Enquanto Houver Champanhe, Há Esperança
Capítulo 28
Zózimo estava numa mesa de canto do restaurante Florentino, o novo ponto de encontro da boemia chique-intelectual do Leblon depois que o Antonio’s foi invadido por um bando de ninguéns. O ditado popular dizia que “gente fina é outra coisa”. Nem sempre. Chico Buarque de Hollanda — o autor de alguns dos versos mais delicados da língua portuguesa, coisas lindas como “não se afobe, não, que nada é pra já, amores serão sempre amáveis, futuros amantes, quiçá” — encarou o sujeito do outro lado do salão e dispensou a poesia: “Você é um escroto, seu merda!” Para reforçar o ponto de exclamação, o compositor de “o meu amor tem um jeito manso que é só seu” jogou um cinzeiro no oponente.
O sujeito do outro lado do restaurante, que se abaixou a tempo, era o jornalista Adirson de Barros, baluarte da nova direita. Ele havia publicado uma reportagem sobre um show de Chico em Paris. Segundo o artista, um sucesso; segundo o articulista, um fracasso, espetáculo de pouca plateia e cheio de discursos demagógicos sobre a fome no Nordeste. A resenha estava sendo feita no Florentino, ao escorrer de muitas doses de uísque, e coadjuvada pelos vitupérios de Tarso de Castro, amigo do compositor. No esquete, Adirson fazia o papel de educado. Falava baixo e tentava rebater o alarido de Chico e Tarso com humor debochado: “Só me retrato quando você fizer outro show pelas criancinhas famintas, cantando para que elas troquem o calango pela macarronada.”
As noites do Florentino, onde Zózimo agora ia encontrar os amigos e pescar nota, eram agitadas como as do Antonio’s, só que todos se sentavam em poltronas com maior conforto. Podiam ser divertidas, com uma penca de famosos, mas corria-se o risco de jogarem um cinzeiro na sua cabeça. Na plateia do embate Chico/Adirson, além de Zózimo, estavam o então prefeito do Rio, Marcello Alencar, o secretário de Turismo, Nestor Rocha, os diretores da TV Globo Daniel Filho e Paulo César Ferreira, a promoter Anna Maria Tornaghi, os jornalistas Carlos Lemos, Sebastião Nery, Mauritônio Meira e Niomar Moniz Sodré e o general Idyno Sardenberg. Os dois últimos tinham se encontrado pela última vez no presídio de Bangu, ela dentro e ele fora das grades.
Chico e Adirson bateram boca por umas duas horas, passando a discutir questões da Nicarágua, do Afeganistão e de Cuba. A noite acabou com o compositor atirando um charuto cubano em sinal de pacificação — e saíram todos à rua, em blocos separados, por volta das seis da manhã, uma hora segura, segundo Millôr Fernandes, porque os ladrões já foram dormir e a classe média ainda não acordou.
Zózimo preferiu passar a descrição da cena para o Informe JB. Dar mais uma notícia sobre a temporada de brigas do compositor, com quem já tinha longa relação de notas estressadas, ia parecer patrulha. Daquele mesmo Florentino já havia saído nota sobre uma briga dele com Millôr. O humorista acabara de dizer na revista Status que politicamente confiava tanto em Chico que não o deixaria levar seu cachorrinho para dar uma volta na rua. Quando o refinado letrista de “Não sei se você ainda é a mesma, ou se cortou os cabelos” encontrou Millôr no Florentino, partiu para cima. “Você é velho, e num velho eu não bato, eu cuspo”, disse, fazendo-o em seguida, ao mesmo tempo que lhe jogava azeitonas de um pote e era confrontado pelo humorista com outros arremessos.
A nota abriu a coluna de Zózimo em 28 de março de 1983:
• Não convidem mais para a mesma mesa Chico Buarque
de Hollanda e Millôr Fernandes.
• Os dois engalfinharam-se num corpo a corpo, levados
por incontornáveis divergências políticas, só sendo
separados quando voou pelos ares em direção ao adversário
a primeira garrafa de uísque Grant’s arremessada pelo
humorista.
A década de 1980, com todas essas arruaças grifadas, podia não ser muito diferente daquelas dos anos 1940, quando Benjamim Vargas, irmão de Getúlio e amigo de Boy, dava tiro dentro da boate do Copacabana Palace. O mundo andava aborrecidamente parecido com o de outrora. O que havia de novo era o texto do colunista social desses eventos.
• Estão de namoro a atriz Suzy Rego e o ator Paulo César
Grande.
• Se vierem a casar, aconselha-se que não misturem os
sobrenomes.
Zózimo não era um leitor de poesia, mas parecia se aproximar do haicai e de um ensinamento que, até onde se sabe, seria de Carlos Drummond de Andrade: “Escrever é cortar palavras.” Um dia, o truque de fazer notas a partir do bordão “Não será surpresa para esta coluna...” acabou assim na nota “Especulação”: “Não será surpresa para esta coluna.” E ponto final. Era só aquilo. Enquanto os editoriais gastavam páginas para comentar a derrocada da União Soviética em 13 de junho de 1989, na nota “Sieg heil!” (“viva a vitória”, em alemão) ele sintetizou tudo em duas linhas, com o plus do humor:
• E o comunismo, hem?
• Foi-se.
Na mesma edição, reduziu toda a história sobre a movimentação fraudulenta do especulador Naji Nahas na Bolsa de Valores, um dos grandes furos da coluna, a duas linhas na nota “Pura”:
• E a Bolsa, hein?
• Sacanaji.
A sensação era a de querer reproduzir no jornalismo os minicontos de Dalton Trevisan, que a cada edição surgiam mais curtos. Nas entrevistas, revelou apenas que andava se policiando em relação ao exagero de expressões em francês, uma dieta esnobe de “pièce de résistance, enfant gâté, haute gomme, à-propos, tour de force, malgré, ça va sans dire, tout court, soi-disant...”. Também não usava mais o “como antecipou esta coluna” — afinal, o espaço era para isso mesmo, informar primeiro.
Nada disso explicava como largou a influência dos editoriais afetados de Álvaro Americano, que precisava de vinte linhas para contar uma história, e passou a fazer o mesmo trabalho com duas. Apenas uma vez, ao elogiar Elio Gaspari, comentou o que estaria influenciando seu texto. Entre 1974 e 1978, Gaspari editou a coluna Informe JB. A mão de Zózimo teria começado a mudar a partir daí. Ele comentou certa vez que “lia e relia as notas de Gaspari para desvendar seus malabarismos de estilo, identificar os pequenos truques que podem fazer apimentada uma notícia sem sabor, descobrir a noção exata do timing com que abria os parágrafos e arrematava maliciosamente as notas. Eu revirava os textos pelo avesso, e assim continuei, sempre a devorá-los, e sou muito influenciado por eles”.
