Enquanto Houver Champanhe, Há Esperança

Joaquim Ferreira dos Santos · Capítulo 3 de 50

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Enquanto Houver Champanhe, Há Esperança

Capítulo 3

Os nomes de Boy e Elza Barrozo do Amaral surgiam de vez em quando nas listas de grã-finos que participavam de festas noticiadas no Diário Carioca por Jacinto de Thormes, o pseudônimo do carioca Manuel Bernardez Muller. Foi o primeiro colunista social moderno da imprensa brasileira. O sujeito escrevia bem, tinha umas ideias avançadas sobre o assunto e era uma figuraça.

Maneco Muller, como a mais fina sociedade o conhecia, penteava o cabelo com gomalina, sublinhando as calvas que em 1945, aos vinte e três anos, começavam a riscar sua cabeça com severidade dramática. Insinuava um quê de Nick Holmes, o detetive americano dos quadrinhos que surgiria pouco depois. Na boca carregava um cachimbo com jeito de Sherlock Holmes. A seu lado, estava sempre seu cachorro. Esguio, o bicho atendia pelo nome de outro detetive, agora um sábio das investigações humanas — William Shakespeare Jr.

O design final era o de um jovem elegante, e Maneco, por mais que passasse a exagerar no tipo que inventou para sua performance de colunista, era mais ou menos assim mesmo na vida real. Pertencia a uma família de diplomatas (avô, pai e irmão, todos chamados Lauro Muller). Filho da charmosa uruguaia Negra Bernardez (o príncipe Edward de Gales, futuro rei Edward VIII, apaixonou-se por ela quando esteve no Rio, em 1931), Maneco era rico. Vivia entre seus pares, circulando pelo Country Club e pelo Copacabana Palace. Às vezes deixava escapulir um sotaque inglês, mas não por afetação. Era resquício da educação em Londres, onde passou três anos, antes dos dez, acompanhando a mãe (Negra Bernardez, sempre irresistível aos poderosos, estava então casada com um general italiano).

Maneco gostaria de seguir a diplomacia, como seus predecessores, embora também não achasse má ideia ser escritor ou goleiro do Botafogo. Era de bons modos, atitudes regidas pela mais fina etiqueta, pero mucho macho. Foi por isso que naquele 1946, quando o editor Prudente de Moraes Neto convidou-o para ser colunista social do Diário Carioca, o jornal mais avançado do Rio, Maneco reagiu de um modo descontraidamente carioca: “Mas, Prudentinho, isso é coisa de veado!”

O ofício já estava espalhado pelos jornais e revistas havia algum tempo com suas chochas coberturas de chás, casamentos e batizados, tudo com um jeito antigo e desimportante. Gilberto Trompowsky, que assinava G. de A., borrifava suas descrições com alfazema do início do século, como neste soporífero exemplo tirado da edição de dezembro de 1937 da revista Illustração Brasileira:

 

• Nos salões senhoriais da sra. baronesa de Bonfim grupos

elegantíssimos se encantam com o ambiente arranjado com

infinito bom gosto e, principalmente, com o ar de bondade

que irradia da sra. baronesa de Bonfim, figura ilustre de

uma ilustre família, que habituou todo o grand monde

carioca às suas recepções, notáveis pela sua elegância e

grande distinção... Atenciosa e encantadora, a srta. Maria

José Lynch e suas irmãzinhas oferecem deliciosas

gourmandises.

 

O escritor Lima Barreto, um suburbano defensor dos arruinados que usava um português sem preocupação com o que pudesse ser raffiné, classificava aquilo de “bobagem”. Em 20 de outubro de 1911, já tinha escrito na Gazeta da Tarde, do Rio:

 

Há uns tais diários sociais, vidas sociais etc. Em alguns

tomam colunas e, às vezes, páginas. Aqui nesta gazeta

ocupam quase sempre duas e três. Mas isso é querer

empregar espaço em pura perda. Tipos ricos e pobres,

néscios e sábios, julgam que as suas festas íntimas ou os

seus lutos têm um grande interesse para todo o mundo. Sei

bem o que é que se visa com isso: agradar, captar o níquel,

com esse meio infalível: o nome no jornal.

