Enquanto Houver Champanhe, Há Esperança
Capítulo 26
“E eu vou na televisão pra ficar gaguejando na frente dos outros?”, questionou Zózimo para Leleco Barbosa, diretor da TV Educativa. “Me tira dessa!” O convite era para dar uma entrevista ao Deles & Delas, criado por Leleco (filho do Chacrinha) e apresentado por Ana Maria Nascimento e Silva. José Alberto Gueiros, da sociedade carioca e diretor do programa, ouviu as mesmas tentativas de escape por parte de Zózimo. Foi rápido em puxar o gatilho do convencimento: “E se eu colocar a Vera Zimmermann entre as entrevistadoras?”
“Aí são outros quinhentos!”, respondeu o colunista.
Desde meados da década de 1980, Vera trabalhava como atriz, numa carreira discreta que não saiu desse patamar nem quando foi homenageada por Caetano Veloso na música “Vera Gata”, a história com todas as letras (“Éramos fogo puro/ (...) Mas ninguém mais quente do que nós/ (...) Tivemos tudo, não faltou nada”) de um jogo rápido entre os dois. Dias antes do convite de Gueiros, Zózimo dera uma nota sobre a peça As mil e uma noites. O espetáculo levava um público inédito de marmanjos ao Teatro de Arena, em Copacabana, a maioria com o intuito de ver a louraça Vera — “e depois sonhar”, conforme ele disse. Tudo naquela “conversa de macho” que a coluna gostava de assumir como se estivesse numa mesa de bar. Se tinha a “Vera Gata”, Zózimo topava gaguejar na frente de quem quer que fosse. As entrevistadoras do programa, além da atriz, eram a jornalista Regina Martelli, a socialite Patrícia Leal e a promoter Marilena Cury, uma senhora de modelo plus size que entrou para os quadros da TV Educativa depois de assessorar o então presidente Collor. Zózimo, naquele final de 1991, ainda apoiava o presidente e o citava como exemplo de homem elegante.
Zózimo não era bom personagem de TV. Ibrahim Sued tinha transformado a má dicção, o mau português e os maus bofes numa marca — e virara estrela também naquele formato. Quando o humorista Agildo Ribeiro passou a imitá-lo, o “Turco” ficou aborrecido, até ser convencido por Ricardo Amaral de que ele, Ibrahim, realçando cada vez mais os erros e trejeitos, é quem estava copiando o humorista. Zózimo, além de gaguejar, era tímido. Ruborizava-se à toa. Capaz de textos sagazes no jornal, falando na TV ficava irreconhecível. Não conseguia fazer desses percalços um tipo. Parecia próximo do pânico. As frases saíam cortadas por cacoetes de linguagem como o “quer dizer”, que servia de reticências, apoio para rebobinar a ideia e tentar outra melhor. Ao longo de uma hora no Deles & Delas, aplicou a expressão sessenta e sete vezes. “Eu tenho horror a festa, a sair de casa, quer dizer, tenho apreço pela vida ao ar livre, o exercício físico. Não gosto de boate, não gosto de muita gente, quer dizer, eu sou mais ou menos tudo que as pessoas pensam que eu não seja. Sou basicamente, quer dizer, afora isso, um repórter.”
Já Vera Zimmermann estava mais “Vera Gata” do que nunca. Sabia ser a responsável pelo programa e usou seus poderes já na primeira pergunta: “Ouvi falar que você anda sonhando comigo. Fiquei curiosa.” “Sonhei com você? Eu e a torcida do Flamengo”, riu Zózimo. “Mas que sonhos são esses?”, insistiu Vera, songamonga poderosa. “É, é”, tentou engatar Zózimo, misturando gagueira, timidez e fluido de sedução. “Sonhos puros. Nada que se pareça com os do Porfírio”, respondeu, referindo-se ao mordomo interpretado por Guilherme Karan na novela Meu bem, meu mal, transmitida pela Rede Globo até maio daquele ano (obcecado pela personagem de Vera, a Divina Magda, Karan vivia clima de morde e assopra, beijando o pé da moça numa cena e sendo chutado por ela em seguida — eram os códigos possíveis na época para identificar um casal sadomasoquista). Aí foi a vez de Vera cruzar as pernas, levantar um dedinho da mão direita e dizer como se advertisse o menino saliente na sala de aula: “Ah, bom!”
