Enquanto Houver Champanhe, Há Esperança

Joaquim Ferreira dos Santos · Capítulo 37 de 50

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Enquanto Houver Champanhe, Há Esperança

Capítulo 37

 

O Globo anunciou a chegada de Zózimo no alto da primeira página de 26 de junho de 1993, um sábado. Era a chamada para uma matéria, no caderno Ela, em que o futuro colunista do jornal estrelava a seção O Meu Rio, contando o que curtia fazer na cidade. Pela foto já se podia ver que o colunismo social não vestia mais smoking nem se deslocava pela cidade em Rolls-Royce. Zózimo posou na Lagoa Rodrigo de Freitas escorado numa bicicleta, de short, camiseta, nem aí para as etiquetas das antigas colunas — está de pernas abertas. Nada a ver com o tipo a que Jacinto de Thormes acostumara o Rio. Parecia-se mais com o desenho de Miguel Paiva para retratar o personagem Gatão de Meia-Idade, outra estrela do JB que O Globo conquistaria a partir de 1996.

A edição daquele dia obedecia aos bons comandos do jornalismo e das relações pessoais. Logo abaixo da foto de Zózimo vinha a de Ibrahim Sued, que concedia no mesmo caderno uma entrevista a Alessandro Porro sobre os seus quarenta anos de colunismo, efeméride que seria comemorada dias depois no Copacabana Palace. Não era coincidência. O jornal precisava adular o antigo colaborador. Ibrahim, embora já cogitasse trabalhar menos, ficara aborrecido em não ter sido consultado sobre a nova contratação. Ameaçou ir para O Dia, largar a profissão. Entretanto, ouviu Evandro Carlos de Andrade (“parar seria a morte”) e aceitou, magoado, trocar a coluna diária por uma semanal, aos domingos, na metade da página 4 do Segundo Caderno. Certo de que tinha bala para cair atirando, Ibrahim disse a amigos: “Não vale a pena esperar gratidão do jornalismo. Aliás, não espere gratidão nenhuma porque nem Jesus Cristo escapou das maledicências daqueles que tinha como seus amigos.”

Zózimo não tinha nada a ver com aquilo. Uma vez retrucou, bem-humorado, quando um repórter disse que ele era a “antítese de Ibrahim”: “Se for para estabelecer uma diferença entre nós dois, além da idade, é o fato de que o Ibrahim mistifica a posição, enquanto eu a desmistifico. O colunista é um jornalista como qualquer outro. O fato de assinar uma coluna não confere importância a mais em relação aos colegas da redação.” Eram amigos, Zózimo fazia questão de declarar, só que aquele era um terreno delicado. Os repórteres Ney Reis e Maria Helena Esteban já haviam jogado cascas de banana para ver como ele surfava, na revista Ele Ela de junho de 1992: “O Ibrahim tece elogios a você, mas ao mesmo tempo diz que sua coluna noticia pessoas que não são notícia.” “Acho a mesma coisa dele”, devolveu Zózimo. “Minha coluna não tem compromisso com casta, classe social, e talvez a preocupação do Ibrahim seja essa. O maior pé-rapado do mundo pode sair em minha coluna, desde que tenha notícia. Independe de ser bem ou malnascido.”

Enfim, não seria surpresa se, apesar de se gostarem, a competição falasse mais alto e o pau quebrasse no Globo. Com os dois na capa daquele sábado, tentava-se evitar focos de ciúme — e olhe que ainda havia os outros colunistas. Hildegard Angel, aos sábados, no Ela, e Ricardo Boechat, todos os dias, no Swann, exigiriam, na hora devida, os seus paparicos. Fora do jornal, alguns já eram exigidos.

Uma noite, Ibrahim chegou ao restaurante Antiquarius e encontrou Zózimo e uma turma instalados na sua mesa preferida, a do canto à direita, aquela perfeita para ver e ser visto por quem chegava. Acusou o golpe. Pretextando dores na coluna, pediu que o maître Manoelzinho fosse até o mezanino, onde havia uma cadeira que mais parecia um trono, de espaldar altíssimo, e a trouxesse para o salão. O “trono” foi colocado à cabeceira de uma mesa. Sentado nele, como se fosse o rei de alguma propriedade, talvez o Cantão dos Colunistas, Ibrahim olhava Zózimo de cima. Sossegou. Achou-se colocado no status que merecia.

O Globo era um templo grego sustentado por colunas com um perfil parecido. No primeiro caderno, além das citadas, ainda havia uma chamada Pessoas. Todas disputavam notas com fontes que se repetiam, e era comum o dia em que divulgadores espertos conseguiam emplacar os interesses de seus patrões em duas colunas. Nem o Rio de Janeiro, com sua capacidade monumental de criar assuntos e personagens, poderia fornecer material de qualidade exclusivo suficiente para que cada um pudesse brilhar. A guerra entre os colunistas era inevitável. O pepino sobrou para a ex-colega de Zózimo no JB, agora editora do Ela, Mara Caballero.

