Enquanto Houver Champanhe, Há Esperança

Joaquim Ferreira dos Santos · Capítulo 22 de 50

Páginas do PDF

Enquanto Houver Champanhe, Há Esperança

Capítulo 22

Uma das lições que Zózimo recolheu com Álvaro Americano foi guardar uma informação e respeitar os anseios da fonte, essa musa inspiradora de qualquer coluna. É uma senhora ciclotímica. Por vezes vaidosa, quer todas as letras do seu nome na página. Muitas vezes, no entanto, quer a notícia publicada e o nome nas sombras. Pede silêncio por enquanto sobre o que acabou de contar no ouvido do jornalista — um pobre sujeito com uma página inteira aberta esperando justo aquilo: novidades e mais novidades para serem publicadas imediatamente.

“Nem as melhores ninfomaníacas são tão insaciáveis quanto uma boa página de jornal todo dia”, dizia Zózimo. “Ela, a página de jornal, quer mais e mais sem que se lhe saia de cima. No caso do colunista, mais e mais sem sair de cima da máquina de escrever.” Era uma das sabedorias que espalhava nas conversas sobre o métier. Havia herdado todas de seu mestre, não com aquelas palavras, é claro, que Álvaro Americano fazia um fino à moda antiga. Se necessário, era preciso deixar a notícia dormitar, ganhar corpo, até mesmo quando fosse uma que poderia mudar o curso da história. No caso daquela que Zózimo acabara de saber, mudaria o rumo da economia do país.

O que fazer quando você tem uma página em branco à sua frente e sabe que a Volkswagen brasileira está sendo vendida para o Kuwait? O que fazer quando você tem bons detalhes do negócio, porém uma das partes envolvidas é um grande amigo seu e ele pede, pelo amor de Deus, que você não faça aquilo que lhe paga o salário no fim do mês? Não publique!

O empresário Olavo Monteiro de Carvalho, diretor-presidente do grupo Monteiro Aranha, dono da Volks brasileira e vascaíno doente, era do elenco do rubro-negro Zózimo. Numa noite, numa festa no condado dos Monteiro de Carvalho, em Santa Teresa, Zózimo levou Olavo para um canto e contou tudo o que ficara sabendo sobre a venda da Volks, de propriedade da família. Pouquíssimos, só os envolvidos no negócio, como Olavo, possuíam aquelas informações, todas exatas, só que por enquanto precisavam ser mantidas em sigilo. Olavo jamais perguntou a fonte do jornalista. Desconfiava de algum assessor ligado a Wolfgang Sauer, presidente da empresa, todavia calou a suspeita. Optou por abrir o jogo com Zózimo.

Confirmou a venda e avançou na história. A Volks estava grande demais para se manter como empresa familiar. Cada modelo lançado exigia um investimento em torno de 400 milhões de dólares. Os alemães ainda financiavam os Monteiro de Carvalho e deixavam que pagassem com lucros futuros. O problema é que estes começavam a diminuir. A família investia tanto que não pagava os dividendos — e foi aí que apareceu o interesse do Kuwait. O emir queria levar parte da Volks brasileira. “É isso”, disse Olavinho, “mas não publique.”

A cada movimento da operação, Olavo falava com Zózimo, que a tudo jornalisticamente silenciava com o coração na mão. E se Ibrahim soubesse? Colocaria na frente a amizade com Olavo e manteria guardada na gaveta a bomba! bomba!, como o “Turco” gritava na TV? A cada segredo guardado, aumentava o reconhecimento do empresário por seu parceiro pessoal de tantos anos e agora também profissional de imprensa solitário. E se no Globo Carlos Leonam, atual responsável pela Coluna de Carlos Swann (que desde 1973 perdera o nome de Reportagem Social), soubesse que a Volks estava indo para os árabes? Quanto valia uma amizade?

Era o momento em que os grandes jornalistas se diferenciavam dos “focas”, os novatos na profissão. Se obter uma informação de três linhas já era difícil, imagina uma manchete retumbante como aquela. Zózimo, em obediência à amizade — e também à certeza de que a cumplicidade mais adiante lhe valeria outras informações —, silenciou. A notícia da venda de 20% da Volkswagen por 115 milhões de dólares para o Kuwait saiu em 20 de junho de 1980 no JB, dada por Zózimo, e também no Globo. Perdera o furo, porém mantinha a fonte. Achava ter feito um negócio tão bom quanto o dos árabes. À fonte, tudo que ela pedir e o que mais precisar.

O informante é aquele tesouro que todo colunista traz guardado no fundo do peito, o amigo que fará tocar o telefone e, de onde estiver, despejará pelo menos uma história, um tijolo que se juntará ao tijolo mandado por outra fonte e, como num milagre, ao fim da jornada, eles todos, somados, deixarão de pé mais uma coluna de notas. Por isso uma das artes praticadas pelo colunista é a de administrar as fontes. Algumas têm potencial para uma nota a cada quinze dias — e um erro na avaliação, fazendo com que o colunista ansioso ligue toda semana, pode fazer com que ela, em pânico, pare de atender ao telefone. Outra sabedoria: durante a conversa, dê uma informação de bastidor do assunto de que a fonte gosta. A sensação de troca transmitirá naturalidade ao comércio e o informante se sentirá menos explorado. Sairá do telefone e dirá: “Xi, falei com o Zózimo e ele me disse...” Informação é commodity valiosa.

O repórter Marcos Sá Corrêa sabe do que se está falando. Uma vez negociava uma conversa com uma velha raposa da política mineira. O sujeito não queria dar entrevista nenhuma. “Mas, senador”, enrolou Marcos, vinte e seis anos, tentando convencer, “não será uma entrevista. Vamos trocar umas ideias.” “Pois não, meu filho”, devolveu a raposa, “quais são as suas?” É preciso dar alguma ideia em troca para a fonte não secar e ficar com a boa sensação de que ganhou algo no escambo. Atenção: mantenha equilibrada a relação. Deixar a pessoa satisfeita sem se deixar usar por ela. Respeito mútuo.

Com o banqueiro Antonio Carlos de Almeida Braga, um daqueles homens mais velhos que tanto admirava, Zózimo acertara um ajuste fino. Braguinha não só passava notas, como também servia de consultor sobre os movimentos da economia nacional. A admiração era recíproca e se manteve com a passagem do tempo, entre outros motivos porque foi por meio de uma nota, “Luiza e Antonio Almeida Braga...”, que todos souberam do novo casamento do empresário. Não havia divórcio. A coluna de Zózimo separava e casava as pessoas. Dispensavam-se os carimbos dos cartórios.

Um dia, Amador Aguiar, do Bradesco, resolveu ir pessoalmente até o prédio do jornal O Estado de S. Paulo tentar resolver uma questão que podia parecer pequena para sua agenda de dono de banco, mas era internamente importante. O Estadão continuava colocando os anúncios do banco (balancetes, convocações de assembleias etc.) na mesma página dos avisos fúnebres. Amador e seu braço-direito, Braguinha, marcaram uma reunião com Julio de Mesquita Neto, proprietário do jornal. Com todo o respeito aos mortos, queriam companhias mais serelepes para serem vizinhas da marca vivíssima do banco. No dia do encontro, os dois representantes do Bradesco tomaram um chá de cadeira de quase uma hora. Ao serem recebidos, Amador foi claro: “Se os anúncios do banco continuarem a sair junto com os funéreos, da próxima vez eu virei aqui armado para resolver o problema.” Era uma história deliciosa. Num encontro social Braguinha contou a Zózimo, que, evidentemente, gargalhou da bravata e já começou a elaborar mentalmente o texto — até que ouviu o pedido do amigo para não publicar. Então esqueceu imediatamente o episódio desse duelo de Amador Aguiar e Julio de Mesquita Neto, o embate de titãs que acabou não ocorrendo porque imediatamente os anúncios do Bradesco foram direcionados para as páginas dos vivos.

