Enquanto Houver Champanhe, Há Esperança

Joaquim Ferreira dos Santos · Capítulo 32 de 50

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Enquanto Houver Champanhe, Há Esperança

Capítulo 32

 

Paulo Mendes Campos estava sempre no Antonio’s e nas muitas vezes que se sentava à mesa com Zózimo dizia: “Antes Zózimo do que mal acompanhado.” Poeta e cronista da melhor tradição, ele escreveu, nos anos 1960, um dos clássicos do fim de uma paixão. Chama-se “O amor acaba”.

 

O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo

de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés

engordurados, diferentes dos parques de ouro onde

começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele

atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no

cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das

unhas; (...)

 

O amor vai acabando, de diversas maneiras, de um jeito ou de outro, é inevitável, e não foi diferente o que aconteceu com Marcia e Zózimo. Acabava pelo desgaste natural das relações, pelo alcoolismo que cada vez ficava mais sério, pela depressão e pelos desaparecimentos de Zózimo sob o efeito da bebida. Ele saiu de casa algumas vezes por brigas que podiam se prolongar pelas páginas do jornal quando, para provocar ciúmes, repetia mais vezes do que sua acuidade jornalística deveria permitir a foto da mulher pela qual estava interessado.

Numa das primeiras crises, Zózimo chegou a anunciar em família que estava apaixonado por Nelita Abreu Rocha, ex-mulher de Vinicius de Moraes. Nelita tinha vinte anos em 1963, quando conheceu o poeta, com cinquenta, e como o amor não tem compromisso com certidão de nascimento, os dois, trinta anos afastados pelas pias batismais, apaixonaram-se. Havia um problema: ela estava noiva, com o agravante de que o rapaz era campeão de tiro. Nelita foi a musa do poeta por trás da canção “Minha namorada” (“Se você quer ser minha namorada/ Ah, que linda namorada/ Você poderia ser”). Mas ele ainda achava pouco para o seu romantismo. Queria casar. A família da moça tentou que ela se afastasse daquele homem já com um expressivo currículo de (des)casamentos. Diante da resistência, Vinicius raptou a namorada — sem que esta oferecesse qualquer resistência. Fugiram para Paris, onde ele pertencia aos quadros do Itamaraty.

De volta ao Brasil em 1964, Nelita separou-se de Vinicius em 1968 e passou a se encontrar com Zózimo na casa dela, na rua Diamantina, no Jardim Botânico. Saíam pouco. Em público, eram vistos juntos na grande salada das mesas do Antonio’s, onde todos se conheciam e o encontro, para todos os efeitos, podia ser o de amigos. Para Zózimo, um homem em crise no casamento, foi um relacionamento forte o suficiente para que um dia fizesse o anúncio em família. Boy foi contra e declarou, com o humor de sempre: “Meu filho, você não vai ficar com um resto do Vinicius!”

Nos melhores momentos do caso, Nelita via em Zózimo “um grande irmão, éramos unidos pela cumplicidade no humor”. Ex-mulher de um poeta clássico, ela achava aquele negócio de coluna social uma bobagem sem tamanho. Divertiam-se. Um dia, de pura farra, mandou para o JB, “aos cuidados de Zózimo”, um envelope com maconha só pelo prazer de imaginar a cara de espanto do famoso colunista. Durou pouco. Primeiro, porque ela não queria a roubada de um relacionamento sério com um homem em crise mas apaixonado pela mulher. Segundo, porque já estava com a cota preenchida do triste espetáculo dos alcoólatras. Vinicius colocava uma garrafa cheia de uísque sobre a mesa e, gole a gole, a esvaziava. Quando estava chegando ao final, o poeta soluçava. Depois, chorava. No dia seguinte sofria, deprimido por ter se deixado levar pela maldição do vício que o humilhava e acabaria matando-o, em 1980.

Nelita não queria ver aquele filme de novo. Zózimo já estava bebendo bastante e um dia, de bar em bar, foi parar numa pocilga de Niterói, do outro lado da baía de Guanabara, sem ter a mínima noção de como chegara lá. Era tragédia anunciada. Ela preferia ir ao cinema. Em Gata em teto de zinco quente, um de seus filmes preferidos, acompanhava o sofrimento de Elizabeth Taylor com os porres do marido (Paul Newman). O texto era parecido com o que vivera em casa com Vinicius e agora a dose se repetia com Zózimo. “Pare de beber”, pedia Taylor. “Não”, respondia Newman, “ainda não deu o clique.”

Houve outras crises, outras separações, e Zózimo teve envolvimentos rápidos com outras mulheres. Era cativado pela presença feminina. Se pudesse preferir, preferia as mais velhas. “Gosto de mulheres-mito, com história”, dizia aos amigos. “As com menos de trinta e cinco anos ainda não tiveram o estalo de Vieira.” E explicou, numa entrevista: “O padre Antônio Vieira era um sujeito medíocre que, após um estalo mental, ficou inteligentíssimo e começou a escrever coisas inacreditáveis. Um milagre!”

