Enquanto Houver Champanhe, Há Esperança
Capítulo 11
Em 8 de setembro de 1966, depois de quase um ano oficializado como o Carlos Swann da Reportagem Social, na página 4 do primeiro caderno do Globo, Zózimo publicou a nota emblemática de que a velha guarda estava deixando o poder e o Rio de Janeiro sofisticado precisava de um novo colunista para narrar isso:
• O Sacha’s foi vendido. O velho e querido Sacha achou
melhor se desfazer de sua boate, a última realmente
elegante da cidade, entristecido com o seu declínio que é
também o declínio de uma época que teve no Vogue e na sua
própria boate o auge. Desaparece assim a última boate que
restava onde a exigência da gravata era a primeira das
condições impostas a seus frequentadores, e que durante
muitos anos funcionou como ponto de reunião da nossa
melhor sociedade.
Zózimo estava encarregado de tirar a gravata das notinhas e vesti-las com camisa de Ban-Lon vinho, para que o colunismo acompanhasse a cara da cidade e se reinventasse. Se o Sacha’s, no Leme, “já era”, tonitroava em Copacabana o Le Bateau, na praça Serzedelo Correia, com uma frequência tão sofisticada — todo mundo dançando o iê-iê-iê — que acabaria se tornando problemática. Uma noite Antonio Gallotti foi barrado na porta. A casa estava lotada, mas o empresário tomou o gesto do porteiro como ofensa pessoal e fez o que estava a seu alcance para mostrar com quem o sujeitinho estava falando. Era o presidente da Light. Mandou cortar a luz.
Anos depois, o jornalista Elio Gaspari diria que Zózimo, ao se transformar em Carlos Swann em novembro de 1965, escolhera a profissão certa na hora errada. O Brasil vivia a ditadura envergonhada do marechal Castello Branco e, logo em seguida, experimentaria a escancarada do general Costa e Silva. Gaspari apontava as armadilhas da época:
Para um colunista social, o risco não estava em ir preso, ser
censurado ou coisa do gênero. O perigo morava na
avacalhação profissional. O veneno estava no elogio. Dona
Yolanda, a mulher do general Arthur da Costa e Silva,
circulava com vestidos de musselina inadequados para sua
idade e suas pernas. Quem tinha dinheiro não queria
aparecer. Um corretor da Bolsa que deu uma grande festa
para o plantel de um festival internacional de cinema foi
preso semanas depois. Quem queria aparecer não tinha
modos.
Zózimo, uma coluna para fechar por dia, não tinha tempo para teorizar sobre o que estava fazendo. Era jovem demais no assunto para chegar, reinventar a roda ou já querer sentar à janela do ônibus — ou da limusine, no caso de um colunista social. Metia a mão na massa e dava-se por satisfeito se, ao fim da jornada, conseguisse fechar o espaço.
Em 1967, estava em Brasília na posse de Costa e Silva. Não se embasbacava. Numa cena viu o absurdo da falsa normalidade palaciana:
• Um grupo conversava animadamente em um canto
quando seus componentes começaram a se agitar, com
gritinhos das senhoras e saltos largos dos homens. Do bolso
da casaca (alugada) de um circunspecto senhor, saíra
sorrateiramente uma barata que, quando foi notada, já
passeava desenvolta pela lapela.
Como ser elegante num tempo em que se vivia, como ele diria mais tarde, “ao lado de gente que maneja com destreza um fuzil mas é incapaz de segurar corretamente um talher”? Como ser civilizado em transmitir as notícias da corte se JK, “um de seus mais buliçosos e megalomaníacos políticos”, transferira em 1960 a capital para “uma cidade sem entranhas, sem caráter, sem passado e sem remorso, feita de encomenda para governantes despóticos e autoritários”? Se era um tempo ruim para fazer coluna social, que tal não fazer uma coluna social e espalhar “cacos” entre as notas?
Em 12 de agosto de 1967, deu nota com o título “Only for women”. Descrevia à moda antiga como fora elegante o almoço da senhora Vera Stehlin e citava meia dúzia de presenças, tudo exatamente como faziam seus antecessores. De repente, abriu um parágrafo e anunciou: “É preciso não confundir Jabaquara com Babaquara.” A origem do nonsense partia do fato de o colecionador Gilberto Chateaubriand morar naquele mesmo e fino edifício Jabaquara de Vera, em Copacabana. Era uma piada entre os dois, desconhecida do resto da humanidade, e não fazia qualquer sentido com o que vinha antes ou depois daquele convescote de plácidas senhoras. E daí? Na época os Beatles escreviam “Imagine-se num barco num rio com árvores de tangerina e céu de marmelada”. Fazia sentido para alguém mais além de Lennon e McCartney? O mundo estava sendo reescrito e Zózimo queria se divertir como um Jabaquara. Babaquara era o “Fool on the hill”.
Em 30 de abril de 1968 ele publicou:
• Pela primeira vez, que me conste, realizou-se na cidade
um almoço a um chefe de governo, o primeiro-ministro da
Tailândia, sem lugares marcados. Os convidados tinham
que ir servir-se no buffet, o que aliás acarretou dificuldades
à esposa do estadista visitante, que, sendo de baixa estatura,
quase não alcançava as iguarias. A propósito, alguém pode
explicar a este modesto escriba por que veio ao Brasil o
premier da Tailândia?