Dia a dia, nota a nota, e exatamente após essa passagem do furacão Gaspari pela vizinhança — dos seus lugares, os dois se viam através dos vidros da redação —, a coluna ia sendo reinventada, numa espécie de laboratório aberto ao público. Zózimo, que já vivia revelando os bastidores daquele ofício, aproveitou uma capa da Newsweek sobre a “gossip mania” para descortinar mais um pouco o que ia por sua sala. A reportagem, cáustica com o colunismo de notas (“nunca na imprensa americana tanto espaço foi dedicado a tão pouca coisa”), levou um passa-fora de Zózimo:
• O fenômeno do sucesso do gossip é explicado pelo
cansaço do leitor norte-americano em encontrar anos a fio
nos jornais quase que apenas notícias sérias e
desagradáveis, agora compensado pelo noticiário dos
bastidores e revelações oficiosas sobre os mais variados
assuntos, encontráveis apenas nas colunas sociais.
A revista misturara alhos com bugalhos. Havia a fofocagem mais ostensiva, feita pelos herdeiros de Walter Winchell, Hedda Hopper, Louella Parsons e a jornalista e apresentadora Dorothy Kilgallen. Zózimo filiava-se ao outro time, dos colunistas que percebiam a necessidade de um sacode em anos a fio de “notícias sérias e desagradáveis”. Como fazer isso mantendo a compostura era o desafio que dividia ao publicar as reflexões sobre seu trabalho. “O importante no Zózimo não é a notícia, mas como ela é dada”, percebia o publicitário Washington Olivetto. “Às vezes, conversando com ele, eu dizia algo que ele julgava legal. Eu avisava, isso não é inédito. Ele não se importava. Sabia que ia dar melhor. E era o que acontecia.” Zózimo era orgulhosamente sincero e concordava: “O importante é a maneira como você escreve. Eu tenho a certeza de que, se eu der uma nota idêntica a uma anteriormente dada por algum colunista, eu fatalmente darei melhor.” Quando Boni, da Globo, anunciou na revista Playboy que em dez anos, quando completasse trinta de casa, deixaria a empresa, Zózimo reproduziu a notícia — mas com um daqueles seus adendos demolidores: “É o mais longo aviso prévio da história.”
Aos poucos a pena de Zózimo trocou o perfume da galanteria francesa, o cacoete esnobe que ele havia herdado da antiga cultura dos colunistas, e incorporou a carioquíssima malandragem do breque. Ele dava a notícia na primeira linha, talvez a esticasse na segunda, e finalizava a nota inesperadamente. Era o comentário, a espetada — a sua marca. Quando Tancredo Neves foi eleito presidente pelo Congresso, Zózimo noticiou que o senador malufista Roberto Campos comentou: “É uma pena, tudo acabou tão mal.” Quando o leitor achava que a nota já tinha acabado, pois assim seria com um redator normal, eis que Zózimo reaparecia com um novo parágrafo e um breque sacana antes do ponto-final: “Mal pra quem, cara-pálida?” A palavra final era da estrela da página — o colunista.
Quando, em junho de 1983, o marchand Ralph Camargo apresentou a exposição Bonadei construtivista, Zózimo disse que “só pode ser um colosso” — e abriu aspas para o release que recebera: “Penetrando no amálgama alucinógeno das suas perspectivas, Bonadei realça a profundidade do pano de fundo, disputando o primeiro plano em meio a fogo cruzado do espaço linear.” O colunista cita ainda outro parágrafo (“Bonadei mora sedentário no esplendor de seu universo, com veneração mas sem servidão, exprimindo o enigma de sua humanidade”), e diante de tanta prosopopeia vernacular só tem um comentário a fazer: “Eta ferro!”
A poda era geral no jardim. Menos editorial, menos papo furado, menos retórica. Seguro no exercício do ofício, tocava de primeira as tabelinhas com Fred Suter, belo parceiro quando a necessidade era curtir no papel a mesma visão irônica do mundo. Ao comentar uma operação de mudança de sexo, a dupla escreveu:
• Consta que depois da operação, Roberta Close vai mudar
de nome.
• Vai se chamar Roberta Open.
No início não havia tanta informação sobre sua mesa. Agora escorria uma razoável fartura, e para que sobrasse espaço para mais notas ele reduzia tudo ao essencial. Teria sido nessa altura que Ancelmo Gois cunhou a frase que acompanharia Zózimo como um dístico perfeito no seu brasão: “É o melhor texto brasileiro em três linhas.” Na edição de 9 de janeiro de 1985, a revista Veja reconhecia o sucesso e resumiu um perfil do colunista na reportagem “O peso da coluna”:
Há os leitores que vão direto às entrelinhas, cúmplices nas
estocadas com que o jornalista espeta os deselegantes, os
intrometidos, os enroladores ou os simples e
irremediavelmente chatos. Do alto de sua coluna ele
contempla a cena brasileira como um príncipe, coroando os
ricos e famosos, distribuindo indulgência aos novos-ricos e
opinando sobre tudo e todos com o mesmo desembaraço.
De quebra, Zózimo é também uma espécie de instituição
carioca — assim como o Carnaval, a praia e a paixão pelo
futebol, ele é uma marca registrada da cidade.
A revista citava exemplos de como a coluna desenhava seu surpreendente cardápio de atrações. Dizia que havia comentários locais (“Para uma cidade muito doida como o Rio, nada melhor na prefeitura que um psicanalista”, sobre a candidatura de Eduardo Mascarenhas); notícias políticas (“Já é certo que na posse do futuro presidente Tancredo Neves o governo americano se fará representar pelo secretário de Estado George Shultz”); bombas econômicas (“O Instituto Brasileiro do Café vendeu 300 mil sacas de café para a China a preços abaixo do mercado”); e platitudes sobre o jet-set (“Lourdes e Álvaro Catão são avós mais uma vez”).
O sucesso da coluna era espetacular. Quando os grupos imobiliários Gomes de Almeida Fernandes e Patrimóvel juntaram-se para lançar o primeiro grande condomínio de luxo de São Conrado, num terreno que pertencera ao clã dos Guinle (mais uma peça da coroa da família que se vendia), o nome de Zózimo foi lembrado para estrelar a campanha publicitária. Ele cedeu, por 10 mil dólares, a marca e o rosto, e ainda fez um texto para o anúncio, publicado em jornais e revistas:
Família alguma, no Rio, possuiu imóveis tão bonitos como
os Guinle. Suas casas sempre despertaram admiração, pela
originalidade e extremo bom gosto, chegando mesmo a
determinar um novo conceito: o estilo Guinle de morar.
Agora toda essa tradição de morar bem chega à melhor
praia do Rio, a praia do Pepino, em São Conrado. Ali está
sendo construído o Praia Guinle. Um projeto residencial à
altura dessa localização única no Rio, com muito verde ao
fundo e a melhor praia em frente. Tudo com muita
privacidade para você também viver todo o clima da arte de
morar bem.