Mara fora encarregada de publicar as duas matérias: uma para reapresentar Barrozo do Amaral aos leitores do Globo e outra para informar a nova periodicidade de Ibrahim. Mara abriu espaços milimetricamente idênticos, sem um centímetro ou palavra a mais de simpatia por um ou por outro. Ibrahim adorou a matéria sobre ele. No título era chamado de “tímido” (logo ele, tido por temperamental e vulcânico) e “moderno” (logo ele, o mais longevo colunista em atividade no país). A matéria que trazia Zózimo de volta, agora como grande estrela do jornalismo, intitulava-se “O satélite da sociedade”. O subtítulo dizia “Colunista recolhe notas em bares e restaurantes”, mas ao mesmo tempo o texto explicava que ele quase não saía mais de casa para badalações.

Assinada por Marcos Tardin, a matéria mostrava como estavam defasados os leitores que imaginavam Zózimo ainda cruzando as noites a bordo de um cometa serelepe. Ele agora, dizia a matéria, estava interessado em dar três voltas diárias, montado na sua bike, em torno da Lagoa Rodrigo de Freitas. Admitia ir de vez em quando à feijoada do Ricardo Amaral aos sábados, no Gattopardo, e a jantares no Antiquarius, de onde sempre saía carregando notas a serem desovadas na edição do dia seguinte. Os almoços de sexta-feira no Esplanada Grill e as incursões ao bar Coringa, na Cobal do Leblon, aos sábados, também considerava “tiros certos”.

Era uma daquelas matérias para mostrar o Rio das celebridades, e lá foi Zózimo relatando a sua cidade, que agora, desligada a luz da Light do antigo colunismo de festas, vinha banhada pela luz do sol. Gostava de caminhadas pelas alamedas do Jardim Botânico, do outro lado da rua onde morava, e também pela estrada das Paineiras, na subida para o Cristo Redentor. Podia ir pedalando até a Barra da Tijuca, na praia em frente ao restaurante Lokau, ou à Casa dos Sabores, na Gávea, comprar pastas e cervejas importadas para mais tarde receber amigos (José Hugo Celidônio, Rodolfo Garcia, Renato Machado, Sebastião Lacerda, José Antonio do Nascimento Brito, Paulo Fernando Marcondes Ferraz, Ricardo Amaral). Sábado também era dia de cortar o cabelo com Jean-Luc, perto da Cobal. “Outro dia de manhã fui cortar cabelo e na saída encontrei o Tom Jobim no Coringa. Quase não chego em casa. Conversamos até cinco da tarde”, dizia na matéria.

Não se mostrava nem um pouco interessado em manter o mito da função e deixava claro que experimentar programas novos não era com ele. Para quem estivesse a fim de dormir tarde, recomendava o Hippopotamus. Raramente estaria lá de corpo presente, no entanto qualquer frase dita chegaria a seus ouvidos através de informantes pelas mesas ou pelo próprio dono da casa. De factual, o importante da matéria era cravar a data exata da estreia. Tinha combinado com Evandro Carlos de Andrade que começaria no dia em que tivesse uma bomba para a primeira página. O jornal esperava que aquilo fosse para logo (Danuza estreara no JB uma semana depois da saída dele), mas julho já se aproximava e Zózimo, oficialmente na casa desde a carta de demissão do JB, no dia 10 de junho, nada de sensacional acusava ter caído na rede.

Evandro era um homem bonito, alto, elegante, de óculos, e havia moças na redação que o consideravam, fora dos quadrinhos, a melhor encarnação do jornalista do Daily Planet, Clark Kent, o repórter tímido que quando não estava nos plantões assumia a identidade de Superman. O trabalho a que Evandro se propunha no Globo, além de levar grandes personalidades para a casa, era de super-herói. Queria sacudir o jornal e reinventá-lo — e para isso não podia ficar distribuindo bondades. Diariamente fazia a crítica, anotando a caneta, com uma letra redonda e bem legível, os erros encontrados na edição. Eram muitos, e ele não se constrangia em denunciá-los com estardalhaço cru. O exemplar, rabiscado, ficava exposto para que todos vissem e aprendessem a fazer melhor.

“Surto de imbecilidade” era uma anotação comum. A redação tremia, os resultados, porém, começavam a aparecer em edições cada vez mais corretas. Era um grande jornalista, um representante da última geração de mestres em redações, profissionais mais experientes que passavam conhecimentos, e não cafunés, para a cabeça dos mais novos. O diretor de redação ensinava. Para que todos entendessem o que precisava ser feito, tinha poucos sorrisos e muita crítica. “Seja bem-vindo”, disse ao receber um jovem editor em seu aquário. “Da próxima vez que entrar aqui vai ser para levar um esporro.” O silêncio que viesse dele era bom sinal. Estava tudo em ordem na edição daquele dia. Uma vez o editor de Esportes, Renato Maurício Prado, telefonou de casa para seu subeditor, Antonio Roberto Arruda, a fim de saber como iam as coisas, se Evandro tinha dito algo. “Silêncio total, Arrudinha?” “Silêncio consagrador, chefia.”