Na entrevista dada à Playboy em dezembro de 1981, o repórter Ivo Cardozo perguntou-lhe quais eram as mulheres mais charmosas do país: “Dina Sfat, Celia Portella, Tetê Medina, Gisela Amaral, Simone, Ilde de Lacerda Soares, Alice de Jenlis, Glória Maria (da TV), Hélène Albicocco (que representa o Saint Laurent no Brasil), Nélida Piñon, mulher extremamente atraente, com charme que decorre da inteligência dela como grande escritora, Bebel Marcondes Ferraz, Xuxa Lopes. Muitas outras.” De todas essas, a única que Zózimo não conhecia era a jornalista Glória Maria. Negra, de traços fortes, ela se encaixava à perfeição no seu gosto pelas mulheres com alguma coisa diferente. Foi apresentado a ela por Ricardo Amaral, no Hippopotamus, alguns dias depois da entrevista publicada. Glória conhecia o texto de Zózimo e o admirava como jornalista, mas levou um susto quando o viu pessoalmente. Imaginava um senhorzinho, carcomido pelos problemas de uma existência prolongada. Nada disso. “Um gato”, ronronou para si mesma, numa vibração alcançada por ele. Numa das separações de Zózimo, começaram uma relação rápida que renderia uma amizade pelos anos seguintes. Num 15 de agosto, aniversário de Glória, Zózimo publicou como presente uma foto em que ela, estudante de violino, aparece com um da marca Anton Breton, sua mais recente aquisição.

Lauretta, a primeira negra a representar na noite carioca uma grife sofisticada como a boate Regine’s, alta, linda, de porte sofisticado, também foi uma dessas parceiras. Ao amigo Paulo Marinho, Zózimo contou, a seu modo, parte da noite que passaram juntos: “Acordei, não sabia onde estava, e quando vi aquele pé saindo por debaixo do lençol, eu pensei, onde eu vim parar, será que eu dormi com um negão? E aí eu peguei o lençol e fui levantando, lentamente, como se fosse uma carta de pôquer, pra ver quem estava ali ao meu lado. Quando eu vi que era a Lauretta, eu dei um beijo nela e disse mon amour, je t’aime.” A descrição era um autêntico Zózimo. Ele contava a cena como se desdobrasse uma nota da coluna, caprichando nos detalhes que talvez não tivessem acontecido exatamente daquele jeito, mas aumentavam o interesse do leitor. A moça podia continuar dormindo em paz — ela que foi uma das grandes imagens da noite do Rio até se retirar para administrar, a partir dos anos 2000, uma pousada em Paraty, no litoral fluminense. Quem não podia dormir era o leitor ou o ouvinte de suas histórias.

Numa dessas separações, Zózimo estava com uma amiga de Niterói, uma fonoaudióloga, no mesmo restaurante Samanguaiá, em Jurujuba, que frequentava com os marinheiros vipados do iate de Márcia Kubitschek. Aquele canto da baía é rota dos aviões do Aeroporto Santos Dumont. “Por que a gente não foge?”, perguntou. A moça topou, embora não tivesse entendido que era para fugir naquele momento. Do jeito que estavam. Sem passar em casa para qualquer produção. Quando entendeu, ainda assim topou e foram para o aeroporto fazer uma roleta-russa turística. Pegariam o primeiro avião que estivesse saindo. E foi assim, sem comunicar a ninguém, sem lenço e tendo como documento apenas o cartão de crédito dele, que o casal desembarcou num sábado de Carnaval em Fortaleza. Regressariam, para a calma das famílias e dos amigos, que os procuravam pelo Rio e por Niterói, apenas na manhã de Terça-Feira Gorda. Foram ao Baile do Vermelho e Preto, último evento do calendário momesco carioca. Brincaram, cada um no bloco do eu sozinho, com os amigos, sem dar pinta.

Uma relação importante pós-Marcia foi com a atriz de novelas Mila Moreira, ex-modelo da Rhodia. Chegaram a morar por um breve tempo no Hotel Sheraton, graças à gentileza de uma amiga relações-públicas. A irmã, Izabel, e o marido, João Paulo dos Reis Velloso, ex-ministro do Planejamento nos governos de Garrastazu Médici e Ernesto Geisel, chegaram a jantar com o casal. A redação do JB sabia do namoro. “O nome dela é Moreira”, Zózimo cantarolava pela redação, parodiando o jingle de sucesso da candidatura de Moreira Franco ao governo do estado.

Zózimo suspirava pela cantora Simone. Quando soube que a repórter Bety Orsini tinha sido escalada para entrevistá-la para a divulgação de mais um LP, pediu que a colega levasse um bilhete. “Só entrega na mão dela.” Antes de começar a entrevista, Bety entregou a mensagem a Simone, que, naquela época, fazia um sucesso retumbante. “Linda, linda, vestida de branco dos pés à cabeça, ela leu o bilhete e deu um sorriso, digamos, enigmático, e nada mais foi falado”, relata Bety. “Quando voltei para a redação, Zózimo me perguntou: ‘E aí, Bety, ela mandou alguma resposta?’ Tive que ser a portadora de uma notícia nada alvissareira: ‘Mestre, ela só sorriu.’ Foi aí que eu soube pelas jornalistas mais velhas que o meu gentil editor andava enlouquecido pela intérprete de ‘Amei demais’.”

