Enquanto Houver Champanhe, Há Esperança

Joaquim Ferreira dos Santos · Capítulo 7 de 50

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Enquanto Houver Champanhe, Há Esperança

Capítulo 7

Era um jantar de uma noite de setembro de 1961, com Boy numa cabeceira, Zózimo na outra, mais Izabel, Elza e o amigo Carlô nas laterais. De repente, Zózimo, vinte anos, desabou sobre o prato. Parecia cena de filme, e o jovem ficou emborcado ali, sem machucado aparente, porém sem sinal de vida. Desmaiado. As mulheres gritaram seus espantos. Boy e Carlô o levaram para um sofá. Depois do telefonema para o Hospital Miguel Couto, pedindo uma assistência (que era como se chamava a ambulância), o pai subiu ao segundo andar e confirmou o que já suspeitava. Trouxe de lá e mostrou a todos um vidro de Gardenal, tranquilizante com que ele próprio se tratava. Vazio. Zózimo tinha tomado tudo. Estava desiludido, deprimido e passionalmente desesperado por achar que havia perdido a luta pelo amor de Marcia Kuperman.

Eles eram colegas de turma no Andrews, passaram os três anos do Clássico juntos, mas o namoro mesmo começara apenas no encerramento das aulas. A perspectiva de tomarem rumos diferentes fez com que precipitassem uma relação, antes restrita apenas a um companheirismo mais próximo. Declararam-se apaixonados numa reunião na casa de Renato Machado — e este poderia ter sido o início de uma bela história de amor entre jovens da boa classe média da Zona Sul não houvesse dois detalhes embaraçosos. Marcia já tinha um namorado, de posição social bem melhor, da família dona da Wrobel Engenharia. Mais: era judeu, como ela. Zózimo escolhera — como se o amor tivesse escolha, diriam os cínicos românticos — uma namorada de outra religião e que já tinha namorado.

A overdose de barbitúricos remetia, agora em português dramático, a uma aula de inglês famosa no Andrews, quando o professor Dante mais uma vez repetia a história do amor impossível de Romeu e Julieta, vítimas dos conflitos entre as famílias Montecchio e Capuleto. Dante usava o sofrimento dos jovens ingleses para motivar a atenção dos alunos, todos na faixa etária dos heróis da tragédia. Dava certo. Numa época de repressão de todas as ordens, sempre havia alguém que se encaixava numa proibição — e ali estavam Zózimo e Marcia, impedidos, especialmente pela religião, de seguirem em frente com seus projetos de amor.

O namoro, do pátio do Andrews ao início oficial na casa de Machado, ficaria como um pacto, de conhecimento restrito àquele grupo de amigos. O namorado oficial de Marcia, também do colégio, trazia consigo todos os itens de segurança que configuravam um bom casamento, e a relação já vinha de pelo menos um ano. Zózimo, além da dissonância religiosa, não tinha, em termos práticos, de vida real, muito o que oferecer. Divertido, inteligente, com os mocassins certos. O dia a dia, no entanto, se faz de outras materialidades.

Ao sair do Andrews, ele passou no vestibular para a Pontifícia Universidade Católica, a PUC, no início de 1961. Mais uma vez seguindo os passos do pai, matriculou-se em direito. Não tinha noção do que se tratava, mas, entre os exemplos domésticos, descartara incontinenti a possibilidade de ser engenheiro, como o avô e os tios, por não gostar de cálculos. A advocacia pareceu uma atividade mais possível ao rapazote de dezenove anos, preparatória até para, quem sabe, tentar a diplomacia mais adiante. Para ajudá-lo na decisão houve o fato de que também se inscrevera no curso a patota do Andrews — Sebastião Lacerda, Joaquim Vaz de Carvalho e Renato Machado. Zózimo dividiu 1961 entre a PUC e o amor proibido com Marcia. Pela primeira, a paixão acadêmica, que nunca existira, só decaía. Já a paixão pela segunda só aumentava.