O prédio era um símbolo da cidade que se desenhava, tomada por edifícios de uma arquitetura polêmica, arranhando de concreto a Mata Atlântica. O Rio dos Guinle, dos espaços exclusivos e da finesse desaparecia, e o Praia Guinle logo teria uma briga típica de cabeça de porco. A cantora Simone denunciou a vizinha, a socialite Fernanda Colagrossi, por causa da enorme quantidade de cães que mantinha em seu apartamento.
Zózimo não tinha culpa se a cidade mudava e se, na ausência do piano de Sacha Rubin, ouvia-se agora a gritaria raivosa de uma reunião de condomínio ou, como parecia ser o caso, de “condemônio”. No lugar dos Guinle, que representavam o passado do charme carioca, aparecia a sua grife, e era ela que sabia, no presente, o que significava uma vida de “extremo bom gosto”. Em novembro de 1985, Zózimo recebeu em Brasília a comenda de Cavaleiro das Artes e Letras da França. O embaixador Bernard Dorin disse que seu país homenageava “o homem culto, o amante da França e o jornalista que divulga a cultura francesa”. Zózimo dividiu a condecoração com Marcia, “pois ela é pintora”.
De volta à publicidade, Zózimo, carregando agora uma condecoração de alto prestígio na lapela (morto, de enfarte, em 1984, Álvaro Americano ficaria orgulhoso), participou ainda da campanha de lançamento de um edifício na avenida Atlântica e do Club Méditerranée, em Mangaratiba, sendo que nesta trocou o cachê por hospedagem. A publicidade estufava o cofrinho (tinha um limite ético e, ao contrário de Ibrahim, que criou uma marca de uísque, o Old Lord, jamais fez propaganda de bebida), mas Zózimo não piscava de deslumbramento. “Acredito que uma das razões por eu estar durando tanto como colunista é minha origem de classe média alta”, disse em entrevista à revista Playboy, em 1981. “As pessoas falam que meu nome virou grife, mas grife mesmo seria se eu pudesse ficar em casa e a simples publicação do nome me sustentasse. Ralo na redação até tarde. Grife é o Saint Laurent, que faz uma coleção por ano e o resto do tempo fica em casa. Eu nem sequer almoço porque, na hora e meia que perderia num restaurante, consigo sete ou oito notas por telefone.”
O dia a dia da coluna continuava uma pedreira. Nascimento Brito gostava de mostrar independência dos parceiros sociais e de negócios colocando notas críticas sobre eles — e deixando o pepino das reclamações para Zózimo resolver. “Você vai ver que amanhã vem pau na gente”, disse o ministro Delfim Netto a um assessor depois que Brito saiu do gabinete carregando mais ajuda financeira para resolver problemas do jornal. Não deu outra. E lá vinham os telefonemas indignados. Dalal Achcar e Bocayuva Cunha, também amigos de Brito, sofriam ataques sob a assinatura de Zózimo, vindos na realidade do fogo fraterno do empresário e sua peculiar personalidade. Queria deixar claro que não se deixava vender por empréstimos ou carinhos. Ao colunista cabia dar as explicações em que, evidentemente, escondia-se a fonte e falava-se algo sobre o bom jornalismo, a necessidade de se ouvir todos os lados etc. Bocayuva, inocente de tudo, pedia mais cuidado com os colunistas a Brito — e este, autor das diatribes, prometia que na próxima demitiria o responsável.
Três andares abaixo — todos trancados por quase dez horas diariamente dentro de uma sala —, o desgaste pelo longo relacionamento também atacava Zózimo e seus ajudantes. Marly e Fred detestavam-se. “Ela é tão grossa que o dedo tem dificuldade de entrar no disco do telefone”, dizia Fred, que reclamava também das ausências do titular. Zózimo sofria com o companheiro, cada vez menos rigoroso na apuração. Na primeira vez que deixou Fred sozinho, quando viajou para o torneio de Roland Garros, em 1974, Zózimo entregou uma carta ao colaborador, assustado com a tarefa:
Um bom conselho: ponha o seu sentido de observação e a
imaginação para funcionar procurando dar notas sobre a
cidade, abordando temas ou fazendo críticas
(ponderadamente, sem grandes estrilos) do dia a dia.
Procure comentar coisas que fazem parte do cotidiano do
leitor comum.
Só porque você não gosta não precisa abandonar o
futebol. A Copa está aí e lembre-se de que este ano serão
mais de 100 milhões em ação a fazer a “corrente pra frente”.
Quando tiver alguma dúvida, consulte o pessoal do Esporte.
Se já tiverem viajado para a Alemanha ou se você não lhes
quiser dar “a dica” da notícia telefone para o Moyses Saubel.
Em matéria de futebol, o homem é uma enciclopédia.
Não agrida outras colunas ou outros colunistas, mesmo
que seja para responder a algum ataque. Ignore e na volta
decidimos o que faremos.
Fred, sozinho, engrossava além da conta. Numa edição, deu a nota que um assessor do ministro Roberto Campos almoçava com a amante em Paris quando foi surpreendido pela irrupção da titular no recinto. Ele não publicou os nomes dos litigantes do barraco, mas os mais próximos poderiam matar com facilidade a charada — e estava feito o estrago sobre a vida dos personagens. A traída, amiga de Nascimento Brito, queixou-se com ele, que pediu a Zózimo, sem sucesso, a demissão do auxiliar. Era um sufoco administrar aqueles temperamentos, adoçar as fontes carentes de mais espaço e ainda manter o humor elevado para continuar cravando delícias, autênticos petits-fours, como dizia nos anos 1970, no café da manhã do brasileiro.
• O locutor do SBT que anunciava ontem a entrada em
campo dos jogadores de Brasil e Inglaterra deu um show de
erudição ao informar os telespectadores:
— Está sendo executado o hino inglês, God shave the queen.
• A rainha, escanhoada, deve ter tremido no trono.
Ou:
• Pelo Ibope que deram, as duas cadeias de TV que
transmitiram até alta madrugada os grandes bailes fechados
ganharam durante a semana de Carnaval uma nova e
divertida identidade:
• TV Bundeirantes e TV Michete.
A liberdade de Zózimo no manejo do que pudesse ser de interesse de uma coluna ia ficando cada vez mais ampla. Notícia podia ser tudo aquilo que um editor escolhesse como notícia — essa era a compreensão moderna da coluna. Não era ciência, mas um dom, a vitória do particular, a arte final de uma assinatura. Ancelmo Gois, no Informe JB, dava notícias exclusivas, porém sentia, no trato com suas fontes, altas personalidades do mundo empresarial, que a repercussão do colega, principalmente das suas miudezas geniais, tinha um Ibope maior. “Eu dava um grande furo, mas o que repercutia era a sacada do Zózimo sobre um acontecimento banal”, lembra Ancelmo. “Ele dava muita notícia importante, da política à sociedade, mas até as minhas fontes vibravam mais com aquelas espetadas dele. Eu percebi, na comparação das colunas, que notícia é importante, só que a maneira de empacotá-la para servir ao freguês supremo, o leitor, é fundamental.”