A separação de Zózimo e Marcia foi triste, como são todos os desenlaces amorosos, ainda mais um que, no seu início shakespeariano, lutara poeticamente contra todas as adversidades. Havia a delicadeza de um filho no meio da história (a propósito, o desenhista Ziraldo publicou uma tira no JB em que desenha o “Superpai”, inspirado, segundo ele, em Zózimo, impressionado que ficara com a dedicação dele a Fernando, parceiro de idas ao Maracanã e outros programas pela cidade). Talvez tenha sido uma separação lenta em demasia, típica de Zózimo diante de decisões fundamentais, mas fácil do ponto de vista jurídico. Ele dizia aos amigos ter saído de casa, em 1987, com uma garrafa de champanhe e uma raquete de tênis. Não fez qualquer restrição à passagem legal de bens para Marcia, e os dois seguiram a vida sem rancores. Paulo Mendes Campos sabia de todos esses desdobramentos:

 

(...) uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor; na

verdade; o álcool; de manhã, de tarde, de noite; (...); em

todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor

acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar

em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba.

 

O primeiro sinal de que o amor estava recomeçando para Zózimo foi a série de fotos que a coluna passou a publicar de uma bela morena, a paisagista Dorita Moraes Barros. “Dorita tout court!”, dizia a legenda em 12 de novembro de 1983, significando algo como “Dorita, sem comentários”. De tradicional família paulista, com um tio presidente do Banco do Brasil, Dorita morara na França, casada com um francês. Depois correu o mundo casada com um empresário cubano que perdeu tudo após a revolução de Fidel, tornou-se guerrilheiro anticastrista a soldo da CIA e conseguiu dar a volta por cima, com o casal fixando-se em Marbella, na Espanha. Dorita estava separada desde 1982 e, com seus dois filhos, morava no Rio. Em sociedade com Olívia Larisch era dona de um ateliê de plantas na favela do Vidigal. No resto do tempo, frequentava a alta sociedade e, como diz em sua autobiografia, Relatos de uma alma, mantinha-se afastada com sucesso do uso das drogas, de “quase todos os tipos”, que a acompanhara na década de 1970. Dorita conhecia Zózimo de obas e olás, de vez em quando ele publicava uma foto dela. Nada além. Por isso ficou surpresa quando o telefone tocou e a empregada anunciou o colunista.

Zózimo perguntava se Dorita ia ao jantar no Clube Gourmet, de José Hugo Celidônio, amigo comum. Dizia que só iria se ela fosse e gostaria que fossem juntos. Uma brincadeira da época, bem antes do identificador de chamadas acoplado ao aparelho, era o trote telefônico. Dorita achou que estava sendo vítima de um e disse ao interlocutor que sim, mas só se ele viesse pegá-la à porta. Ele foi. Era o próprio. “Foi uma coisa desengonçada”, relembra. “No carro nós mal conversamos, e, quando chegamos ao jantar, piorou. Havia muita gente conhecida e nem eu nem ele tínhamos a intenção de estar como casal. Mal nos conhecíamos. No dia seguinte, um domingo, liguei para o Mariano Marcondes Ferraz, meu amigo, e perguntei o que ele estava fazendo. ‘Estou com o Zózimo.’ Eu não acredito que nada é por acaso. Acho que o Universo programa. Aí o Zózimo pegou o telefone e perguntou: ‘Posso passar aí?’”

Nesse período Zózimo estava abrigado na rua Aperana, 121, no Alto Leblon, no apartamento do mato-grossense Adair José Roberto Carneiro, o Bagual, conselheiro econômico de empresas e craque na arte de apresentar pessoas interessadas nos mesmos negócios. Bem-apessoado, formava com um de seus hóspedes eventuais, Paulo Marinho, uma das duplas de galãs mais disputadas da cidade — e o apartamento estava sempre repleto de moças lindas, modelos principalmente, todas interessadas em um dos dois ou em seus amigos ricos. O apartamento tinha cinco quartos amplos e uma boa equipe de serviçais organizando a bagunça deixada por aquele congraçamento de seres privilegiados. Era uma espécie de república de recém-separados, com paredes forradas de caixas de champanhe. Ricardo Boechat hospedou-se ali. Zózimo e Dorita podiam ser vistos dançando na sala, sozinhos, ao som de Linda Ronstadt cantando “What’s new, love?”, balada sobre o reencontro do amor por um casal.

 

What’s new?

How is the world treating you?

You haven’t changed a bit.

Lovely as ever, I must admit.

 

What’s new?

How did that romance come through?

We haven’t met since then.

Gee, but it’s nice to see you again.

 

Paulo Mendes Campos estava certo. O amor recomeçava, quase sempre com uma canção qualquer ao fundo, e logo Zózimo estava morando com Dorita no apartamento dela, uma cobertura de dois andares no Jardim Botânico, quase Lagoa, com vista de um lado para o Corcovado e de outro para Ipanema, o Leblon, o Dois Irmãos, o que se escolhesse como cenário mais propício para continuar a letra de “What’s new, love?” e dançar a esperança toda de novo. Uma festa no apartamento de Humberto Saade oficializaria para os amigos a união, sem a necessidade de papéis e carimbos burocráticos. Assim como sacramentava casais em sua coluna, a união de Zózimo e Dorita ficou impressa para a cidade em 11 de janeiro de 1988, na coluna social do Jornal do Commercio. Na foto, de Mathias Rezende, o casal, sentado num sofá, de mãos dadas, olha sorridente para a câmera. “Zózimo Barrozo do Amaral com a sua Dorita”, diz a legenda. “Ainda bem que eles acabaram com a mania chata do ‘Somos apenas bons amigos!’. Assumiram o amor, a paixão, a loucura. É meter a cara, gente!”