 

Mas, para serem lógicos com eles mesmos, os jornais

deviam transformar-se em registros de nomes próprios, pois

só os pondo aos milheiros é que teriam uma venda

compensadora. A coisa devia ser paga e estou certo que os

tais diários não desapareceriam.

 

Naquela época as colunas sociais tentavam se fazer respeitáveis ensinando o leitor a se comportar. Lima Barreto ficava encolerizado diante dessa estética dos arrumados. Na mesma crônica, disparava:

 

Não se compreende que um jornal de uma grande cidade

esteja a ensinar às damas e aos cavalheiros como devem

trazer as luvas, como devem cumprimentar e outras

futilidades. Se há entre nós sociedade, as damas e

cavalheiros devem saber estas coisas e quem não sabe (...)

tome professores. Que dirão os estrangeiros, vendo pelos

nossos jornais que não sabemos abotoar um sapato?

 

As colunas sociais moviam-se inúteis com suas dicas civilizatórias e a infindável relação dos nomes de quem havia tomado chá anteontem — ah, se cada nomeado pagasse um tostão!, como recomendava Lima Barreto, os jornais impressos conseguiriam superar, um século depois, até mesmo a concorrência digital! Ninguém sério se preocupava com aquilo. Mesmo ressabiado (“não passa de jornalismo na base do tout en bleu, tout en rouge”) e com medo do que fossem falar nas rodas de fofoca (afinal, ele lutava boxe em academia), Maneco topou a tarefa execrada por Lima Barreto. Impôs apenas a condição do pseudônimo protetor. Foi Prudentinho quem o batizou de Jacinto de Thormes, o português de elite que protagonizava o romance A cidade e as serras, de Eça de Queirós.

O personagem da literatura queria a modernização do modo de vida português. O personagem do jornalismo, encarnado por Maneco, buscaria a seu jeito a modernização daquela “coisa de veado”. A coluna social visitaria outros salões além dos alimentados com o doce dos petits-fours e a lavanda de limpar a ponta dos dedos. A partir dele, embora ainda com tintas bem leves, esse tipo de jornalismo começaria a formar, ao lado do futebol, do samba, da prontidão e de outras bossas, mais uma das coisas nossas.

Jacinto de Thormes percebeu que o Rio de Janeiro balançava de uma forma diferente. O que hoje se chama de Rio antigo despedia-se, os almofadinhas já não perseguiam as melindrosas na avenida Rio Branco. A polícia do Estado Novo esvaziava a Lapa, e a diversão noturna bandeava-se, assim como o resto da cidade, para Copacabana. O Rio, que havia se civilizado com o infatigável bota-abaixo do prefeito Pereira Passos na modernização do Centro, tornava-se glamorosamente cosmopolita, ou chic, como se dizia em francês, a língua dos chiques. O fechamento dos cassinos ajudava a espalhar a diversão noturna pelas boates da Zona Sul, ampliando a geografia carioca — naquele momento a cidade que importava a uma coluna social ficava entre a igreja da Candelária, no Centro, e o Copacabana Palace, logo na entrada do bairro. As pessoas com nome e sobrenome estavam nessa faixa de onze quilômetros em linha reta. Quem seria o primeiro a noticiar o surgimento dessa nova cidade?

Maneco estruturou a coluna seguindo o que apreciava nos jornais americanos, aquilo que ele chamava de “notas sincopadas”. Um ritmo diferente daquela antiguidade de valsas, gourmandises e ar de bondade que irradiava das baronesas do Trompowsky. Mas teve que adaptar o modelo aos trópicos. “O Rio era uma das cidades mais divertidas do mundo, como disse a revista Time”, afirmou Maneco em 2001 ao repórter Geneton Moraes Neto, que postou a entrevista em seu blog. “A cidade tinha, além da praia, os cassinos, os grandes shows e um lado que faço questão de citar: a cultura. Basta lembrar que Getúlio Vargas convidou Gustavo Capanema para ser ministro da Educação e Cultura. Capanema simplesmente pediu a Carlos Drummond de Andrade que fosse chefe de gabinete. (...) Todos os grandes escritores, os Portinari, os Villa-Lobos, não apenas atuavam no Rio: a gente convivia com eles. É a diferença. Não era o intelectual lá e o social aqui. Evidentemente, havia na sociedade coisas fúteis. Mas eles participavam das revistas, havia o costume de todos irem ao Municipal para ver balé, ver ópera.”