A cena social, que havia marcado o início da coluna, transformara-se em uma ou duas notas, embora a ilustração da página continuasse a ser uma foto recolhida num badalo da noite anterior. Aí, sim, continuava em evidência o seu grupo social de amigos — como se fosse a lembrança de um Rio vintage. A loura Irene Singery, estrela dos jantares já no fim dos anos 1960, aparecia muito nessas fotos. Tinha um sorriso constante e bem desenhado. Nem todas as notas, no entanto, alegravam a anfitriã. Simpática, extrovertida, ela chegou a fazer carreira de cantora na noite, apesar de riquíssima e dona da ilha da Piedade, em Angra dos Reis, famosa por ter sido ocupada pela revista Caras. A beleza de Irene era arrasadora, a ponto de Ibrahim Sued, com seu vocabulário particular, fosse qual fosse a língua em que estivesse, elogiá-la com a expressão “derrière up-to-date”, que os amigos mais próximos de Irene traduziram como “uma bunda atualizada e com tudo em cima”. Em 1986, Irene andava triste após se separar do marido. Quando leu o que Zózimo escreveu na edição de 5 de outubro, um domingo, ficou pior ainda. Ele anunciava, numa nota curta, que o ex-marido dela, dono do Hotel Marina Palace, no Leblon, já tinha outra.
• Bel e Luiz Cesar Magalhães inauguram seu novo
apartamento no dia 15, recebendo um grupo de amigos para
jantar.
Irene boquiabriu-se, indignada com a traição do colunista e a exposição pública da sua tão recente desdita. “Por que você fez isso, Zózimo?”, perguntou ao telefone. “O meu sofrimento só aumenta com uma notícia dessas no jornal. Você jogou sal na minha ferida.” Zózimo não resistiu a anunciar a separação de duas pessoas importantes na sociedade, mesmo sabendo que poderia machucar Irene. Precisava levar a vida vendendo o pão, nem sempre doce, da existência. Informou-lhe que a nota tinha outra leitura, e era a que ele pretendia: “Irene, leia melhor a nota, acho que agora você tem uma boa notícia para mostrar ao seu advogado.”
Ela conhecia colunistas, sabia de seus truques um pouco além do que devia. Em sua casa, quando ainda estava casada com o primeiro marido, Robert, a colunista da velha guarda Nina Chavs criou, em 1967, um personagem que alucinaria de curiosidade o high carioca. Tudo ficção, mas nem todos os colunistas manejavam o repertório de soluções de Zózimo, que, para encher a coluna, podia brincar dentro dos parâmetros do jornalismo. Nina Chavs fez desembarcar na cidade, diretamente de sua imaginação, um fazendeiro mato-grossense, o senhor Rocha A. Lazão, que cruzara o país para se aproximar da grande paixão de sua vida, madame Irene Singery. Pelos jornais, cercado de sua imensa criação de gado, mas solitário, ele via as fotos dela, o “derrière up-to-date”, e apaixonara-se. Foram várias notas focalizando o amor do fazendeiro pela socialite. O sujeito mandava presentes insistentes, culminando com um anel crivado de diamantes que, segundo Nina, Irene imediatamente devolveu.
O roteiro da paixão do fictício A. Lazão era criado em reuniões semanais com Nina, a própria Irene, o jornalista-compositor Ronaldo “Lobo bobo” Bôscoli, os cronistas Carlinhos Oliveira e Rubem Braga, o compositor Chico Buarque e o showman Miele. Robert Singery, o marido da desejada, que em algumas notas aparecia ciumento, também participava do jornalismo-mentira. Quando ia ao Country Club, Singery encenava. Explicava que ainda não conhecera o fã, que até aquele momento ele só se fazia anunciar pelos presentes. A patacoada chegou ao máximo quando outros colunistas começaram a noticiar também a presença de Rocha A. Lazão. Como saía na coluna de Nina Chavs, achavam que precisavam escalar o personagem também em seus eventos — e roubaram-no da inventora. A resposta foi imediata e no mesmo tom de chanchada ficcional. Nina publicou uma nota, em 14 de janeiro de 1967, dizendo que morrera “ontem, enfartado, o fazendeiro A. Lazão”, deixando entristecida a sua musa Singery.
Um dia Irene Singery pretende publicar todas essas histórias num livro que vai escrevendo aos poucos mas já tem um título, Menina fina não faz isso, e até um possível subtítulo: Isso é coisa de gentinha. Era com essas frases que a mãe lhe beliscava o braço sempre que fazia alguma coisa errada. Falará das notinhas com que Zózimo lhe foi pontuando a vida (“Irene Singery, de seu safári na África, escreveu aos amigos: ainda não errei um tiro”) e de como era ser estrela das colunas sociais no fim do século XX ao mesmo tempo que tocava a vida de mãe. Certa vez, a filha, Claudia, lhe perguntou: “Mãe, o que é envelhecer?” “É como um queijo francês cheio de buracos”, respondeu. “O coração fica com buracos, as perdas, as ilusões, a saúde, os sonhos. Envelhecer é a perda. Quando se envelhece, tudo fica como os buracos de um queijo francês.”
Mirtia Galloti também era uma loura especial, de sorriso enorme, e apareceu pela primeira vez na coluna em 29 de maio de 1980, quando ainda se assinava Kegler. Aos trinta e oito anos, estava bem acompanhada, socialmente falando, ao lado de Tony Gallotti, setenta e um anos, presidente da Light, a empresa na qual ela havia ingressado anos antes como telefonista. Zózimo não entrava nesses detalhes. Nessa primeira citação, apenas colou o adjetivo “bonita” na acompanhante do amigo. Mais adiante, Zózimo, Marcia, Tony e Mirtia, os dois últimos já formalmente anunciados como casal na coluna, essa Vara de Família moderna, viajavam juntos. Uma vez assistiram a uma apresentação do bailarino espanhol Antonio Gades em Paris, brindando na esticada com um inesquecível Château Petrus, tudo bancado pelo generoso Gallotti.
Mirtia, sempre disposta a ver a vida com alegria, caiu nas graças do colunista. Era uma personagem nova no elenco e surgia com o mesmo peso discreto que a sociedade agora tinha. Apenas um potin curioso. Ao lado de um comentário jocoso sobre uma festa que antes era o fino e agora só aparecia na coluna por ser malsucedida (“o Itamaraty, com o seu bufê, acaba de reinstaurar no país a monarquia: comeu vai para o trono”), as novas damas davam um sabor delicioso. O fim da ditadura, o ocaso das festas nos salões particulares, a consciência de que ostentar num contexto de miséria pegava mal e o aparecimento das boates sofisticadas — tudo isso ajudou Zózimo a cravar nos anos 1980 o prometido na capa do JB desde o já longínquo 4 de fevereiro de 1969: aquele vale-tudo que assinava não era uma coluna social.