Em outra oportunidade, Zózimo publicou a nota do questionamento, pela Receita Federal, da incrível compra que o dono do Banco Halles, Stanislaw Szaniecki, fez, sem condições para tanto, da coleção de um diplomata falido. Zózimo só soube depois o resto da história e, a pedido, também preferiu não continuá-la: Stanislaw comprara tudo em nome de Braguinha. Mais: transferira todas as obras, Picassos e afins, para o apartamento do amigo, que só soube da operação quando voltou de uma viagem e, ao abrir a porta de casa, constatou aquela inesperada coleção que não lhe pertencia. Por uma série de outros entraves, logo em seguida o Halles seria fechado.

Zózimo selecionava ao máximo as suas fontes e respeitava o anonimato delas — o que poderia ser complicado para muitos. O apresentador Jô Soares passou algum tempo aborrecido com o jornalista Roberto D’Ávila por causa disso. Encontraram-se num aeroporto e Jô disse ao amigo que estava deixando a TV Globo para fazer um talk show no SBT — mas que, pelo amor de Deus!, não contasse a ninguém. No dia seguinte, a notícia estava num suelto de Zózimo. D’Ávila era inocente. O colunista jamais entregou a fonte. Divulgar o nome desse contrabandista de informações corresponde em jornalismo ao suicídio em praça pública. Como o crime já prescreveu e agora já se pode revelar, diga-se para a posteridade que quem passou a notícia foi Boni, o todo-poderoso da Globo.

O banqueiro José Luiz de Magalhães Lins e o empresário Azevedo Antunes, da área de mineração, não queriam ver seus nomes publicados. Zózimo os atendia. Braguinha pedia-lhe apenas que maneirasse na insistência em apresentá-lo como proprietário, o que era verdade, de sete casas espalhadas pelo mundo — só não precisava repetir tantas vezes. O banqueiro Julio Bozano uma vez pediu a Nascimento Brito para não ter mais o nome publicado na coluna. Zózimo acatou, embora preferisse ouvir o pedido da voz do próprio. Quando, mais adiante, chegou o pedido de divulgação de um evento da Bozano, marca de cosméticos para homens, foi a vez de Zózimo. “Desculpe, não posso. Ordens do doutor Brito.”

Quando as festas noticiadas em colunas começaram a parecer um acontecimento não muito chique, apenas perdulário numa nação de miseráveis, Carmen Mayrink Veiga também andou se queixando da exposição. Gostaria de sair menos. Falou até em invasão de privacidade, sem levar a expressão aos ouvidos de Zózimo. Este, quando soube, não ficou magoado. Apenas devolveu: “A Carmen é que há anos invade a privacidade do leitor.”

Há momentos em que tudo que não se quer é ter o nome impresso na coluna, esta, porém, não tem culpa se o faz. Que cada um tome seus cuidados. Naquele tempo, havia quem evitasse o bisturi de Pitanguy, por mais habilitado que fosse, pois sairia no jornal. Nelita Leclery, recém-operada, quase rasgou os pontos ao ler que fora “recomposta” pelo médico. “Que negócio é esse de recomposta?”, arguiu num telefonema para Zózimo. “Recomposta no bom sentido”, defendeu-se o colunista. Apenas uma mulher, Ilde de Lacerda Soares, abriu o jogo. Na nota de 14 de junho de 1980, ela estava andando na rua quando foi abordada por um rapaz que lhe dirigiu o galanteio: “Você é tão bonita, deve ter sido Deus pessoalmente quem a fez.” “Não, não foi, não”, respondeu Ilde, “foi o doutor Pitanguy!”

A coluna parecia ter olhos e ouvidos espalhados por todos os cantos. A vaidade humana fazia com que se passasse para a coluna até nota em que a própria fonte não aparecia bem na foto. Lúcia Sweet, directrice de casas noturnas, namorava o psicanalista Luiz Alberto Py, celebridade intelectual com imenso rol de pacientes importantes. Quando acabou o relacionamento com a moça, Py fez humor e disse: “Lúcia, acabou-se o que era sweet.” Era o fim de caso, sempre uma dor que fica. Lúcia, no entanto, achou que tinha sido uma frase tão boa que não resistiu e mandou-a para Zózimo, que, no dia seguinte, estampava para toda a cidade o término do namoro. Não se cortavam mais os pulsos na solidão do banheiro — contava-se para o colunista de todo o Rio de Janeiro, um sujeito que capricharia no texto e daria a informação sem rimas de samba-canção.

Joseph Halfin, diretor-geral da Air France, falava pelo menos uma vez por semana com a coluna e gostava do babado de direcionar novidades para um profissional que sabia de todas. “Essa você não sabe” era seu bordão — e quase sempre, bingo!, uma fofoca novíssima. Um dos trunfos de Halfin estava em sua mesa: a lista de passageiros dos aviões. Muitas vezes viagens secretas, de casais secretos, saíam no jornal, para infelicidade dos personagens. Fonte não se escolhe, mas Zózimo preferia tê-las entre os amigos bem próximos. Gilberto Chateaubriand, o cousin colecionador, ajudava nesse esforço, e não só sobre gossips das artes plásticas. Foi ele quem deu o furo de Fernand Legros a Zózimo. A presença do francês, foragido, no Brasil surgira numa conversa com o empresário Renato Archer, e Gilberto, feliz, guardou o segredo, garantindo sua moeda para pagar de prenda quando Zózimo telefonasse.

Ele era diplomata e, em off, sussurrava notas do Itamaraty. Estava na praia do Leblon quando apareceu o ministro das Relações Exteriores, Mário Gibson Barboza. “Você gosta de furar ondas?”, perguntou o ministro. “Adoro”, respondeu Chateaubriand. Furaram a primeira, a segunda, e de repente alcançaram uma zona de tranquilidade, onde permaneceram boiando, olhando o visual dos morros do Rio. Conversavam descompromissados, cercados de água, livres de que alguém os estivesse ouvindo. “Corre no Itamaraty que estamos na iminência de uma nova reforma diplomática?”, puxou Chateaubriand, à guisa de papo. “É verdade, e eu já apresentei o plano”, admitiu Gibson Barboza, relatando todos os detalhes, que mexiam nas relações do Brasil com países da Europa — e que menos de vinte e quatro horas depois estariam na coluna Zózimo, instaurando um escândalo na República.