O Diário Carioca era o melhor lugar para quem queria mexer com as teias de aranha do jornalismo. Chega de beletrismo! Chega de nariz de cera!, aquela ridícula abertura de texto que custava a entrar no assunto! Para se falar de um choque de automóveis na Rio Branco, antes se anunciava o crescimento vertiginoso da frota na cidade! Chega também de ponto de exclamação! As notícias não precisariam mais desse sinal de escândalo para chamar atenção! Era um truque fácil de encher algum fato de sentimento e transformar tudo numa gritaria que parecia o Vicente Celestino cantando o drama de “O ébrio”! Na música popular, o sucesso naquele fim de década de 1940 era o samba-canção, o gênero que ensinou o país a falar mais baixo e logo radicalizaria a lição passando a cátedra à bossa nova.

Notícia devia ser curta. Jogo rápido. De preferência com o ponto chegando o mais rápido possível na frase. Assim. O jornalismo, aquela parada de contingência rumo à publicação do grande romance, começava a mudar de direção e se transformar ele mesmo numa profissão, com uma maneira própria e digna de dizer as coisas. A influência da imprensa americana, sua pretensão de objetividade e papo reto, entrava na moda.

Essas novidades que estavam sendo implantadas no revolucionário Diário Carioca em breve se disseminariam, como normas modernas, por todas as redações. Chegavam o lead e o sublead. As informações principais — os famosos “quem?”, “o quê?”, “quando?”, “onde?” e “por quê?” — deveriam estar logo nos dois primeiros parágrafos. Mais: a adjetivação deveria ser usada com moderação, fosse o texto mais formal, fosse mais coloquial, não importava. O importante era ser substantivo.

Era uma profissão em formação. Evandro Carlos de Andrade, que começou a carreira no Diário na virada dos anos 1950 e se tornaria diretor de Jornalismo da TV Globo, na década seguinte chegou a ser ao mesmo tempo repórter de Política de O Estado de S. Paulo e chefe da sucursal do Jornal do Brasil, em Brasília. Os salários eram baixíssimos nas redações, quando pagos. Paulo Francis, crítico de teatro do Diário Carioca, fazia um arrazoado sobre uma montagem de Ésquilo quando se lhe aproximou da mesa um funcionário da administração. “O senhor estaria interessado num corte de casimira inglesa?”, perguntou o homem, propondo pagar o salário atrasado em mercadoria.

Maneco, os bolsos forrados, trabalhava despreocupado. Seu texto tinha humor, ironia, elementos que a trinca Prudentinho, Danton Jobim e Pompeu de Souza tentava implantar no jornal. Eles apresentaram ao novo colunista, como sugestão de caminho a seguir, o texto “1943: eram assim os grã-finos em São Paulo”, reportagem cheia de risinho maldoso que o jornalista sergipano Joel Silveira publicara na revista Diretrizes. As mulheres elegantes do grã-finismo paulista são descritas como “orquídeas que nascem de dezenas de enxertos”. Nunca o high society fora visto de maneira tão crítica e sem qualquer vírgula de deslumbramento. De deuses da raça, os ricos viraram sapos do brejo. Os colunistas sociais citados no texto não tiveram melhor sorte. Cornélio Procópio, que na Folha da Manhã se escondia sob o pseudônimo de Jerry (ninguém queria se comprometer com aquele métier), foi ridicularizado por Joel, também conhecido como “Víbora”. Nem a dentadura de Jerry escapou do seu veneno:

 

Os problemas do mundo não chegam até ele, e se chegassem

Cornélio saberia como enfrentá-los: faria muxoxo e

telefonaria para Fifi, Fifi sem problemas nem angústias. No

mundo elegante de São Paulo, Jerry é mais importante do

que d. Odete Matarazzo ou d. Irene Crespi. D. Odete tem

fábrica, d. Irene tem dinheiro. Mas Jerry tem uma coluna

diária na Folha da Manhã que é o oráculo da elegância

paulista. A coluna de Jerry consagra ou põe abaixo qualquer

pretensão grã-fina. Mas sua linguagem é sempre amena,

porque um grã-fino nunca se compromete. O estilo de Jerry

é como sua dentadura: uma coisa certa e limpa. Impossível

é, porém, alguém saber se Jerry nasceu assim, com bons

dentes, ou seu sorriso é realização de algum odontólogo

caro.