Depois que Antonio Gallotti morreu, em 1986, Zózimo tentou pela coluna arranjar um namorado do mesmo porte financeiro para a bela viúva. Numa dessas tentativas, sob o título “Novo par”, dizia que o tal par procurara abrigo de uma ventania de domingo almoçando no aconchego do Antiquarius. Era uma brincadeira com os dois amigos. Eles sentaram-se à mesma mesa e, pela energia da conversação, pareciam estar propícios a algo mais. Com a nota da coluna, imediatamente Germano Gerdau, dono de uma siderúrgica, telefonou para a bela Mirtia, cheio de más intenções: “Já que o Zózimo noticiou não podemos desmentir o amigo. Precisamos namorar.” Saíram, divertiram-se, mas Mirtia garante que o grande colunista errou no wishful thinking. Amigos, simplesmente, nada mais. Ela percebia que as brincadeiras eram bem-intencionadas e se deixou de bom grado ao dispor dele para virar personagem. O tratamento agora não era mais o cerimonioso devotado às damas das recepções antigas. Rolava no texto uma total descontração e cumplicidade. Na verdade, foram as pernas de Mirtia que se tornaram personagens. Viraram uma obsessão, uma maneira de balançar o shake de seu coquetel de assuntos, e ficaram em primeiro plano, quase sempre cruzadas, no noticiário da página. Publicou em 22 de agosto de 1992:
• A socialite Mirtia Gallotti foi convidada para estrelar
como garota-propaganda um comercial de meias femininas.
Caso venha a aceitar — e tem muita gente torcendo para que
o faça — pretende doar o cachê a uma instituição de
caridade.
De onde Zózimo tirou isso? Mirtia não tinha a menor ideia. Mas lia a notícia, ligava para o amigo e os dois morriam de rir. Ela agradecia a lembrança. Zózimo lembrava sempre. Numa foto de um evento noturno em que Mirtia, pernas cruzadas, aparecia com um gracioso vestido estampado de borboletas, a legenda brincava: “Mirtia Gallotti borboleteando literalmente.” Foram muitas outras notas — as pernas de Mirtia não parariam de borboletear na imaginação do colunista:
• Sucesso de verdade fazia anteontem Mirtia Gallotti no
coquetel oferecido no Double’s, de Nova York, por Maria e
Hélio Beltrão. O par de pernas exibido por ela reluzia mais
que a cúpula do edifício da Chrysler.
De fato, Mirtia passara pelo evento, mas o resto juntava-se à lista de mais um galanteio do amigo e um respiro numa edição da coluna com muitas notas de economia. Se não acrescentava nada à história do jornalismo, elevava em alguns centímetros a autoestima da mulher e mostrava que a alta sociedade não devia ser mais anunciada com a pompa dos mordomos. Sabia com quem estava brincando. Quando a superamiga Regina Marcondes Ferraz separou-se do badalado empresário da Zona Sul Francisco Peltier (com quem se casou depois de Paulo Fernando) para ficar com Paulo Gama Filho, um dono de universidade na Zona Norte, a coluna deu a notícia com o humor que os envolvidos compreenderiam no tom certo: “Regina Marcondes Ferraz trocou o Le Grand Véfour, de Paris, pelo Porcão.” Claro, sem explicar que Le Grand Véfour era uma das joias da gastronomia francesa, um delicioso restaurante-monumento do Palais-Royal que Napoleão frequentou. O didatismo dos manuais de redação, sempre exigindo clareza nas informações, não valia para Zózimo. Quem conhecesse Paris, curtiria, quem não... o que estava fazendo lendo a coluna? O Porcão era a churrascaria carioca. Regina trocara o cosmopolita pelo municipal, o que era muito parecido com o que o colunista queria fazer, e ele também trancou-se em casa.
Zózimo parecia brincar, mas era sua maneira de informar como andava o astral dos ricos. Se o high antes servia para ele exibir glamour, agora a rima seria com humor. Conhecia os limites, e suas damas, tornadas assim por suas notas no passado, não se ofendiam com o novo tom. O mesmo não aconteceu quando outro colunista inventou um namorado para Mirtia, que estaria saindo com o sindicalista Luiz Antonio Medeiros, ex-faxineiro da Light, a empresa presidida pelo ex-marido dela. Mirtia exigiu desmentido. Zózimo deixou passar uns dias e, a pretexto de consolidar o desmentido, disse no fim da nota, envolvendo a memória do empresário e do funcionário: “Os amigos comentam com bom humor que depois do capital seria a vez do trabalho.”
Um colega de colunismo costumava pedir nota, “mas de preferência uma nota errada”, porque seria obrigado a dar uma correção — e aí já seriam duas notas. Era uma piada, mas revelava a aventura da profissão. Zózimo deu várias correções. Às vezes não havia o que retificar. Publicava o acerto atendendo ao pedido de alguém que se julgara prejudicado — e quem queria se recompor ficava pior ainda com o retoque. Não por alguma nova maldade do colunista, mas simplesmente porque o ser humano era repetente.
Depois de divulgar a nota de que vinte chefes de governo de países africanos viriam ao Brasil, “liderados pelo ditador da Nigéria, Ibrahim Babangida”, recebeu um telefonema da embaixada do país pedindo a retificação. A emenda cumpriu o provérbio e saiu pior que o soneto. O título era “Encontro”:
• A embaixada nigeriana esclarece que o ditador da
Nigéria, Ibrahim Babangida, não é ditador.
Ou:
• O pianista Miguel Proença telefonou a esta coluna para
retificar uma informação. Segundo ele, a Sala Cecilia
Meireles, que dirige, fechou as portas temporariamente não
porque o palco está afundando, como a coluna publicou,
mas porque o teto está desabando.
Ou:
• O poeta Affonso Romano de Sant’Anna corre a
esclarecer, a propósito da nota de ontem desta coluna, que
ele e a mulher, Marina Colasanti, não saíram do Municipal
no meio da apresentação de estreia da peça M.O.R.T.E., de
Gerald Thomas.
• Saíram, sim, quando faltavam apenas 15 minutos.
De toda a sua coleção de notas, Zózimo dizia ter se arrependido de apenas uma, “Antimedicina”. Estava ainda no início da carreira solo, em 14 de agosto de 1972. Um médico não o atendeu numa consulta de emergência num sábado.
• Quem quiser assistir a um espetáculo constrangedor de
falta de solidariedade, falta de simpatia e falta de espírito
público é só comparecer como paciente ao laboratório do dr.
Manuel Lachtemacher. Ali se pratica a antimedicina.
Considerou a crítica em caráter pessoal demais e desculpou-se sem ironia, abaixando apenas um pouco o tom da crítica numa correção:
• Reconheço ter cometido um excesso ao definir o
laboratório do dr. Manuel Lachtemacher como um lugar
onde se pratica a antimedicina. Longe de mim a ideia de
colocar em dúvida a sua capacidade profissional. De
qualquer forma, quando uma pessoa procura como paciente
um serviço médico, seja ele público ou particular, espera
encontrar todo tipo de recepção, menos incompreensão,
mau humor e grosseria. Daí o excesso.