Se a diferença de religiões provocara dificuldades no início da relação com Marcia, o esoterismo místico de Dorita não foi problema ao cético Zózimo. Entre as crenças dela estava o budismo, entre as convicções dele continuava a necessidade de levar uma vida com boas gargalhadas. A relação com os dois filhos de Dorita, Gabriela e Marcos Santiago, entrando na adolescência, mostrava-se carinhosa e divertida. Um dia, no Tivoli Park, parque de diversões na Lagoa, no final do espetáculo de “Konga, a Mulher-Gorila” — quando a linda mulher de biquíni se transforma na macaca pavorosa e sai da jaula aos gritos, espantando os espectadores para fora da plateia —, Zózimo e Marcos não seguiram a turbamulta. Esconderam-se atrás da cortina. Zózimo queria ver os bastidores do truque, como as grades se rompiam, quem fazia a barulheira para instaurar o pânico. “Konga”, a tal mulher-gorila, na vida real a simpática Marilene, levou um susto quando viu que os dois espectadores tinham permanecido na sala — depois relaxou e conversaram. Zózimo agradeceu com gorjeta.

No mesmo Tivoli, Zózimo tentava sem sucesso conseguir os brindes na barraca de tiro ao alvo. Com uma espingarda de rolha ia desperdiçando as oportunidades até que, no último tiro, ressuscitando o moleque das ruas do Jardim Botânico e das bagunças do Andrews, resolveu mudar a mira. Tirou o foco antes concentrado na arquibancada de bolas de plástico e bonecos de pelúcia e atirou na bunda da moça que entregava os brindes. “Ganhei”, vibrou, “você é meu brinde, vem”, e todos gargalharam como no final feliz de um filme infantil.

A nova família foi muitas vezes para a Disney, em Orlando, e morria de rir com os sustos que levava na Haunted Mansion ou na Space Mountain. Até mesmo quando os dramas de Zózimo voltavam a se repetir, o saldo mostrava-se divertido, como se fosse mais uma excursão a um brinquedo de parque infantil. Um dia, assoberbado por uma ressaca malcurada e confuso com os comandos de um carro novo, ele saiu da garagem do edifício direto para dentro do canal em frente. Salvaram-se todos, embora retirados das águas por cordas do Corpo de Bombeiros — às gargalhadas. “Olha o que está aqui!”, disse Zózimo, chamando atenção de Dorita, Gabriela e Marcos. Mostrava o sapato. Na queda, o mocassim se desprendera e mudara de função. Virara aquário com um peixe dentro, boiando.

A programação social, que já estava ficando discreta no calendário da cidade, foi se tornando cada vez mais rarefeita na agenda particular de Zózimo. Nem ir ao Maracanã estava indo mais. A vida noturna, na chegada aos anos 1990, estava dominada por cenas ultrajovens e desconfortáveis, como as boates Dr. Smith, Kitschnet e Crepúsculo de Cubatão. Era a onda clubber, e Zózimo participava de outro clube. Apostava na felicidade doméstica do novo casamento, no prazer de ver TV com a bem-humorada Dorita, e fazia questão de estampar esse cotidiano no jornal. Se durante a paquera publicara fotos dela, numa sinalização em código para a aproximação, o casamento não impediu que o colunista — às favas com os velhos paradigmas de distanciamento do jornalismo! — mantivesse os torpedos fotográficos com o rosto sempre sorridente da amada e legendas calientes (“o allure nonchalante de Dorita Moraes Barros”). “Não vou mais a nenhum lugar de badalação”, declarou a Marisa Tavares em entrevista à Veja de abril de 1988. “Ninguém vai me ver em festa de Fórmula 1 ou aniversário da Luma de Oliveira.”

Gostava de encontrar os amigos mais íntimos, o quarteto que formava com Sergio Bermudes, Ricardo Amaral e Paulo Marinho. Uma vez por semana jantavam e riam da humanidade no Ouro Verde. Garotos crescidos, punham-se apelidos. Marinho, como trabalhava em estaleiro e, na opinião do grupo, era obrigado pelo dono, Nelson Tanure, a ficar vestido de marinheiro para enfeitar o convés, ganhou o vulgo de “Cisne”, referência ao hino da corporação, “O cisne branco”. Ricardo, pelo que carregava na cara, era “Barba”. Zózimo, por ter dado um jantar supimpa em que se esmerou na produção, era “Maria Eudóxia”, a dondoca paulista que as colunas locais chamavam de “a anfitriã número um”. Bermudes era o “Guru”. De quê? “Guru de merda”, explica ele, “de porra nenhuma.”

Outro grupo de amigos era o formado por Miguel Pires Gonçalves, diretor da área financeira da Rede Globo, o empresário Kiko Malzoni e Henrique Schiller de Mayrinck, dono de uma casa espetacular no Morro da Joatinga, com uma das quadras de tênis onde Zózimo continuava apresentando seu repertório errático de backhands e forehands. Sócio de Paulo Marinho em negócios ligados à indústria naval, Schiller de Mayrinck foi a fonte de uma das notas de maior repercussão de Zózimo. Saiu em 22 de março de 1985, com o título “Último desejo”:

• De um conhecido socialite que costuma dividir seu

tempo entre o Rio e Nova York, explicando por que, ao

morrer, gostaria de ter suas cinzas espalhadas nos diversos

andares do Bloomingdale’s:

— Assim eu garantiria que minha viúva iria me visitar pelo

menos quatro vezes por ano.