Marcia seguiu a vocação natural de lidar com artes visuais e matriculou-se na Escola de Belas Artes, no Centro. Zózimo era tão assíduo no belo prédio da avenida Rio Branco, que chegou a ser confundido com mais um aluno do curso. Participava das discussões do momento nas artes plásticas, como a ruptura entre os concretistas do Rio e de São Paulo. Depois das aulas, o casal podia sair no Jaguar emprestado por Boy, onde Zózimo, aos dezesseis anos, aprendera a dirigir tendo o pai como professor. O carro impressionava: cinza, forrado de couro vermelho com o painel em madeira iluminado por uma luz azul. Aos sábados, depois do almoço, Boy botava Zózimo e Izabel dentro e saía dando voltas na lagoa. De vez em quando, aproveitando as ruas ainda vazias, entregava a direção ao garoto — e era com esse Jaguar ostentação, placa 13-01-98, que Zózimo pegaria a namorada no Centro. Circulavam pelo Parque da Cidade, na Gávea, e por outros lugares longe das multidões. Um dos clássicos dos romances escondidos do Rio, o restaurante Os Esquilos, na Floresta da Tijuca, estava na rota do casal. A comida ali sempre foi ruim, mas o amor a tudo tempera.

Os Kuperman, moradores de Copacabana, frequentavam o Clube Israelita Brasileiro, a meia dúzia de quadras de sua casa, e, religiosos convictos, não admitiam que o romance vingasse. Nada contra o rapaz, o problema é que era um gói. O pai de Marcia, Bernardo, engenheiro, e a mãe, Lilia, mostravam-se intransigentes. Questão de tradição. A moça precisava esposar um judeu. Naquela semana do quase suicídio, Marcia, sob ordens da família, rompera em definitivo com Zózimo. Não poderiam se ver mais. Ela havia ficado noiva de Wrobel.

No clã dos Barrozo do Amaral, amigos, principalmente os mais íntimos, como Carlô, enfrentavam longas conversas sobre o drama passional. Zózimo falava em lutar por seu amor e, dado a explosões de agressividade, era também pródigo em explosões de tristeza. Chorava a rejeição. Ficava horas ouvindo Charles Trenet, cantor romântico francês, especialmente “Que reste-t-il de nos amours”. Na mesa de cabeceira, um volume em francês de Bonjour tristesse, de Françoise Sagan. O consumo de cigarros ultrapassara a marca de um maço por dia (logo chegaria a três, depois, quatro). Ele misturava Luiz XV sem filtro, comprado na esquina, com o francês Gitanes, de algum contrabandista. A cultura francesa, para o bem (Godard entrava na moda via Cine Paissandu) e para o mal (a fumaça do cigarro), dava as cartas. O poeta da onda era Jacques Prévert, objeto de saraus reflexivos entre os jovens, ídolo de Renato Machado.

O sofrimento da turma era em francês — e teve uma noite, no Bar Lagoa, que Zózimo discutiu com um sujeito da mesa ao lado porque ele sintonizara o rádio de pilha na estação em que Jacques Brel cantava a dilacerante “Ne me quitte pas”. Achou que ele sabia de seu drama e debochava. A turma do deixa-disso, em português, afastou os dois.

Carlô costumava lembrar ao amigo a profusão de pretendentes. Realçava, empolgado, a beleza e a sofisticação de Suzana Velloso, uma também namorada de Zózimo, a primeira a chegar à casa da Frei Leandro assim que se espalhou a notícia do gesto radical com os barbitúricos. Ela era filha de um famoso advogado, Fernando Cícero Velloso, e de Odette Bouças. As duas famílias se gostavam e eram católicas. “Por que você não fica com ela?”, insistia Carlô.

Não faltavam namoradas, flertes e afins nesses interregnos com Marcia, idas e vindas dolorosas provocadas pelo anel de noivado no dedo do rival. Carlô e Zózimo namoraram duas irmãs, que moravam na rua dos Oitis, na Gávea, e seguiam para lá no carro do pai do primeiro. A casa das moças, humildes, ficava numa vila, e os rapazes da vizinhança não gostavam daquele choque social, dos playboys namorando suas meninas. Um dia, quando saíam da vila, tiveram o carro torpedeado por uma chuva de pedras ciumentas.