O “Víbora” reproduziu, então, uma nota mundana de Jerry sobre um jantar grã-fino no Guarujá (SP). Eis um trecho da dentadura, ou melhor, do estilo do colunista paulista descrevendo uma festa na casa normanda do casal Ramos de Azevedo:

 

• Debaixo das amendoeiras frondosas, indiretamente

iluminadas, em mesinhas de quatro, no ambiente simpático

daquela casa normanda, o sr. e a sra. Francisco Ramos de

Azevedo conversam com amigos num finíssimo jantar que a

um grupo grande de pessoas tiveram a amabilidade de

oferecer.

• O vinho corria louro e generoso como a alegria franca da

reunião, como as chamas ainda mais louras daquelas

pequeninas velas que iluminavam as mesas, como a

amabilidade da cativante d. Zuleika, que, elegante num

slack marrom e rubi, a todos distribuía atenções e

incalculáveis gentilezas.

 

O carioca Jacinto de Thormes desprezou, é claro, o texto de Jerry e procurou para si algo próximo da escola de Joel. Começou a abusar do coloquialismo, tal qual a geração modernista de 1922. Em pouco tempo o lutador de boxe estava apto e aplicava, agora como colunista, em notas curtas, verdadeiros jabs sobre a ridicularia alheia. Em 25 de janeiro de 1950, escreveu sobre os bastidores cinematográficos:

 

• Segundo estou bem-informado, virá ao Rio a bonita

senhora Esther Fernandes, estrela daquele cacetíssimo filme

mexicano chamado Santa, que tanto sucesso fez por estas

bandas. Acompanhando a senhora Santa virá a senhora

Carril, esposa do Hugo del Carril, também cacetíssimo

cantor de tangos. Como vemos, as celebridades ameaçam o

Carnaval.

 

Em 3 de fevereiro de 1950, Jacinto disse o seguinte sobre o empresário que comandava o Quitandinha Palace:

 

• O senhor Joaquim Rolla ficou meio atrapalhado para

apresentar os três forasteiros. Finalmente puxou do

caderninho e foi lendo com boa pronúncia chinesa: senhor

Hsi-Jui, senhor Yen Chu Tang e senhor Pin-Yuan Tang.

Cada amigo!

 

No mesmo dia, escreveu também:

 

• A aflita senhorita Jeanine Steinberg é o que

tecnicamente chamamos de “secretária social”. O seu patrão

é o full-time milionário senhor A. Dodero, conhecido nos

pampas, nos Alpes, nos Andes e no Pico da Bandeira

também. A senhorita Jeanine chegou um dia antes do seu

patrão, isto é, anteontem. Reservou o superapartamento do

Copa, regulou a refrigeração, verificou o funcionamento do

banheiro, mandou mudar o colchão, avisou a imprensa

sobre a chegada, recomendou a dieta, a dose de drinks e

passou o dedo pelos móveis para verificar a possível

existência de poeira. Ontem, correu a piscina avisando aos

conhecidos que “ELE vai chegar agora mesmo!”. Vida dura,

meu Deus!

 

E em 24 de abril de 1951, sobre as novas atividades do renomado crítico musical Lúcio Rangel:

 

• O senhor Lúcio Rangel está tomando aulas de saxofone-

tenor. Na primeira aula começou logo a tocar “Cai-cai balão”

com admirável maestria e alguma saliva.

Jacinto divertia-se. Ele mudava também o posto de observação sobre o que ia na vida social. Se o Palácio do Catete abrigava o presidente e o Monroe, na Cinelândia, juntava os senadores, o Vogue, em Copacabana, recebia os ricos e afins — era para onde a República agora ia depois de despachar. Maneco não saía dali. Antes havia o complexo de diversões do Copacabana Palace, com o salão de shows do Golden Room, o cassino, a boate Meia-Noite e o restaurante Bife de Ouro — tudo requintado, mas espalhado pelo prédio. No Vogue, pela primeira vez a elite reunia-se, num só espaço, fora das mansões e misturava-se com — a palavra já estava na coluna — as celebridades.