 

Schiller era jogador compulsivo, e se na arte das frases se mostrava certeiro (de uma conversa com ele Zózimo tirou a máxima “quem não deve não treme”) na sorte variava muito. Era capaz de entremear fases de excelente situação econômica com outras nem tanto. Esteve, por exemplo, à frente da incrível aventura da compra de uma loteria no Paraguai. Alguns amigos, Zózimo inclusive, já aquinhoado pela herança de Boy, puseram dinheiro na operação internacional. Uma peça do esquema era “Brigitte”, apelido de Paulo Cesar Ribeiro Filho, operador do mercado de capitais. Perderam todos. Não havia loteria. A papelada apresentada pela parte paraguaia, assim como o uísque que vinha de lá, era falsa.

Um terceiro grupo de amigos reunia-se nos fins de semana no Club Méditerranée de Mangaratiba. Zózimo, nostálgico dos concursos de twist na adolescência, continuava na pista, embora não chegasse a estabelecer com os ritmos modernos o mesmo nível de perfeição. Queria acima de tudo diversão, e uma vez, com Dorita, subiu ao palco do clube para participar, os dois com fru-frus de bailarinas, de um concurso ao som do “Lago dos cisnes”.

A opção era pelos mais redondos zeros de pompa e circunstância. Ia em frente com a nova rotina: dormia depois de ver os telejornais e o programa do Jô Soares. Aos convites que ainda chegavam para festas, agradecia penhorado. Sua ausência causava sérios prejuízos aos negócios da noite carioca, pois as notinhas funcionavam como um guia indicativo. “Ele estava farto daquilo tudo, das mesmas conversas, dos mesmos personagens, do assédio insuportável dos bicões querendo aparecer e falar com o grande colunista”, é como Paulo Marinho percebia o mood do amigo. “Sair da roda-viva era difícil, os convites eram insistentes e sedutores. Afinal, aquilo tudo só ficava no ar por causa das notas do dia seguinte. Sem elas, sorry, não existiriam.”

Houve uma noite em que precisou ir a um evento no Hippopotamus. O arquiteto Ricardo Bruno encontrou-o sozinho, olhando o espelho d’água que descia pela parede e decorava a casa. “Eu devia estar lá dentro”, apontou Zózimo. “Estou me sentindo um peixe fora d’água.” A sensação era a de que tinha ido a todas as festas, saboreado todos os jantares e precisava de um antiácido contra azia e má digestão. Numa chanchada da Atlântida, Nem Sansão, nem Dalila, Oscarito acaba de comer uma feijoada. Passa a mão na barriga, sonolento, e com uma careta abusa do nonsense, enquanto se espreguiça: “Estou com uma idiossincrasiiiiiiia.” Zózimo parecia sentir algo semelhante, uma permanente indisposição comportamental diante de toda aquela comédia de pratos e requintes coreografados. Não valia mais a pena. Até Josefina Jordan percebera: “Hoje, para garantir o sucesso de uma festa no Rio basta pendurar um pernil na porta.”

Os chatos agora circulavam às dúzias, e não mais singulares como outrora, quando Gunter Sachs, marido de Brigitte Bardot entre 1966 e 69, o típico chato-gangorra, era capaz de, ao sentar, fazer todo o resto da mesa se levantar. Numa das colunas daquele período, sob o título “Filosofia”, Zózimo reproduzia a frase de um frequentador das festas do Rio, certamente ele próprio: “Chato é quem não nos faz companhia e ainda nos rouba a solidão.” Continuava indo a algumas festas com Dorita, mulher de muitos amigos, mas só as que não tivessem pose nem exigência de glamour no dress code. “Hoje só vou em casa de gente com quem eu tenha total intimidade. Outro dia fui a um jantar na casa do Daniel Filho, só para oito pessoas. Otto Lara Resende, Armando Nogueira, Miguel Pires Gonçalves, o pai dele, o general Leônidas Pires Gonçalves, o Evandro Carlos de Andrade, o Ricardo Amaral, o Daniel e eu. Aí, sim, vale a pena. Sou o primeiro a chegar e o último a sair”, foi como atualizou seu perfil numa entrevista à Ele Ela.

Começou a noticiar as festas pelo lado cômico. Como não as frequentava, possuía distanciamento para cair na gargalhada se assim quisesse. Não seria falta de cortesia. Em 12 de agosto de 1989, anunciou que houve uma vítima num coquetel oferecido por Maria Celina e Carlos Flexa Ribeiro. Nem tudo, lhe contaram, havia corrido bem:

 

• Uma conhecida e festejada socialite teve os cabelos

chamuscados pelas chamas de um candelabro.

• Por pouco não lambeu como um balão.

 

O título da nota era “Flambée”.

O Réveillon daquele ano, organizado pela socialite Lily de Carvalho, ganhou elogios, mas enviesados, também num tom irônico:

 

• Até as cortinas combinavam com as toalhas.

• E os candelabros? — Uma loucura! — preciosidades

trazidas das várias fazendas da anfitriã, que se misturavam

com as peças de valor inestimável que decoram seu

apartamento.

• Foram, aliás, 30 os agentes de segurança especialmente

contratados por Lily para a ocasião.

• Não se sabe se para proteger os convidados da festa ou

proteger a festa dos convidados.

Festas com segurança espalhado entre convidados?! Começavam também aquelas em que era necessário apresentar a camiseta-convite:

 

• A febre das festas uniformizadas com t-shirts que tomou

conta do Rio resultou ontem num curioso diálogo

entreouvido numa esquina de Ipanema:

— Você vai ao meu jantar de quinta-feira lá em casa?

