Enquanto Houver Champanhe, Há Esperança

Joaquim Ferreira dos Santos · Capítulo 35 de 50

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Enquanto Houver Champanhe, Há Esperança

Capítulo 35

No alto do Morro do Vidigal, na Zona Sul, criancinhas da comunidade pintavam flores da sua imaginação na parede do ateliê de flores reais, embora desidratadas, de Dorita Moraes Barros. Com o cenário deslumbrante das praias ao fundo, parecia filme sobre o paraíso carioca — mas, infelizmente, a cena não para aí. Na rua estreita, um carro fecha a passagem de outro. Os motoristas, armados, saltam e, como se fosse faroeste americano, começam a atirar um no outro. Pela primeira vez Dorita, que brincava com as crianças, viu alguém morrer à sua frente. A violência do morro já a preparara para aquilo.

Dias antes, o dono da área, o traficante Gringo, mandara dois comparsas ao ateliê para sequestrá-la e levá-la até a sua bandida presença. O chefão, drogado de cocaína, dava pulos que, se fossem aplicados numa pista atlética conveniente, lhe confeririam recordes. Um bandido perigosíssimo. Tempos depois ele cortaria a língua de um alcaguete do morro e a penduraria num poste. Naquela tarde, diante de Dorita, desvairado, sem camisa, ele inspirava o terror de sempre. Gringo tinha na mão direita uma pistola Glock e na esquerda, uma granada. Garantia que detonaria a madame se ela não contasse tudo.

Aquela chanchada de violência demorou. Houve momentos em que Dorita enfrentou verbalmente o homem e era aconselhada pelos asseclas dele, com “psius” aflitos, a se calar. No final, sem danos físicos, ela convenceu Gringo de que não havia motivo para confusão. O traficante suspeitava que o motorista dela fosse alcaguete da polícia. Não era verdade — pelo menos que ela soubesse.

Foi uma tarde inesquecível, que poderia ter ao fundo um sucesso daquela década, o funk de Fernanda Abreu, de 1992, que falava do “Rio 40 graus,/ cidade maravilha/ purgatório da beleza e do caos”. O capítulo não estava encerrado com a liberação de Dorita. Horas depois de ter sofrido a ameaça, ela viu o morro ser invadido pela polícia. Gringo, para usar a linguagem das delegacias, evadiu-se, mas um policial e um traficante morreram na operação. Gringo sobreviveria até 1995.

No Rio de Janeiro, com a violência inflacionada pelo governo permissivo de Leonel Brizola, a barra sempre podia ficar mais pesada — e o contato da paulista Dorita com o pior da estirpe carioca ainda estava para acontecer. Na sua outra loja de flores, em Ipanema, começaram a pipocar furtos, cheques falsificados, diferenças no caixa. Não foi difícil chegar ao nome da funcionária, Kátia Regina, casada com um traficante. Demitida, instalou-se o drama no cotidiano de Dorita.

Primeiro atiraram uma pedra no carro onde estava sua filha, Gabriela. Depois, o telefone da loja tocava e do outro lado uma voz ameaçava: “Hoje foi pedra, amanhã vai ser a morte.” Em 30 de novembro de 1992, Gabriela foi abordada na rua Lopes Quintas, no Jardim Botânico, logo depois de ter saído de casa, por dois sujeitos que a empurraram para dentro de um carro. A operação foi desastrada. Enquanto tentavam vendar os olhos da menina, ela abriu a porta e fugiu. “Eles disseram que vão matar você e o Zózimo”, avisou em casa.

A intimidação prosseguiu. Dois dias depois, Gabriela voltou a ver um dos homens, agora numa moto. O ateliê do Vidigal foi visitado à tarde por um sujeito que se apresentava como empresário interessado em altos negócios com flores. Deixou como referência nomes de fregueses que, consultados, disseram nunca ter ouvido falar da figura.

Quando sequestraram o motorista de Dorita, rendido por dois sujeitos com revólveres e deixado com o carro numa estrada fora da cidade, Zózimo parou de trabalhar e ficou trancado dois dias em casa. O secretário de Justiça e da Polícia Civil, Nilo Batista, mandou policiais para protegê-lo. Ficou agradecido, mas era pouco. A estatística relatava cento e dezenove casos de sequestro naquele ano no estado. Zózimo achou prudente pegar um avião com Dorita, Gabriela e Marcos e, em 5 de dezembro, seguiu para Miami. Naquele dia, no JB, o cronista Apicius deixava a boa mesa de lado e escrevia sobre um acontecimento que na véspera havia chocado a cidade. Traficante do Morro do Borel, na Zona Norte, punira meninos da comunidade de maneira brutal. Para não gastar balas em excesso, fez com que juntassem suas mãos direitas em grupos de cinco e seis — eram vinte e um — e com apenas quatro tiros feriu todos eles.

