Enquanto Houver Champanhe, Há Esperança
Capítulo 5
A se acreditar no cinema, jornalista não presta — e o colunista nova-iorquino J.J. Hunsecker, interpretado por Burt Lancaster em A embriaguez do sucesso, de 1957, é a prova clássica espetacular desse ser humano lamentável. Trata-se de profissional em alguns momentos cínico, em outros, mal-intencionado. Nenhum elogio a fazer. Poucas vezes o cinema foi tão fundo no submundo do jornalismo, especialmente no segmento das colunas sociais. A embriaguez era lama noir para tudo que é lado. Um filmaço adorado pela crítica — o resto da redação detestou. Zózimo viu o filme em 1958 e o citou pelo menos uma vez, como lição “pelo avesso” de ética jornalística.
O diretor Billy Wilder já tinha mostrado em A montanha dos sete abutres os excessos dos jornalistas para conseguir seu pão quente, ou seja, notícias quentíssimas. Há dezenas de títulos em que o cinema trata essa raça como escória da humanidade. Em A embriaguez seria a vez de o diretor Alexander Mackendrick contar sua versão, como se servisse um linguine com trufas ao molho de arsênico.
Querem os pesquisadores que em 1781 um certo Henry Bate, do Morning Post, de Londres, esteve preso por um ano após publicar aleivosias sobre a vida conjugal do duque Richmond. Foi o mártir da causa, a pré-história desse tipo de jornalismo. Henry Bate é o mais antigo registro que se tem de coluna de notas e, como se vê, já com aquela chamada de “Hot! Hot! Hot!”, seguida da porta da cadeia batendo. Já o formato de coluna, do tipo que conhecemos hoje, só seria inventado um século depois.
O colunista J.J. Hunsecker, do jornal New York Evening Graphic, o personagem maligno de Burt Lancaster, foi inspirado no pai de todos os colunistas, o polêmico Walter Winchell. Entregue ao culto da fofoca, Winchell começou, em meados dos anos 1920, o grande livro do moderno colunismo de notas — ok, mas também pode me chamar de colunismo social. Antes de Winchell havia a coluna de Cholly Knickerbocker, pseudônimo criado por John W. Keller e usado entre 1891 e 1896 no New York Recorder, depois no New York American (posteriormente, New York Journal American), e adotado, entre outros, por Maury Paul, que o usou de 1917 até 1942. O personagem Cholly Knickerbocker alargou os limites do Registro Social, a seção que antecedeu as colunas e era apenas uma monótona relação de eventos do mundo dos ricos.
O compositor Cole Porter lembrou-se de Cholly Knickerbocker na hora de escalar uma grife do colunismo social para a letra de “High society calypso”, tema de musical homônimo da Broadway. Também está na abertura do filme: a cena mostra um bando de artistas liderados por Louis Armstrong cantando a caminho de uma festa de ricos a letra de Cole Porter, que diz: “Nós estivemos por muitos anos na Variety/ agora nós vamos para a coluna de Cholly Knickerbocker.” Esses versos são século XX na veia. Flagram o sonho de subir na escala editorial, ter o nome registrado na coluna social e não mais apenas numa revista de artistas. É passar a existir de um jeito mais amplo. Os músicos que saíam na Variety queriam melhorar de vida, ser do society e mudar para outra publicação.
Em A embriaguez, o colunista Hunsecker cobra um preço alto de quem almeja tamanha glória de ascensão. Manipula o poder de ter uma coluna como se exibisse uma metralhadora. Imoral é pouco para defini-lo. O canalha sabe que uma linha de jornal é o novo sopro bíblico: pode dar vida ou tirá-la. Não tem uma coluna, mas um balcão de negócios a serviço da ambição humana de subir na escada social. É um gângster de black tie remexendo o lixo da informação, à cata de traições e afins. Chantageia políticos, artistas e policiais com a arma de sua profissão: alguma migalha de segredo que obteve no passado. Sexo fora do padrão da normalidade da época rendia primeiro notas jornalísticas e depois notas de dólares. “Por que tudo que você diz soa como ameaça?”, pergunta-lhe, apavorado, um senador que, como os demais personagens do filme, se sente subjugado pelo poder do colunista.
A embriaguez é uma caricatura das lendas que sobrevoavam a figura de Walter Winchell, que começou a carreira como ator de espetáculos de baixa produção na Broadway. Como a verba era curta, pegou para si também a função de escrever notas dos bastidores para revistas gratuitas que divulgavam as peças do quarteirão de Nova York. Já havia ali maledicências, sarros sobre os colegas, truques ainda de índole benigna para chamar atenção do público. O primeiro emprego de Winchell em jornal foi no New York Evening Graphic. O formato era basicamente o mesmo usado nas revistas: notas curtas, fáceis de ler. Só que agora ele aumentava o volume na tecla dos escrachos. Valorizava o repertório de divórcios e demais infelicidades conjugais, colocava veneno. Estava, enfim, publicado o primeiro rascunho daquilo que a história dos escândalos registraria mais tarde como “invasão de privacidade”.