As informações estavam corretas, no entanto, antes de serem oficializadas, precisavam passar por intricada burocracia de conhecimento das partes. Chateaubriand, num esforço para socorrer todas as partes — do ministro Gibson Barboza ao colunista cousin —, compareceu ao Itamaraty para se confessar. “Mea culpa, minha máxima culpa”, disse diante de uma comissão com representantes de todos os departamentos da casa. “Você é diplomata ou jornalista?”, repreenderam-no. Chateaubriand, que não era diplomata à toa, conseguiu se livrar do embaraço e salvar a todos. “O que você fez com o Gibson não foi um mergulho, foi um caldo”, brincou Zózimo com o primo, referindo-se àquela onda pesada que desaba sobre a cabeça do nadador, engolindo-o, antes que ele consiga furá-la.

Um bom colunista é uma ilha cercada de fontes por todos os lados. Se Ibrahim Sued gostava da companhia de presidentes, Zózimo desdenhava dos poderosos e evitava servir de escada para a vaidade de Suas Excelências. Preferia rir deles e saber o que ia naquele mundo por meio dos que viviam em suas beiradas. Não precisaria ter que falar com aquela gente, não sujaria as mãos nem teria de tapar o nariz. Alguns colunistas carregam como medalha o telefone do gabinete de algum ministro fodão. Não era o caso. “Eu não falo com ministro nenhum!”, gabava-se, em entrevista aos repórteres Maria Helena Esteban e Ney Reis, da Ele Ela. “Não falo porque não quero, porque ministro não é boa fonte. Fonte é ex-ministro. Estes dão mais motes para o colunista glosar, fornecem material para a crítica, a alfinetada é com classe. É preciso só saber filtrar o que é ressentimento. De resto, sou totalmente poderofobia.”

As páginas políticas estavam cheias daquele nhém-nhém-nhém enfarpelado. Em meados dos anos 1980, o presidente José Sarney, por intermédio do assessor de imprensa Fernando Cesar Mesquita, convidou Zózimo para um encontro no Hotel Glória. As notas não deixavam dúvidas sobre o que a coluna achava do governo — era um dos piores da República, provinciano. Zózimo topou, desde que pudesse levar a tiracolo o amigo Paulo Marinho. Quando chegaram ao Glória, estava lá boa parte da Nova República, do presidente ao ministro das Comunicações, Antônio Carlos Magalhães. Todos engravatados — Zózimo e Marinho, de jeans e blazer. Segundo Marinho, Sarney fez um rapapé enorme para paparicar o convidado. Zózimo, ao contrário, encurtou a conversa e em vinte minutos estava do lado de fora, dizendo a Marinho: “Pô, que gente deslumbrada!” “Era o governo em peso esperando ele”, relembra Marinho, “os ministros perfilados, e ele cagando geral para aquilo, que acabou não rendendo grandes notas, tudo muito oficialesco e cheio de discurso. O desprezo dele pelo poder e os políticos era absoluto.”

Um poderoso de muita evidência na coluna era Delfim Netto, ministro da Fazenda durante o governo militar. Algumas notas chegavam passadas por Bernard Campos, braço-direito de Nascimento Brito, e serviam aos interesses da empresa. Zózimo tinha cacife jornalístico para telefonar a Delfim e perguntar o que quisesse. Evitava. Conhecedor das boas regras da sociabilidade, inclusive as funcionais, não disputava prestígio com os patrões. O temperamento de Maneco, propenso a fazer inimizades por irrelevâncias, dava ao colunista simpático uma enorme vantagem para ser o preferido em abordar figurões — mas Zózimo sabia que a caneta com mais tinta era a do dono do jornal. Não se fazia de tadinho, não se submetia nem se humilhava. Era uma questão de entender os papéis e deixava que os diretores do JB se iludissem com a ideia de que os poderosos eram eles. Resumindo: se Delfim quisesse alguma coisa na coluna, Bernard traria, e os dois estavam sempre almoçando no restaurante Le Bistrô, o “escritório” do ministro em Copacabana.

Zózimo também evitava publicar notas sobre amigos do patrão. Nem contra nem a favor. Guiava-se por compreensões sensíveis das relações humanas. Nunca se saberia, por exemplo, se eles haviam brigado na véspera. Mais: o amigo do patrão sai na coluna na hora que o patrão quer, com o custo de um telefonema seu para o colunista. Aproximar-se do amigo do patrão tem uma possibilidade tóxica sufocante. Evite-se — e Zózimo sabia tudo dessas regras de como preencher uma coluna e escapar dos seus problemas. Outra regra: se estava no Country Club e via Nascimento Brito, driblava-o com discrição. Um patrão não gosta de frequentar o mesmo espaço que seu assalariado — nem que este seja o mais elegante da folha de pagamento.

Para checar notas de economia e do sistema financeiro, Zózimo se consultava, além de Braguinha, com Paulo Marinho, os banqueiros Ângelo Calmon de Sá e Frank Sá e o jornalista Sérgio Figueiredo. José Aparecido de Oliveira e Armando Falcão formavam o primeiro time dos grandes informantes da República. Armando ditava notas para Zózimo, que trocava algumas com Ancelmo Gois, da coluna Informe JB, que lhe passava as de Aparecido. Nenhum dos dois colunistas queria ficar refém dessas fontes, sujeitos sedutores, e por isso se muniam também, no mesmo regime de trocas, de notas que fossem críticas aos dois políticos. Mordiam e assopravam com o mesmo denodo editorial.

O advogado Jorge Hilário Gouvêa Vieira, o ex-ministro do governo militar Hélio Beltrão, mais o deputado Doutel de Andrade e Elio Gaspari também eram fontes políticas, sendo que Bocayuva Cunha servia como o principal interlocutor para notícias da esquerda. Graças a ele, Zózimo conheceu uma esquerda mais velha e festiva, que frequentava a praia do Leblon, todos debaixo da mesma barraca, e reunia fontes preciosas sobre a vida carioca, como o empresário Renato Archer, o editor Fernando Gasparian, o deputado José Gomes Talarico e o economista Tito Ryff.

Lywal Salles, militar contratado nos anos de chumbo para a diretoria do JB, informava sobre as Forças Armadas. Henrique Schiller de Mayrinck, amigo de Heitor Aquino Ferreira, eminência parda dos governos militares, principalmente de Geisel, falava sobre negócios e pedia divulgação para os seus (representava estaleiros espanhóis no Rio). Glorinha Paranaguá, Josefina Jordan e Myrian Gallotti falavam com Zózimo de diplomacia, sociedade e amenidades. Álvaro Americano, agora ministro do Tribunal de Contas do Rio, todo dia telefonava, por volta das dezesseis horas, e fazia sua colaboração, que já vinha em texto final, copiada pacientemente, palavra por palavra, pelo eterno discípulo. Da TV Globo, muitas notas de Luiz Eduardo Borgerth, José Otávio Castro Neves e Otto Lara Resende, assessores de Roberto Marinho, e também de um dos acionistas, Roberto Irineu Marinho.

Hans Henningsen era de um andar abaixo. Conhecido pelo apelido de “Marinheiro Sueco”, dado por Nelson Rodrigues (embora fosse de Tenerife, nas ilhas Canárias), ele passava notas esportivas. Em troca, pedia a citação da Puma, empresa que representava no Rio. Tinha bons contatos com João Havelange, com a cartolagem do futebol, e era engraçado, mérito que o fez amealhar amizades e contratos com jogadores como Pelé, Johan Cruyff, Beckenbauer, Zico, todos capazes de lhe conceder longas conversas e, no meio delas, informações que transportava para o colunista. Valia a pena, só que era daquelas fontes que cravam uma nota hoje e outra só na semana que vem — e, por favor, não esquece de citar a Puma.