Zózimo mandaria notas de Miami enquanto a polícia investigava a intenção dos criminosos e, principalmente, os prendia. Era preciso saber a origem dos ataques: vingança, intimidação, agressão pura e simples, extorsão? Alguma nota que atrapalhara negócios? Problemas de Dorita com o Vidigal? Já em Miami, ele deu uma entrevista ao correspondente do JB, Teodomiro Braga. As declarações saíram na primeira página no dia 13 dezembro e o título da matéria expandia o clamor de Zózimo: “O Brasil é um país em guerra.” Ele fazia um histórico dos dias em que vivera sob as mais diferentes ameaças dos bandidos. Editorializou os acontecimentos com veemência e compreensão do problema social: “Não é guerra de rico contra pobre, nem de branco contra preto. O cidadão de bem está de um lado e o crime está de outro. O cidadão de posses modestas se sente tão incomodado com a violência quanto o rico de bem. Pobre não é sequestrado, mas é roubado dentro do ônibus, na entrada do morro.”

Sem citar nomes, criticou iniciativas do governo populista de Brizola, desde 1991 em seu segundo mandato, como a de proibir que helicópteros sobrevoassem os morros. Fez uma defesa acalorada da boa polícia e lamentou que um policial tenha sido condenado, “por excesso de legítima defesa”, ao matar com uma arma mais poderosa um bandido que o enfrentara numa ação. “Se o policial levou a melhor e estourou o peito do bandido numa situação rara em que estava em superioridade de armamento, ele não pode ser punido. Há uma política hesitante em relação ao combate à criminalidade em nome dos direitos humanos. Não se pode proteger o criminoso em detrimento do cidadão que paga imposto. Paralelamente é preciso resolver o problema social, o nascedouro da questão.”

Estava determinado a esticar ao máximo a temporada em Miami, onde Dorita tinha apartamento. Desde o final dos anos 1980, liderado pelo chef José Hugo Celidônio e sua mulher, Marialice, um naco da sociedade carioca procurara abrigo na região. A imagem anterior era polêmica (“Que lugar mais cafajeste”, dizia o estilista Guilherme Guimarães. “Pra ir a Miami, eu vou aqui na praia de Ramos. Coisa de paulista, cruzes!”), de uma cidade de classe média sem gosto. “Passar ao largo de Paris, onde viveu na juventude, driblar Nova York e se fixar em Miami é, convenhamos, o lado rubro-negro da personalidade do aristocrático Zózimo”, escreveu o amigo jornalista Silvio Ferraz. “Só falta a sandália Rider.”

Zózimo e sua turma — Paulo Marinho, Ricardo Amaral e outros — tinham descoberto uma outra Miami. Nada a ver com o consumismo que caracterizava as hordas brasileiras na cidade, com personagens como o que ele flagrou na coluna:

 

• Nada pode ser mais expressivo sobre a presença maciça

de brasileiros atualmente em Miami do que a cena que teve

dias atrás como cenário o Washington Boulevard.

• Manhã de sol brilhante, atravessa a rua em direção à

praia um cidadão de meia-idade, ventre proeminente,

bermuda na virilha e sandália de dedão. Completava o

figurino uma surrada camisa do Vasco da Gama.

• 10 é a camisa dele.

 

As esquinas americanas de Zózimo e amigos eram outras. Vivia numa Miami especial, South Beach, região perfeita para gente como ele, cansada de ver seus paraísos invadidos. Celidônio vendera o casarão na praia dos Ossos, em Búzios, por onde Bardot, nos anos 1960, fora fotografada em meio a porcos que chafurdavam na lama. Agora o balneário estava invadido pela classe média argentina e por turistas em ônibus saídos da periferia fluminense.

