Enquanto Houver Champanhe, Há Esperança
Capítulo 40
Quando a diminuta Chechênia, uma república da Rússia, na região do Cáucaso, rebelou-se, a paz internacional em 1994 não sofreu qualquer abalo. No aquário de Zózimo, no entanto, as gargalhadas soavam como bombas. Era mais uma republiqueta querendo fazer valer seus valores nacionais diante de uma União Soviética esfacelada, era outra crise separatista na nova geopolítica — um aborrecimento para a editoria Internacional. Mas a sonoridade daquele nome friccionava, sacana, com outra palavra do vulgo carioca, e, como é típico nos processos criativos, Zózimo encontrou também aí o estalo que lhe dava o material de brilho. A primeira nota saiu em 19 de dezembro:
• E a Chechênia, hem?
• Chechênia, capital Clitória.
Às voltas com a rotina depois da temporada na Copa dos Estados Unidos, o humor do colunista soava esperto e a cidade comentava a artimanha de sua nova série de notas. Como nos bons tempos do JB, ele pegava o telefone e falava com Manuel Águeda, Sérgio Figueiredo ou algum outro amigo. Nem sempre para ouvir novas notas — queria, por exemplo, ler as que tinha acabado de escrever sobre a chanchada na antiga Cortina de Ferro. Em suas teclas, a Chechênia era deslocada da pompa grave da geografia política para a bandalha da geopornografia municipal, aquela que poderia estar sendo deflagrada em qualquer botequim da rua Irineu Marinho. Claro, com o tom certo da pena de Zózimo, capaz de refinar o chucro. Foi um chorrilho de notas hilárias.
• E a situação da Chechênia, hem?
• Está cabeluda.
No meio da brincadeira, em 22 de dezembro, Zózimo fingiu que encararia a Chechênia, com toda a dramaticidade de poder irromper dali uma guerra sangrenta. O título era “A sério”.
• Não se resume à Chechênia os problemas da Rússia com
o separatismo.
• Há, perto dali, uma outra república russa em crise
latejante e crescente.
• A Karélia.
Valéria Blanc e Vanessa Bueno, nas mesas ao lado da de Zózimo, eram as primeiras ouvintes das pequenas peças. Achavam algo machista, mas, em geral, riam muito, e mais ainda da felicidade com que ele, agora passado dos cinquenta anos, lia, moleque, aquele besteirol de classe. Misturadas ao noticiário, davam um mix irresistível. Algumas dessas notas surgiam de conversas com amigos ao telefone, e Rogério “Senador” Monteiro, Ricardo Amaral e Roberto Kreimer continuavam a ser parceiros constantes de criação. Outras assinaturas eram as de Roberto Irineu Marinho e Luiz Eduardo Borgerth, diretamente do prédio da TV Globo, no Jardim Botânico.
Num momento da refrega, a Chechênia parecia querer sair do Cáucaso russo para se espalhar pelo mundo e alcançar territórios que nem o mais perspicaz estrategista poderia imaginar — só mesmo o general Zózimo, que, de guerras, só tinha como experiência a participação como militar americano no filme de Henfil. “A Chechênia ameaça aderir ao Peru no conflito com o Equador.” O mundo estava sendo reinventado na coluna de Zózimo, com novos países e blocos: “As tropas russas refazem as energias para nova arremetida na Chechênia. Agrupam-se em Pola.”
Era quase infantil. Soava também como uma conversa de bar, de salão de barbeiro, de arquibancada do Flamengo. Zózimo ia em frente com seu manual de redação exclusivo: humor, informação, inteligência e o que mais pintasse pelo caminho. Só Hildegard Angel, aos sábados, ainda insistia nos casamentos e aniversários. Um produto que no início queria reproduzir as conversas dos salões chiques da cidade, a coluna social com Zózimo sacava os tempos modernos. Le Bec Fin, o palácio da gastronomia fina das décadas anteriores, vivia agora com bicheiros e militares saudosos da ditadura. O mundo estava tão mudado que a Chechênia era aqui! “Só há uma solução para a Chechênia”, Zózimo anunciou, como se mais uma vez fosse falar a sério sobre o assunto. “O dedo do Jimmy Carter”, disse, referindo-se ao ex-presidente americano que se notabilizava como gerente suave de crises internacionais.
Num dia, usou a Chechênia para fazer o seu famoso twist com o sentido das palavras e as informações disponíveis na praça. Pegou uma notícia que já havia saído nos jornais: o conservadorismo da recém-lançada edição russa da revista Playboy. Nela, ao contrário de suas congêneres em outros países, não havia nus frontais — e aí, nesse moralismo pós-comunista, entrava o dedo de Zózimo. “No máximo, calcinhas e, exagerando, uma peitoca aqui e outra acolá”, dizia a nota, para em seguida penetrar fundo no que interessava: “Logo na Rússia, vizinha da Chechênia.”