Quando Zózimo explicou no programa que gostava de ficar em casa vendo TV, a amiga Marilena Cury sentiu-se liberada para expressar seus sonhos — não com Vera, mas com o colunista: “Você, um homem sedutor, se acha bonito no espelho?” Zózimo respondeu que não e tentou mudar de assunto. A também amiga Regina Martelli contra-atacou (“esse ar meio tímido te deixa ainda mais sedutor”) e quis saber se ele recebia cantadas. Zózimo: “Quando você está ocupando uma função como a minha, nunca sabe ao certo se a paquera é sobre sua pessoa física, o homem, ou sobre o colunista da página 3 do Jornal do Brasil.” Marilena insistiu: “Mas quando você está andando em Paris e uma mulher está te olhando, aí é outro papo porque ninguém te conhece.” “Em Paris”, devolveu Zózimo, no humor típico dos tímidos, “eu acho que ninguém me olha, não.”
Zózimo não conseguia completar as frases, interrompia e voltava ao pensamento inicial, como se estivesse reescrevendo um texto em público, procurando melhores verbos que nem sempre vinham. As entrevistadoras, amadoras na função, davam mostras de nervosismo com o acanhamento da estrela. Queriam saber o que Zózimo lia, o que via no teatro, a ópera que ouvia, e ficavam sem jeito quando ele reduzia o volume do homem culto formado na cabeça delas a partir da leitura da coluna. Ele repetia que, além de ter curtido a Divina Magda, agora acompanhava a Escolinha do Professor Raimundo, programa do humorista Chico Anysio, na Rede Globo.
Só uma vez conseguiu narrar uma história completa. Paralisado com o ridículo de se vangloriar de feitos, brilhou quando lhe perguntaram pela maior gafe. “Eu estava visitando uma fábrica na Suécia e no voo de volta para Estocolmo embarcou a rainha Silvia. Como eu havia estado com ela numa festa no Largo do Boticário, na casa do Gustavo Magalhães, resolvi, olha que maluquice, falar com ela. ‘Nós nos encontramos, você não se lembra?, no Largo do Boticário...’ Quando ela respondeu ‘ah, o senhor estava naquele jantar...’. Quer dizer, quando ela chamou aquela festa engraçada de jantar, eu me manquei. Tinha chamado a rainha da Suécia de ‘você’, como se fosse uma íntima. Contei essa história na coluna para mostrar como os brasileiros são distraídos e às vezes mal-educados. Como a coluna não é na primeira pessoa, não entreguei ser eu o brasileiro da gafe.”
De vez em quando a frase vinha curta e clara, como nos bons momentos da coluna, e Zózimo respirava. “Eu não seria capaz de trair minha mãe para dar uma boa notícia”, respondeu sobre a escolha entre manter as relações ou publicar um furo. Sobre o assédio, declarou: “Gosto de ir para o Hotel Méditerranée, em Mangaratiba, porque tem uma penca de argentinos lá e eles não têm ideia de quem eu seja. Ninguém me aporrinha.” Sobre a busca por um espaço na coluna: “O Andy Warhol disse que a celebridade dura quinze minutos. No Rio, dura quinze segundos.” Sobre o eterno potin, em moda na época, da República fracassada: “Se for instalada a monarquia no Brasil haverá mais bobos da corte do que monarcas. Não vai haver guizos para todo mundo.”
Regina Martelli quis saber sobre o assédio do novo-rico querendo ascensão social por meio da coluna. Como Zózimo poderia orientar o personagem para que deixasse de lado o mau gosto do novo-riquismo? “Acho difícil, Regina. Nunca vi um nouveau riche deixar de ser nouveau riche. Não há manual que dê jeito. O nouveau riche continua sendo nouveau riche até quando fica sem dinheiro. É um estado de espírito”, disparou, como se finalizasse uma boa nota.
Foram raras as suas aparições na TV. Dia D, que estreou em 1985 na Bandeirantes, foi sua experiência mais prolongada. O programa aproveitava-se da abertura democrática da Nova República, com José Sarney na Presidência. Pela primeira vez, alguns dos mais importantes nomes da imprensa escrita apareciam na telinha com quadros fixos. Eram jornalistas como Augusto Nunes, William Waack, Marcos Sá Corrêa, Ricardo Boechat e — é ela quem vai abrir o nosso programa de hoje — Míriam Leitão.