A boate Vogue, no térreo do hotel de mesmo nome, foi inaugurada em 1947 para acolher os zumbis chiques que vagavam na noite, perdidos, sem rumo desde o ano anterior com o fechamento dos cassinos. Ficava na avenida Princesa Isabel e tinha dois ambientes. Num, o mais elevado, a que se chegava por três degraus, coreografava-se o potentado dos ricos. Eram os Rocha Miranda, Galdeano, Moreira Salles, Saavedra, Nabuco, Mayrink Veiga, Catão, Bastian Pinto, Guinle, Duvivier, Gallotti, Klabin, Monteiro de Carvalho, Hime e outros brasões. A parte mais baixa foi apelidada por Jacinto de “Sibéria”, a geladeira para onde eram mandados os vipinhos.

A história do colunismo social moderno no Brasil começou nesse cenário. A expressão “ver e ser visto” — a cara que o Rio viria a ter — passava a ser regada com champanhota gelada e cenas inéditas, divulgadas por fotógrafos que passavam em busca de um flagrante ou um prato de comida, o “picadinho relation”. O primeiro grande jornalista daquele espetáculo que inventava uma nova cidade era o homem do cachimbo. Do sofá de couro avermelhado do Vogue, Jacinto de Thormes tomava nota de tudo, ou quase tudo — fazia vista grossa diante dos que discretamente se retiravam para os quartos do hotel, uma espécie de plus aos clientes especiais, como o craque botafoguense Heleno de Freitas.

Tereza de Souza Campos assistia ao espetáculo de sua mesa na parte alta da boate e, a seu jeito, também se fazia escândalo: ela repetia vestido. Mesmo para quem comprava nas maisons de Jacques Fath, Jean Patou, Coco Chanel, Elsa Schiaparelli, Christian Dior, isso não era prática “bem” — e Jacinto emprestava a coluna para que ela fizesse a defesa desse desapego. Era a grande dama da turma. A Casa Canadá, a mesma de Elza Barrozo, mandava-lhe um vestido com sua última criação (no dia seguinte à festa, ela devolvia), tudo pela honra pré-marketing de emoldurar senhora tão distinta. A cabeça era feita por Renault, a grife mais elegante dos cabelos, o mago da tesoura do salão do Copacabana Palace. Tereza, via-se, era uma mulher especial, cercada de outros tantos “mais” — a mais bonita da sociedade, a mais educada, a mais classuda. Só havia um “menos” no seu currículo de méritos. Enquanto todas as outras esparramavam frascos e mais frascos comprados na Guerlain, de Paris, ela enfeitiçava os que chegavam mais perto com a ausência absoluta de qualquer inebriante químico que não fosse o perfume natural de sua pele morena.

O Vogue apresentava-se como a original mistura de restaurante e boate, uma simbiose de diversão inédita na cidade. O mix era invenção do “barão” austríaco Maximilian von Stuckart, ex-funcionário do Copacabana Palace, nobre apenas por ser dono de um faro agudo para implantar aqui as novidades curtidas mundo afora pela nova classe dos ricos. Ele importara um chef de cozinha russo, Gregoire Berezansky, e juntos lançaram os primeiros modismos gastronômicos num Rio que apenas aprendia a usar o guardanapo sobre o colo (o Bife de Ouro, do Copa, e o restaurante do Jockey, no Centro, eram as referências de boa comida). As estrelas do début carioca no mundo gourmet, assinadas pela dupla Max von Stuckart/Berezansky, foram o picadinho, criado a partir das referências locais, e dois importados da mesa russa, o estrogonofe e o frango à Kiev.

Com o Vogue, começou-se a sair de casa para comer fora. Jacinto informava ter nascido ali o hábito da feijoada de sábado, um dos itens fundamentais da carioquice (tido como das classes humildes, o prato estreava num cardápio fino). Tudo regado a uísque (a moda era o Buchanan’s, de garrafa pequena) e, para quem quisesse radicalizar no projeto popular, havia a batida de limão feita com cachaça.

