Enquanto Houver Champanhe, Há Esperança

Joaquim Ferreira dos Santos · Capítulo 13 de 50

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Enquanto Houver Champanhe, Há Esperança

Capítulo 13

Manoel Francisco do Nascimento Brito carregava em seus um metro e oitenta e nove centímetros de altura uma mistura de referências. Era vaidoso (adorava gravatas suíças, “as melhores do mundo”), atleta (jogou basquete, futebol, golfe, lutou jiu-jítsu com os Gracie, pescou em alto-mar), herói de guerra (cobriu as costas brasileiras como piloto da FAB), educado (estudou jornalismo na Universidade de Columbia) e tinha humor não acadêmico. Adorava verbalizar vulgaridades (ficou célebre a conversa com editores em que explicava serem as mulheres judias portadoras de peles vaginais extras). Foi amparado na observação dessas trivialidades comicamente sacanas que, pelo menos uma vez, acertou publicamente na mosca.

Foi no início dos anos 1990. Os editores do JB recebiam a visita de Zélia Cardoso de Mello, que dias depois assumiria o Ministério da Economia no governo Fernando Collor. Brito entrou na sala, ouviu um pouco e, chamado para outros compromissos, saiu. Tinha visto o suficiente. Mais tarde, os jornalistas lhe relataram o que a economista dissera, todos baseados num palavrório de tecnicismo bonito. A sensibilidade de Nascimento Brito fora mais aguda. Veterano no trato com autoridades, percebia em rápidos minutos o que gostariam de esconder. “Vocês viram como ela se senta?”, perguntou, emudecendo os editores. “Essa moça vai acabar se metendo em algum escândalo!”

Numa cruzada de pernas, a ministra mostrara a ele trechos da calcinha, e com isso, na avaliação de seu olho sagaz, revelara as costuras dos perigos em que não só meteria a economia brasileira (confisco da poupança, por exemplo), como também afrontaria a moral palaciana (ela sairia do cargo após um affair brega com um colega casado). Mas desses babados o novo colunista, Zózimo Barrozo do Amaral, trataria na época devida.

O atlético Maneco, como era chamado pelos íntimos, ou doutor Brito, como seus funcionários se dirigiam a ele, respeitosamente, esteve à frente de uma equipe que realizou uma das mais sensacionais reformas da imprensa brasileira. Juntos, transformaram o JB, entre os anos 1960 e 80, num dos melhores jornais já feitos no país. Era onde todo jornalista queria estar.

Nos idos de 1952, aos sessenta e um anos de idade, o Jornal do Brasil tinha a sua primeira página inteira dedicada aos anúncios classificados. Por dentro, algumas notícias — nada com muita empolgação pelo ofício de informar o que ia pelo mundo. Chamavam-no jornal por uma liberdade poética. O material jornalístico entrava no que sobrava de espaço entre os anúncios. Era “o jornal das cozinheiras”, conforme uma vez discursou, querendo ofendê-lo, o presidente Juscelino Kubitschek, pois não havia melhor lugar para se encontrar uma doméstica. De resto, nulo. Nenhum poder de reivindicação. A empresa, administrada pelo conde Pereira Carneiro, estava satisfeita com os lucros. Fazia um serviço de utilidade pública, era bem recompensada — por que complicar? Outros que fizessem esse tal de jornalismo.

Maneco assumiu funções executivas no JB em 1948. Em 1954, ano da morte do conde, a viúva, a condessa Maurina Dunshee de Abranches Pereira Carneiro, deu-lhe o cargo de diretor-geral da Rádio JB. A condessa — também sua sogra, pois ele era casado com Leda Marina, enteada do conde — era uma mulher informada, com amigos na intelectualidade. Queria mudar o perfil do jornal. Visitou redações americanas para saber como algumas tinham feito transição parecida, trocando o comércio dos classificados por notícia. Foi estimulada por sua pesquisa entre os americanos a dar o salto corajoso: trocaria a imagem vencedora de jornal de pequenos anúncios, o único com esse perfil no Rio, pela de jornal qualificado, mas de rendimento a se ver no futuro. Foi aí, a partir de 1956, que começou a segunda missão de Nascimento Brito na empresa — o jornalismo brasileiro nunca mais seria o mesmo.