Zózimo calculava em quarenta o número de pessoas com quem podia contar para telefonar e, sem desespero, bater um papo gostoso ao mesmo tempo que recolhia novidades. “Sabe por que essa profissão às vezes é tão aporrinhante?”, perguntou certa vez numa entrevista. “Se eu pudesse falar só com quem eu quisesse para fazer a coluna, então eu ligaria para o Ricardo Amaral, o Paulo Marinho, meus amigos. Acabo falando mais com quem não quero. É enorme o número de telefonemas a que atendo, de gente que não tem nada a ver.” Num desses telefonemas, o dono de um curtume da Zona Norte do Rio queria publicar a foto de um coquetel da firma, onde aparecia a gerente de vendas e o diretor, seus cupinchas. “Meu amigo”, respondeu Zózimo, “o senhor diz que é meu leitor assíduo. Eu lhe pergunto: alguma vez o senhor viu um curtume na coluna?”

Os empresários circulavam pela página, com notícias dos grupos Gerdau, Ferraz, Silveira, milionários de indústrias pesadas. O mais querido era o paulista Ricardo Amaral. Ele não mexia com aço, navio ou tecido. Investia em diversão. Destacava-se no noticiário de Zózimo não só pelo imenso cardápio de eventos que ia espalhando na vida da cidade, mas também por ser uma fonte de outra estirpe — a fonte das fontes, aquela de onde jorrará a mãe de todas as notas, a fonte em quem se acredita piamente e que carece da necessidade de confirmação da notícia com outra. Era proprietário de casas noturnas no Rio desde o final dos anos 1960, quando inaugurou um tobogã e abriu a boate Sucata, na Lagoa, e por toda a década de 1970 foi assinando outros endereços de sucesso, sempre frequentados pela elite. Tino comercial, bom de papo. Relacionava-se bem tanto com políticos como com o barraqueiro da feira em frente ao Hippopotamus, a estrela maior de sua constelação de negócios. Trazia ainda um plus fundamental: nos anos 1960, em São Paulo, trabalhara como colunista social. Quando telefonava para Zózimo, sabia do que estava falando e sabia o que o amigo queria ouvir.

As notícias de Ricardo chegavam aos ouvidos de Zózimo já no tom certo, sem gordura, na medida, para que o colunista, sem esforço ou acréscimo, fizesse a arte final e, pimba!, mais seis notas para fechar a página. No outro dia, era a vez de Amaral ficar satisfeito. A nota saía sem entregá-lo e sem vírgula a mais, estabelecida no pacto de confiança entre eles. Não tinha erro para nenhuma das partes. Os dois Amaral se moviam por códigos que só a intimidade garantia. Quando Zózimo, à mesa de um bar, começava a cantar “Tenho um amor, puro e verdadeiro,/ é playboy, é bom cavalheiro”, sucesso de Celly Campello, e arrematava com o trêfego estribilho do rockabilly, à base de “tiu tiu tiu tiu”, Ricardo já sabia. O amigo estava ficando no ponto e à mercê do uísque. Como ele geralmente também já estava, mandavam às favas os pudores do comportamento reservado e cantavam juntos.

As notas de Ricardo envolviam diversos campos da atividade humana, dos negócios empresariais aos da cama. No centro de suas boates, todos com a guarda arriada por causa do álcool, o ambiente era mais propício a revelações do que um divã de psicanalista — a barulheira dava a impressão de que ninguém estava ouvindo. Era comum alguém começar uma conversa com Amaral pedindo “não conte nada ao Zózimo”, o que nem sempre era respeitado. Uma tarde, num almoço no restaurante Sal e Pimenta, Boni contou a Ricardo que estava de saída da TV Globo. Pediu, pelo amor de Deus!, que não revelasse nada a ninguém. Pois não deu outra. No dia seguinte, lá estava, impressa em detalhes, a notícia que transformaria a história da TV brasileira. Aos primeiros minutos da manhã, Boni telefonou aborrecido para Ricardo, que, informante notório de furos do colunista, jurou em vão. Daquela vez era inocente. Zózimo mais tarde tranquilizou o amigo, e numa prova de amizade revelou a fonte: “Diga ao Boni que o patrão dele, o Roberto Irineu, também me passa informações”, e caiu na gargalhada.

Um formato comum, precioso, para dar dinâmica à coluna era abrir aspas e colocar outra pessoa, que não a voz do colunista, falando em bruto. Mudava o ritmo, cadenciava o samba. Ricardo abria o ouvido, uma rede ótima para recolher boas declarações durante seu trabalho noturno:

 

• De uma conversa no Hippopotamus, numa mesa regada

a farto scotch desde o início da noite:

— Realmente o Brasil é um país inviável: bicheiro joga no

bicho, gigolô mata por amor, traficante é viciado e o dólar

no câmbio negro é mais barato que no oficial.

 

Ser fonte, às vezes, é compartilhar com o colunista os problemas advindos da função — o mistério é saber de que lado eles vêm. Zózimo, perguntado uma vez sobre o momento mais difícil de uma coluna, dizia ser o de quando ela era publicada. Alguma nota daria zebra, só não se sabia qual. Uma vez, e a fonte novamente era Ricardo Amaral, ele publicou a mais catita das notas do dia, “Batizado”, quase cena bíblica:

 

• Lord John Banana não é mais pagão. Foi batizado

anteontem na igrejinha de São Conrado, com direito a

missa, água benta na cabeça, bênção especial, madrinha,

padrinhos etc. Vem a ser o poodle cinza mink de Gisela e

Ricardo Amaral. Um cachorrinho.

 

Parecia impossível um engasgo qualquer aqui. Tudo fofo. No entanto, uma nota, por menor que seja, envolve dezenas de referências, reduz a imensidão das relações humanas a três linhas — e isso faz com que suas questões sejam potencializadas. No caso do batizado de Lord Banana — que, por sinal, adorou a nota e mandou, através de seus progenitores, latidos de saudações ao colunista — quem se aborreceu foi a Cúria Metropolitana do Rio. Onde já se viu batizado de cachorro?, reclamaram as autoridades de lá com o suave padre Djalma, omitido na nota, mas responsável pela igrejinha. Foi preciso que Zózimo desse uma nova nota, atendendo aos pedidos de Ricardo e Gisela, católica fervorosa, definindo a cena em outros termos. Não foi um “batizado”, e sim uma “bênção especial”.

Outro grande informante de Zózimo era um gorducho, de fala atropelada, que largou os estudos no meio do ginasial. O repórter Oldemário Touguinhó escrevia mal, apurava muito bem. Toda semana ele jogava uma nota exclusiva sobre Pelé no colo de Zózimo, outro nome exótico nos quadros do JB. Era de sua lavra aquela de 24 de fevereiro de 1975, anunciando a volta aos gramados do jogador. Pelé, desde que fizera sua última partida pelo Santos, circulava pelo mundo como homem de negócios e playboy, recolhendo as mulheres que conseguisse. Ninguém cogitava revê-lo nos gramados, até que saiu a nota com o bombástico título “A volta de Pelé” e um jeito ainda antigo de Zózimo tratar o texto.