Evandro, com seu rigor e bom gosto, criou O Globo moderno. Preocupado com a demora de Zózimo em definir a estreia, decidiu pelo 14 de julho. Era uma quarta-feira, dia sem nobreza para colocar no ar uma atração tão espetacular. Mas foi o modo que encontrou para o time entrar em campo, do jeito que fosse, e com uma graça escondida. O 14 de julho dava um sentido sofisticado, de piada histórica, ao agendamento da coluna. Era um aceno para a cultura francesa, tão curtida por Zózimo nos tempos de Carlos Swann. Embutia a informação da Queda da Bastilha. Traduzido para as guerras jornalísticas, Evandro queria que nas entrelinhas os mais espertos entendessem como sendo o início da queda do JB. Ao fundo, Maria Antonieta dizia que para matar a fome do povo, se não houvesse pão, que se lhe desse brioche. A frase servia para a coluna. Num jornal, pão era pão, a notícia fundamental, já Zózimo era o padeiro capaz de servir o brioche fino das notas que tinham sido impressas não para matar a fome, e sim tornar a existência mais divertida. A vida não cabia numa hard news.

Telmo Martino, de volta ao Rio, publicava crônica no Ela. O veneno que o enfant terrible do colunismo dos anos 1970 inoculara no cangote das celebridades paulistas tinha sido excessivo e estragara a própria carteira de trabalho. Ele precisou se abrigar novamente no jornalismo carioca e, mordaz, sarcástico, era peça importante para O Globo mostrar como estava mudado. Na crônica do sábado 3 de julho, com o tom sofisticadamente peçonhento de sempre, ele fez a sala de recepção ao novo companheiro. Contou seu romance profissional com ele:

Houve um dia, numa década, em que Zózimo Barrozo do

Amaral desembarcou em São Paulo, e rico, fino, chique e

bonito, entrou na redação do jornal onde eu trabalhava e me

convidou para almoçar. Num silêncio que se fez total, só se

ouviam os suspiros mal reprimidos de uma repórter da

Política, de outra repórter da Geral e de um copy da

Variedades. Durante o almoço, o rico, fino, chique e bonito

Zózimo Barrozo do Amaral me convidou para trabalhar com

ele. Na volta encontrei a redação já descontrolada pela

curiosidade e pela inveja. Ouvi que dinheiro não seria

problema e que, lá ficando, eu seria uma estrela de grandeza

ainda maior que a do portador do convite.

Entre a Fink e o ficar, eu fiquei. Enquanto eu notava que

muitos me imitavam, cheguei a me sentir uma estrela

paulista. (Isso existe?) Mas, apesar de, em todas as

referências, eu me mostrar um adepto do cultural chique,

tive que aguentar a ira de muitos. Todos usavam o mesmo

xingamento em seu desprezo: “colunista social”. Duvido que

alguém se dirija ao Zózimo Barrozo do Amaral em termos de

tão baixo calão. Além dos que já estão trabalhando nos

jornais há toda uma multidão que sonha em ser Zózimo

Barrozo do Amaral quando crescer. Uma multidão não mais

só de homens. Muitas mulheres também já embarcaram no

mesmo sonho. Ou será que já tem alguma querendo ser

Joyce Pascowitch? (...)

Todos escrevem coluna, ninguém como Zózimo Barrozo

do Amaral. O segredo de Fred Astaire foi esconder, durante

suas exibições, o esforço de suas invenções e ensaios. No

caso de Zózimo, a explicação é mais grosseira. É o que os

ingleses, sempre rápidos na divisão por classes, chamariam

de uma questão de upbringing. Aquilo que, numa tradução

brega, pode ser dito como “questão de berço”. Quem já está

lá nunca entenderá o esforço dos que têm que gastar muitos

anos numa escalada. Por isso quem não for rico, fino, chique

e bonito deve desistir de imitar Zózimo Barrozo do Amaral.

Olhe em volta e veja quanta cara quebrada no esforço.

Depois desse tempo todo, reencontro, finalmente, a

oportunidade de trabalhar, ocasionalmente, no mesmo

caderno, do mesmo jornal, em que Zózimo cintilará a verve

de sua elegância. Mara Caballero vai ficar impressionada

com minha nova assiduidade nas visitas à redação.

Encontrar Zózimo é um prazer só igual ao de ler os instantes

de perversidade respeitosa e elegante de sua coluna. Depois,

a festa só começa, realmente, quando ele chega.

 

Zózimo tinha chegado à grande festa que O Globo pretendia promover no jornalismo. Fazer com que a elite, no café da manhã, mudasse o logotipo do jornal ao lado do pão francês. Ele não estava exatamente animado, estava era profissionalmente disposto a manter agradável o petit déjeuner de quem pagasse para tal. O repórter indicado pelo jornal para trabalhar com ele foi Timóteo Lopes, um gaúcho quase homônimo de Tim Lopes, repórter de Polícia que seria assassinado nove anos depois por traficantes. Como se fosse um técnico dando as instruções antes de o time entrar em campo, Zózimo chamou-o para um café na lanchonete da redação. “Você não precisa se preocupar com furos”, disse. “Se eles aparecerem, ótimo, mas não é por aí. Eu quero sacadas, bom humor.”