Ele passou a dirigir o jornal e a ditar seus rumos, todos voltados para um leitor requintado, a elite carioca. Odylo Costa Filho, como editor, deu início à reforma. O diagramador e artista plástico Amilcar de Castro mexeu primeiro nas páginas de esportes, para não espantar o leitor. As fotos ainda eram raras, porém de qualidade, e começaram a ficar mais abertas. Devagar, tirou os fios que sujavam o visual, abrindo claros entre os textos. Ele vinha da Manchete, onde a ousadia tinha lhe custado o emprego. Adolpho Bloch, o dono da revista, achava que deixar espaços em claro na página era jogar papel fora.

Na capa, também devagar, Amilcar foi encostando os classificados na lateral esquerda e no rodapé. Três anos depois — a grande data da mudança foi a edição de 2 de junho de 1959 — eles desenhavam na primeira página apenas um L, como se servissem de meia moldura a notícias, manchetes, fotos, essas especificidades jornalísticas. Havia menos espaço para os tradicionais “procura-se empregada”, no entanto o Departamento Comercial não reclamou porque agora anunciar ali era mais caro e não só as empregadas se interessavam. As grandes empresas também. O jornalismo se qualificou e o anunciante, idem. Ficaram todos satisfeitos.

Nos anos 1960, o JB tornou-se um dos mais bonitos jornais do mundo. Foram várias peças notáveis que, sob a batuta de Nascimento Brito, reformavam o velho veículo das cozinheiras e aos poucos o levavam até o pico da pirâmide social, transformando-o no mais sofisticado jornal do país — o diário dos patrões. O JB avançava sobre as novidades trazidas pelo Diário Carioca, contratando alguns de seus profissionais e insistindo na qualidade dos textos. Havia muita coisa a fazer. As reportagens do Diário, como de todos os jornais, começavam na primeira página e depois continuavam até por três páginas diferentes na edição. O JB faria um resumo delas na primeira — as chamadas —, deixando que se iniciassem e terminassem, completas, em uma única página interna.

Reynaldo Jardim criara, em meados dos anos 1950, o Suplemento Dominical (o SDJB), que fornecia aos intelectuais e literatos um caderno de páginas fartas para experiências (o movimento neoconcretista surgiu ali). O editor Jânio de Freitas foi quem levou essas reformas do SDJB em torno da cultura para a virada da década de 1960. E, assim, consolidou o Caderno B, até então carregado de matérias que não conseguiam entrar no primeiro caderno, como uma referência da cultura na cidade. Se antes da reforma o JB se parecia com qualquer outro jornal, depois todos os outros tentariam se parecer com o JB.

Pautado pela busca da qualidade e pela observação do moderno jornalismo americano, Nascimento Brito e seus Blue Caps transformaram um calhamaço de classificados num dos monumentos da modernidade nacional, ao lado do traçado de Brasília por Niemeyer, dos acordes dissonantes da bossa nova por Tom Jobim e da câmera na mão do Cinema Novo de Nelson Pereira dos Santos. JK dava o clima para o Brasil criar. Nascimento Brito preocupava-se em liberar seus profissionais para seguir ao ritmo da marchinha que consagrou em 1958 a vitória brasileira nos campos de futebol da Suécia: “Com o brasileiro não há quem possa.” E dizia: “Só reclamo do jornal depois de impresso, porque senão a redação fica medrosa e não faz nada, paralisa. De jornal não impresso cuida o editor.”

