Enquanto Houver Champanhe, Há Esperança

Joaquim Ferreira dos Santos · Capítulo 29 de 50

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Enquanto Houver Champanhe, Há Esperança

Capítulo 29

A nota saiu em 2 de janeiro de 1989 e, se fosse feita uma pesquisa sobre a mais famosa das 200 mil notas que Zózimo publicou, seria a campeã. Ela está para o colunismo de notas assim como Dom Casmurro, de Machado de Assis, está para a literatura nacional. Um clássico incontestável, o formato perfeito, o equilíbrio sofisticado entre informação e humor no mínimo de espaço. O título é “A arte de soletrar”:

 

• A melhor historinha deste início de ano envolve a

cantora Elba Ramalho e um amigo, com quem ela tentava

desesperadamente se comunicar outro dia por telefone em

plena zoeira da boate People.

• Ela queria dizer onde estava e do outro lado da linha

pouco se ouvia.

— Eu estou no People — dizia Elba aos berros.

— ?????

— No People, pô. People, não conhece?

— ?????

— No People, People — P-I-P-O-L!

 

A cena tinha acontecido na semana anterior, a última de 1988, e foi a única notícia divertida daquela segunda-feira no jornal, dominado pela tragédia do Bateau Mouche, o barco que virara durante a festa de Réveillon e matara cinquenta e cinco pessoas na baía de Guanabara. Muita gente no People ouviu o telefonema de Elba, ou parte dele, pois o barulho no ambiente era grande. Para se fazer registrar por quem estivesse do outro lado da linha, tornava-se necessária uma voz poderosa — e Elba, anos antes, já havia sido alcunhada de “a vingança do agreste” por Telmo Martino. Ao telefone fixo, no bar da boate, ela possuía o registro vocal perfeito para se fazer ouvir.

O People, no Leblon, era um dos pontos de referência da vida noturna carioca, concorrente do Hippopotamus principalmente pela qualidade da plateia. Em dois andares, no térreo e no subsolo, o empresário José Henrique Ferraz conseguira criar ambientes de bar, restaurante e casa de shows, todos eles se misturando, sem limites geográficos entre artista e público, e isso dava um tremendo charme. Dependendo do ponto em que se estivesse, o tal charme também podia se transformar em problema.

A cantora Nana Caymmi estava no auge do reconhecimento da crítica, com músicas tristes que davam dó (chorava quando cantava “Declaração de separação”, de Dominguinhos e Anastácia), e não suportava o passeio dos garçons enquanto cantava. Achava desconcentrador. Eles andavam pelo palco, um espaço que não existia, pois ficava no mesmo plano do público. Certa noite, quando o garçom passou com o copo de uísque de um freguês na frente dela, zás!, Nana interrompeu a canção para dar um bote: “Este é meu.”

Era o Rio no que a cidade tinha de melhor, as tribos entrelaçadas, a falta de cerimônia, o auê generalizado, como se fosse praia noturna. As mesas eram muito próximas umas das outras, o que obrigava os presentes a um inevitável relacionamento. Como a plateia reunia basicamente celebridades da cultura, da boemia, da sociedade e do empresariado, todos se faziam íntimos. Não seria surpresa se, ao ir ao banheiro, o usuário anterior tivesse deixado em cima da tampa do vaso, como se pedisse desculpas pela demora, uma fileira de cocaína já esticada. “Que beleza!”, vibrou Tim Maia durante uma apresentação. “Um show de Tim Maia pelo preço de um grama de pó!”

Naquele final de 1988, Elba Ramalho tinha ido ver o show da Velha Guarda da Portela. Na cena ao telefone, ela conversava com a empregada, Vera, moça semialfabetizada. Tentava passar um recado mais ou menos simples, não fosse a barreira do barulho e da palavra em inglês. Elba tinha marcado um encontro em sua casa com uns amigos, quando todos então, juntos, sairiam para o People. Só que ela precisou sair antes de casa e queria que a empregada contasse isso quando os amigos chegassem. Era o que ela afirma que gritava para Vera ao telefone: “Quando o pessoal chegar aí, diz que eu já estou no People, que é pra todo mundo vir pra cá.” Simples, não? Depende.