Ricardo Amaral, também com apartamento em South Beach (outra delicadeza local era o quarteirão art déco), se achava numa esquina do mundo. Uma mistura de Itália com França e o melhor da América Latina. A presença dos Estados Unidos, com seus valores de patriotismo e consumo, ficava a milhas de distância. O cenário, paradisíaco. Agenda sem compromisso, uma delícia que permitia, ao passear por uma praia, parar num beach club, almoçar e drinkar até o fim da tarde, quando todos iam para casa, jogar cartas, ver TV. Segurança total. A polícia parou Zózimo e o conduziu, por dirigir alcoolizado, até a delegacia. Ele não guardou bronca. E disse na matéria publicada no JB: “Eu adoro Paris, Nova York, Londres, mas morar em uma cidade grande passou a me horrorizar. Hoje, se eu tivesse de optar entre Nova York ou Miami, ficava com a segunda. Há a barra pesada, mas esses limites estão estabelecidos, até geograficamente. Se você quiser restringir sua vida a áreas protegidas pela polícia, nada acontece. Você pode andar à noite, caminhar etc. Sou nascido no Humaitá, sempre vivi no Rio, e um bem que a gente perdeu ao longo dos últimos anos foi o de viver sem se sentir ameaçado. Se você for à praia corre o risco de um arrastão. Se fugir para dentro d’água, corre o risco de ser contaminado pelo esgoto.”

Bons restaurantes, as melhores grifes, agências de modelos enchendo as ruas com produções de manequins estonteantes e tudo com um custo de vida abaixo das grandes cidades do mundo. Para que mais? Zózimo achava que era o Rio dos bons tempos, um projeto de cidade feliz que poderia ser deslocado para a linha de baixo do equador. Curtia os amplos espaços para passear de bicicleta e a cada pedalada embalava o sonho dos últimos anos: o mais rigoroso dolce far niente. Gostava de ir com os amigos ao Voile Rouge, clube de praia com restaurante, bar, spa. Ficavam até o fim do dia curtindo a existência dos sortudos. O café da manhã era na Ocean Drive, palanque perfeito para ver um desfile de mulheres incríveis. A boa temperatura da cidade e seus cenários quase tropicais fizeram com que as agências de modelos abrissem escritórios ali.

“Quer trocar de cabelo comigo?”, disse a mulher de jeans e camiseta à menina de cabelos cacheados, neta de Celidônio, numa delicatéssen. No dia seguinte, o mesmo encontro da mulher e a menina de cinco anos, e a mesma pergunta. Só no terceiro encontro é que Celidônio percebeu. A loura que queria trocar o cabelo liso, invejado por todas as mulheres do mundo, com o da sua neta era — ele reconheceu pela pintinha no canto da boca — a top model Cindy Crawford.

De vez em quando Zózimo ia a Las Vegas jogar e beber, ou Nova York, porque era preciso ter um mínimo de conexão com a realidade. Logo voltava à sua querida Miami e aplicava o seu conceito de viver bem, dentro de sua disponibilidade financeira e sem luxos otários. Felicidade não era jantar toda noite nos restaurantes mais caros. Era possível ser feliz num Fiat — e dizia isso em entrevistas. Sentia-se protegido, sem aporrinhações. Um dia, andando de bicicleta, perdeu-se e foi parar num lugar da cidade que, assim como havia no Rio, não era para frequentar. Um bairro controlado pela bandidagem. A diferença para o Rio foi que, antes dos ladrões, imediatamente apareceram um carro com policiais e a informação gentil: área perigosa, retire-se.

Se alguém lhe perguntasse sobre homens que admirava, citava os maduros Antonio Carlos de Almeida Braga, o Braguinha, Israel Klabin, Gilberto Chateaubriand e Baby Monteiro de Carvalho, porque “viajavam muito”. Detestaria ser um rico como Chiquinho Scarpa, “que aprendia pouco com a vida”. Em Miami viajava e, se não havia muito o que aprender naquela eterna espreguiçadeira de frente para o mar, relaxava. Vivia outra personalidade. Como se quisesse pontuar isso, um dia apareceu com um piercing de brilhante cravado no nariz.

Na primeira metade dos anos 1990, o passaporte de Zózimo apresentava dez carimbos de entrada em Miami contra três em Paris. Não levava terno na bagagem, mas bermudas e camisetas. Seu plano para o futuro era ficar de lá mandando textos, crônicas, notas, o que lhe pedissem do jornal, talvez uma coluna semelhante à que Elio Gaspari e Paulo Francis já faziam. Qualquer coisa, mas sem a obrigação insuportável, confessada a todos os amigos, de precisar ir à redação e permanecer lá trancado o dia inteiro, aturar a insipidez das fontes, os telefonemas de Theophilo de Azeredo Santos querendo passar informações sobre si mesmo. Era seu ritual havia quase trinta anos. Estava de bom tamanho. Com a multidão de brasileiros na cidade, teria notícia, mas sem estresse para apurar, sem precisar chamar o diagramador para paginar, sem se responsabilizar pelas mancadas de Fred Suter ou se abaixar quando Marly atirasse mau humor em todas as direções.