Quando Zózimo chegou, em fevereiro de 1969, o jornal vivia uma fase de acabamento dessas mudanças. Era um processo que M.F. do Nascimento Brito, como ele assinava na página de editoriais, comandava do sexto andar do prédio da avenida Rio Branco, 110, no Centro da cidade. O editor-chefe, Alberto Dines, dois andares abaixo, repercutia com brilhantismo, desde 1962, o clima da empresa, e aos poucos desenhava uma redação profissional para o jornalismo brasileiro. Algumas das novidades:

 

1. Criou a reunião dos editores, pela manhã e à tarde, para

acertar os rumos da edição do jornal que sairia no dia

seguinte. Todos se reuniam para um brainstorming e iam

dando subsídios para o fechamento da primeira página. O

jornal virava um produto de equipe, pensado por todos e

com uma orientação firme.

2. Dividiu o jornal em editorias. Antes eram todas juntas

(Internacional, Esporte, Política, Economia), sem tarefas

definidas. Não existia o rótulo de Cidade para as matérias

locais, por exemplo. Era Polícia. Surgiu a primeira editoria

de Fotografia do país.

3. Criou o arquivo fotográfico, para organizar as fotos

publicadas e as sobras. Antes, os fotógrafos guardavam

consigo os negativos.

4. Exigiu a compra de dicionários para a redação.

5. Fez o Departamento de Pesquisa, com biblioteca e

arquivo de reportagens de jornais e revistas, e o

transformou numa editoria que produzia reportagens

especiais.

6. Valorizou a assinatura dos textos.

7. Elevou os salários para tentar fazer com que os

jornalistas tivessem apenas um emprego (os classificados

continuavam uma mina e permitiam que o jornal criasse

tabela própria de valorização de seu time, um verdadeiro

escrete na época).

8. Privilegiou os profissionais de bom texto e nível cultural,

formando uma redação intelectualizada. Clarice Lispector

foi contratada para escrever crônicas. No Globo, Nelson

Rodrigues debochava, dizendo que, por ser de mau gosto

literário, “o crime passional estava proibido no JB”.

9. Criou um curso de formação de jornalistas, a Escolinha

do JB.

10. Contratou Zózimo Barrozo do Amaral.

 

Zózimo, um jornalista da alta classe média mas criado jogando futebol no meio da rua, era um movimento perfeito para consagrar o JB como o jornal com o espírito da cidade — e olhe que eram quase vinte diários concorrendo com a mesma intenção. Alguns: Correio da Manhã, O Globo, O Dia, A Notícia, O Jornal, Luta Democrática, Gazeta de Notícias, Jornal do Commercio, Tribuna da Imprensa, Diário de Notícias, Jornal dos Sports, Última Hora e o semanário O Pasquim. O Diário Carioca expirara em 1965. Jacinto de Thormes transformara-se, e gostava disso, em cronista esportivo.

O espírito do JB era de independência e de linguagem arrojada, enfrentando a censura com as diatribes de Dines e a coragem do clã de Maneco. Um dia, impávido e colosso, coberto com as condecorações que ele próprio havia pregado na farda, conta a lenda das redações que lá ia o presidente Arthur da Costa e Silva visitando as instalações do JB. A seu lado, resignada, a condessa Pereira Carneiro explicava o funcionamento da engrenagem, como se dividiam as editorias, o processo de envio das páginas para a oficina e demais generalidades da operação. Generais, no entanto, detestam generalidades. Impacientes, querem ir direto ao ponto de suas ordens do dia e saber o que lhes é de interesse e regimento.

Foi o caso do general Costa e Silva. Quando a condessa informou que uma matéria narraria a visita, ele quis saber: “Tem elogio?” Pereira Carneiro sorriu, gentil. Disse que, bem, seria publicada uma matéria narrando os detalhes da visita. Adjetivos não iam bem com o texto jornalístico moderno. Costa e Silva, franco como o generalíssimo espanhol que o antecedeu na divulgação das ditaduras, agradeceu. Naqueles termos editoriais a publicação não lhe interessava. Abria mão da pseudo-honraria. Quem gostava de objetividade era jornalista, seu negócio era outro. “Eu gosto mesmo é de elogio.”