Na edição de 17 de abril de 1985, numa reportagem sobre a velha lenda de que no Rio se trabalha pouco por causa dos apelos da natureza, a futura estrela do jornalismo econômico dizia que não é bem assim. A câmera mostrava uma mulher de biquíni que saía correndo do mar e — de início não dá para identificar seu rosto, apenas a beleza do porte — vinha na direção de um braço que cruzava a tela segurando o microfone. O braço do contrarregra era detalhe meio tosco, afinal não se pode ter tudo perfeito num programa de formato alternativo, simples, embora patrocinado por Caixa Econômica Federal, Petrobras e Vale do Rio Doce. O braço segurava o microfone para a mulher que vinha do mar, a repórter. Na cena anterior, ela estava no estúdio, de tailleur, entrevistando o cariocólogo Sérgio Cabral, pai. Ela agora vestia biquíni de proporções diminutas, como era moda na época, e o crédito que aparece não deixa dúvida. É Míriam Leitão num momento Musa da Economia. Míriam sai do mar ofegante, cabelos molhados, gotículas salpicando a pele bronzeada. O corpo, ela sabe disso, e não à toa se coloca como ilustração, é sensacional. Pega o microfone e diz, encerrando a matéria: “Eu já trabalhei muito hoje fazendo essa reportagem. E de tarde eu tenho mais trabalho. Mas antes eu resolvi dar um mergulhinho. Essa é a vantagem do Rio de Janeiro: a gente pode misturar trabalho e prazer.”
Zózimo jamais chegaria a tanta descontração. Tinha topado aparecer no Dia D sem maiores insistências. Paulo Marinho, o dono da ideia, o amigo que depois de se separar da bela Odile mantinha a inveja alheia casado com a belíssima atriz Maitê Proença, dera-lhe sociedade na produtora criada para realizar o programa. Era uma tentativa de pingar um extra no caixa de Zózimo, atormentado por constante crise financeira. A jornalista Belisa Ribeiro, a mais conhecida no vídeo, ex-apresentadora da TV Globo, brilhava de âncora. No ar, diante das câmeras, Zózimo lia as notas apostando no charme da timidez. Contracenava com Belisa. Havia um clima de sedução, troca de risinhos e olhares malandros. Ao final de uma nota em que a atriz Fernanda Montenegro recusava ser ministra da Cultura e Sarney dizia procurar uma mulher de TV para o cargo, Zózimo fazia graça: “Fica a sugestão do nome de Belisa Ribeiro para o cargo, pois, como se vê, o que não lhe faltam são atributos.” O áudio dessas notas, apesar da simplicidade da gravação, era refeito várias vezes. Em certos dias, segundo Paulo Marinho, “o Zózimo engrenava numa gagueira e a coisa não saía”.
A produção era acanhada, com a luz estourando na testa, e o rosto do colunista, mal maquiado, brilhava de suor, deixando enorme uma espinha entre as sobrancelhas. Ele também fazia entrevistas. Um dos convidados foi Ricardo Amaral. O artificialismo de estarem sentados lado a lado, em cadeiras voltadas para a única câmera disponível no estúdio, numa conversa em que o olho no olho ficava impossível, não contribuiu para que, ainda dessa vez, Zózimo vestisse o biquíni da descontração.
Ele apresentou Ricardo como o novo conselheiro do vetusto Paço Imperial, na praça XV do Rio. “Será uma espécie de Beaubourg [Centro Georges Pompidou], serão aproveitadas ideias vistas na reforma do porto de Nova York etc.” Não faltava futuro internacional ao Paço Imperial, mas nada foi adiante, na prática. Os dois amigos foram de uma ponta à outra do fabuloso leque de assuntos do mundo carioca de diversões e terminaram com comentários sobre o Baile das Panteras (“responsável pelo maior índice de divórcio na noite do Rio”), evento de responsabilidade do empresário. Alta e baixa cultura sem mudar de entrevistado — era Rio em estado bruto, nas vozes de duas de suas melhores personalidades. Ricardo anunciou a presença do pintor colombiano Fernando Botero no baile do ano seguinte (ele jamais viria ao Rio) e, nas despedidas, pediu para fazer uma pergunta. “Qual é a pessoa mais fofoqueira depois de você?” Zózimo, como se agradecesse as muitas notas que o entrevistado lhe passava diariamente, devolveu, simpático: “Você, Ricardo Amaral.” Os dois caíram na gargalhada com a piada privé. E fechou-se o pano.