— Claro que vou. Onde eu pego a camiseta?

 

Definitivamente, se uniformizar de camiseta Hering do patrocinador e dançar cercado de seguranças... era melhor ficar em casa e dormir cedo. Cineminha do Harry Stone, o embaixador de Hollywood, na antiga embaixada americana? Não, obrigado. Às oito da manhã já fazia um bom breakfast para mais tarde não ter que almoçar e poder ficar mais tempo ao telefone, na apuração. Dava uma volta de bicicleta na Lagoa Rodrigo de Freitas. Quase sempre voltava com uma nota. Num dia, Dorita encontrou o marido já dentro de casa, ensanguentado e furioso. Uma gorda estabanada começara a abrir os braços no momento em que ele lhe passava ao lado. Caiu da bicicleta, estava fulo. No dia seguinte, impresso no jornal, o desabafo saía com o equilíbrio entre a raiva, a ameaça de vingança e o eterno senso de humor:

 

• Roga-se às damas e cavalheiros que se exercitam na

ciclovia da Lagoa como libélulas, agitando os bracinhos e

remexendo os traseiros, que reprimam os arroubos. Pode

acontecer de vir por trás um gafanhoto mais esperto e...

crau.

 

Todos aqueles nomes, às vezes até cinquenta, que ele citava entre as presenças das festas tinham corrido para as colunas de Hildegard Angel e Nina Chavs, ambas do Globo, e até mesmo do gordíssimo e malvadíssimo Reynaldo Loyo, da Última Hora, um colunista atípico — convidá-lo era a melhor forma de calá-lo. Dizia Zózimo numa nota de 1987:

 

• Eclético de verdade era o grupo de convidados que

compareceu anteontem ao jantar oferecido pelo casal

Alberto Boruchovitch para festejar o aniversário do

colunista Reynaldo Loyo.

• Ia da sra. Carmen Mayrink Veiga ao Capitão Guimarães.

• É mais que o arco da sociedade.

• É o arco, a flecha e o alvo da sociedade.

 

Loyo recolhia material para notas e curtia um viés literário, contos. Em “Katia Milagros”, ele mostra grã-finos em torno do caixão de um de seus defuntos. Como se estivesse enterrando a todos numa alegoria carnavalesca daquele fim de tempos do soçaite, põe a turma para cantar “New York, New York” no momento em que o corpo está sendo cremado. A plateia é de figurantes reais, e Loyo, sem escrachar nas tintas, vai apontando: Lourdes Catão, o colunista social de Brasília Gilberto Amaral, Marilena Cury, Beki Klabin, Gisela Amaral... Lily de Carvalho não pôde ir (“estava com uma conjuntivite”).

Cada um a seu jeito, de Zózimo a Loyo no arco de assinaturas que continuava enchendo os jornais, os colunistas enterravam a sua sociedade, um aglomerado que existia apenas segundo o espaço que eles forneciam. Carmen Mayrink Veiga, de volta de uma década em Paris, reaparecia na página de Zózimo. Não mais com destaque ou palavras embevecidas. Numa nota do início dos anos 1990, ela parecia outra pessoa. Não era mais a locomotiva do trem de prata carioca, mas uma beata de igreja da Iugoslávia.

• A elegante Carmen Mayrink Veiga não para de acender

velas para a Virgem de Medjugorje, cujo santuário já visitou

mais de uma vez, na Iugoslávia.

• Agradece, assim, a graça alcançada.

 

Era uma nota em código. A “graça alcançada” era o fim do namoro de Antenor, seu filho, com a modelo Monique Evans. Ele já começava a sair com Patrícia Leal, descendente do conde Modesto Leal, ótimo partido, que havia sido abandonada por Eike Batista em favor de Luma de Oliveira, por coincidência ex de Antenor, numa versão coluna social do poema “Quadrilha”, de Drummond. Babado forte. Dois homens ricos, Antenor e Eike, subjugados pelos poderes de duas suculentas rainhas de bateria de escola de samba — Monique, da Mocidade Independente de Padre Miguel, e Luma, da Tradição, de Oswaldo Cruz.

Coube também a Zózimo dar a primeira foto de Patrícia e Antenor juntos, discretamente entrelaçados na catedral noturna do Hippopotamus, a pracinha moderna onde os bem-nascidos faziam o footing e, depois da admiração mútua, resolviam se acasalar. O flagrante foi combinado por Carmen com Ronaldo Zanon, o fotógrafo da boate, e sua publicação botava uma pá de cal no pesadelo da senhora em ter o filho casado com Monique, modelo espevitada de corpo enlouquecedor, capaz de fazer topless em Ipanema e sair com os peitos igualmente desnudos à frente da bateria. Antenor não resistiu, ninguém resistia, mas Carmen torcia por um casamento melhor para o filho. Quando Antenor trocou Monique por Patrícia, responsável pelo surgimento da expressão “patricinha” (a moça toda certinha e bem-vestida), ela fez questão de que Zózimo anunciasse em primeira mão a sua felicidade. Zózimo foi solidário com a musa. Sem dizer que ela era mãe de Antenor, sem historiar esse passado de enfeitiçamento do filho diante da modelo estonteante, ele colocou na linha final da nota sobre a proximidade da data do casamento: “Tia Carmen, desta vez, está toda contentinha.”