Zózimo estreou em 4 de fevereiro de 1969, uma terça-feira, um dia sem nobreza, mas inevitável porque naquela época o JB ainda não circulava às segundas. Lançar a coluna no domingo, para uma plateia maior, porém sem continuidade no dia seguinte, seria estranho. Nenhuma matéria ou anúncio cumpriu o dever comercial-editorial de criar uma expectativa, excitar os leitores com o perfil do novo contratado — e com razão. O colunista não tinha perfil suficiente para isso. Nunca assinara nada com o próprio nome. Era uma aposta.

O début foi com chamada de capa dentro de fios com o título “Caderno B sai hoje com duas novas atrações”. Sobre a coluna de Zózimo, que se chamava simplesmente Zózimo e ocupava um pouco mais que a metade da página 3 do Caderno B, informava que seria “bastante movimentada” e espanaria para longe o pó do passadismo impresso: “Zózimo faz questão de esclarecer que não é colunista social, que sob sua assinatura o leitor encontrará noticiário diversificado, voltado para a vida da cidade.” Resumindo: um colunista mais perto da máquina de escrever do que do bufê. Preferindo servir o leitor a ser servido pelo garçom.

A outra novidade era a missão de Léa Maria. A ex-responsável pela coluna de notas na página 3 do B passava a Zózimo o endereço — e o abacaxi que ela tanto detestava. Poderia parecer um prêmio de consolação, só que era mais uma boa sacada editorial de Dines. Num momento em que Leila Diniz já soltava a franga da liberdade sexual e os sutiãs viravam cinzas pelas praças do mundo, Léa passava a editar uma seção com o título Mulher. Nada a ver com os moldes do costureiro Gil Brandão, que O Jornal, dos Diários Associados, publicava para a dona de casa. Léa Maria, enturmada com a fina flor da vanguarda Zona Sul, faria “a cobertura completa de todos os assuntos de interesse feminino”, dizia a chamada da primeira página junto com a de Zózimo.

Ela estreou bem. Mulher daquele dia 4 de fevereiro tinha como atração uma entrevista com Ira de Furstenberg, ex-esposa do playboy Baby Pignatari, italiano naturalizado brasileiro. Era para ser uma coluna a favor da mulher, mas para que a coisa não se cobrisse de um cor-de-rosa exagerado e démodé, Léa assumiu ar emancipado. Partiu para cima logo na primeira pergunta: “Não é constrangedor vir assim, receber mesada de um ex-marido?” Ira, mostrando que os sinais do que era mulher moderna e antiga estavam confusos, respondeu firme: “Não acho, não. Vim fazer uma pessoa cumprir o prometido. Vim tratar de um negócio.”

A chamada para essas mudanças vinha abaixo da dobra do jornal, um reconhecimento editorial de que o nome de Zózimo estava longe de ser um apelo para os leitores — e isso numa terça-feira em que as notícias do alto da capa estavam, como se dizia na gíria da época, de lascar o cano. Quem se interessaria pela manchete “Cao Ky` fará concessões para acabar com impasse”? Talvez para contrabalançar a suspeita de elitismo com a chegada do colunista, a edição escolheu para a primeira página duas fotos da miséria carioca. Numa delas, mulheres se empurravam no pátio do então Ministério da Educação e Cultura para conseguir cadernos e lápis grátis. Na outra, meninas da favela da Catacumba, na Lagoa, perto da casa onde Zózimo passara a infância e a adolescência, brincavam com um leitão enorme refestelado dentro de uma poça de lama, a possível causa da onda de doenças na comunidade.