A fofoca existia desde os tempos bíblicos. Walter Winchell foi quem primeiro a faturou na imprensa. Logo em seguida, e por causa do sucesso dele, todos os jornais americanos teriam a sua coluna de babados, tornando aquela seção parte fundamental no espelho de um diário. Winchell especulava sobre a vida sexual alternativa de galãs de Hollywood e sobre infidelidades, todo aquele material torpe que as colunas sociais normais discutiam nas internas, mas, diagramadas pela necessidade de serem finas, era deixado no café da redação. Com Winchell, a fofoca vencera. O “quem come quem”, a pergunta que move a humanidade, chegava às bancas.
Para recolher essas informações, e todos os malfeitos correlatos, Winchell não se incomodava em escolher suas fontes entre taxistas, chantagistas e outras rimas ruins — o que Hunsecker mostra no filme de um jeito caricato. Aquele tipo de colunismo punha em cena um novo profissional, o assessor de imprensa, um sujeito pago por quem se interessasse — artistas, políticos ou donos de restaurante — em ter nota a seu favor na coluna ou evitar notícias que pudessem ser a pá de cal em sua reputação.
Em A embriaguez, o assessor de imprensa Sidney Falco (Tony Curtis) também é tratado como vilão, um sujeito de mil caras e outras tantas mentiras. Ele não começa o dia tomando café. Seu alimento básico é pegar o jornal da manhã e ver se o colunista publicou seu pedido, aquela notinha que lhe dará o pão da subsistência. “Vocês não viveriam sem as nossas informações”, diz Falco, defendendo os assessores de imprensa. “Conversa fiada”, rebate o colunista Hunsecker. “Um assessor de imprensa encontra escândalos de gente famosa e os dá ao colunista em troca da divulgação de outras notas, aquelas pelas quais seus clientes pagam. É um trabalho vergonhoso. Agora, venha aqui, Falco, e acenda meu cigarro.”
O pioneiro Winchell teve um programa de rádio e nele criou a sonoplastia de um telégrafo sendo acionado ao fundo da locução de suas notas. Aumentava a tensão das informações curtas, dava sensação de urgência a todas elas. O homem foi um sucesso também na TV. Despachava de clubes noturnos como o Stork, em Nova York, onde criaram o sanduíche Winchell Burger, em sua homenagem, e onde possuía o privilégio de ter um telefone à mesa. Aos poucos, com o poder ampliado, circulando pelos nichos políticos, filiou-se à mais direitista política americana e transformou-se, no início dos anos 1930, num arauto particular e reacionário do que seria justiça. A seu favor, passou a apresentar no currículo o fato de ter sido um dos primeiros a alertar sobre o perigo de um sujeitinho de bigode fino que começava a discursar contra os judeus na Alemanha.
Winchell, com sua coluna de pílulas onde cabia tudo, principalmente o que ninguém até pouco tempo publicaria, tornou-se uma das primeiras celebridades saídas das redações. O jornalista passava para o outro lado do balcão. Virava notícia. Winchell era estrela como as do cinema. Fez filmes em que representava a si mesmo, apresentou uma série de reportagens policiais na TV e viu surgir uma multidão de colunistas em suas pegadas, gente como Elza Maxwell, Hedda Hopper e o novo Cholly Knickerbocker, a partir de 1945 encarnado por Igor Cassini. Todos eram queridos pelos leitores; contudo, fofoqueiros eram encarados com temor pelos que poderiam ser notícia ou se envolver com eles nos bastidores.
Em A embriaguez, tudo é puxado para o pior que o jornalismo pode apresentar. Ninguém presta, todos são movidos pelo mais cru interesse. Notícia é moeda de troca e tem sempre um preço. As cenas são rodadas à noite, quando todos os gatos são pardos e as sombras dos gângsteres corpulentos, dos casais a um drinque da separação e dos jornalistas farejando desgraça surgem sem distinção. Na manhã seguinte, vale a sombra que está impressa, e a silhueta do colunista de notas, esse herói moderno, sempre fica melhor que a de seus personagens.
No final da década de 1940, uma pesquisa dizia que, fora da política e da religião, o homem mais poderoso dos Estados Unidos era Walter Winchell, que gostava de aparecer com um chapéu — e a notícia chegou ao Brasil, onde Jacinto de Thormes, de cachimbo, se apresentou para ser o primeiro a viver o papel, mas sem gosto especial pela fofoca detratora.
Zózimo, em 1958, quando viu A embriaguez, nem sonhava com o assunto. Tinha dezessete anos. Via o filme impressionado com uma história em que a estrela era o pecado da injúria, da traição e de todas as suas outras formas de representação das trevas humanas, e saudava a liberdade de estar de frente para a vida real e não mais a celestial. O colunista sem princípios era como a havaiana rebolando na frente do escoteiro — só podia estar com o diabo no corpo. Dessa vez, no entanto, Zózimo não precisaria mais confessar aos padres do Santo Inácio ter se exposto a tanta vilania de um ser e pagar com dúzias de ave-marias.
Zózimo, expulso do Santo Inácio, viu o filme junto com os colegas do novo colégio, o liberal Andrews, também em Botafogo — meu Deus!, garotas lindas sentadas na cadeira ao lado!