Carmen, outrora a “dama maior dos salões do Rio”, agora era a “tia”. O novo tratamento aos mais velhos foi ensinado às crianças naquela década pela modelo Xuxa Meneghel, a ex-pantera e agora apresentadora infantil de TV. Zózimo, a propósito, não dava foto de celebridade de TV na coluna, à exceção dela, sua amiga desde aquele Baile das Panteras. Em dezembro de 1991, em companhia de Dorita, ele foi até Buenos Aires a convite da artista, recebida pelo então presidente Carlos Menem. Outras colunas diziam que Xuxa e o argentino tinham um romance, mas Zózimo não embarcou na fofoca. Depois, Zózimo e Dorita atravessaram a cidade com Xuxa dirigindo a ambulância doada por ela a um hospital.

A passagem de Lady Di e o príncipe Charles pelo Rio, em abril de 1991, recebeu apenas um texto-legenda com o casal cumprimentando na foto a “tia” Carmen Mayrink Veiga. Ainda assim havia quem continuasse perguntando sobre coluna social, como fizeram os repórteres Maria Helena Esteban e Ney Reis, da revista Ele Ela, em junho de 1992:

 

— Você fala de política, demonstra mudança no colunismo

social.

— O equívoco está em chamar a coluna que eu faço de

social, ou a coluna que o Boechat faz de social. No Rio, eu só

conheço uma coluna que poderia ser chamada assim, que é

a da Hildegard Angel. Ela trata especificamente de batizado,

casamento, descreve vestidos etc. A única coisa que liga

minha coluna a uma coluna social é a foto. Se tirar a foto,

não existe qualquer traço de ligação.

— Quer dizer que nem o Ibrahim Sued faz coluna social?

— É um pouco social. Ele ainda consegue descrever um

jantar com detalhes, o vestido das mulheres, mas ao mesmo

tempo reserva uma parte à política e à informação. É uma

coluna ambígua, bissexual.

 

A palavra “bissexual” deve ter saído com um risinho de lado. Zózimo gostava de embaralhar o sentido dela, transformá-la numa graça nonsense. Começou a brincadeira quando a pegou numa declaração do pugilista Maguila, um personagem a quem sempre jabeava, e mais uma vez era devidamente gozado em 26 de agosto de 1989:

 

• Quando o pugilista Adilson Maguila abre a boca, só sai

golpe baixo.

• Entrevistado por um repórter numa pesquisa sobre aids,

o campeão sul-americano de pesos-pesados produziu a

seguinte pérola:

— Eu não tenho medo disso, não, porque sou bissexual. Eu

só transo com minha mulher.

• Pelo visto, muito.

 

A última aparição de um jornalismo “bissexual” na página 3 do Caderno B foi a cobertura do casamento de Antenor e Patrícia, mesmo assim em espaço discreto, com apenas uma foto. Nela, Regina e Paulo Fernando Marcondes Ferraz contracenam com Ilde e Jean-Louis de Lacerda Soares, mas não na pose formal dos antigos casais da coluna de Jacinto de Thormes, Ibrahim ou do próprio Zózimo no início. Na foto de 27 de novembro de 1992, Paulo Fernando não está beijando a própria mulher. Sua boca aproxima-se maliciosamente divertida do pescoço da amiga Ilde, que sorri sob o olhar compreensivo do marido.

Casavam-se os príncipes herdeiros da sociedade carioca, mas Zózimo desmontava qualquer possibilidade de ainda acreditar nesses rótulos. Ninguém mais fazia pose. O colunista abaixava a bola e não descrevia o que estava à sua frente com o clichê de “casamento do ano”. Antenor era apresentado como “o bonitão dos sonhos da maior parte das solteiras da cidade”. A noiva era garota papo firme: “A bela, agradável e simpática Patrícia também passou anos virando a cabeça de muita gente boa.” Não podia ser de outro jeito. Os dois foram estampados várias vezes na coluna com sucessivos novos pares — e era assim mesmo que as gerações se reinventavam. Escreveu Zózimo num trecho da nota do casamento:

 

• A vida mudou. Se, de um lado, tendo o imponente

casarão em Laranjeiras dos pais da noiva, Beatriz e Arnaldo

Ferreira Leal, Patrícia e Antenor mostraram que ainda é

possível marginalizar os social climbers e reunir, sem

penduricalhos, boa parte do que se convencionou chamar de

sociedade tradicional carioca, de outro ficou evidente que os

personagens podem ser os mesmos, mas as condições em

que eles se movem mudaram inteiramente.

 

Zózimo anotava que, pela primeira vez na história dos grandes casamentos, a noiva não atrasara, mas sim um casal de padrinhos, preso no engarrafamento. Também identificou como “inédito” que alguns convidados chegassem a bordo de rádio-táxi, “o que seria impensável numa cerimônia do gênero há 20 anos”. O empresário Daniel Klabin, de terno pérola num tom próximo do vestido da noiva, também chamou atenção e foi desculpado por Zózimo. A etiqueta recomenda que as mulheres evitem o branco para não rivalizar com a noiva, mas não consta de nenhum manual que tal cuidado deva ser estendido ao terno claro dos cavalheiros.

O noticiário do casamento não fazia mais o tradicional chorrilho de nomes como d’antanho. O colunista social agora era um cronista da cidade, estava de olho espichado para além do altar:

 

• Cabe ainda registrar, acentuando a mudança dos tempos,

a localização geográfica da mansão dos Leal, em Laranjeiras.