Na primeira página ainda estava o “L”, com anúncios margeando à esquerda e no rodapé. Um exemplo de classificado no “L” daquela edição de 4 de fevereiro de 1969:

 

Precisa-se de mocinha. 15 a 17 anos. Para ajudar com uma

criança. Dar referências.

 

Na capa do Caderno B, onde estreava o colunista que finalmente assinava seu nome, estava uma matéria sobre discos voadores, em que se dizia que nem tudo visto no céu como tal assim o era. Seria uma piada? Metalinguagem? O Caderno B brilhava como um espaço ousado, o mais perfeito espelho da Zona Sul, com intelectuais de ponta explicando as artes a cada página. Seria demais, no entanto, achar que a matéria do “nem tudo que voa é disco voador” podia ser uma piada interna para falar do novo colunista da página 3 — ele, que tinha todo o jeitão de colunista social, falava das festas da sociedade, mas, de fato, como queria a primeira página, assim não o era.

Por dentro do B, os anúncios de uma temporada cultural quente. No teatro, estavam em cartaz Glauce Rocha com Inspetor, venha correndo, no Princesa Isabel, entre o Leme e Copacabana; e o Oficina, de Zé Celso, que derrubava as paredes do palco italiano com Galileu, Galilei, na Maison de France, no Centro. A MPB brilhava com De Cabral a Simonal, no Teatro Toneleros, em Copacabana; Ataulfo Alves, no Novo Sarau (na Gustavo Sampaio, no Leme); Maria Bethânia, na Sucata. No Cine Paissandu, no Flamengo, começava um festival com os melhores filmes de 1968 (Pickpocket, As duas faces da felicidade, Os guarda-chuvas do amor...).

Os restaurantes e boates para ir depois dessa maratona cultural, pelo menos os anunciados naquela semana no Caderno B, eram Bierklause, Castelinho, Le Relais, Acapulco, Churrascaria Tijucana, Sucata, Drugstore e Sobradinho — todos desaparecidos. José Carlos Oliveira, que dividia o espaço dos cronistas, na página 2, com Carlos Drummond de Andrade (a partir de outubro de 1969) e Clarice Lispector, às vésperas daquele Carnaval escrevia sobre a Banda de Ipanema, que saía nas ruas pelo quarto ano consecutivo. Trecho: “Lá vamos nós, os inocentes, os desesperados de Ipanema.”

O nome Zózimo vinha no alto da página num corpo de letras quase do mesmo tamanho daquele usado para imprimir o cabeçalho do jornal na primeira página. Era um logotipo classudo, criado pelo diagramador Ivanir Yazbeck. A assinatura completa do nome, que havia feito Barrozo do Amaral deixar no Globo a alcunha de Swann, vinha ao pé da página. Entre as notas daquele dia, nenhuma notícia bombástica que fizesse o diretor de redação gritar o cinematográfico “parem as máquinas!”. Poderiam ter saído na véspera ou no dia seguinte — mas serviam como boa apresentação do que viria por aí. Eram onze notas (e mais o Ponto Final, a versão do Do Telstar:), algumas um tanto grandes, outras chupadas de publicações estrangeiras. O estilo estava acanhado, duas delas começavam com lamentáveis advérbios de modo (um “realmente” e outro “evidentemente”). O mix, no entanto, era curioso.

A veterana Carmen Mayrink Veiga, nas páginas desde Jacinto de Thormes, e queridíssima por Zózimo, estava lá. Palpitava sobre os desfiles que acabara de ver na Europa (“a moda agora estará sempre dirigida ao binômio jovem e pra frente”). Como contraponto a essa velha guarda, vinha a única foto da coluna, o rosto moderno de Heleninha Brenha, da nova sociedade. A legenda informava o que ninguém, apenas a família da moça, estava interessado em saber: “Heleninha Brenha está indo para Lisboa comemorar os 90 anos da avó de seu marido.”