Ainda não existia nas redações a figura do ombudsman. A condessa Pereira Carneiro, dona do jornal, aproximava-se um pouco disso. Quando ela faleceu, em dezembro de 1983, o colunista relatou que às vezes era chamado até a sala dela, no nono andar, de móveis pesados, “que acentuavam a seriedade da repreensão”. A condessa costumava policiar os exageros das irreverências. De acordo com o tamanho do erro, a conversa podia ser mais ou menos severa. Transparecia para Zózimo sempre haver um ar maternal. “Ela começava invariavelmente com um ‘meu filho...’”.
O Zoológico estava sempre na mira. Na temporada como repórter de O Globo, quando ele ia lá várias vezes apurar o nascimento de algum bicho, reparava na sujeira inevitável dos elefantes. Eles pegavam o que estivesse pela frente — o refugo de sua comida, o pó do chão — e jogavam sobre as costas. Zózimo, quando se aproximava a hora do fechamento e havia aquele último buraco na página, reclamava da sujeira do elefante. Nem precisava ter ido lá. Sabia, de tempos idos, que o animal ficava permanentemente sujo — e isso era indesmentível. Em 10 de maio de 1985, por exemplo, a coluna anunciava que o Zoológico ia se transformar numa fundação, o que lhe possibilitaria melhorias etc. A nota concluía:
• Pode ser que agora, como fundação, o Zoo tenha
condições financeiras de contratar alguém de vez em
quando para espanar o elefante, que não vê água há meses.
Dois anos depois, em 1o de setembro de 1987, reclamou na nota “Pobrezinho”:
• O elefante do Jardim Zoológico anda imundo.
• Pela sujeira amontoada no seu cocoruto, há meses que
ninguém varre o pobre animal.
Dessa vez, no entanto, o Zoo respondeu — e era melhor que não o tivesse feito. No dia 5 de setembro teve que ler o seguinte em “Direito de resposta”:
• Na falta certamente de coisas mais importantes a fazer, a
Fundação Rio Zoo corre a esclarecer nota publicada na
coluna sobre a sujeira do elefante do Jardim Zoológico, que
há meses não vê uma vassoura.
• A carta em tom didático dizia o seguinte:
1. Não é elefante e sim elefanta.
2. É muito normal os paquidermes se cobrirem de pó. 3. Se a elefanta anda imunda é porque quer, já que dispõe
“no seu recinto” de um tanque de 160 metros cúbicos.
• No final, a Rio Zoo afirma considerar um absurdo varrer
elefantes. Vá lá que seja: se a fundação não concorda em
varrer a elefanta, que pelo menos a espane.
Os processos judiciais chegavam, alguns movidos pela indústria de ações que persegue os jornalistas. O ex-colunista social Jeff Thomas disse ter sido procurado por um advogado, Alcyone Vieira Pinto Barreto, e permitiu que ele entrasse com uma ação de danos morais contra a coluna. Um trecho da peça acusatória dizia:
Afirmar, como afirmaram os réus (Zózimo, Fred e o JB), que
a candidatura do autor (Jeff) transformará a Academia
Brasileira de Letras numa “grande galhofa”, adjetivar o
autor de “inacreditável”, publicar que sua inscrição resultará
em “desrespeito à imortalidade”, tudo isso consubstancia
ofensa à honra.
Sergio Bermudes conduziu a defesa:
Nem o mais preconceituoso leitor da famosa coluna Zózimo
— que frequentemente se norteia pelo ridendo castigat
mores, de Juvenal — terá visto propósito outro que o de
simples troça, sem nenhum ânimo de caluniar, como
pretende a inicial. Supor que o chiste, feito em coluna de
jornal destinada a um público bem-formado, capaz de
compreender e de distinguir a pilhéria da acusação grave,
equivalha a imputação de crime constitui absurda pretensão
de impedir que o jornalista exerça seu ofício, não de
noticiar, como ainda de comentar eventos, que, adrede
divulgados, mereçam a atenção dos leitores.
Era mais uma definição, agora no latim de Juvenal: “o ridendo castigat mores”, algo como “rindo castigam-se os costumes”. Outros continuaram sendo castigados, mas levaram na flauta, sem processo:
• Um grande movimento de apostas cerca a lua de mel da
jogadora Hortência e José Victor Oliva. Quem terá feito a
primeira cesta?
Ou:
• Um produtor musical doublé de crítico cruzou nos
corredores de uma gravadora no Rio com um malsucedido
mas persistente roqueiro da nova geração. Travou-se o
seguinte diálogo:
— Você gosta muito do rock, não é? — perguntou o
produtor.
— Sim, adoro.
— Então deixa ele em paz, por favor.
Um dos clássicos da coluna foi um riso de apoio a uma causa de benemerência. Zózimo comentava a campanha feita por Cássia Kiss para o exame primário de prevenção do câncer de mama. A atriz aparecia na TV apalpando os seios nus. Zózimo não perdeu a chance:
• E a Cássia Kiss, hein?
• Que mãos!
A nota, dos anos 1980, antecipava em seu tamanho, trinta e um toques, a necessidade do século seguinte de passar mensagens mínimas que coubessem no Twitter. Faria muitas assim, nem todas a favor, como a de Cássia. Em 15 de novembro de 1988, a nota “Mal comparando” tinha uma pegada típica:
• Do publicitário Washington Olivetto, definindo a figura
pesada da candidata do PT, Luiza Erundina, candidata a
prefeita de São Paulo:
— Parece um Toyota.
São cento e cinquenta e dois, um pouco além da necessidade de cento e quarenta do Twitter. Mas Zózimo logo se encaixaria na conta com esta curtíssima:
• Sugestão de nome para empresa que Donald Trump e
Naji Nahas vão abrir juntos: Trampolinagem.
Esta última tem noventa e dois toques.
Para Elio Gaspari, o conceito jornalístico tradicional da grande nota, onde estaria alardeado o grande furo, no caso de Zózimo era um tom, um espírito. O tom da alegria, um deboche bem medido. Para o jornalista Wilson Figueiredo, “o texto de Zózimo era um clássico na arte da dissimulação. A pessoa lia e não podia reclamar”. Em 10 de maio de 1989, na nota “Caso sério”, Zózimo misturava diplomacia com a mais pura gandaia carioca, cena internacional com publicidade, e tudo ficava no ponto certo da brincadeira com um espírito completamente fora do praticado nas outras páginas do jornal:
• Parece que a cônsul-geral da Colômbia no Rio, Margarita
Duran, anda muito contrariada.
• Não se conforma com a irreverência de um anúncio na
TV de uma marca de geladeira.
• Aquele que diz:
— Bota na Cônsul.