 

• Alguma coisa me diz que muito mais cedo do que se

pensa Pelé estará de volta aos campos de futebol,

embolsando quantias as quais jamais algum outro craque

sonhou ganhar.

• Só um anacoreta habituado às trevas de uma gruta e

restrito ao convívio de gafanhotos e percevejos teria a

necessária solidez de convicções para dizer não à série de

propostas milionárias que chegam diariamente a Santos. O

que, como ninguém ignora, não é precisamente o caso de

Pelé.

 

Três meses depois, o Cosmos de Nova York anunciava seu novo craque e confirmava o furo mundial.

Outro amigo produtor de notas, sempre ao telefone, era o advogado Sergio Bermudes. Passavam um tempo falando de Chateaubriand, não o Assis, tycoon da imprensa nacional, e sim o poeta francês, François-René de Chateaubriand. Segundo o advogado, continuavam por Dostoiévski, leitura de adolescência de Zózimo, e as dúvidas de qual dos dois, Crime e castigo ou Os irmãos Karamázov, era o melhor dos romances. Bons amigos que eram, entre um livro e outro também adoravam abaixar o nível dessas conversas. “Sabe qual o filho do cruzamento de um quero-quero com um pica-pau?”, perguntava Zózimo. O amigo, que sabia tudo de jurisprudência e nada de ornitologia, disse o evidente “não”, mas já preparando um sorriso. Vinha sacanagem pela frente — e Zózimo não decepcionava. “Nasce um quero-pica e um quero-pau.”

Zózimo movimentava-se ao telefone falando baixo. Jamais se ouvia de sua boca a pergunta maldita — “qual é a novidade?” —, aquela que paralisa a possível fonte por um motivo básico e elementar: jornalista é quem sabe definir uma novidade, a pepita no meio de um grande cesto de informações. É quem separa o joio do trigo. “Novidade”, para um leigo, é uma entidade abstrata, impossível de ser reconhecida mesmo que passe a um palmo do seu nariz. Zózimo não empurrava a questão para o amigo. Ele conversava e, no meio do papo, entre um quero-pica, sem que o interlocutor percebesse, e outro quero-pau, localizava a informação relevante — relevante pelo menos para seus propósitos. Se uma notícia passasse na sua frente, com certeza ela estaria sendo exibida como troféu na coluna do dia seguinte. Se não pintasse notícia, no problem — o papo teria valido a pena.

Por isso, pela dificuldade da operação, por mais que tentasse selecionar suas fontes entre a turma que o acompanhava havia décadas, precisava abrir os ouvidos para não eleitos. O publicitário Carlito Maia, de São Paulo, era um tanto excessivo na sua vontade de aparecer e preparava frases, que julgava ao gosto de Zózimo. Emplacou poucas, mas era preciso ouvi-lo. Um dia, quando telefonou para contar as últimas do PT, partido do qual fora um dos fundadores, mostrou algo bom. Foi a primeira vez que a expressão que se tornaria uma marca do partido saiu na imprensa, em 7 de dezembro de 1988:

 

• Carlito Maia, filósofo popular de São Paulo, faz tanta fé

no PT que acaba de criar um slogan para a campanha de

Luiz Inácio da Silva à Presidência da República.

• “Lula lá.”

• Parece canção de ninar.

 

Diariamente, um colunista joga na lata de lixo uma quantidade de notícias dez vezes maior do que a que publica. Malfeita, uma coluna pode ser um dos trabalhos mais fáceis do jornalismo diário — e os jornais estão cheios delas. Um colunista medíocre enche uma coluna em meia hora, vasculhando os releases que não param de chegar, dando flashes de cenas insignificantes que vê pela rua e atendendo aos assessores de imprensa que mais tarde retribuirão com jabás diversos, ou seja, presentinhos, desde roupas, ingressos de shows e convites para degustação em restaurantes finos a fins de semana gratuitos em Búzios. Zózimo, porém, não jogava com assessorias, interessadas em noticiar apenas quem lhes pagava.

Informação havia aos montes e todo mundo queria sair ali. “Prefiro mil vezes uma notinha de duas linhas numa coluna a um artigo enorme no resto do jornal”, diziam, do outro lado do balcão, os que entregavam informação. O mundo já não se mostrava muito disposto a perder tempo lendo jornal e queria o jogo rápido das gotas informativas. Elas estavam na mesa de Zózimo, que começava então a catar o feijão em meio a uma tonelada de pedras. “O verbo principal do jornalismo é ‘escolher’”, dizia. Depois de escolher a notícia, era preciso outra qualidade ainda mais preciosa.

Certa vez, ele e Sergio Bermudes conversavam sobre suas atividades e as maneiras de praticá-las. Quase ao mesmo tempo citaram uma frase de Émile Zola, que iluminava as cabeceiras de suas convicções: “A arte é a natureza vista através de um temperamento.” Não havia outro jeito. Só um temperamento especial dava condições de observar o mundo com os cornos acima da manada mediana, aquela multidão de colunistas que repete os aborrecimentos e as informações que enchem a página de um lado e o saco do leitor de outro. Bermudes contava a história de um vizinho de Pablo Neruda, um homem muito simples que de vez em quando auxiliava o poeta chileno: “Eu sei mais rima que você, Pablo”, ironizava. “Pero hay que tener talento.” Zózimo tinha. “O Ibrahim pode até ter mais notícia, mas a minha coluna tem mais balanço, mais ironia e crítica — e isso empata o jogo”, afirmava. Zózimo sabia o que queria e conjugava o verbo “escolher” com originalidade. Ele conversava, conversava, e depois a fonte se surpreendia com o que ele publicava. Ficava sempre melhor do que a simples conversa podia ter evidenciado a ouvidos comuns.

A jornalista Cora Rónai estava no restaurante Ouro Verde, na avenida Atlântica, uma referência de bom gosto na gastronomia carioca dos anos 1970. Jantava com Millôr Fernandes. Pediu um camarão, o prato com a coluna da direita mais inflacionada de dígitos — e logo depois fez charme. “Estou te saindo uma mulher muito cara, hein?” “Na minha idade”, o humorista respondeu, “ou é cara ou é coroa.” Cora contou a história a Zózimo e o resultado saiu uma semana depois. Uma nota, quase um conto reduzido. Os personagens tinham tido suas identidades transformadas, a cena agora se passava com um executivo dizendo a frase para sua exuberante gatinha durante um jantar. O texto vinha com tanto encanto que nem Millôr se reconheceu nele. “Parece aquela nossa história”, comentou com Cora, “mas é mais engraçada.”

Zózimo podia colocar como lema do seu brasão a frase “não é a informação, mas a inspiração”. Também carregava a capacidade de ver assunto onde a maioria dos mortais não via coisa alguma. Numa conversa ao redor do carrinho de café na redação, a repórter Lena Frias perguntou a Fred Suter se ele já dançara lambada. “Em pé, nunca”, mandou Fred. Todos riram, só Zózimo percebeu que havia uma nota ali — e Fred levou um susto quando viu a graçola escrita. Pegava essas notas sem esforço aparente, como se fosse andando e caçando borboletas com uma rede invisível. Divertia-se, cumpria com fair play o conselho de Fred Astaire aos dançarinos que começavam a sapatear em Hollywood: “Faça parecer que é simples.”