O resultado, naquela primeira prática de colunismo internacional, foi bom. O fato de ser fim de ano poderia ter atrapalhado a garimpagem de notícias, todavia Zózimo tinha nos Estados Unidos uma fonte extraordinária. Quem estava em Nova York, como correspondente da Veja, era Elio Gaspari, ou melhor, “Happy Happy”. Eram amigos desde 1964, quando se encontraram no Réveillon do Clube Silvestre, em Santa Teresa, no Rio. Um ano antes, no mesmo evento, saíra um tiroteio dos diabos pelo motivo de sempre: alguém tinha dado em cima da mulher de outro alguém e o ofendido espantara o gavião a bala. Naquele Réveillon, quando Gaspari e Zózimo se conheceram o clima estava mais calmo, se é que um adjetivo desses pode estar na mesma frase em que se anuncia a festa de fim de ano promovida pelo humorista Jaguar, um dos futuros editores do humorístico O Pasquim. O clube ficava no meio da floresta — e era na direção dela que os casais partiam no momento em que se rompia o ano.

Zózimo e Gaspari, já dentro dos parâmetros do alto teor etílico inerente à qualquer festa de Réveillon, se desejariam a noite inteira dezenas de “Happy new year”. Para o resto dos tempos, para espanto dos que não entendiam a origem daquilo, só se tratariam de “Happy Happy”. Construíram sólida amizade. Gaspari era fonte de Zózimo. Criado no escritório de Ibrahim Sued, juntou imenso talento para a percepção do que fosse de interesse do leitor com um arquivo de dados que ia recolhendo sobre os mais diversos assuntos (“leia sempre, mesmo que só passeando os olhos pelas páginas, revistas que não sejam exatamente as de seu interesse imediato”, recomendava aos iniciantes). Botava tudo isso num texto único que, para tratar da exoneração do general Sylvio Frota por Geisel, poderia ter o último desfile da Mangueira na linha de abertura.

Gaspari em Nova York foi fundamental para a boa temporada de Zózimo no exílio. A coluna de 25 de dezembro de 1992, por exemplo, estava repleta de notícias e boas articulações, e dava pena gastar material tão suculento num dia de pouca leitura de jornal. A nota “Vozerio” surgiu de uma dessas conversas da dupla de criação.

 

• Fala-se hoje no Bloomingdale’s de Nova York muito mais

português do que inglês.

• E sobretudo muito alto.

 

Três dias antes, em 22 de dezembro, outra nota vinha com o DNA evidente de Gaspari. Falava do irmão do presidente Bill Clinton, dizendo que o sujeito era cantor e estava prestes a gravar o primeiro disco. Gaspari e Zózimo juntaram o Clinton’s brother com o grande escândalo brasileiro:

 

• No Brasil, os presidentes também têm irmãos.

• Com a diferença de que não cantam.

• Falam.

 

E o leitor dava um sorriso, o grande ideal do colunista ao lhe preparar o café da manhã, pois Fernando Collor estava caindo depois de denunciado pelo irmão, Pedro. Gaspari encontrara em Nova York uma fonte preciosa sobre o “pegapracapá” daquela família. Um sujeito que no Brasil era um poço de silêncio e, no exterior, abria o bico com facilidade. A coluna passou a dar, em pílulas, bastidores deliciosos e exclusivos do caso que, no resto do jornal, ocupava dúzias de páginas. Uma das notas, escrita por Elio “Happy Happy” Gaspari, dizia:

 

• O novo advogado de defesa escolhido pelo presidente

afastado Fernando Collor, José de Moura Rocha, pode ser

um nome novo em Brasília, mas é velho conhecido da

Justiça em Alagoas.

• Na década de 70, foi acusado de homicídio do secretário

de Segurança do estado, julgado e absolvido. Só que logo

após o julgamento a polícia prendeu o executante do crime,

o pistoleiro My Friend, que confessou ter agido a mando

precisamente do advogado absolvido.

• My Friend ganhou um estagiário dativo, o então

estudante de direito PC Farias. O qual perdeu a causa e,

amargurado com a derrota e desiludido profissionalmente,

largou o bacharelado e enveredou pela pilantragem.

 

Muitas notas eram apenas sobre o roteiro social de Miami, de pouca repercussão jornalística, mas ajudavam Fred e Anna Maria Ramalho, a nova contratada no Rio, a fechar a coluna. Informações como “Luma de Oliveira e Eike Batista comprando casa numa praia de Miami” ou “José Hugo Celidônio e Marialice recebendo para festa em seu condomínio” saíam em geral na seção Roda-Viva.