Logo em seguida, em meados de 1986, Zózimo aproveitou uma temporada em Paris para mandar matérias para o programa. Ficou na cidade por dois meses, boa parte deles com Marcia. Carregava várias pautas não jornalísticas a serem resolvidas, na tentativa de parar um pouco a locomotiva social, colocar ordem nos vagões e repensar a vida com essa mania invencível que ela tem de acumular problemas. A operação de recolher notinhas, rotina de vinte e três anos, pesava. Por mais que a qualidade do produto final estivesse se mantendo e a Veja acabasse de lhe fazer uma proposta sensacional, logo recusada com o repetido argumento da fidelidade ao JB, ele se sentia incapaz de inventar atrativos para a rotina de ir ao telefone e ouvir gente, a fim de pinçar informações em meio a conversas enormes. Boy acabara de morrer, em 1985, aos oitenta e dois anos, vítima de um pacote de intercorrências a partir de um enfisema.
“Aí vão os meus sentimentos de solidariedade com você. Não preciso dizer que conheci seu pai e sempre apreciei o seu fino espírito. Estou inteiramente às suas ordens, um abraço”, enviou-lhe em bilhete o amigo e diretor do jornal Nascimento Brito, que ofereceu anúncios de graça para divulgar sepultamento, missa do sétimo dia e afins. No obituário publicado no dia 8 de agosto, Boy é “ex-banqueiro, advogado aposentado, diretor financeiro do Jockey Club e diretor social do Automóvel Clube do Brasil”.
Zózimo sofreu, e a ida a Paris incluía também o culto desse luto. Homem organizado, Boy deixara pronto o testamento para os dois filhos (“Estou fazendo feito o rei Lear, dividindo a riqueza em vida”, brincara). Eles sabiam da existência de um lote de ações do Banco do Brasil que Boy, por sua vez, tinha herdado do pai e — bon- vivant, mas jamais perdulário — deixara praticamente intacto. Zózimo e Izabel só não sabiam que, em moeda de 1985, as ações valiam algo em torno de 2 milhões de dólares para serem divididos entre eles. Zózimo comprou um apartamento em Paris, na rue du Dôme.
A temporada, longe do estresse carioca, serviria como mais uma tentativa para ele e Marcia colocarem a vida nos rumos desenhados pela bela história de amor iniciada no Colégio Andrews, vinte e cinco anos antes. As embicadas dele no alcoolismo faziam com que desaparecesse de casa e do trabalho por vários dias. Estaria no Hospital Miguel Couto? Inconsciente depois de um desastre de carro? Essas incertezas ajudavam a desgastar sentimentalmente sua vida com Marcia.
Paris desviaria o colunista do roteiro de festas regadas a champanhe e uísque, o carnet obrigatório para o preenchimento da página. O alcoolismo, doença diagnosticada no tio Geraldo, o Dodô, e que também rondara Boy, escalava Zózimo como o próximo da lista. Um enfisema provocado pelo cigarro já lhe estava diagnosticado. Não era pouca pauta para resolver longe do Rio. Em Paris, encontrou o grande amigo Antonio Gallotti, maltratado por um câncer que lhe tiraria a vida no fim do ano. Zózimo, no obituário, faria um relato emocionante do encontro:
• Em Paris, em maio, já doente, comentou com um amigo
jornalista sua satisfação pela compra de algumas caixas de
um excelente vinho.
• Apenas por ser de safra recente, o vinho só ganharia
maturidade para poder ser bebido em todo o seu esplendor
em dez anos.
— Só vou poder bebê-lo daqui a dez anos, o que significa que
nunca vou bebê-lo.
• Gallotti não comprara o vinho em proveito próprio, mas
apenas porque era excepcional e para ele tudo que era
excepcional valia a pena.
• Certamente dali a dez anos, alguém, de preferência um
amigo querido, poderia sorvê-lo, sabendo apreciar sua
excelente qualidade. Gallotti era assim.
Uma das caixas de vinho ficaria com Zózimo, “o amigo querido”, que a guardou para beber ao fim de dez anos. Será que chegaria lá?
O charme de Paris tinha a tarefa de colocar Zózimo nos eixos. Estava na cidade o amigo Renato Machado, e como era Copa do Mundo, viam juntos os jogos pela TV. Foram dois meses de altos e baixos. Uma noite, o colega do Santo Inácio, do Andrews e da PUC Joaquim Vaz de Carvalho viu Zózimo perto da Brasserie Lipp. Caminhava cabisbaixo. Parecia às voltas com problemas. Joaquim achou melhor não interrompê-lo.