As notas políticas estavam espalhadas pela página, mas a sensação é de que nelas o colunista não empregava metade da força criativa usada para as de sarro na humanidade. Parecia publicar as informações mais pesadas apenas para equilibrar a balança, mostrar a seriedade de seu jornalismo. As notas travestidas de gravidade liberavam-no para o que interessava: morrer de rir diante do espetáculo que via ao redor. “Eu publico os mais diversos assuntos, mas o que faz sucesso de verdade é o potin, mesmo que esteja escondido num canto.”
Ele continuava repetindo aos seus assistentes — e no fim dos anos 1980 teve na coluna Miriam Lage e Regina Rito — que queria, sim, a notícia bruta, o grande furo, mas principalmente o que chamava de “sacada”. Essas notas, claro, eram as mais difíceis porque não possuíam materialidade — eram o “espírito” de que falava Gaspari. Uma vez deixou escapar numa entrevista que “o Ibrahim é outro tipo de coluna, quase só tem informação”, como se isso o rebaixasse. Às vezes ganhava o dia numa legenda, como a que obrou em 4 de janeiro de 1975. Era para uma foto de Mariana Picasso, neta do próprio, uma moça não muito bem diagramada no nariz e arredores. Zózimo escreveu embaixo da foto: “Mariana Picasso, que provavelmente deve ter inspirado em muito seu avô Pablo na fase cubista.”
Uma fonte séria do período, ministro das Comunicações do governo José Sarney, era Antônio Carlos Magalhães, frequentador da noite do Rio, habitué do Hippopotamus. Zózimo não tinha entusiasmo por esse tipo de político, mas submetia-se. Afinal, ACM era autor da frase “fale bem dos amigos todos os dias, fale mal dos inimigos pelo menos duas vezes por dia” — e esta segunda parte era uma senha fundamental para ele se fazer interessante a um colunista. Zózimo colhia notas do balaio gordo de ACM, sempre generoso em colaborar com as necessidades de cada jornalista. Era autor de célebre definição sobre os três tipos mais comuns na classe:
1. Há os que querem dinheiro.
2. Os que querem emprego.
3. Os que querem notícia.
De fato, o dinheiro às vezes aparecia na história do colunismo. Os donos do restaurante Candido’s, em Mangaratiba, encantados com as notícias que Fernando Zerlottini, o Swann da vez no Globo, dava sobre o seu restaurante — que servia “o melhor peixe do Rio” —, mandaram-lhe um pacote de dinheiro. Assustado, Zerlottini foi até o restaurante devolver o “presente” e, para evitar a sobrevivência de alguma dúvida, nunca mais deu nota sobre aqueles peixes. Havia moedas de todos os tipos no mercado, algumas louras, outras morenas. Zózimo, depois de muita insistência de um amigo, aceitou marcar um encontro no restaurante de Maria Theresa Weiss, no Hotel Empire, na rua da Glória. O amigo chegou acompanhado de uma senhora conhecidíssima na sociedade. Conversaram os três. Alguns minutos depois, o amigo desculpou-se e se mandou, sozinho, deixando a senhora à disposição.
As notas de ACM mostravam o jogo pesado dos bastidores políticos, como esta, “Assunto de Estado”, de 3 de julho de 1986:
• Poucos dias depois de regressar de viagem, o deputado
Ulysses Guimarães procurou o ministro Antônio Carlos
Magalhães.
• ACM, todo ouvidos, recebeu-o no dia e hora pretendidos
apenas para ouvir estarrecido o assunto do encontro.
• Com a singeleza e a simplicidade que o caracterizam, o
dr. Ulysses pediu simplesmente um canal de TV para seu
filho.
• Alguém da cúpula do governo soube da história e não
resistiu à brincadeira:
— Ah, ele quer uma televisão? Então vamos mandar uma de
24 polegadas a cores.
Zózimo publicava as notas de ACM, mas não seria surpresa se no dia seguinte ACM fosse o criticado. Sarney levava sempre uma farpa. Em 14 de julho de 1989 publicou sob o título “Dúvida”:
• O jornal francês Le Figaro circulou ontem com
declarações do presidente José Sarney sobre a Revolução
Francesa.
• Não deu para perceber se contra ou a favor.
Era uma turma tratada sem maiores cerimônias. Alguns dias antes, em 4 de julho de 1989, deu esta nota:
• Queixa de um empresário, depois de ouvir um
interminável discurso do candidato Aureliano Chaves sobre
como seria seu governo, que incluiu desde críticas aos
formulários do imposto de renda até considerações sobre o
funcionamento da mecânica celeste:
— O Aureliano é um candidato sem vírgula: quando começa
a falar, não para mais.
Os políticos misturavam-se democraticamente, sem privilégio na hierarquia editorial, ao grande sarapatel de notícia em que havia se transformado a página. No fim da década de 1970, o editor Walter Fontoura foi aos Estados Unidos mostrar o JB numa universidade americana. Todos elogiavam a elegância gráfica, a clareza de como os textos apareciam na página etc. Walter respondia às perguntas sobre a permanência dos classificados na passagem para o jornal de qualidade, o conteúdo do B etc. — até que um professor lhe perguntou sobre o que havia no Informe JB.
“Temos notícias”, respondeu Fontoura.
“E nesta coluna aqui, do Zózimo?”
“Mais notícias.”
“E as notícias vocês publicam onde?”
A coluna de notícia dentro de jornal de notícia era uma das extravagâncias do jornalismo brasileiro — e deu certo. Com o sucesso de Zózimo, que superou a importância de Jacinto de Thormes e Ibrahim Sued nas décadas anteriores, tornando uma coluna de notícias uma atração indispensável em qualquer jornal do interior do país, criou-se uma civilização sustentada por elas. Elio Gaspari chama essa multidão de colunas de “jornalismo Parthenon”. Colunas e ruínas.
No fim dos anos 1980, a coluna tinha se descolado dos parâmetros vigentes do que fosse tradicionalmente reconhecido como notícia, esse ET que tem tantos retratos falados quanto o número de jornalistas que o vê. Zózimo inventara um padrão particular, um disco voador piscando luzes próprias. Em 28 de janeiro de 1989, a nota “Ti-ti-ti” dizia:
• O grande ti-ti-ti no momento na TV Globo colocando
novamente em questão o problema da segurança dentro da
emissora envolve o roubo do relógio Breitling (US$3.500)
da atriz Lúcia Veríssimo.
• Para gravar uma cena de amor com Francisco Cuoco
para a novela O salvador da pátria, Lúcia tirou o relógio e
colocou numa mesinha. Quando procurou-o novamente, a
preciosidade tinha desaparecido.
• Levado o problema a instâncias superiores, estas se
pronunciaram:
— Grandes m... Na semana passada sumiu do estúdio um
piano de cauda... Branco.