Vera não se entendia com a palavra “People”. Quando Elba começou a soletrar, piorou. As letras p-e-o-p-l-e não combinavam, no ouvido dela, com a sonoridade que a patroa dava ao nome da boate. No meio da barulheira e também por ter a comunicação significado inalcançável à sua interlocutora, Elba diria depois ter desistido de explicar qualquer coisa. Foi aí que usou o recurso que lhe pareceu mais eficaz. Mandou às favas o inglês correto. Soletrou people de um jeito que Vera entendesse: “Diz a eles que eu estou no P-I-P-O-L.”

A empregada compreendeu imediatamente. Tudo estaria encerrado se Elba não estivesse cercada de fontes de colunistas. Entre os que ouviram, estavam o Josa, da direção do Jornal do Brasil, e também a assessora de imprensa Valéria, funcionária do escritório de Anna Maria Tornaghi, dona da conta do serviço de relações públicas do Pipol, digo, People. Na manhã do dia seguinte, Josa e Valéria descreveram a cena para seus colunistas preferidos. Mal acordou, Josa pegou o telefone e contou a história a Zózimo. Valéria enviou a mesma nota para Fred Suter, que saíra do JB e estava no Globo, desde janeiro de 1987, à frente da antiga Coluna de Carlos Swann, que um ano depois teria seu nome reduzido para Swann. Tanto Josa quanto ela não sabiam que do outro lado da conversa de Elba estavam Vera e sua dificuldade de entender a língua inglesa. Passaram para os colunistas apenas as falas da cantora. Só Zózimo se interessou. Quem não se dobraria de rir diante da cantora nordestina soletrando errado?

Após a publicação, Elba telefonou para Zózimo dizendo não ser ignorante como, “no seu elitismo”, o colunista supunha. Não exigiu reparo. Já tinha sido vítima de outra piada que a marcara nos meios artísticos. O compositor baiano João Gilberto teria lhe pedido por telefone que fosse até seu apartamento para conversarem sobre música, mas que ela levasse um baralho de cartas. Em lá chegando e em tendo batido na porta, o cantor perguntou, de dentro do apartamento, se Elba estava com o baralho. Quando ouviu a confirmação, João pediu que ela o passasse, carta por carta, por baixo da porta. Com as cartas na mão, ele despediu-se com um tchau lá de dentro mesmo.

A história, segundo Elba, não é essa. O cantor pedira que ela conseguisse com os seus músicos um pouco daquele cigarro forte que muitos representantes da classe costumam fumar nos momentos de relaxamento e busca de inspiração — e que deixasse a encomenda na porta do seu apartamento. A nota do People mais uma vez, segundo Elba, cutucava na tentativa de estigmatizar uma nordestina. “Eu fiz duas faculdades”, desabafava referindo-se a cursos de sociologia e economia, não concluídos, quando lhe perguntavam a verdade por trás da nota. “Só pessoas preconceituosas podem imaginar que eu não saiba soletrar people.”

Quem também não gostou da história foi a promoter Anna Maria Tornaghi. Ela deu uma bronca na funcionária que encaminhou a nota para O Globo. Valéria, contratada para passar informações sobre como era bom estar na noite do People, gostava de divulgar notas de gozação que, evidentemente, ricocheteavam no letreiro da casa. Dentro do People, ensinava Tornaghi, todos são inteligentes, bonitos e bem-sucedidos. A noite é sempre up! Qualquer coisa fora disso, continuava a mestra, nós não vemos, não ouvimos e, principalmente, não comunicamos aos jornalistas.

Boa parte do sucesso do People se devia ao People Down, o depósito no subsolo que acabou virando um cantinho acolhedor para se viver o melhor da noite carioca. Foi no bar dali que se deu a cena de Elba ao telefone. O esconderijo do esconderijo, o útero do Rio, o último lugar aonde a polícia chegaria para prender quem estivesse nos banheiros. Um cliente famoso também gostava de se sentar ali por outro motivo. Protegido pela multidão de acontecimentos ao redor, podia ficar olhando as mulheres mais bonitas do Rio, starlets globais, e, em homenagem a elas, se masturbar embaixo da mesa. Valéria soube disso. Minutos antes de passar a nota para Zózimo, foi proibida por Tornaghi.