Nesse exílio desintoxicador, um spa existencial, Zózimo mandava notas para Fred Suter e ocupava-se com Dia D. Entrevistou o diretor Hector Babenco, que acabara de apresentar O beijo da Mulher-Aranha no Festival de Cannes. Conversaram numa mesa na calçada do Les Deux Magots, com duas taças de vinho em primeiro plano e muitas baforadas do politicamente incorreto ainda em voga. Babenco atracava-se com tragadas num charuto, Zózimo suspirava com as fumaças que tirava de cigarros Gitanes (fumou dois nos cinco minutos da entrevista). Babenco anunciava que filmaria Galvez, imperador do Acre, o que jamais fez.
De toda a produção de Zózimo para a TV, seu momento especial, com a assinatura que na imprensa o tornou reconhecível, com frases estilosas e bem sacadas, foi na abertura para uma matéria na Maison Moët & Chandon. O champanhe, com suas borbulhas ora festivas, ora cheias de problemas, estava presente, e dessa vez em dose bem equilibrada. Diante do prédio da empresa, ele vestia um sobretudo impecável, mas ainda sem o cachecol que guardaria para a cena das caves. De ar falsamente grave, deixando escapulir um sorriso maroto, apontou para a escultura do monge Dom Pérignon numa das portarias da Maison: “Estamos aqui sob as vistas de Dom Pérignon, que inventou o champanhe há mais de trezentos anos e de quem não se sabe por que até hoje não foi canonizado.” A TV não mostrou, mas em seguida Zózimo abraçou-se à escultura do monge. Beijou-a, reverente. O humor, no jornal ou nessas aparições televisivas, estava sempre no foco. Era-lhe da índole. No teatro, com a encenação estapafúrdia do Grupo de Orla, também. No cinema não seria diferente.
O português do botequim da praça Mauá do Rio já tinha visto de tudo naquele cenário de malandros, putas e marinheiros, mas lá estavam à sua frente, em 7 de setembro de 1985, cinco homens vestidos de militares americanos. Só usavam o inglês para pedir cerveja. No resto do tempo conversavam em português. Gargalhavam. Alguns, ligeiramente barrigudos, não tinham o physique du rôle necessário para integrar uma corporação militar — mas quem é que perde tempo com essas estranhezas no cais do porto? O portuga foi colocando na mesa as cervejas, mais de uma dúzia delas.
O gaiato pelotão de oficiais americanos era formado pelo psicanalista Hélio Pellegrino e os jornalistas Alfredo Sirkis, Fausto Wolff, Alan Riding e Zózimo. Estavam vindo de um quarteirão adiante, um galpão abandonado cedido para as filmagens de Tanga — Deu no New York Times?, a primeira e última aventura do cartunista Henrique de Souza Filho, o Henfil, como diretor de cinema. O grupo participava do filme no papel de um comando militar americano. Tinha ido parar no boteco porque o diretor, a pretexto de botar ordem no set, proibira a circulação de bebida durante as filmagens. “Eu não sou lavanderia para trabalhar a seco!”, teria gritado Fausto Wolff no estúdio, liderando a revolta. Rebeldes com uma causa, todos marcharam rumo ao botequim democrático.
A cena podia estar no filme — uma alegoria amalucada sobre as ditaduras do Terceiro Mundo, passada na miserável e fictícia ilha caribenha de Tanga. O protagonista, o ditador Herr Walkyria, como ato primeiro acabara com todos os jornais e deixara circular em Tanga apenas o New York Times — na verdade, um único exemplar, o do palácio. Só ele lia. Depois da leitura, feita numa privada-bunker, o ditador queimava as páginas. Do lado de fora, os sete grupos guerrilheiros que lutavam pelo poder tentavam decodificar as notícias segundo o volume e a cor da fumaça que saía pela chaminé do banheiro.
A ditadura brasileira estava chegando ao fim em 1985 e o filme, realizado alguns meses após a morte de Tancredo Neves, ocorrida em 21 de abril de 1985, cravava uma multidão de referências ao que se passara nos anos de chumbo. O New York Times havia sido a tribuna internacional na qual grupos brasileiros de oposição publicavam notícias sobre tortura. A base do filme era real. Henfil, na ditadura, passava para o jornalão americano os nomes de presos políticos, e só assim os advogados, de posse do exemplar, podiam entrar com um processo de busca de paradeiro, evitando que opositores do regime sumissem, mortos, nos porões. Entre verdades e mentiras, a comédia maluca seguia. Os militares de Tanga vestiam-se de cor-de-rosa. Herr Walkyria dormia abraçado a um urso de pelúcia. Finalmente dava para rir dos generais, e Henfil, censurado por eles, agora aproveitava.