O repertório de notas sobre a inquieta Chechênia fechou um ano em que pelo menos outras duas vezes ele já havia chamado atenção dos leitores com a tática de lançar um punhado delas, em sequência, sobre o mesmo assunto. Antes de botar sua picardia na Chechênia, havia se esbaldado com Itamar Franco — e, claro, tinha Chechênia na parada. Zózimo achava o presidente um caipira risível, e a performance de Sua Excelência no Carnaval carioca de 1994 era o que ele queria demonstrar. Itamar foi fotografado ao lado de uma modelo, Lilian Ramos, moça que se exibia em público de um jeito mais radical que as playmates russas. Ela foi fotografada ao lado de Itamar, em pleno camarote da Sapucaí, de um ângulo que dava para ver que não usava calcinha por baixo da camiseta comprida que se fazia de vestido. A República quase caiu. Zózimo caiu de rir e não perdoou:
• Há quem seja bom de cama. E há quem seja bom de
camarote.
Ou:
• Lilian Ramos confundiu aparição pública com aparição
púbica.
A coluna de 16 de fevereiro, Quarta-Feira de Cinzas, era praticamente só sobre o pas de deux desastrado do casal.
• É da maior importância evitar uma confusão
frequentemente feita no Carnaval que passou.
• Sapucaí com Saputaí.
Por vários dias Zózimo tratou da Chechênia, ou melhor, da genitália desnuda de Lilian. Fez barba, cabelo e bigode. Depilou todos os sentidos que o evento podia provocar. Em alguns momentos pegou pesado, como na coluna em que reproduziu, com direito a endereço e telefone, o cartão profissional de Lilian Ramos. Na legenda, escreveu: “O serviço de utilidade pública desta coluna reproduz o cartão de visita mais famoso, festejado, solicitado e disputado do Carnaval.”
Aproveitou que o Brasil estava com uma moeda provisória, no período de transição entre o cruzeiro real e o real, atrelada a um índice de Unidade Real de Valor (URV), e, sem medir palavras ou bom gosto, imprimiu sob o título “Voz do povo”:
• Depois do que aconteceu na Sapucaí, o povo escolheu um
novo significado para a sigla URV: Unidade de Referência
Vaginal.
Ou:
• Lilian Ramos está inclinada a escrever um livro sobre
estratégia econômica: Como abrir com sucesso o seu
negócio no Rio.
Quem mais, como na nota acima, se lembraria de sapecar o perfeitíssimo verbo “inclinar” para encher de malícia sutil a nota? Ele traduzia com alguma elegância, pelo menos vernacular, o que no botequim Pavão Azul, em Copacabana, mereceria palavras mais duras. Uma fonte do colunista telefonou para faturar politicamente o caso e ainda demonstrar erudição. Acabou ganhando uma notinha:
• O governador Antônio Carlos Magalhães tem na ponta
da língua, repetindo-a aos amigos, uma sábia sentença de
Santo Agostinho:
— Não podendo ser casto, sede cauto.
Cauto — palavrinha que o Aurélio de Zózimo registra como alguém “dotado de cautela e precaução”. A falta de calcinha da moça resvalou para uma acusação de “falta de decoro presidencial”, sem que o Congresso desse continuidade ao processo. Durante a semana entre o Carnaval e o desfile das campeãs, um período difícil para a colheita de notícias, era visível que informação nova passara a ser detalhe para a coluna. Zózimo queria se divertir à grande com Itamar. Segundo o colunista, tinha sido o primeiro presidente a ir a um desfile de escolas de samba. “E seria também o último”, garantia. Uma nota, no mais puro exemplo de que escrever bem é cortar palavras, dizia apenas:
• Presidente Itamar Franco.
• Que d-i-s-p-o-s-i-ç-ã-o!
O presidente ainda seria alvo da gozação de Zózimo quando se meteu num romance com June Drummond. A coluna batia na clave de que Itamar, trinta e dois anos mais velho, queria enrolar a moça, que, por sua vez, estaria buscando desesperadamente um bom casamento. Numa das últimas notas de 1994, Zózimo juntou esses personagens que lhe garantiram o sucesso da temporada e fez uma nota com o título “O presente do Itamar”. A apuração era de Rodolfo Fernandes, o molho final, de Zózimo. O texto ameaçava tom de notícia séria, mas o colunista não conseguia manter a pose:
• Revelado pela coluna, deixa agora de ser surpresa para o
presidente Itamar Franco o presente que receberá no
Réveillon dado pelos ministros que romperão o ano em sua
companhia no Palácio Jaburu.
• O rachuncho deu para comprar um belo tapete
caucasiano.
• A escolha teve a assessoria da primeira namorada, June
Drummond.
• O presente não poderia ser mais sugestivo.
• Afinal, é no Cáucaso que se instala a não menos famosa
Chechênia, que fabrica esse tipo de tapete.
Para terminar o ano, como se fossem votos de paz, Zózimo ainda voltou ao assunto que o obcecara durante os meses anteriores. A nota saiu no dia 28 de dezembro. Ainda se ouviam os sinos de Belém e já se anunciavam os fogos do Réveillon. Zózimo via esperança no futuro da humanidade e traduziu a seu modo o fim da grave crise militar iniciada no começo do semestre:
• Os russos amolecem.
• Estão saindo da Chechênia.
Paz na Chechênia, na Karélia, na Clitória e entre homens e mulheres, com ou sem calcinha, mas de boa vontade. Antes, porém, Zózimo sugeria que a ordem política naquele país tivesse acompanhamento brasileiro:
• Comenta-se em Brasília que caberá à atriz Lilian Ramos
em breve uma posição importante.
• Embaixadora do Brasil na Chechênia.