houver Champanhe, Há Esperança

Joaquim Ferreira dos Santos · Capítulo 45 de 50

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Enquanto Houver Champanhe, Há Esperança

Capítulo 45

 

Desde o fim dos anos 1980, Zózimo tinha trocado o costume de passar o aniversário em Paris pelo de apagar as velinhas em South Beach, na sua recém-querida Miami. O 28 de maio de 1997, data dos cinquenta e seis anos, seria num cenário mais surpreendente ainda. Seu roteiro de viagens, sempre concentrado no perímetro urbano de grandes capitais, hotéis cinco estrelas, garfos estrelados do Guia Michelin em cima da mesa, seria subvertido por uma ideia ao gosto da mística Dorita. Se o trabalho no Globo estava estressante, se a operação de colocar uma coluna de pé todos os dias havia lhe tirado toda a calma interior, por que não recuperar as energias indo ao centro mundial de meditação? Que tal pegar um avião para o Nepal, conhecer Katmandu? Depois da purificação no alto de Santa Teresa, no Rio, deixando o tabagismo e o alcoolismo, por que não desintoxicar a mente? Ele se assustou. Quando disse “sim” estava claro que se tratava de mais uma prova de amor, uma sinalização da vontade de se aquietar e reinventar o destino.

O tour começou por Bangcoc, capital da Tailândia, e o 28 de maio Zózimo passou ali, dentro de uma antiga barca de arroz adaptada para excursões turísticas. Era um roteiro pelo rio Chao Phraya, e a cada parada visitavam um templo budista, o outro lado da civilização cheia de grifes. Abaixo do equador, estava o colunista social, o dia todo olhando para a frase “Enquanto houver champagne, há esperança”. No Nepal, ele se curvava diante de imagens de Buda, aquele que pregava como princípio de vida a mais radical renúncia aos prazeres mundanos. “Não deseje e não sofra”, garantia Buda. “O desejo é a alma do sofrer.”

Dorita apresentava Buda como um sorridente companheiro de viagem para a nova vida, agora sem vícios, a não ser o de seguir em calma, mantendo, como diz uma canção de Walter Franco, a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo — o brasão reescrito de Zózimo. Sua conversão ao judaísmo para casar-se com Marcia fora um esforço para ficar com a mulher amada. Não foi em frente. Apesar da iniciação repressiva com os padres do Santo Inácio, de ter achado a fé desligada da vida cotidiana, ele gostaria de dar novas chances aos mistérios do sagrado. Ao amigo Sergio Bermudes dizia que em algumas igrejas sentia vontade de se ajoelhar, de se reconciliar com Deus e rezar — como adotara o judaísmo, ficava em dúvida. Agora aparecia o budismo. Quem sabe Buda ganharia o jogo?

A próxima parada foi em Katmandu, capital do Nepal, com seu incrível tráfego urbano regido pelos humores das vacas sagradas que passeiam entre carros e motos sem terem de cumprir regras impostas aos humanos pecadores. Tempos atrás, Zózimo teria se trancado no hotel para não participar da cena. Achou estranho, depois relaxou. Em Bhaktapur, um dos maiores centros de visitação turística do mundo, não há espaço para drinques regados a água-benta de doze anos. O papo agora era a sabedoria dos séculos. Ouvir o guia contar histórias desses deuses hindus e reverenciar Shiva, aquele que disse o que Zózimo estava querendo ouvir: “Pessoas que caminham sem rumo jamais encontrarão seu porto seguro.”

Em Nepalgunj, Zózimo e Dorita eram os únicos hóspedes do Karnali Lodge, com seus exóticos quartos de telhado em sapê. Não havia luz elétrica. O menu da chegada era arroz com suco de lentilha, jaca frita com pimenta e cabra ensopada com curry. Zózimo já havia andado de gôndola em Veneza. Voou de Concorde. Subiu no lombo de um camelo no Marrocos. Andava de bike na Lagoa Rodrigo de Freitas. Cruzou Londres em ônibus vermelhos de dois andares. Em Nova York foi pelo menos uma vez ao Studio 54 a bordo de uma limusine. Mergulhou de escafandro em Fernando de Noronha. Viajou na montanha-russa da Disney. Em Nepalgunj, ia passear de elefante. O casal subiu no lombo do bicho, turisticamente coberto por um tabladinho de madeira, uma espécie de cadeira sem encosto. As costas de Dorita apoiadas no corpo de Zózimo. No pescoço do elefante ia o “motorista”. Na parte de trás — o bicho era enorme, sempre cabia mais um — seguia um rastreador, que chegou ao cocoruto do elefante escalando-o com uma corda.

Pela primeira vez, Zózimo fazia um safári e, a bordo da elefanta Sonja Kali, seguia em silêncio pelas matas do Nepal. Ia em busca do grande acontecimento da região, um privilégio que poucos viajantes conseguiam ver. Os guias começaram a perceber pelo caminho restos de veado e as suas parceiras de sempre, as pegadas de tigre. “Ele está por perto”, diziam, enquanto Zózimo desconversava, garantindo a Dorita que era truque para valorizar o passeio. “Não tem tigre nenhum por aqui.”