Timóteo assinara por algum tempo, no Globo, a Pessoas. Não era uma coluna de sociedade, não era de celebridades. Era um vale-tudo sem importância e que valia pelo que estava no texto de apresentação de Telmo Martino — a vontade, espalhada por todas as colunas, de imitar Zózimo. Quando Evandro lhe comunicou que seria o segundo do rico, fino, bonito e elegante Zózimo, Timóteo foi sincero: “Sou simplório, não tenho nada a ver com o mundo sofisticado.” Além de confiar na competência de Timóteo para levantar histórias, o chefão sabia que se houvesse qualquer problema com Zózimo, e todos os sinais haviam sido dados por Paulo Marinho de que eles ocorreriam, o auxiliar faria a coluna sozinho. Seria a versão atualizada, sem ego, de Fred Suter. Carregaria o piano para o grande solista, com a humildade de quem reconhecia ser essa a sua função.

Zózimo e Timóteo, uma dupla impossível, formada por um príncipe carioca e um gaúcho nem aí para essas delicatéssens, ficaram instalados com Marly numa salinha de cerca de seis metros por quatro logo na entrada da redação. Três terminais de computador, um aparelho de fax, quatro telefones. No Jornal do Brasil, a coluna ocupava um latifúndio de pé-direito confortável e era cercada do design que envolvia o resto do prédio. Era o padrão do jornal e um de seus orgulhos. No Globo não havia mobiliário bonito. Boechat trabalhava no meio da redação, misturado às outras editorias — e os furos que ele dava estavam cada vez mais sensacionais. Isso era O Globo. Curto, grosso e eficiente. Que Zózimo fizesse a sua parte — espargisse as gotas da essência própria com que havia vinte e quatro anos perfumava o jornalismo brasileiro.

A última grande estrela da redação tinha sido Nelson Rodrigues, morto em 1980. Ele escrevia sua coluna de esportes ali na redação, ao vivo. Em sua boa paz para com todos, sofria as diatribes que pontuavam as relações entre os profissionais, numa redação ainda propriedade dos hormônios masculinos. A mais comum resumia-se em alguém convidá-lo para um café. Nelson topava e deixava a lauda, já com a coluna pelo meio, no rolo da máquina — era a senha para que um comparsa daquele que o convidara para o café colocasse uma palavra qualquer ao lado da última escrita. Quando voltava do café, Nelson via a palavra, às vezes uma linha inteira, podre, e, considerando-a sua, ou para não dar bandeira de que estava sendo vítima de uma brincadeira, continuava o texto dali mesmo, agregando o caco dos colegas ao seu genial texto delirante.

Em 1993, com os acertos de Evandro e a chegada das grifes, a redação vibrava outra euforia. Timóteo Lopes ficou surpreso pela maneira como Zózimo usava o dicionário, um Aurélio novinho que o próprio colunista havia solicitado. Era um objeto em geral desprezado por jornalistas, seres que se julgam já aparelhados por palavras suficientes. Com Zózimo o dicionário virava peça fundamental. Não o usava na busca da ortografia correta, porque o programa do computador já ajudava na correção. Zózimo, segundo Timóteo, buscava os sentidos amplos, além da sinonímia, que dessem colorido aos textos.

 

• É insopitável o encantamento do ministro Fernando

Henrique Cardoso com a própria candidatura à Presidência

da República.

• É contagiante.

 

O “insopitável” da nota, de outubro de 1993, queria dizer “incontrolável”. O “contagiante” ficava por conta da ironia do colunista.

Quando a coluna de estreia foi finalmente publicada, no 14 de julho, o que era para ser um tiro de canhão soou discreto. A primeira página fez sua parte. Embaixo da manchete (“Governo vetará reajuste de 100% da inflação aprovado pela Câmara”), ainda na dobra de cima, havia uma foto de Zózimo debruçado e sorridente na nova mesa de trabalho. Estava de gravata e camisa social, usadas para ficar bem na foto e logo abandonadas. “Zózimo estreia no Globo”, dizia a chamada, “revelando mudanças no comando do Itamaraty. Ele também comenta a descoberta escandalosa que pode mudar o rumo da próxima sucessão presidencial. Sua coluna traz ainda PC Farias, Madonna, John Reed, dinossauros e um novo lançamento da BMW.”

A coluna estava na rua e a elite carioca tinha um bom motivo para botar o jornal debaixo do braço e ostentar, sem constrangimento, que, sim, lia O Globo. Até o logotipo da coluna, com o título Zózimo, copiava o padrão tipográfico do JB, tudo na ânsia de vampirizar aquele antigo padrão de charme carioca. Nada muito espetacular na estreia. A nota de abertura fora passada de Brasília por Rodolfo Fernandes, filho de Helio Fernandes, dono da Tribuna da Imprensa, ex-colega de Zózimo no JB, e que agora chefiava a sucursal do Globo. Rodolfo publicaria quase diariamente na coluna, quase sempre a primeira nota, o chamado “abre”. Eram notas de hard news políticas, sérias, que liberavam Zózimo para em seguida tratar do que realmente gostava — as “sacadas” que pedira a Timóteo.