Com o coração em crise, tomado pela ausência de Marcia, Zózimo acabrunhava no segundo andar da Frei Leandro, 35. Não queria mais saber de garota alguma. Havia também a bela Helena Costa, filha do arquiteto Lucio Costa, outra namorada do período. E alguns brotos interessantíssimos que poderiam ajudá-lo a esquecer Marcia e fazer, como se diria mais tarde, a fila andar. Chegava-se a meados de 1961. A música de sucesso era “Amor em paz”, bossa nova de Tom e Vinicius na gravação de João Gilberto. Dizia: “Eu amei,/ e amei, ai de mim, muito mais do que devia amar.”

O quadro geral parecia ruim. A faculdade, cheia de leis em latim, não era para o seu bico. “Chato demais”, confessava aos amigos. O mais inesquecível de todos os professores, o de introdução à ciência do direito, um catedrático chamado Sbrozek, mestre absoluto na matéria, fazia-se tão duro e impenetrável nas aulas que, quando morreu, os alunos deram uma festa em comemoração.

A tentativa de suicídio durante o jantar e o aviso dos médicos de que se a ambulância tivesse chegado ao hospital cinco minutos depois nada poderia ter sido feito foram decisivos para Boy. Ele precisava ajudar o filho a encontrar outro caminho. Considerava uma humilhação ele estar sendo preterido no projeto de casamento e temia pelas consequências em sua alma frágil. Após o gesto duro contra si mesmo, o pavio curto do rapaz poderia armar algo de maior gravidade e, pior, contra outrem. Na semana de setembro em que Zózimo foi liberado do Hospital Miguel Couto, onde esteve internado para lavagem estomacal e descanso, Boy tomou a decisão. Precisava mudar o filho de cenário e de preocupações.

A sensibilidade estava à flor da pele. Um dia, ao saber que um colunista do Correio da Manhã elogiara a beleza da irmã Izabel, vista no Iate Clube dentro de um biquíni um tanto ousado para a época, ele correu até em casa. Invadiu a gaveta dela. De tesoura em punho, cortou em pedaços a veste que era tida como despudorada.

Zózimo, apaixonado, escrevia lindas cartas para Marcia:

 

Não vale a pena, e isso peço-lhe não duvidar, uma vida sem

amor. Ou melhor: amor é a força mágica que move as vidas

e estas só poderão assim ser consideradas a partir do

momento que se vejam animadas pelo sopro quente da

paixão. O simples mergulhar no próprio subjetivismo não

bastará se o âmago do ser não estiver sacudido e perturbado

pela sensação mais terrível que um coração pode suportar —

a de amar. O indivíduo não pode ser comparado a um balão

murcho cujo simples riscar de um fósforo incendeia a

pequenina peça que o incha e o torna uma realidade como

balão. Assim somos nós todos, uma pequena fagulha, saída

não se sabe de onde, e estará iniciado todo um complicado

processo de integração vivencial. Dentro da vida, uma outra

vida. Paralelamente à eternidade das ideias, a imortalidade

dos sentimentos.

 

Anos mais tarde, já colunista, diante de alguma história parecida, ele diria com ironia o bordão “Ah, o amor!”. Virou uma marca da coluna e servia de título para anunciar os encontros e desencontros da espécie. Naquele momento não cabia qualquer brincadeira. Zózimo amava profundamente Marcia. Ai de quem fizesse humor com sua tragédia. Trancava-se no quarto, envolvido pelo mobiliário pesado de jacarandá, comprado do diplomata Mauro de Freitas, amigo de Boy que ia para o exterior. Nas paredes, flâmulas do Flamengo. Nos cantos, coleções de gibis do Tarzan e romances policiais do francês Maurice Leblanc, com as aventuras de Arsène Lupin, o ladrão de casaca. Colado no tampo da escrivaninha, um texto famoso estimulava o rapaz a persistir na busca de seus desejos. Era a transcrição do poema “If”, de Rudyard Kipling, com a tradução para o português feita por Guilherme de Almeida, o tal Príncipe dos Poetas Brasileiros, casado com a tia Belkiss. Em 1954, a família fora a São Paulo participar dos festejos dos quatrocentos anos da cidade e Zózimo ficara próximo de Guilherme. O “Se” do tio permaneceu durante muitos anos na linha direta dos olhos de Zózimo. De tanto lê-lo enquanto fazia os trabalhos escolares, sabia trechos de cor:

 

Se és capaz de esperar sem te desesperares,

Ou, enganado, não mentir ao mentiroso,

Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares,

E não parecer bom demais, nem pretensioso

(...)