Era preciso imprimir uma marca e fugir da chatice de notas simplesmente informativas, dos colunistas que não conseguem carimbar uma personalidade ao seu trabalho e vão burocraticamente preenchendo seus espaços com o suspiro de qualquer pé-rapado ou cena que viram na esquina de casa. A reboque do sucesso vinha o poder da coluna em alavancar projetos comerciais alheios. O Gattopardo, pizzaria que Ricardo Amaral abrira na Lagoa, só decolou depois que Zózimo esteve lá, provou uma pizza e elogiou-a na coluna. Os empresários que tentaram instalar a boate Maxim’s no alto da Torre do Rio Sul, em Botafogo, não tiveram tanta sorte. Entraram com um processo contra Zózimo e o JB por acharem que as notas da coluna, depreciativas, contribuíram para o fracasso da casa, que fechou em poucos meses depois de um investimento milionário.
Zózimo frequentava o alto empresariado, a alta politicagem, a alta sociedade, as altas mulheres, enquanto os outros coleguinhas não conseguiam acesso a tais andares. Falava para cima ou com os da sua estirpe. No fim da década de 1980, quando ia até a casa dos amigos, no dia seguinte já não publicava uma extensa relação de nomes e pratos — e sim a fraternidade desenvolvida. Se antes não relatava as conversas das festas, como se fosse um evento de mudos, agora a química intelectual era o que interessava. Não mais a cerimônia dos talheres, e sim o papo que rolava:
• Levou a assinatura do fotógrafo Paulo Garcez, em noite
de extraordinária e exuberante verve, a grande performance
do simpático jantar de lugares marcados que, a convite de
Teresa Muniz e Aloysio Salles, reuniu anteontem no
elegante apartamento da rua Paissandu um grupo de amigos
em torno de Vera Bainville.
• Lourdes Faria, Viviana Pecci Blunt, Almir de Castro e
Gilberto Chateaubriand compunham a plateia à qual Garcez
divertiu contando mil e uma historinhas.
• Entre elas a que se segue.
• Vazio, quase na hora de fechar, presente apenas o
bartender, a polir copos, o pub de Londres recebeu a visita
de uma bonita mulher, nua em pelo, que escolheu uma
banqueta no fim do balcão, instalou-se e pediu um scotch.
• Sem se alterar, impassível, o barman atendeu-a, serviu o
drinque e continuou a esfregar os copos, sem, contudo,
resistir a arriscar uma espiadela.
• No terceiro uísque, sorvido igualmente sem pressa, a
jovem se sentiu incomodada com a olhada furtiva do
barman e interpelou-o:
— Por que o senhor me olha? Nunca viu uma mulher nua?
— Já, minha senhora, já vi, sim. Só olhei porque ainda não
consegui perceber de onde é que a senhora vai tirar o
dinheiro para me pagar.
Zózimo também procurava de onde tirar dinheiro. Animado pelo colega Silvio Ferraz, aceitou dar aulas para uma turma de jornalismo da UniverCidade. Compareceu meia dúzia de vezes, achou chato e nunca mais. Aceitou alguns convites para palestras. Numa conferência na Associação Brasileira de Imprensa, a ABI, um grupo acusou-o de preconceituoso porque criticava o comportamento dos pobres nas praias, chamava-os de farofeiros e fazia campanha para que a prefeitura impedisse a chegada de ônibus ao balneário de Búzios. “Você quer Búzios exclusiva para os ricos”, protestou alguém, que ouviu como resposta que a praia devia ser limpa, sem cascas de banana ou ossos de frango. As vaias só foram interrompidas pela interferência de Maurício Azêdo, diretor cultural da ABI, membro do Partido Comunista. Ele ficou com Zózimo: a praia devia ser de todos, desde que esses todos se comportassem segundo as regras sociais e municipais em vigor.
De volta à redação, Zózimo começava seu dia dando uma lista de nomes para que Marly fosse ao telefone. Fumava e brincava com Miriam Lage, que se queixava de uma hérnia de disco que começara a doer ao levantar uma caixa de leite no supermercado. “Que coisa de pobre”, dizia Zózimo. “Valoriza. Diz que a hérnia apareceu depois de uma aula de esgrima.” Era um chefe discreto, sem grandes cobranças ou didatismos. Pedia que Miriam não colocasse no título nada que tirasse a surpresa da nota, um vício do jornalista de resumir nas letras maiores a graça do que vinha a seguir e dispensar o leitor de ler o texto. Um chefe relax, na linha do grande parque de diversões intelectualizado do JB.
Às sextas-feiras, o assessor de imprensa Roberto Mota seguia as ordens de seu patrão, Manuel Águeda, e mandava uma bandeja de rissoles do Antonino para que a coluna enfrentasse com galhardia o fechamento das edições de sábado, domingo e segunda-feira. Zózimo acompanhava os salgados com uísque — e ficava ainda mais descontraído. Em 14 de setembro de 1988, lá estava o grande cineasta Roman Polanski protagonizando a nota “Estreia”:
• Depois de algumas semanas de expectativa, estreou
finalmente a escada em caracol do restaurante Le Streghe,
em Brasília.
• A cortar a fita inaugural, uma ilustre personalidade —
Roman Polanski.
• Tomou um porre e rolou por ela abaixo.
Marcello Alencar, também chegado a altos teores alcoólicos, não teve melhor sorte. Em campanha para ser mais uma vez prefeito do Rio, no pleito de outubro, foi visto, numa nota de 9 de setembro de 1988, trocando as pernas e as letras em “Voz do povo”:
• Entreouvido ontem num elevador do Centro da cidade:
— Esse Marcello Alencar não tá com nada. O homem
confunde IPTU com PITU.
Segundo Elio Gaspari, “poucos jornalistas divertiram-se tanto fazendo o seu serviço. Divertia-se como se tivesse recebido a graça de ganhar a vida conversando com quem gostava e tratando dos assuntos que lhe interessavam”.
Sempre de azul, as roupas mais formais feitas como sempre no ateliê do alfaiate Alberto Marques, e os jeans das marcas Mac Keen ou Fiorucci comprados no exterior, ele se perfumava com a colônia Davidoff (a do vidro azul-turquesa) ou a Eau Sauvage, da Dior. Cortava o cabelo com Jean-Luc Bernard, o barbeiro que descobriu no Carita, no Faubourg Saint-Honoré, em Paris, e importou para o salão de Jambert e que, depois, brigado com o patrão, partiu para carreira solo. As revistas de comportamento costumavam lhe perguntar as diferenças entre o brega e o chique. Por duas vezes transformou a questão em notas curtas:
• Brega é brega e não há nada a fazer.
• Chique é chique e não há nada a fazer.
Ou:
• Brega é perguntar o que é chique.
• Chique é não responder.
O jornalismo de Zózimo era chique e não havia nada a fazer. Seria brega insistir em responder por que ele era assim. Cada um que inventasse o seu. Quando o governo lançou, em agosto de 1988, o slogan “Tudo pelo social”, ele também reescreveu a ideia — e parecia animado em tocar a caravana de notinhas para a frente:
• Está cunhado desde hoje pela praça um novo slogan que
tem tudo para pegar: Tudo pelo Colunismo Social.