A primeira nota de Rodolfo tratava, com ares de escândalo, da descoberta do disquete de noventa e nove notas fiscais frias de dezenas de empresas emitidas para uma outra que ajudava na campanha de Paulo Maluf. Informava que a Receita Federal suspeitava ser aquele disquete o fio condutor de bomba parecida com a que, acesa nos papéis de PC Farias, detonara a Presidência de Collor. A investigação acabou não dando em nada, sumiu do noticiário. Quem estreava também com uma colaboração era Pomona Politis, a infatigável correspondente nos bastidores diplomáticos. Dizia que os cortes de verba no Itamaraty tinham deixado sem refrigeração a casa do embaixador do Brasil em Nova York, onde a “canícula” (Zózimo deve ter escrito o clichê com um sorriso de deboche) já superara os quarenta graus.

O amigão Ricardo Amaral marcou presença. Ele já teria o modelo do restaurante que abriria em Ipanema, no local onde funcionava a Casa Moysés. “O décor e o cardápio serão inspirados no famoso Harry’s Bar, de Veneza.” O bar jamais foi aberto. Eram quinze notas, contando com o Roda-Viva, número que Zózimo tentaria manter como marca para todas as edições. O mais impressionante, mais que a única foto ilustrando a página (“O olhar oblíquo e as pernas irretocáveis de Verena Ribeiro”), era o fato de a página 3 do Segundo Caderno, onde Zózimo estava, e a espelhada, a página 2, estarem repletas de anúncios (um deles, do Centro Educacional da Lagoa, do amigo Julio Lopes). O Departamento Comercial vibrava. A redação esperaria um pouco. Zózimo estava tenso. A coluna, dura.

Tirou um único sarro, ao reproduzir um diálogo entre duas socialites no bar do Country Club. Uma brincadeira para zombar da plateia de amigos, quase todos com idades jurássicas, no tradicional cineminha de lançamento de Harry Stone, o divulgador da indústria cinematográfica americana no Rio:

 

— Sabe por que o Harry Stone não promoveu première do

filme Jurassic Park?

— Não tenho ideia.

— Não faria o menor sucesso. A plateia ia sentir-se em casa.

 

Se não foi um show de informações e savoir-faire, qualidades do colunista, sua elegância mostrou-se em forma. Vinha em destaque em “Dois mestres”:

 

• Este reinício de atividade no Globo não teria total

sentido sem uma menção a dois nomes aos quais o

colunismo praticamente tudo deve.

• Ibrahim Sued e Álvaro Americano.

• Nessa ordem — a de entrada em cena, como colunistas.

• O primeiro deu grande importância e destaque ao

gênero, cabendo ao segundo valorizá-lo aos limites da

dignidade e compostura.

• A rigor, na especialidade, dois grandes mestres.

 

Zózimo gostou do resultado da coluna, do destaque na primeira página, da apresentação gráfica. Mas, por mais que a percorresse com satisfação, piscava sempre no canto dos olhos, em luz vermelha, um detalhe que o deixava irritado — quase a sua Bastilha. E o revisor, hein, que trapalhão! Uma de suas marcas, que ele fez questão de cunhar logo naquele primeiro número, não chegou às páginas em sua integridade. “Potência”, nota em que apostava alto, a tal ponto que pediu ao diagramador para cercá-la com fios, saíra com um problema. Podia parecer coisa pequena, só que para Zózimo o fato soava tão dramático e deturpador como se algum técnico do MoMA tivesse arredondado, para corrigir o que julgava uma imperfeição, o nariz retilíneo das Demoiselles d’Avignon, de Picasso. A nota publicada dizia:

 

• E o PC Farias, hem?

• Tinha polícia e armamento, aviões e pilotos, barcos e

comandantes.

• Tinha Exército, Aeronáutica e Marinha.

• O homem era um país.

• A sua República tinha até um presidente

democraticamente eleito.

 

O problema estava no exclamativo da primeira linha. Não se imprimira ali o “hein” clássico que consagrara o colunista, e sim um desajeitado “hem”. O “hein” de Zózimo estava para seu acervo assim como o soco no ar para Pelé e o ademã para Ibrahim. Não lhes explicava o sucesso, mas eram sinais que todos reconheciam imediatamente como assinatura daqueles artistas. Zózimo podia viver sem aquelas quatro letrinhas, contudo a insistência nelas no JB fez com que se tornassem marca.