Os estrangeiros chegavam aos montes. Tinham visto em algum filme que o Rio de Janeiro, no fim do mundo, era a versão moderna do paraíso. Não havia pecado do lado de baixo do equador. A guerra acabara e era o melhor lugar para comemorar. Von Stuckart colocou um piano no meio do salão do Vogue e chamou o também austríaco Sacha Rubin. Ele introduziu uma “novidade” (palavrinha frisson que o colunismo inventado por Jacinto de Thormes adorava): cada cliente “famoso” (outra palavrinha ícone) era saudado com uma música-tema. Todo o salão voltava seus olhos para o homenageado, que adentrava o recinto com a melodia favorita sonorizando seus passos e ecoando na caixa de inveja de todos os demais. Carmen Terezinha Solbiati, futura Mayrink Veiga, chegava e Sacha tocava “I love Paris”, a música preferida da dama, filha do melhor baronato do café paulista, dona de apartamento na Cidade Luz. “Solitude”, anunciava Jacinto. A de Boy Barrozo era “Aquarela do Brasil”.

O Vogue tinha notas musicais ao gosto de todos os seus clientes e notas jornalísticas para todos os colunistas. Era tanto assunto que alguns eles preferiam nem noticiar. Jorge Goulart, um dos cantores da casa — Elizeth Cardoso, Angela Maria e Nora Ney também foram contratadas —, contaria anos mais tarde ter sido ali um dos primeiros palcos públicos do uso de cocaína depois de sua proibição no Brasil, em 1921. Uma noite, contou o cantor em sua biografia, um rapaz foi ao banheiro no subsolo e quando voltou à mesa quase matou de desaforos a mulher. A indigitada sacudira o guardanapo onde ele guardava seu vício, desperdiçando a poeirada branca para tudo que era lado.

O Vogue foi o primeiro “aeroporto” onde o playboy Porfírio Rubirosa “aterrissou” pilotando seu Constellation particular, avião obtido meses antes no divórcio com Barbara Hutton. Jacinto escreveu que o playboy teria carregado da boate, para seu apartamento no Copacabana Palace, vários casais, ocorrendo então o que classificou, sutil como ainda se pretendia entre as pessoas elegantes, de “praticamente uma orgia”.

Naquele salão de vaidades, o Rio se modernizava ao peculiar estilo que parecia estar escolhendo como futuro. Eram apenas 2,4 milhões de habitantes na virada para a década de 1950 na única cidade brasileira que merecia ser chamada de cidade — o resto era um punhado de vilas ao redor da pracinha-e-igreja. O Vogue era a síntese da festa do pós-guerra. Fumava-se muito, gritava-se outro tanto para se fazer ouvir, e às vezes as vozes abafadas pela balbúrdia da plateia eram de atrações internacionais como a cantora francesa Juliette Gréco. Maneco escreveu com humor sobre o dono do Vogue, onde a cocaína, como se viu, e o lança-perfume também tinham um tráfego sem grandes constrangimentos:

 

• O senhor Max Stuckart vai colaborar com o suplemento

dominical de A Manhã. Explica ele: “Na vida já

experimentei de quase tudo. Jornalismo é a primeira vez.”

E em 25 de janeiro de 1950:

 

• Em São Paulo corre fortemente um boato. O cineasta

Fernando (Caminhos do sul) de Barros e a atriz Maria (Anjo

Negro) Della Costa preparam divórcio amigável. No Vogue

confirma-se.

 

No mesmo dia publicou nota que parecia um poema-piada de Oswald de Andrade:

 

• O navio Brasil chega hoje com uma respeitável leva de

senhores interessados nos trópicos. O navio está repleto de

Adams, Adley, Brooks, Clayton, Fischer, Jolly, Jones, Irving,

Polson, Schroeder e companhias limitadas. Muita ervota,

reumatismo, algumas filhas estrábicas e máquinas

fotográficas à beça.