• Cercada décadas atrás por vivendas de porte semelhante,

a casa é hoje um solitário monumento ao bom gosto e ao

bem viver em meio à balbúrdia imobiliária que tomou conta

do bairro.

• Permite, por exemplo, que as sacadas dos prédios

vizinhos funcionem como arquibancadas ocupadas por

torcedores curiosos.

 

Zózimo acompanhava as transformações e usava a régua de seus conhecimentos. Não tirava onda de grande jornalista. De preferência, fazia o mundo girar a partir da própria curiosidade — e ria das conclusões a que chegava. Já tinha currículo para fazer a pose que quisesse, mas não estava nem aí para a formação do culto da celebridade Zózimo. Pelo contrário. Dorita via um inner child constante no companheiro.

Em outubro de 1989, ele recebeu um convite da Associação dos Antigos Alunos dos Padres Jesuítas para festejos no Santo Inácio. No programa, itens como Missa de Ação de Graças e que tais, tudo muito natural e reprimidamente Santo Inácio. Zózimo quase caiu para trás e colocou o espanto na coluna quando viu o último tópico:

 

• Às 21h, cocktail e festa dançante no claustro do Colégio.

• No claustro?!

Será que o fantasma do padre Barros dançaria o “Girl, you know what it’s true”, o sucesso daquele ano do Milli Vanilli?

O amor novo com Dorita fez com que o prazer de viajar crescesse ainda mais. Em 1989 eles botaram o pé no jato e foram onze vezes a Paris. Estava feliz. Numa noite, no início de 1990, Zózimo ria mais que de costume durante uma pizza no Gattopardo, na Lagoa. “Você não está notando nada?”, dizia para Dorita em meio à risadaria estranha, em que ele deixava o sorriso escancarado por um tempo mais prolongado do que deveria. “Como assim?”, devolvia ela, diante do marido que não parava de rir, artificial. Ficaram nessa conversa de malucos até que Zózimo abriu o jogo e mostrou o que ela não notara. O dente frontal esquerdo, lascado desde a infância no pulo mal calculado na cachoeira do tio Armando, estava agora, quase aos cinquenta anos, novamente preenchido, obra do consultório do dentista Olympio Faissol. Não precisava, disse Dorita, fã do charme torto de antes — e foi aí que ele riu mais ainda.

No que os articulistas viam gravidades seriíssimas, Zózimo percebia condições de botar o inner child para fora e com a brincadeira iluminar o beco sem saída que a todo momento se fechava sobre o país. Em 3 de abril de 1990, depois de Collor ter decretado o confisco da poupança, escalou um grupo de amigos para contar, a seu jeito, como estava o bolso pátrio. Todos tinham sido limitados ao mesmo saque de até 50 mil cruzados novos, uma mixaria, frente ao confisco feito pelo governo na caderneta de poupança de todos. A população empobreceu por igual, de um dia para outro viu sumir do banco todo o dinheiro depositado, com a promessa de que seria devolvido, corrigido, quase dois anos depois. No Roda-Viva, o rodapé da coluna onde jogava notas de agenda e atendia a pedidos de fontes que, em troca, prometiam uma grande informação mais adiante, ele fez um retrato do miserê nacional. Aproveitou-se da compreensão infinda dos amigos. Descreveu-os em situação de penúria cômica:

 

• Degustando churros no calçadão da praia do Pepino, o

promoter Guilherme Araújo.

• Chiquinho Brandão encarando uma fatia de pizza no B.B.

Lanches do Leblon.

• Kiki Garavaglia reuniu um grupo de amigas para um chá.

No menu: chá.

• Curtindo inesperada hepatite — o que significa uma

grande economia, já que não pode sair de casa, sequer da

cama — o empresário Fernando Bicudo.

• Dourava-se no fim de semana nas areias da praia do

Flamengo, vizinho a uma tendinha de sardinhas na brasa, o

sr. Harry Stone.

• O presidente da Bolsa de Valores do Rio, Francisco de

Souza Dantas, foi visto ontem na Praça XV, nas

proximidades de uma carrocinha do Angu do Gomes, de

olho comprido.

• Na missa das sete da igreja de São Conrado, Gisela

Amaral com Xinha e Antônio Espírito Santo, elas sem bolsa

para escapar do óbulo.

• A elegante socialite Regina Marcondes Ferraz,

surpreendida perplexa diante da peixaria da Cobal.

• Os amigos de Josefina Jordan se mobilizando para

festejar seu aniversário com um jantar de adesões na

churrascaria Tem-Tem.

• Desembarcava domingo, quase à porta de casa, de bordo

do ônibus 583 (Cosme Velho-Leblon), o presidente da

Academia Brasileira de Letras, Austregésilo de Athayde.

Todos os citados eram amigos próximos. A-do-ra-ram! O colunista inventara situações com personagens reais para retratar o país. Humor, jornalismo, literatura. Os limites dos gêneros estavam explodidos. De vez em quando alguém que se levava muito a sério não gostava. Foi o caso de Sônia Braga. Ela assistiu de cócoras a um discurso de Fernando Henrique Cardoso em Brasília e, no dia seguinte, precisou aturar a nota na coluna:

 

• No cinema: é um pássaro? É um avião? Não, é o Super-

Homem.

• No Planalto: é uma penosa? É uma enceradeira? Não, é a

Sônia Braga.

 

O mesmo valia para Zózimo: é um editorialista? É um piadista? É um social colunista? É um cronista? Não, é o Zózimo. No estilo Dorita: tout court!