Zózimo se relacionava bem com Henfil, seu colega de Jornal do Brasil. As tiras da Graúna, dos fradinhos e do bode Francisco Orelana por muitos anos saíram no Caderno B, em alguns momentos na página 4, no verso da coluna, e Henfil gostava de brincar dizendo que os dois (um mostrando a burguesia e o outro, os seus adversários) espelhavam bem o pluralismo do JB. O humorista era popular por causa de seus personagens, tirados das histórias do povo brasileiro, mas não era populista. Zózimo, colunista social, também não combinava com o estereótipo clássico do elitista. Os dois se identificavam nessas estranhezas.
Topar o projeto valia pela amizade com Henfil e pela nostalgia daquela noite, tempos atrás, como ator do Grupo de Orla. A turma tão heterogênea, inteligente e beberrona também garantia gandaia. O único convidado que relutou foi Alan Riding, correspondente do New York Times, preocupado com o que a matriz de seu jornal pudesse achar. Como soaria aos americanos um jornalista sério no meio daquela pândega? Era das boas piadas de Henfil, embora decifrada por poucos. Para Zózimo, a experiência com Tanga não rendeu um tostão e lhe custou o feriado de 7 de setembro. Mas foi divertido.
A cena em que aparece, de três minutos, tomou-lhe um dia no set. Nela, Fausto Wolff, o general do Pentágono, descreve para seu colegiado de milicos o perfil da ilha de Tanga, representada na reunião pelo sobrinho do ditador, um certo Kubanin (Henfil, em aparição no estilo Hitchcock). Tanga quer apoio para enfrentar guerrilheiros e os generais serão enviados com suas tropas. “É uma ilha tão grande quanto o Brooklyn, sem médicos, sem Congresso”, vai narrando Wolff num inglês de acento londrino, escandindo sílaba por sílaba. Sentados à mesa de reunião, Zózimo e demais militares ouvem. De vez em quando são varridos em close, como se o diretor quisesse escancarar o incrível casting. “A pesca alimenta o povo com peixes e o Estado com lagosta e camarões. É uma ilha com 99% de analfabetismo, com a maior mina de tangaína do mundo.” Nesse momento, coreografados, Zózimo e todos os militares da mesa acendem cigarros com movimento semelhante de isqueiros.
“Eles precisam de armas americanas para interromper a ofensiva comunista internacional de sete grupos guerrilheiros”, continua o personagem de Fausto Wolff. “O Partido Comunista Tanganês, o Ação Paranoica Radical, o Pentelho Luminoso” — em nova marcação cênica, os militares caem na gargalhada. “O Paralelo Zero”, continua Wolff relacionando os grupos, “a Vanguarda da Vodca Sectária, a Liga da Mulher Ideal e a Ação Insurrecional Democrática Sexual, AIDS.” Dito isso, a câmera mostra a mesa vazia. Apenas um vento sopra nos papéis que estão sobre ela, informando que, diante das quatro letras — o terror mundial de 1985 —, Zózimo e os colegas militares tinham dado no pé.
Acaba aí a participação de Zózimo em Tanga, um filme que passou como um raio nos cinemas e não entusiasmou o YouTube, onde tem registrados, na íntegra de seus noventa e seis minutos, cerca de 3 mil cliques em maio de 2016. A comédia política ficou confusa em sua profusão de metáforas, querendo passar para a Tanga fictícia o que tinha acontecido no Brasil. Tem ótima música de Wagner Tiso, o ator Rubens Corrêa como Herr Walkyria e outras atrações do surpreendente elenco, como o cartunista Jaguar num papel de bêbado, sempre olhando para fora de uma janela do castelo e perguntando: “E se os marines desembarcam?”
Hemofílico, Henfil morreu de aids em janeiro de 1988, logo após a estreia do filme, e virou notícia na página de obituários do New York Times. Dá para rir em alguns momentos do filme, mas seria melhor se ele tivesse colocado na tela algumas cenas dos bastidores, como a do fim da jornada de Fausto Wolff, Hélio Pellegrino, Alfredo Sirkis, Alan Riding e Zózimo. Eles voltam do bar do português na praça Mauá ligeiramente bêbados para continuar a filmagem. Henfil vira-se para a turma e diz: “Como é que eu posso filmar com esses irresponsáveis?”, e, pano rápido, todos caem na gargalhada.