O “hein” é coloquial, reproduz a sonoridade das ruas cariocas e o jeito à vontade que gostava de imprimir. O “hein” desmonta a pretensão de seriedade, dessacraliza a cena, e Zózimo tinha horror a essas pompas, fossem no texto, fossem nas figuras humanas. O “hein” dá som de molecagem, de fofoca, de início de gargalhada — e era para isso que todo dia ele ia ao telefone, depois se sentava, folheava o dicionário e caprichava. Quando foi lamber a cria naquela primeira edição no Globo, deu-se o espanto: cadê o “hein” que estava aqui?

Zózimo tinha inventado a brincadeira nos anos 1970, num de seus truques para fechar a coluna. Outros redatores precisariam de um editorial inteiro para dizer o mesmo que aquele “hein”. Cabia dentro dele o que se quisesse colocar. Numa edição de 1986 do JB, podia ter xingado Abilio Diniz, dono da cadeia de supermercados, quando o empresário foi pego estocando latas de óleo de soja para majorar preços. Disse apenas: “E o Grupo Pão de Açúcar? Quem diria, hein?”

O “hein” tinha som de cutucada no braço do interlocutor para desfrutar a intimidade e anunciava uma boa história. Pois, no Globo, o “hein” tinha se transformado em um duro “hem”, quase alemão, o que fez com que Zózimo fosse até a sala de Evandro. A coluna, como estava combinado, passaria pelo aquário antes de ser publicada. Evandro também lia com antecedência o Swann. Costumava corrigir informações na coluna de Paulo Francis, por exemplo, o que às vezes causava estranheza nas bancas. A mesma coluna era publicada no Estadão e, graças ao copidesque de Evandro, a que saía lá era diferente da do Globo. Francis nunca reclamara, por um motivo simples: Evandro corrigia seus equívocos de datas, lugares e personagens.

No caso de Zózimo, não era informação. A nota passara sem problema por Evandro. Era a interjeição! A palavra “hein” tinha sido transformada em “hem” depois de uma reunião entre os revisores do jornal. Todos doutos na proteção da língua, argumentaram que havia uma regra a se levar em consideração para palavras terminadas em “n”. Elas precisavam de acento. Os exemplos mais evidentes eram “pólen”, “hímen”, “glúten”, “sêmen”. O “hein” do jeito que Zózimo escrevia, diziam, não cabia na língua. Uma opção seria “héin”, com “i”, “n” e acento. A outra seria o “hem”.

A discussão não era nova. No JB, de vez em quando um revisor alheio ao apreço que o colunista, contrariando as regras cultas, tinha pela forma inadequada, também tascava um “hem” — mas o poder de Zózimo no dia seguinte se fazia valer e foram mais “heins” do que “hems”. No Globo a regra era clara e precisava ser seguida. Zózimo avaliou que não tinha atravessado aquela parte escura da cidade, da avenida Brasil, 500, até a Irineu Marinho, 35, para discutir detalhes. Achou que era de somenos e entubou o “hem” — foi em frente com ele. No dia 10 de fevereiro de 1994, mandava uma gozação para um amigo:

 

• E o Paulo Francis, hem?

• Ou é problema de iluminação na TV ou ele mudou de

xampu e está ficando ruivo.

 

Zózimo relaxou com a implicância dos revisores. Usou o “hem” muitas vezes e manteve a graça, até mesmo quando falava de personagem que só ele e meia dúzia de amigos conheciam. Foi o caso da nota “Vida boa”:

• E o Brigitte, hem?

• Está montado.

• De uma tacada só botou US$ 4 milhões no bolso.

• Uma vez de posse do robusto pé-de-meia, mandou-se

para Nova York, onde está gastando parte em imóveis, parte

no pano verde de Atlantic City.

• Nada como ter amigos e parentesco em tribunais de

conta, governos estaduais, e gozar em bancos oficiais da

chamada inside information.

 

Brigitte era o apelido de Paulo Cesar Ribeiro Filho, o tal operador do mercado de capitais que inventara o negócio da loteria esportiva no Paraguai e levara o dinheiro de Zózimo e amigos. Pelo tom da nota, a dívida não estava paga. Ninguém entendeu, ninguém reclamou. O cuidado da direção de redação para que Zózimo se sentisse em casa era total.

Naquele mês de julho a coluna só ganhou primeira página aos domingos, quando o jornal abria espaço maior para a necessidade de chamar atenção de que estava chegando — com grifes e mais grifes — aonde pediam as pesquisas. Lá estavam, em 18 de julho, no primeiro domingo de Zózimo no jornal, Paulo Francis e Agamenon Mendes Pedreira, o alter ego da dupla Marcelo Madureira e Hubert Aranha. O que vinha com mais força, para se sentir bem acarinhado, era Ibrahim, que havia sido passado literalmente para trás — ao deixar a página 2 do Segundo Caderno para ocupar a 4, ficara atrás de Zózimo, na 3. Naquele primeiro domingo, a chamada para a nova assinatura tinha uma pegada fraca. Nada de Rio de Janeiro. Zózimo fazia um comentário sobre o fim da briga de... Caroline e Stephanie de Mônaco. As outras notas mostravam que o editor da primeira deve ter suado para pescar algo. Eram quase todas internacionais, com exceção da que anunciava ter o ex-ministro Mário Henrique Simonsen voltado a fumar: “Mau sinal.” E ponto final.