 

O novo colunista social, se quisesse, não seria mais obrigado a levar os ricos a sério. Estava liberado para se interessar até mesmo pelo que acontecia longe dos salões. Pela primeira vez entrava gente de biquíni e calção num espaço tão cheio de panos e rapapés. Em 7 de fevereiro de 1956, ele contava:

 

• A barraca do senhor Mário de Oliveira é sem a menor

dúvida a mais confortável da praia de Copacabana. Além de

todos os refrescos e das moças bonitas, o senhor em questão

lança de seu apartamento, que fica num último andar da

avenida Atlântica, um telefone cujo fio vai até a barraca

onde dá expediente. Trata-se de grupo composto ainda de

outras celebridades como Ary Barroso, Luiz Jatobá e Dorival

Caymmi.

 

Ao currículo de méritos de Maneco deve ser acrescentado também o de ter inaugurado o bordão, um truque que ficaria para sempre no repertório dos colunistas sociais. Uma expressão de sua lavra foi “Depois eu conto”. Vinha geralmente presa a um acontecimento social e dava a impressão de certa impaciência de Maneco com o assunto. Como estava, por exemplo, na edição de 2 de março de 1955: “Ontem aconteceu o elegante jantar da senhora Irene Guinle. Depois eu conto.” E nunca mais voltava ao assunto.

A coluna social era o reino das mil e uma noites dos tempos modernos. Os ricos e seu way of life, sem princesas oníricas nem príncipes de quadrinhos, tudo gente real, pareciam não ter preocupações banais com aluguel ou preços de açougue. Os jornais precisavam de um equilíbrio entre tragédias e sonhos para alimentar seus leitores e investiram nos colunistas como encarregados da segunda parte da missão. Eles dariam as boas notícias, falariam daquelas mulheres incríveis, deusas que dominavam línguas — e que, apesar dos maridos, andavam aparentemente à solta —, e do poder desses homens de bigodinhos finos. Acenariam aos leitores com a esperança de que o fracasso em algum momento é inerente à existência de todos, mas é possível ser feliz, vestir roupas de gala, comer do bom e de graça. Que não desistissem!

André Jordan escrevia na Vanguarda, um vespertino de João Neder, e logo depois seguiria para o Diário da Noite, junto com João Rezende. Marcos André estava em O Globo, na coluna Bazar; José Álvaro, no Diário da Noite; Chuck substituía Roberto Vasconcellos no Correio da Manhã; o Barão de Siqueira Junior assinava na Tribuna da Imprensa; e Jean Pouchard, pseudônimo de Mauro Valverde, o mais venenoso de todos, também dava plantão no Diário Carioca. O persistente Gilberto Trompowsky continuava assinando G. de A. nas publicações dos Diários Associados, como O Jornal e a revista O Cruzeiro. Em meados dos anos 1950, três revistas dedicavam-se exclusivamente ao noticiário da vida social: a Rio, da Rio Gráfica Editora, de Roberto Marinho (depois, editora Globo); a Rio Magazine, de Alfredo Tomé; e a Sombra, de Walter Quadros. Havia ricos suficientes para todo tipo de leitor.

Não era bem aquilo que Maneco queria, mas ia em frente. Parecia o Pestana, personagem de Machado de Assis no conto “O homem célebre”: fazia sucesso com polcas, mas queria compor sinfonias. Maneco preferiria estar ao lado de Machado, escrevendo contos imortais — notas sociais era o que a vida lhe oferecera e ele as fez com dignidade. Avançou na observação dos costumes, deu ares naturais a discussões sobre o divórcio e, nos limites da ocupação, modernizou as cabeças. Até hoje a representação do rico elegante é a do sujeito magro, alto, de cabelos gomalinados — exatamente como Jacinto de Thormes ficou no inconsciente nacional.

No fim de 1950, premido pela falta de notícias que acomete o jornalismo no período de férias e festas, ele criou mais um truque para encher seu espaço. Passou a listar as dez mulheres mais bem-vestidas da temporada anterior. A elegância formal, marcada ainda por padrões rigorosos de vestir, vindos da França, estava na moda. Valorizavam-se eventos como a eleição da Miss Elegante Bangu (a fábrica de tecidos), no Copacabana Palace, e os bailes de debutantes, outra atração importante no show de notícias de Jacinto. As vencedoras eram sempre meninas do Colégio Bennett, protestante, mais liberal que os católicos Sion ou os Sacrés-Coeurs de Jesus e de Marie.