 

Resta a vontade em ti que ainda ordena: persiste!

 

Kipling, em tom existencialmente épico, conclamava Zózimo a esperar, sem desespero. Boy permitiu que ele trancasse a matrícula na PUC. Para que o filho pensasse melhor e esquecesse Marcia, fez mais. Contatou o amigo Jorge Taunay, que trabalhava com o cônsul brasileiro em Paris, Antônio Azeredo da Silveira, o Silveirinha, também seu amigo. Havia na capital francesa um trabalho na Casa do Brasil, um escritório comercial que funcionava como apêndice das embaixadas. Não precisava de diploma, de prova, só de QI — o Quem Indica. Zózimo tinha as duas indicações e ainda uma terceira. O diplomata Roberto Assumpção, que também trabalhava lá, deu o empurrão final. Era emprego na medida, pois requeria apenas o conhecimento da língua e dedicação de meio expediente. Zózimo topou. O pai de Marcia havia proibido peremptoriamente a filha de vê-lo por qualquer motivo. O que ele ficaria fazendo por aqui?

Em Paris, ele bem que tentou esquecer sua bela judia carioca. Namorou bastante. Uma das moças foi Lina Margarida, filha de Silveirinha. Alguns anos depois, em 20 de agosto de 1966, ela seria assassinada pelo marido, Mário Guaraná, que começara a namorá-la em Paris logo após o fim do caso com Zózimo. Depois de matar a mulher por ciúmes, Guaraná se suicidou.

A temporada de Paris foi um grande fim de semana jogado fora. Conseguiu os direitos para que amigos do Andrews montassem no Rio a peça Ping-pong, de Arthur Adamov. De resto, pouco a declarar. Zózimo não fazia nada na Casa do Brasil. Sebastião Lacerda e Vera Flexa Ribeiro, que haviam começado um namoro na escola, passaram por lá e viram mais. O amigo sofria com a ausência de Marcia e a bebida começava a se tornar mais que uma companhia fiel. Estava magro, fumando muito, deprimido com o exílio amoroso. Um dia, na refrega de um jogo de futebol, deu entrada no ambulatório de um hospital público parisiense. Precisou colocar uma tala protetora numa das pernas.

Mais adiante, chega ao Jardim Botânico um cartão-postal de uma praça de Roma com o seguinte texto no verso: “Nesta praça fui a uma cervejaria antiquíssima que sem favor nenhum foi o lugar mais do barulho que já visitei na Europa em matéria de bares. É todo de madeira, e bichos empalhados.” Diante desse tipo de notícia — um especialista em bares da Europa?! —, Boy enviou ao filho uma carta apreensiva. Entre outros sermões, pedia que fosse ao trabalho, de um jeito sério, e pensasse no futuro. Reforçava os motivos que tinham resultado em sua ida para Paris: mudar de vida. Não só esquecer Marcia, mas inventar uma profissão, um rumo. A viagem não era um projeto, brincava Boy, para que virasse um “pile”, de Pigalle, o bairro boêmio de Paris. Foi aí que Zózimo, afiando o humor que lhe seria pão, escreveu uma carta-resposta. Ok, papai, tudo bem. Iria se comportar — só que “pille” era com dois eles.

Além do fantasma, cada vez mais real, de ter criado um filho com propensão a ser um novo bon-vivant, o preocupado Boy recebeu na carta seguinte a notícia de mais uma ida de Zózimo ao departamento médico. Contraíra hepatite e perdera dez quilos. Suzana Velloso, de passagem por Paris, ficou impressionada com a magreza do ex-namorado — e também com a imensa solidão em que ele se encontrava.

Não haviam se passado sete meses desde sua chegada a Paris quando Zózimo recebeu nova carta de Boy, agora com a passagem para que voltasse ao Brasil. Ainda doente, ele retornou ao casarão da Frei Leandro, onde assustou a todos com o emagrecimento e o aspecto amarelado. Estava com a cabeça bem parecida com aquela que carregava no início deste capítulo — confusa. Perdeu a data de um concurso para o Itamaraty, o que talvez transformasse sua vida — “era o que eu queria de fato fazer”, repetiria muitas vezes no futuro, declarando-se “um diplomata frustrado” nos poucos momentos em que resmungava da vida. Em 1963 passou em mais um vestibular — tirou nota 10 em redação —, agora para um surpreendente curso de sociologia, da então Universidade do Brasil, depois Universidade Federal do Rio de Janeiro. Mas a esperança de ir em frente e pegar um canudo universitário despencou mais rápido do que a aventura do curso de direito. Na PUC foram sete meses antes de cair fora. Na UFRJ não chegou a ficar mais do que dois meses.