Chamar Zózimo na primeira página sempre foi uma tarefa complicada para os parâmetros de objetividade vitoriosos na faina jornalística. O colunista vivia do charme etéreo, que não rendia “parem as máquinas”, e sim “que delícia de ler”. Naqueles primeiros dias, ele acertou a mão em pérolas da mais pura gema zoziana. Em 29 de julho, noticiou que Leopoldo Collor, irmão do impichado ex-presidente, circulava com a esposa, “alegres e faceiros”, no inverno de Las Leñas, na Argentina. O fecho era deboche cravado na neve gelada: “Quem não deve, não treme.”

Era ótimo, engraçado, mas como dar uma chamada na primeira se os manuais do jornalismo previam repercutir na capa apenas as notícias sensacionais? Uma boa frase não ganhava por si só o destaque — e isso era apenas mais um dos problemas dos jornais. O parâmetro dos jornalistas é o Prêmio Esso, o do leitor — e de Zózimo — era a inteligência. Na nota “Sufoco”:

 

• Dedetizaram a Câmara Federal.

• Foi um deus nos acuda.

 

A nota acima podia ter destaque em qualquer livro de poesia modernista, com todo o seu jeito de poema-piada de Oswald de Andrade, mas ninguém gritaria breaking news diante de sua chegada. Enfim, a culpa não era do editor da primeira página. O fato é que não era um grande início de temporada, todavia ninguém podia reclamar. Os alertas haviam sido dados. Era momento complicado para a saúde do colunista. O Globo ficou elegantemente frio. Esperaria por melhores dias.

Um dia, em 1994, Zózimo contava no aquário um causo que presenciara numa casa noturna e os editores executivos riam muito. Renato Maurício Prado perguntou se ele já tinha escrito a cena. Diante do “não”, deixou escapar um “então escreve, Zózimo, tá esperando o quê?”. Não havia a intenção de ser rude com o colunista. Era apenas um jeito pilhado, um estilo “o globo” de fazer as coisas com rapidez e objetividade. Um silêncio seguiu-se à voz de Renato, que, como todos os outros executivos, adorava Zózimo. Quando o colunista saiu da sala, o também editor executivo Merval Pereira falou: “Poxa, Renato, isso é jeito...” “É o jeito de falar...”, devolveu Renato. “Mas não com o Zózimo.”

Havia em todos uma preocupação de tratá-lo melhor ainda do que, pelo talento e delicadeza pessoal, já merecia. Merval, assim como o restante da cúpula de redação, preocupava-se em apagar imediatamente qualquer luz que pudesse acender a nostalgia dentro da alma frágil de Zózimo. Só Nelson Rodrigues, na história recente do jornal, recebera tanto carinho. Um dia, ao ler a coluna, Evandro chamou Zózimo para dizer — com jeitinho, claro — que uma das notas carecia de mais precisão. Zózimo, tão JB, fez humor: “Evandro, quem quer precisão não deve ler coluna. Deve procurar um relógio suíço.”

Em outros tempos, com outros personagens, Evandro mostraria o caminho mais rápido para o RH. Com Zózimo, gargalhou-se — e a nota, que não estava errada, necessitava apenas de ponteiros mais ajustados, foi publicada com a liberdade prometida. O colunista também não tinha do que reclamar. Ao contrário de Nascimento Brito, que vivia emplacando notas de interesse pessoal, Roberto Marinho não pedia nada. Ministros e outros poderosos passavam pelo prédio, almoçavam com o empresário, que, evidentemente, ficava cheio de novidades. Nada chegava em seguida para publicação, num gesto intencional de Marinho para deixar Zózimo à vontade. Publicasse o que quisesse, não era mais o Carlos Swann dos anos 1960 — era ele mesmo.

Quando chegou setembro, dois meses depois de iniciados os trabalhos, os sinais de perigo piscaram com mais intensidade. Ele faltou uma semana inteira, sem qualquer aviso. No início de outubro foram mais dez dias. Ao se reapresentar, Timóteo percebia em Zózimo sinais de constrangimento, a pele avermelhada com a escamação comum das crises de alcoolismo. “Alguma novidade?”, perguntava o colunista, e tocava-se a coluna do outro dia como se nada tivesse acontecido. Uma vez, elegantemente, pediu ao colega que, quando fizesse a coluna sozinho, a assinasse. Tirasse o nome dele, Zózimo Barrozo do Amaral, do rodapé e deixasse apenas o Zózimo do título no alto, como se fosse uma marca fantasia. Daria prestígio a Timóteo e, gentilezas à parte, evitaria problemas.