A relação das Dez Mais (a partir de 1954 trocaria para As Dez Mais Elegantes, ampliando o conceito, diminuindo a importância do costureiro e valorizando o conjunto da mulher) fazia a edição de 1o de janeiro, data antes inóspita para a venda de jornal, ser um sucesso de banca. A lista ganhava chamada de primeira página, outro avanço de prestígio conseguido por Jacinto para o colunismo social, com a foto de todas as senhoras em vestidos longos. Como exigia o costume da época, nenhuma mulher casada era chamada pelo nome próprio, mas pelo do marido. Nenhuma trabalhava. Ainda não era de bom-tom mulher casada frequentar escritórios.

Os elogios publicados pelo colunista em diferentes edições da década de 1950, informando por que aquelas senhoras mereceram a distinção de ser o que todas as outras queriam — uma Dez Mais do Jacinto —, podem ferir suscetibilidades das feministas do século XXI. Hoje, desmoralizariam as eleitas e elas consultariam advogado sobre a possibilidade de processo. Na época, algumas foram apresentadas elogiosamente assim:

 

• Pela segunda vez a senhora Caldeira abre a lista. É sem

dúvida a mulher mais elegante do Brasil neste momento.

Nascida Cristiane Florence Perin, esposa do grande homem

de negócios de São Paulo, mora numa das casas mais

encantadoras da capital paulista. Está neste momento em

Paris fazendo compras.

 

• A senhora [Walter] Quadros, esposa do editor da revista

Sombra, teve em 1951 o ano mais elegante de sua vida.

Esteve no Festival de Veneza, participou de um desfile de

tecidos brasileiros, apareceu em todas as revistas francesas e

americanas, esteve na Bienal de São Paulo e em toda parte

recebeu grandes elogios pelos seus vestidos ultracoloridos e

a sua beleza de mulher morena.

 

• [A senhora Mello Viana] viajou muito, fez muitas

compras este ano. Veste-se sempre em grandes costureiros,

de preferência Dior e Jacques Fath. As poucas vezes que

apareceu no Rio e São Paulo bastaram para que fosse

chamada de “a mais elegante esposa de um homem público

do Brasil”.

 

• Os vestidos de baile da senhora José Willensens Junior

são tão famosos quanto sua raríssima coleção de orquídeas.

Acaba de sofrer com seu marido um lamentável desastre de

automóvel na estrada Rio-São Paulo. Felizmente tudo está

bem.

 

• A senhora Vicente Galliez é perfeita hostess, admirável

decoradora. A elegância vai aos detalhes mínimos da sua

casa de campo, à cor de seu automóvel e à perfeição dos

jarros de flores.

 

• A senhora Aloísio Muniz Freire já foi a debutante

número um do Brasil e a glamour girl do Rio de Janeiro.

Com o seu marido (Pecô) forma um par muito elegante. Fica

extraordinariamente bem de tailleur e roupa esporte. A sua

coleção de óculos está ficando famosa, a variedade é enorme

(30 pares). Leva uma vida repleta de glamour.

 

• A senhora Ligia Muller esteve em Paris, aonde levou os

estampados de algodão nacional que causaram sucesso e, às

vezes, espanto aos parisienses desacostumados com o

tropical das cores e desenhos fortes. Veste-se gastando

pouco. Acredita que uma nurse inglesa pode ser (no gênero)

tão elegante quanto a melhor freguesa de Dior.

 

Em 1956, a coluna se transferiu para o jornal Última Hora. Ali, Jacinto encontrou Stanislaw Ponte Preta, pseudônimo de Sérgio Porto, dono de uma coluna de humor que, desde 1954, inicialmente na revista Manchete, fazia sua versão das Dez Mais. Para concorrer com as dez mais bem-vestidas, Lalau (apelido de Stanislaw) criou a lista das Dez Mais Bem Despidas, as famosas Certinhas do Lalau. No lugar dos longos das madames, os biquínis audaciosos das vedetes escancaravam um pouco além do que a moral da época permitia. Mas isso, como diria Maneco, depois eu conto. Agora é hora de Boy Barrozo do Amaral deixar o Vogue, dar um tchau para Sacha Rubin ao piano e levar o colunista do futuro, o adolescente Zózimo Bráulio, para as aulas do ginásio no Colégio Santo Inácio, em Botafogo.