O delegado da Receita Federal Braulio Café também se surpreendeu ao ver uma de suas falas reproduzidas, dias depois de uma conversa descompromissada em que todos os homens na roda, inclusive Zózimo, falaram cada um a seu tempo as maiores vulgaridades. O speech de Braulio Café aos amigos foi reduzido a uma simplicidade que só os grandes dançarinos das letras são capazes: “Sexo: um dos dois tem que ser jovem.”

Nenhuma complicação também para administrar as necessidades alheias. Danuza Leão pediu-lhe uma vez que desse uma foto em que ela estava com outro homem, um amigo, num acontecimento social, apenas para provocar ciúme num paquera seu que não se decidia — Zózimo fez-lhe o favor, se é que a palavra cabe numa relação de fonte com colunista. Não há almoço nem nota grátis. Está sempre preestabelecido que uma mão lava a outra — e lava até o cacófato. Quem recebe um favor torna-se devedor — e logo o telefone, Zózimo sabia, tocaria com Danuza, sem que nada lhe fosse cobrado, pagando a conta.

Ele evitava o máximo possível os dolorosos almoços com fontes, uma das maiores torturas a que se submetem os colunistas. Eles podem sair do ágape com notas caindo pelos guardanapos, mas carregando uma profunda indigestão na alma. O colunista come tenso, com uma gula maior pelo que sai da boca do outro do que pelo filé que entra na sua. Zózimo preferia levar a vida no papo, uma arte que herdara de Boy. Não à toa cunhou um de seus bordões clássicos: “Em mesa de boa conversa jantaram ontem...”

Com o jornalista Ricardo Setti nenhuma dessas etapas era necessária. A nota chegava pronta. Por muitos anos, ele foi uma dessas fontes dedicadas a ajudar a preencher a coluna com notícias que, ao mesmo tempo que tivessem bom texto, fossem prenhes de informação. A colaboração começou em 1986, quando Setti foi trabalhar na sucursal do JB em São Paulo. Conversava com muita gente, vivia notícia o dia inteiro e possuía faro para perceber o que era matéria e o que poderia ficar melhor numa coluna.

Setti passou 967 notas, todas imediatamente publicadas no dia seguinte com o texto original. Em algumas, dependendo do espaço que o diagramador reservava, o título era trocado na redação. Nesta a seguir, de 17 de setembro de 1987, sobre as diatribes alcoólicas de Jânio, Zózimo é o autor do título — “Deixa com ele”. O resto é de Setti:

 

• Em almoço com executivos de uma grande multinacional

esta semana, o prefeito de São Paulo, Jânio Quadros, mais

uma vez exibiu com grande desembaraço seu ecletismo em

matéria de preferência etílica.

• Alegando inicialmente que não pretendia tomar nada, o

prefeito acedeu, inicialmente, em experimentar um

aperitivo especial oferecido pelos anfitriões — gostou e

bebeu tudo.

• Em seguida, passou-se ao vinho branco — Jânio tomou

duas garrafas.

• Já na parte final do almoço, o prefeito transferiu suas

atenções para sua atual preferência, o vinho do Porto.

• O passo seguinte, já no final do ágape, foi o licor — Jânio

tomou uma generosa talagada.

• Durante todo o tempo, o ex-presidente manteve uma

prudente distância da água mineral.

 

Um colaborador como Setti, com texto final e sensibilidade para o que interessava à coluna, era tudo o que Zózimo queria. “Essas notas de economia são ótimas”, ele dizia para Miriam Lage, repórter da coluna no final dos anos 1980 e especialista no assunto, “mas eu não quero perder o fru-fru.” Foi Setti, quando diretor da Playboy, quem passou a notícia de que Adriane Galisteu faria parte da edição seguinte da revista. Disse que a modelo mostrava-se depilando os arredores da virilha com um Prestobarba — e Zózimo fez o resto. A foto tornou-se um clássico do erotismo nacional com o título que ele deu à nota: “A raspadinha.”

Os jornalistas Ricardo Noblat, Paulo Francis (também saído dos bancos do Santo Inácio), Marcos Sá Corrêa, Rodolfo Fernandes e Elio Gaspari eram outros desse grupo de jornalistas-fonte que já ofereciam a nota na medida e nada mais. O fato de fazer a coluna dentro da redação facilitava, pois estava cercado de gente que cavava notícia — e sempre havia um repórter que mandava alguma informação boa que não servia ao que estavam fazendo. Ibrahim, ao contrário, ficava trancado dentro de um escritório comercial em Copacabana. Além disso, tinha umas manias. O repórter Ricardo Boechat, quando ajudava o “Turco” junto com Fernando Carlos de Andrade, doava a Zózimo notas ótimas que o chefe deixava de fora, movido por idiossincrasias que às vezes lhe davam graça e outras lhe tiravam a acuidade. Quando não concordava com a notícia, preferia não publicá-la. Zózimo sabia disso e, amigo de Boechat, telefonava em busca de socorro. “Dá uma olhada no teu lixinho aí e me passa alguma coisa”, era o código.

“Lixo”, ou “lixinho”, era o monturo de notícias não aproveitadas por um colunista, mas que podia fazer bonito na coluna do colega. Zózimo, por exemplo, gostava de trocar notas — mais dava do que recebia — com o colunista da Última Hora, Reynaldo Loyo, um amazonense de cento e cinquenta quilos e com uma inteligência ferina dedicada exclusivamente à prática das aleivosias mais cruéis. As notas amargas, Zózimo despachava para ele. No fim de ano, quando as árvores de Natal dos colunistas ficavam repletas de presentes, a de Loyo brilhava como das mais ricas — eram lembranças de pessoas agradecidas por NÃO terem saído na coluna.

Trocava-se nota, e assim alguns furos de Zózimo saíram do escritório do rival, enviados por Boechat. Zero de traição — como deixar no lixo a notícia dada pelo presidente do Congresso Nacional, Paulo Torres, de que ocorreria uma fusão entre o estado do Rio de Janeiro e o estado da Guanabara? Ibrahim não deu a nota porque era contra. Achava que a publicação ajudaria a consolidar o fato. Quando Zózimo telefonou pedindo o “lixo”, Boechat imediatamente liberou a pepita — que no dia seguinte refulgia na coluna do JB. Para cada colaboração desse tipo, Zózimo precisava atender a outras dez pessoas sem nenhum charme para o ofício de passar algo saboroso. Eram especialistas em notas “cobra-d’água com jacaré”, um cruzamento que, no código de Zózimo, Fred e Marly, identificava a mais perfeita impossibilidade de dar cria e gerar notícia.

Marly fazia a seleção de telefonemas (o banqueiro Theophilo de Azeredo Santos insistia em ofertar informações sobre um único assunto, ele mesmo), e a toda hora aparecia na ansiosa orelha do colunista o telefonema de alguém que não só se esticava no anúncio do que queria, como o que queria não interessava a ninguém — somente a ele. Nesses momentos, quando do outro lado perguntavam quem estava falando, Zózimo intuía a roubada e dava o troco: “Aqui é o José Reis!”

José Reis era o nome de um ex-companheiro do jornal, redator do Informe JB. Costumava ser uma boa artimanha para se livrar dos chatos, porém um dia telefonou alguém que sabia que José Reis estava trabalhando numa assessoria de imprensa. “Oi, José Reis”, devolveu o sujeito assim que Zózimo fingiu ser o tal. “Que bom que você voltou para o jornalismo!” Só restou a Zózimo dizer que não era aquele Zé Reis, e sim outro, um pobre homônimo e contínuo.