Numa dessas ausências, por exemplo, Timóteo deu uma nota que contrariou o deputado federal Luiz Alfredo Salomão (PDT), personagem que o jornal acabara de chamar de “baderneiro” por certos procedimentos na Câmara. Salomão telefonou para a coluna. O nobre deputado pediu aos gritos que Timóteo transmitisse ao titular daquela “coluneta de merda”: ia enchê-lo “de porrada”. Evandro Carlos de Andrade, notificado, redigiu uma nota. “Caráter”, publicada em 7 de outubro de 1993, relembrava os acontecimentos. O texto introduziu na coluna o ponto e vírgula, pontuação inédita sob a assinatura de Zózimo:

 

• Visto e revisto o vídeo da baderna na Câmara, o que mais

impressiona no episódio é o comportamento do líder do

partido, o deputado Luiz Salomão.

• Não é como um bravo revoltado, ator corajoso de gestos

extremos, que ele arranca o microfone da mesa; é se

escondendo sorrateiramente, como um camundongo.

 

A parceria de Zózimo com Timóteo durou até 13 de outubro, com respeito, porém sem grande envolvimento emocional de ambas as partes. Eram pessoas de origens muito diferentes, o que, a princípio, não seria ruim para botar de pé uma coluna que se pretendia diversificada. Zózimo não reclamava com o assistente, mas se ressentia com a falta de “sacadas” e comentava com o aquário. A bem da verdade, algumas que Zózimo publicou logo no início chocaram Evandro, porque eram absolutamente ininteligíveis. Em 17 de agosto, por exemplo, escreveu em “Charada”:

 

• O que é o que é?

• Ela procura alguém que a agasalhe.

 

Ninguém entendia que uma das fórmulas do sucesso de Zózimo era às vezes dar a impressão de saber mais do que realmente sabia. As notas cifradas pareciam conter um mundo de insinuações políticas, financeiras ou da mais extrapolada, como podia ser o caso daquela, sacanagem sexual. Quase sempre era piada com uma única pessoa capaz de entendê-la. Os 260 mil leitores do jornal estavam alijados da brincadeira, mas a vontade de participar do jogo instigava a tentar decifrar a charada. “Não se devem mandar flores para os gabinetes dos ministros militares”, publicou em agosto, mantendo profundo mistério sobre o que isso significava.

Timóteo fez o que pôde. Os truques do chefe eram muitos, só que intransferíveis. Zózimo disse ao repórter Michael Koellreutter que não tinha nada, por exemplo, contra a notícia de segunda mão — o importante era a inteligência com que se trabalhava o conteúdo dela. Foi o que fez numa quinta-feira de 1993, depois dos ultranoticiados arrastões nas praias da Zona Sul promovidos por jovens da Zona Norte. Publicou um jogo de notas que era uma pérola de cinismo. A primeira vinha com o título “Lazer”:

 

• Para quem tem horror a multidão, a boa opção de lazer

no fim de semana pode ser passear e conhecer os atrativos

do subúrbio de Vigário Geral.

• Fica às moscas.

 

Na mesma página, com o título “Arrastão”, outra nota:

 

• No último fim de semana, sol a pino, a praia ao sul de

Miami Beach foi palco de um grande arrastão.

• As areias foram invadidas por um bando de garotas em

topless.

 

Zózimo dizia que “Informação em bruto é coisa muito chata” e que qualquer operário da notícia podia consegui-la. “Baixaria”, de 26 de julho de 1993, servia como mais um exemplo de que o importante era a argúcia. Não dava um passo na direção da primeira página e nem queria: afinal, já tinha repórter demais preocupado com isso.

 

• Há dias, num conhecido e exclusivo clube da Zona Sul,

três senhoras conversavam no salão quando uma, movida

pela curiosidade, quis saber quem estava no bar.

• Abriu a porta, meteu o rosto e ouviu, surpresa, uma voz

rouca e meio pastosa emergir da penumbra do fundo da

sala:

— Olha as bruxas!

• A senhora não deixou barata a provocação e, antes de

retirar-se, gritou na direção da voz:

— Olha os brochas!

Timóteo foi substituído por Maurício Dias, mineiro, de muita experiência em revistas semanais. Contrário às badalações e ao ti-ti-ti mundano, alinhava-se politicamente à esquerda e ajudava O Globo na tarefa de avançar na busca de um jornalismo mais ideologicamente plural. Seu negócio era a disputa pelas hard news vindas do mundo político, um nicho do qual Zózimo queria distância, embora soubesse que precisava de notas mais sérias e pesadas para dar musculatura à coluna. Maurício gostava desse mundo. Uma vez, depois de uma nota jocosa sobre o senador José Sarney, Evandro foi até a sala da coluna: “Fiquem à vontade pra dar qualquer uma, contra ou a favor”, disse o diretor de redação. “Mas não precisa sacanear o cara.”

De resto, não havia intromissão. Zózimo seguia em frente, ajustando-se no tom da casa com o humor politicamente incorreto de sempre:

 

• Não se deve convidar à mesma mesa Stevie Wonder e

Ray Charles.

• Um não pode ver o outro.

 

Ou:

 

• De um personagem desta coluna que acaba de ganhar

seu primeiro neto, recebendo cumprimentos de um amigo:

— É ótimo ser avô. Duro é ter que dormir com a avó.