Uma das diversões de Zózimo eram as aulas de vida, nada acadêmicas, na Casa Rosa de Laranjeiras. Boa parte dos homens da mais fina classe média carioca, dos anos 1940 a 70, iniciou-se sexualmente ali. Foi o caso de Zózimo. Continuaria o curso da matéria com uma empregada doméstica na vizinhança do Jardim Botânico, e logo se tornaria rapaz com desenvoltura suficiente no assunto para, numa noite, descer a movimentada rua Voluntários da Pátria, em Botafogo, fazendo amor com a moça no banco traseiro do carro de um amigo.

Na Casa Rosa, já em 1962, ele frequentava principalmente os serviços de uma jovem a quem chamava de “namorada” e com quem esteve em muitas noites daquela temporada. Obrigava os amigos a acompanhá-lo e a também ter uma namorada lá — o que aconteceu, sem reclamação, diga-se, com pelo menos um deles. Numa noite, o tempo passava e Zózimo não saía do quarto da “namorada”. Quando o leão de chácara foi chamado para ver o que acontecia, deu-se a melódia. Dentro do quarto fazia-se o previsível, nada de grave. Fora dele, expulso sem consideração pelo brutamontes, Zózimo, em estado etílico, meteu-se em mais uma briga.

Pensando positivo, pode-se dizer que ele estava fazendo tudo, quase tudo errado, é verdade, para esquecer Marcia (a propósito, ela viajara para fazer um curso de francês em Paris quase no mesmo instante em que ele voltava ao Rio). A tentativa mais interessante foi o breve encontro dele com um futuro fenômeno nacional — a modelo Duda Cavalcanti. Ela também estava retornando, depois de um curso de três anos na Suíça, e apresentava-se para ser, por toda a década de 1960, a mais perfeita tradução da mulher carioca, aquela que ao lado de Leila Diniz começaria a virar de cabeça para baixo os tabus da opressão.

Duda tinha sido colega de Izabel no Santa Marcelina, colégio religioso do qual foi expulsa após empurrar uma freira durante uma discussão sobre a ousadia de uma roupa que usava. Ao retornar da Suíça, tinha dezoito anos, um metro e setenta e seis, cabelos negros escorridos, e trazia na bagagem duas novidades da moda internacional. A primeira era no território do vestir: pares e pares de calças Lee, a versão americana e fashionable do brasileiríssimo “brim Coringa não encolhe”. A outra novidade dava-se no território do desvestir: não usava sutiã.

Para completar o perfil, Duda tinha um olhar felino, caminhava com um jeito sem frescura, ao mesmo tempo educado, de selvageria sofisticadamente pacificada pelos bons roteiros das civilizações por onde andara. O cronista Carlinhos Oliveira chamá-la-ia de “uma catedral de carne” e dizia que estava criada uma nova filosofia entre os homens de boa vontade: o dudaísmo. Querem alguns que foi a bossa nova que introduziu o Brasil no mundo moderno — outros preferem dar esse crédito a Duda.

Em 1964, quando Vinicius de Moraes entrou com ela no bar Veloso, em Ipanema, e anunciou “senhoras e senhores, eis o meu novo poema”, Zózimo já conhecia o soneto. Às vezes iam ao bar Bem, em São Conrado, região deserta sinônimo de pecado. Conversavam em francês. Frequentavam também o bucolismo do sítio de um amigo comum. Ela o chamava de “Zozimô”, como se fosse um amante francês — nada, porém, que abalasse a paixão dele pela loura de olhos verdes do clã dos Kuperman. Zózimo e Duda também estiveram juntos quando ela já namorava Renato Machado, nos bastidores do Grupo de Orla. É o grupo de teatro que, neste momento, abre suas cortinas e apresenta o surpreendente capítulo em que marxismo e surrealismo, ao som do twist, vão às vias de fato em Caruaru.