“O informante que mais temo é o da extensa praga dos assessores de imprensa”, disse em entrevista para a repórter Suzana Braga, da Última Hora, em 1989.“Eles levam o colunista à loucura. Passam um tempo enorme tentando vender as suas notas. É insuportável. Me dou bem com a turma, recebo todos com plumas e paetês, mas os releases vão direto para a cesta.” Admitia, porém, abrir exceções para pedidos de amigos, mesmo sabendo que em seguida eles capitalizariam a repercussão da nota em seus negócios. “Se um cara que nem me conhece me diz: ‘Será que você podia publicar uma nota sobre a joalheria tal?’, eu respondo: ‘Não.’ Se é um amigo, eu considero o pedido. O importante é eu não faturar. Que os amigos faturem, eu não estou nem aí!”

Houve épocas em que alguns nomes surgiam com tanta assiduidade na página que Nascimento Brito chegou a pedir mais rotatividade. Desconfiava que muitos na redação faturavam à custa do papel de jornal que ele oferecia. Não suspeitava que o colunista pudesse lucrar pessoalmente com o mau exercício da profissão, mas a proximidade que a classe mantinha com o poder financeiro impressionava. Em 1972, ao lançar o livro 20 anos de caviar, Ibrahim abrira numa entrevista ao repórter Elio Gaspari, da Veja, o jogo de suas finanças:

 

Eu ganho dinheiro em negócios, na bolsa e em transações

imobiliárias. As duas maiores vendas de terreno realizadas

na Guanabara este ano fui eu quem fez. Uma delas foi a do

maior lote na Vieira Souto, onde estava o edifício da

Josefina Jordan. É difícil eu perder. Agora que as ações

caíram, eu me virei. Vendi bem Banco do Brasil, Vale, e

comprei tudo de Petrobras.

 

Zózimo, a grana sempre curta, caminhava ao largo das tentações, embora os limites fossem tênues. Se numa entrevista um repórter surgia com a questão — a ameaça maldita do jabá que paira sobre as colunas —, ele botava o coração na mesa, como fez em 1989 à revista We: “A afetividade faz parte da natureza humana e, por mais profissional que eu seja, ela se sobrepõe. É impossível mantermos uma postura totalmente independente em relação a tudo, a afetividade é incontornável. Eu jamais daria uma nota contra um amigo, por mais execrável que fosse seu comportamento, mas não passei por essa situação constrangedora. Acho que tenho bom feeling para escolher amigos.”

Acima de todas as suspeitas, toureando as armadilhas de um dia a dia com a multidão de interessados, benignos e malignos, tentando emplacar uma nota, o colunista — como um goleiro na hora do pênalti — apostava na sorte para pular no canto certo. A necessidade de confirmar a informação com pelo menos duas fontes nem sempre era possível — daí o valor de se acreditar na “fonte fidedigna” de que falavam os manuais antigos de redação e ir com ela até o inferno, até o desmentido ou a demissão. A pressa, e também a diversidade de assuntos, custara a Zózimo muitas vezes a punição pública, inerente a todos os colunistas, da notícia errada. Ele anunciou, por exemplo, a vinda ao Rio do Led Zeppelin meia dúzia de semanas depois de o grupo se declarar desfeito. O projetista Colin Chapman, um dos renovadores das corridas de Fórmula 1, apareceu vivo na página 3 do B em julho de 1984 mesmo estando lamentavelmente morto desde dezembro de 1982. “Morreu para você, leitor ingrato, para nós continua bem vivo em nosso coração”, foi sua retificação.

Como as notícias certas davam de goleada, a vida seguia. Na citada entrevista com Suzana Braga, Zózimo falou sobre os tipos de fonte, “esses seres murmurantes”. “Há os que têm o prazer em dar a notícia simplesmente. Outros pedem notas em troca, o que acho bastante justo. Tem o cara que não gosta de dizer nada e a gente enche o saco até conseguir. Tem o informante de merda, que toca o telefone para não falar nada interessante.” Fontes são imprevisíveis. O chato de hoje pode ser aquele que amanhã brindará a coluna com uma nota espetacular, um “abre” encimando a página. É preciso tratar a todos com alegria e consideração, esperando que o inconveniente de agora salve a pátria na próxima edição.

Alguns colunistas puxam o saco da fonte, cobrem-na de elogios estapafúrdios ao vivo e às vezes também na folha impressa. O estilo de Zózimo era outro. Educado, porém sem subserviência. Se possível, tirando um sarro com a aporrinhação. “Deixa comigo”, dizia numa brecha em que a fonte respirava em meio a uma longa dissertação sobre seu pedido. “Vou botar na cesta.” A fonte ouvia “sexta”, na edição de sexta-feira e, felicíssima, agradecida por tanto carinho, desligava o telefone, deixando o colunista ir atrás de notas que realmente interessassem.

Uma de suas fontes mais queridas, não porque lhe trouxesse notícia-notícia, e sim porque nunca saía de um encontro com ele sem transmitir uma sabedoria, uma frase que pudesse levar para a própria vida ou a dos leitores, era Aloysio Salles, amigo do ex-presidente Getúlio Vargas, lobista de fina cepa, ligado à indústria petroquímica de Alberto Soares Sampaio. Pai de Betsy, mulher de Olavo Monteiro de Carvalho, trinta anos mais velho que Zózimo, Aloysio levara para a vida profissional o dom que esbanjava às mesas: aquela conversa espirituosa que aproximava as pessoas e em seguida poderia resultar em bons negócios ou apenas grandes amizades. Zózimo adorava encontrá-lo. Na hora de escrever a nota, nem precisava caprichar no texto. Mandava, curto e grosso. “Sabedoria” é de 14 de novembro de 1985:

 

• Do sr. Aloysio Salles, um dos grandes especialistas do

gênero no país:

— Para mim, a mulher tem que ser um gentleman.

Em 7 de agosto de 1988, o guru brilhou na nota “Preferência”:

 

• Do homem do mundo Aloysio Salles, do alto de sua

sabedoria, no almoço que festejou no Clube Gourmet o

aniversário do jornalista Rodolfo Garcia:

— A melhor coisa do mundo é uísque; a segunda melhor

coisa do mundo é uísque nacional; e a terceira melhor coisa

do mundo é uísque falsificado.

 

Esta é de 21 de março de 1977, com o título “Saber viver”:

 

• Duas sentenças recolhidas ao longo de um bate-papo

com o sr. Aloysio Salles, um dos maiores know-hows

noturnos do país:

— Num cocktail, o importante não é conhecer a dona da

casa, mas os garçons.

— Numa festa, a diferença entre um convidado e um penetra

se extingue ao cabo dos primeiros cinco minutos.

 

E já que o assunto era coquetel, Zózimo misturou ao pé da nota uma piada particular:

 

• Esta não é de Aloysio, mas de uma outra velha raposa

social, conhecida pela sabedoria com que leva a vida:

— Bebida só em bar, jogo só em clube e festa só na casa dos

outros.