Em sua estreia, Zózimo entregou aos leitores do JB, ainda em porção limitada, aquilo que mais lhe interessava — o humor, a sacada tirada dos fatos jornalísticos, apresentados por um olhar com o frescor inconveniente dos jovens. Ele narra o encontro do ex-ministro da Justiça de JK e futuro de Ernesto Geisel, o septuagenário Armando Falcão, e o imortal e octogenário Austregésilo de Athayde. Falcão pergunta pela mãe do escritor (noventa e quatro anos) e este pela avó do político (cento e seis anos) — ambas são dadas com saúde extraordinária. Daí encerra a nota sobre os não exatamente populares senhores:

 

• Isto significa que tão cedo a Academia Brasileira de

Letras não mudará de presidente e por muitas dezenas de

anos ainda teremos o sr. Falcão atuando na política

brasileira...

 

Não havia crítica direta à longevidade dos senhores, nem precisava. Zózimo estava apresentando as reticências de sua ironia e seu espírito crítico. A propósito: vinte anos depois, em 4 de fevereiro de 1989, Zózimo congratulava o aniversário da coluna e reproduzia a nota, explicando que ela estava na primeira coluna publicada no JB. Como os dois cidadãos mencionados ainda estavam vivos e atuantes, Zózimo reproduzira as notas. Ao final, depois do “por muitas dezenas de anos ainda teremos o sr. Falcão na política brasileira”, ele botou simplesmente: “Pois é.”

Em destaque na coluna, um editorial como o de Álvaro Americano, porém sem nariz de cera. Reclamava da derrubada de árvores para se fazer um viaduto em Botafogo e da retirada de um frontispício, de Mestre Valentim, do Passeio Público. Um colunista que podia ser social, mas saía dos salões e passeava pela memória da cidade. Parecia bater perna pelos bairros, e o fato de o Jornal do Brasil estar no centro do Centro, no meio de sua principal avenida, ia ajudar como posto de observação. O poder político tinha se mandado para Brasília, a grana estava em São Paulo e o Rio, sem árvores, sem obras de referência, podia estar perdendo a força do charme, todavia naquele momento os problemas ainda eram apenas os da violência administrativa municipal — e Zózimo estava atento.

Acima de tudo, havia já na primeira coluna a imensa gargalhada sobre a grã-finagem. Ele sempre fora um dos personagens daquele mundo, os pais frequentando o Jockey e as colunas de Jacinto. Agora tornava-se a própria personificação em papel de jornal dos ricos, o arauto de seus feitos — só que, no embalo dos anos 1960, estava de olho nos defeitos e suas ridicularias. Uma nota anunciava que não vinha para animar o coro dos contentes, e sim rir deles e ficar com o riso em riste. Em “Viagem diferente”:

 

• Uma senhora do society, muito conhecida e que passa

grande parte do ano viajando, teve que fazer uma outra

viagem, mas esta a contragosto e bem mais curta do que as

anteriores à Europa, à Ásia ou aos Estados Unidos. Teve que

descer de Itaipava, pois as autoridades haviam descoberto

que num grande terreno de sua propriedade ela alugava por

50, 100, 150 cruzeiros novos, mensais, pequenos lotes onde

famílias miseráveis construíam seus barracos de favelados.

 

O tom não era de denúncia, tanto que o nome da senhora é omitido, mas de disgusting, algo proustiano, do tipo “bem, isso não é sério”. Ele estava no caminho certo que previra na conversa com Roberto Marinho, no Globo. Dava para perceber que havia algo diferente naquela página, uma grife com chancela personalizada e não mais um pseudônimo entubando notas da direção do jornal. Era um colunista em carne, osso e também músculo. Naquele mesmo ano, num show na boate Sucata, Abelardo “Chacrinha” Barbosa, apresentador de TV, já colocava o colunista entre os seus bordões gaiatos: “Alô, alô, Zózimo Barrozo do Amaral, como vai o seu pau?”

Ele tinha dado apenas a primeira no jornal, mas ia bem, obrigado, o pau do Amaral.