Das andanças, sempre surgia alguma curiosidade.

 

• Um encontro curioso no restaurante Monty’s, de Miami,

em frente ao consulado brasileiro, em Bay Shore Drive: o

casal Renato Aragão.

• Didi foi obrigado tempos atrás a refugiar-se em Miami,

vítima de ameaça de sequestro, um must no cotidiano

carioca.

 

Zózimo falava também dos amigos na cidade, como Sebastião Lacerda. Estavam batendo perna em Coconut Grove (“um lugar horroroso, como tantos outros da cidade”, segundo o editor, também reticente quanto ao charme de Miami), quando Lacerda puxou Zózimo e a turma para dentro de uma loja. Era um sebo. No outro dia, estava na coluna, num relato que também escondia a primeira pessoa:

 

• De um leitor desta coluna, de férias em Miami, ao saber

que o editor Sebastião Lacerda tinha, em companhia de um

amigo, consumido a tarde inteira num sebo de Coconut

Grove farejando obras raras para sua biblioteca:

— Só mesmo o Sebastião para conseguir levar um brasileiro

a entrar numa livraria em Miami.

 

Foram cinquenta dias de passeio, brincadeiras (adorava entrar numa loja em que a grande atração era um carro que balançava de acordo com a música que estivesse tocando no rádio do painel!). Muita bicicleta e algum trabalho. Miami confirmava, aos olhos de Zózimo, o lar doce lar de sua ansiada aposentadoria, o futuro já decidido de, depois de tantos anos fazendo o que Millôr chamava de “livre pensar”, tratar das delícias do “livre flanar”. Mas era coisa para adiante. No início de fevereiro de 1993, a família aterrissava de volta no Galeão. As crianças precisavam tocar a vida escolar e o JB pressionava, discreto, para Zózimo comandar in loco a coluna. Dorita logo fecharia as lojas de flores desidratadas. As plantas chinesas de seda entravam no mercado com preços impossíveis de serem alcançados.

Aos jornalistas, Zózimo explicou as razões da volta: “A intensificação das operações policiais no Rio desarticulou muitas quadrilhas e me deu esperanças para retornar ao Brasil.” A polícia, de concreto, não tinha descoberto nada sobre as perseguições, mas a vida real forçava a apostar numa melhora. Todo dia buscava um trajeto diferente para chegar ao jornal. Também acoplou ao telefone um aparelho que controlava as ligações para casa, uma iniciativa do delegado Hélio Vígio, para depois comparar com um acervo de vozes de sequestradores.

Era fevereiro no Rio, e em fevereiro tem Carnaval. Na coluna ele era ainda mais divertido. Onde mais uma nota com os confetes salientes da festa de 1993? Como nesta, intitulada “Fominha”:

 

• O ator Robert De Niro mandou um carro buscar a

jogadora de basquete Marta, no Rio Othon, para encontrá-lo

no Copacabana Palace.

• Consta que ficaram só no breakfast.

• Os finalmentes teriam ficado para outra oportunidade.

 

Enfim, o colunista da cidade retornava a seu posto de observação. Queria chegar aos poucos, ressabiado com a possibilidade de algum sequestro e com as imagens de Miami ainda na retina. Logo teve roubada a bicicleta quando estava sendo usada pelo filho de Dorita. “Por onde andará a Guarda Municipal criada pelo ex-prefeito Marcello Alencar e destacada para o policiamento da orla da lagoa?”, escreveu, após a violência, na coluna do dia 18 de abril de 1993.

 

• Os assaltantes agem montados na garupa de

motocicletas, escolhem como vítima de preferência

meninos, tiram-lhes a bicicleta sob a mira de revólveres e

saem pedalando satisfeitos da vida. Pede-se a volta da

Guarda Municipal porque não dá para contar com a PM.

• Lidar com PM é um perigo. Estão hoje em sua grande

maioria muito mais do lado de lá do que de cá.

 

Dois meses depois de voltar do paraíso americano, Zózimo estava de novo às turras com a cidade (“Não dá mais para viver aqui”, repetiu aos repórteres). Em 11 de fevereiro, publicou nota enigmática, típica de quem sinalizava para si mesmo a necessidade de ir devagar com o andor. Eram duas linhas, sua marca registrada de brilho econômico no trato da língua:

 

• Pinçado da obra de Samuel Beckett:

— O único esporte que eu tenho praticado é seguir enterro a

pé.