 

Claro, o autor, não citado, era o velho Boy, não à toa amigo de Aloysio. Zózimo, Boy, Aloysio e mais Nelson Batista, diretor do JB, eram vistos muitas vezes na noite em mesas onde gargalhavam o tempo todo. Como se fossem personagens do filme Meia-noite em Paris, de Woody Allen, disputavam com histórias exemplares qual teria sido a melhor época do Rio. Falavam das coristas do Casablanca, das roletas do Cassino da Urca, do show de Edith Piaf no Copacabana Palace e do êxtase silencioso de quando a cantora francesa Dany Dauberson, o vestido atochado em todos os desvãos de suas curvas espetaculares, começava a cantar, no Vogue, a balada “La complainte des infidèles”. Zózimo suspirava diante das nostalgias de Aloysio e Nelson, tidos como a dupla Ouro e Prata.

Numa cidade como o Rio nos anos 1980, nem toda notícia vinha de ambientes perfumados e em meio a boas palavras. Para fazer uma coluna de mix suculento, podia ser necessário mexer em vespeiros sombrios. Circulava pelo JB uma figura conhecida como o “Amigo Alves”, um certo Ademar Alves. Zózimo o conheceu no dia em que comprou um carro que descobriu ser roubado. Nascimento Brito mandou Alves dar um jeito na papelada e em três dias estava tudo certo. Alguns viam a sua aproximação com Brito como um flagrante da decadência do jornal. Antes os poderosos resolviam seus problemas para cima, agora falavam com o andar de baixo — no caso de Alves, com o subsolo da sociedade. Ainda há pouco falava-se com Álvaro Americano para conseguir a liberação de um passaporte para a Índia. O Rio deteriorava-se até em suas carioquices mais típicas.

Alves tinha pouca instrução, entretanto se movimentava por todos os meandros, benignos e malignos da sociedade, com uma desenvoltura que permitia importar lagostas do Alasca, máquinas para a gráfica, armas, TV colorida que só existia em loja de Nova York, comprar mulheres e o que mais estivesse no mercado. Aquilo, sim, era um factótum. Distribuía aos jornalistas interessados um cartão que dava direito a ingresso grátis na Termas Aeroporto, central de saliências na região do Castelo. Ficou amigo de Chagas Freitas, governador do Rio e dono do jornal O Dia. “Ele vai acabar governador do estado”, desconfiava Nascimento Brito referindo-se a Alves.

O “Amigo Alves” não só passava notas, como ajudava jornalistas a tirar carteira de motorista sem prova de direção, em Nova Iguaçu, onde dirigiu o Departamento de Trânsito, o Detran. Maneco, que se orgulhava do relacionamento com personagens gauche, como Zica, contrabandista que décadas antes dominara o cais do Rio, largava qualquer figurão na sala para atender “o amigo”. Alves deu um jantar num apartamento emprestado no prédio de Carmen Mayrink Veiga. Numa mesa, cascatas de lagostas do Maine. Noutra, cascatas de patas de caranguejo. Muitos editores provaram ali pela primeira vez, talvez a última, um copo do vinho Château Margaux. “Isso parece o último jantar do Nabucodonosor”, divertia-se Zózimo ao lado de toda a cúpula do JB, presente para agradecer a notas e a tudo o mais do precário e poderoso anfitrião. “Pensando bem”, acrescentava, “nem a coroação da Elizabeth II teve jantar assim. Olha, digo mais, nem o baile da Cinderela.”

Fontes, não se pode julgá-las com muito rigor, pois corre-se o risco de o telefone não tocar. Reynaldo Loyo, da Última Hora, conhecia o bicheiro Castor de Andrade. Queria-o tão bem a ponto de, no final da década de 1980, telefonar para o amigo Boechat, do Globo, com um pedido. Boechat publicara que, embora preso na Polinter, o bicheiro fora visto na plateia do Canecão, na estreia do show de Roberto Carlos. Loyo pedia a Boechat apenas que atendesse a um telefonema do ainda preso Castor, que se identificaria como “Coronel”.

“Senhor Boechat”, telefonou logo em seguida o “Coronel”. “O senhor não me conhece e eu quero dizer que sou grato aos meus amigos. Preciso de sua ajuda. Essa nota que o senhor publicou pode complicar meu pedido de relaxamento de prisão por motivos de saúde. Eu preciso que o senhor desminta, por favor.”

Boechat explicou que não poderia atendê-lo, exceto se a informação fosse infundada. “Não, senhor Boechat. Não vou mentir. Eu sou apaixonado por Roberto Carlos e estava ansioso para ver o show. Eu fui lá, senhor Boechat, mas saí direto para a Polinter. Foram só duas horas fora da prisão.”

“O senhor foi visto por nosso fotógrafo, doutor Castor. Ele estranhou que uma mesa de palco estivesse vazia com o Canecão cheio e ficou esperando para ver quem era o retardatário. Viu o senhor entrar de chapéu depois que as luzes da plateia se apagaram.”

“Foi isso mesmo...”, continuou o bicheiro. “Mas, então, o senhor pode dizer que alguém lhe contou isso? Que não testemunhou pessoalmente minha presença lá?”

“De fato eu não estava lá, doutor Castor. Como lhe disse, foi nosso fotógrafo que flagrou a cena.”

“Isso mesmo! O senhor não estava lá! Pode repetir isso quando ligarem para o senhor daqui a pouco da Secretaria de Segurança?”

“Se a pergunta for essa, a resposta não pode ser outra.”

Não se passaram dez minutos e ligou o secretário de Segurança, Helio Saboya.

“Boechat, essa notícia que você deu é gravíssima. Se for verdadeira, vou ter que exonerar o chefe da Polinter. Estou ligando para saber se foi você quem viu o Castor. Você estava no Canecão?”

“Não, secretário, eu não.”

“Então tá bom. Obrigado.”

E estava encerrado o assunto. O secretário certificou-se dos fatos, o delegado da Polinter continuou onde estava, a nota não foi desmentida e Castor de Andrade ficou devendo um favor a Boechat. Pagou-o em notícias, boas e episódicas, ao longo de anos. Um “Coronel” daquela patente, numa cidade com quartéis de limites pouco claros como o Rio de Janeiro, era o tipo de fonte que todo jornalista queria ter.

O “Amigo Alves” ajudava Zózimo em contatos com gente da contravenção, como o próprio Castor e o Capitão Guimarães, líderes do desfile das escolas de samba. Era mais uma fonte. A todas o colunista fazia-se grato e sem preconceito. Ele só não gostava de servir de fonte para coleguinhas. Diariamente, os colunistas do interior mordiam suas notas e as transcreviam, sem qualquer pró-labore, por todos os rincões do país. De vez em quando, mesmo pelo avesso, vingava-se de estar sendo vampirizado, de ser canibalizado como fonte não citada. Uma vez Zózimo publicou que o ator Paul Newman estava hospedado no Sheraton carioca. No dia seguinte, a nota estava duplicada numa coluna de São Paulo, sem crédito. Bem-feito para o ladrão de notas. No mesmo dia, Zózimo já pedia desculpas e dava uma correção. Tratava-se de uma “barriga”. O Paul Newman no Rio não passava de um homônimo do ator, um pacato industrial de Massachusetts. O colunista de São Paulo, que chupara a informação, preferiu deixar para lá. Envergonhado, não chupou o desmentido.