Os primeiros a gritar foram os próprios guias, e só depois ouviu-se o rugido do tigre. Ele tinha resolvido sair da espreita e pulara sobre a elefanta, atingindo-a entre a pata e a tromba. Ou tudo estava muito bem montado, e a agência de viagens combinava certinho até com os animais, ou vivia-se de fato um pesadelo. O tigre era imponente e ameaçador. Sonja Kali recuava, nervosa. O clima era de pânico — ali estava, ao vivo, um tigre-de-bengala, muitos anos depois de os turistas sobre a elefanta terem visto um ascendente dele na TV, no seriado Jim das Selvas. Zózimo abraçou Dorita, como se a defendesse de um segundo ataque, o que acabou não acontecendo.

O tigre viu que aquilo não ia levar a nada e, depois do primeiro bote, deu por concluído seu espetáculo — que em seguida certamente repetiria com outra turma de turistas. Suas presas estavam muito altas para serem alcançadas e aos poucos ele sumiu na floresta. Dorita e Zózimo, apavorados, pediram o caminho de casa. De início queriam voltar imediatamente para o Brasil. Tomaram um Lexotan, dormiram e no dia seguinte riram da maluquice.

“Achei que a situação ia ficar preta, depois pensei e senti que uma coisa destas não poderia acontecer”, disse Zózimo no café da manhã.

“Por quê?”, Dorita perguntou.

“Porque seria ridículo! Você pode imaginar as manchetes nos jornais do Brasil?”

“Acho que posso: ‘Zózimo Barrozo do Amaral, o famoso colunista, e sua mulher, comidos vivos por um tigre!’”

“Que nada: ‘Dois babacas engolidos por uma fera solta!’”, brincou Zózimo. “Acho que nossas famílias e nossos filhos ficariam arrasados, mas nossos amigos iriam rolar de tanto rir.”

O casal ainda ficou alguns dias no Nepal. Zózimo precisou dar uma parada para se recuperar de uma febre altíssima, surgida de repente e que da mesma maneira se foi. Era um sinal vermelho de problemas com a saúde, logo justificado como um acontecimento natural, certamente provocado pelo cansaço.

Havia templos para as várias nuances de elevação espiritual e Dorita queria visitar todos. Em Pashupatinath, foram a um erigido em louvor a Kama Sutra, com esculturas em que as divindades desenhavam com os próprios corpos as posições do ato sexual. Zózimo era um homem do mundo. Tinha levado o filho, Fernando, ao Quênia, à Tanzânia e à Rodésia, assim como vira de perto, com ele, a cena religiosa de Israel. Não conhecia apenas os templos do prazer — as lojas da Brooks Brothers, em Nova York, as caves do Dom Pérignon, na França. Mas nunca tinha visto tanto templo religioso. No lugar de directrices e restaurateurs, deuses quase em carne e osso. Um dia, visitando uma casa, um guia lhe informou que ali era o Bahal, a casa da Kumari, a deusa viva! A deusa virgem! E por um segundo a viram passando numa janela.

Nem tudo era compreensível a olhares pouco afeiçoados àqueles acontecimentos. À beira de um rio, Zózimo viu a cremação pública, em cima de uma pedra, de cadáveres humanos. Corpos cobertos por um tecido branco e laranja eram jogados num monte de lenha e logo viravam fogueira, todos ardendo ao mesmo tempo. O corpo físico não importa, dizem os hindus. O importante é a alma, o plano astral, as reencarnações e, quem sabe, um dia, o Nirvana, a Iluminação. Dias depois, Zózimo ficou horrorizado quando subiu até a montanha do templo Dakshinkali, o maior da deusa Kali, uma das companheiras de Shiva. Ela só se satisfaz com sangue. Em tempos mais bárbaros, sacrificavam-se pessoas, agora eram animais.

Zózimo e Dorita postaram-se em uma fila em meio a uma multidão que levava cabras, bodes e galos, todos machos, para serem imolados em honra à deusa. O fiel entregava seu bicho ao sacerdote que, com uma faca, zás, num golpe só, arrancava-lhe a cabeça. O sangue banhava a estátua da deusa, e assim ela ia comandando todo o processo de vida do cidadão, do nascimento até a morte. Acredita-se também que, com a degola, libertam-se antepassados aprisionados em forma animal. Zózimo e Dorita, como se estivessem num coquetel macabro, circulavam chocados por entre bodes que, sem a cabeça, ainda corcoveavam nos estertores.

Era hora de voltar ao Brasil. Quando chegaram ao hotel, tomaram um banho caprichado para limpar todo aquele sangue e a energia pesada. No Rio, duas semanas depois, a excursão mereceu reportagem na revista Caras com o título “Férias do outro lado do planeta”. Segundo Dorita, Zózimo fez um balanço positivo da viagem. Não gostou da comida, do perfume enjoativo de algumas delas. Garantia, porém, que recomendaria a todos o mesmo processo que percebera nas ondas do budismo: mais espiritualização e menos estresse. Eram seus planos para o futuro.

“Amorzinho”, chamegou para a mulher, “e se a nossa próxima viagem fosse ao Butão?”