A mudança da capital do país para Brasília deixara um evidente vácuo de grana, de jantares de embaixada, de carros oficiais estacionados à porta do Copacabana Palace e demais cenas de fausto com que o poder político sempre ajudara o Rio a ficar mais requintado. A cidade se tornou mais pobre de personagens e histórias. Antes, os políticos saíam do Palácio Monroe, onde ficava o Senado Federal, na Cinelândia, atravessavam a rua, entravam na boate Night and Day, no segundo andar do edifício Serrador, encontravam suas vedetes e com elas voltavam à rua. Passavam de novo na calçada do Monroe, seguiam para o lado ímpar da avenida Rio Branco e entravam no edifício São Borja para os despachos regimentais com as vedetes nos lençóis de linho das garçonnières que eles usavam exclusivamente para isso. Foi-se a capital, e com ela os despachos burocráticos e carnais de Suas Excelências.
Foi a década em que o Rio despediu-se de uma cidade e começou a inventar outra. Em novembro de 1968 Zózimo esteve em todos os eventos que celebraram no Rio a visita da rainha Elizabeth: num jantar no convés do iate Britannia, num almoço no Museu de Arte Moderna e num outro jantar, oferecido pelo governador Negrão de Lima, na embaixada inglesa, em Botafogo. Neste último havia quinhentos convidados, a nata dos grã-finos cariocas, numa noite de longos e black ties com condecorações. Numa foto publicada na coluna, Carmen Mayrink Veiga “ostentava”, talvez pela última vez em público, “o seu maravilhoso conjunto de safiras, brilhantes, esmeraldas e rubis”. Em outra, Álvaro Americano usava todas as suas medalhas e ainda passou nota, em off, explicando que outros homens na festa faziam uso errado de condecorações. Ele aparece ao lado, segundo a legenda pomposa, de “S.S. A.A. I.I., os príncipes D. Pedro Henrique e Dona Maria de Orléans e Bragança”, sendo que as letras dobradas em caixa-alta queriam significar o plural de Suas Altezas Imperiais. Os três personagens pareciam tristes, como se pressentissem a despedida dos bons tempos em que os reis eram reverenciados em maiúsculas. Até as escolas de samba, com os desfiles revolucionários do Salgueiro, já deixavam os reis brasileiros e louvavam os escravos e os heróis negros.
Aqueles três eventos, com suas etiquetas, seus rubis e suas condecorações, ficaram para a República carioca com o mesmo gosto do último baile do Império, realizado na Ilha Fiscal, ali perto de onde ficara atracado o Britannia. O Rio continuaria com sua índole básica de comemorar — já os personagens, as roupas e os cerimoniais seriam outros. Menos pompa, idem para as circunstâncias. Nelita Abreu Rocha, futura Leclery, estava na recepção na embaixada e à sua frente, na fila de cumprimentos à rainha, ia o escritor José Carlos Oliveira, um dos intelectuais boêmios mais folclóricos da cidade. Quando a rainha lhe ofereceu a mão, Carlinhos a segurou educadamente, mas, ao tentar uma reverência, talvez porque o álcool potencializasse os estragos do nervosismo, ele deu uma leve golfada na luva da soberana. A digna senhora, sem manifestar espanto, dentro do maior rigor da fleuma britânica, imediatamente levou a mão para trás. Ao voltar com ela aos olhos da convidada seguinte, Nelita testemunhou que a rainha já estava com nova e limpíssima luva.
O futuro seria mais ou menos assim, cheio de inconvenientes — ou pior. Como diziam os punks, que depois anarquizaram Elizabeth em músicas: “No future.” Não haveria em breve muito o que festejar. Niomar Moniz Sodré, dona do jornal Correio da Manhã, de oposição aos militares, uma das presenças da recepção no navio, dois meses depois trocaria o longo de Guilherme Guimarães por um uniforme de presidiária, trancafiada em Bangu como subversiva. Ostentar diamantes no sopé do Morro Dona Marta, como fizera Carmen Mayrink Veiga na embaixada, seria o máximo da cafonice depois da felicidade dos hippies se beijando na lama de Woodstock.
Zózimo/Swann estava de olho nessas mudanças. Ainda não podia fazer como os galgos na recepção aos reis ingleses, que cruzaram o prédio da embaixada — afinal, moravam ali — e foram acariciados pela rainha. Os bichos em seguida continuaram pelos salões, paparicados por uns e outros, mas sem dar muita importância à solenidade. Zózimo também continuaria indo às festas, e muitas, e dando importância a elas, e descrevendo seus detalhes com seriedade — aos poucos, porém, alargava os endereços. No fim de semana seguinte ao badalo imperial, assistia a um ensaio da Mangueira na quadra da escola (para a escolha do samba-enredo do desfile) e noticiava um quiproquó na tribuna de imprensa durante um jogo do seu Flamengo no Maracanã.
Discretamente, ia colocando suas particularidades em cena e experimentando até onde podia fazer com que aquilo fosse de interesse também dos leitores. Em 15 de julho de 1968 devolveu, sem citar nomes, uns cascudos nos padres que o haviam atormentado no Santo Inácio:
• Conhecido colégio católico da Zona Sul vem através de
certos padres avançadinhos pregando o socialismo. Um
deles chega até a dizer em reuniões com os pais de alunos
que o fim justifica os meios. Mas continua a manter a
seguinte escala de classificação de merecimento dos
melhores da classe: quem tira nota 7 é conde; 8, duque; 9,
príncipe; 10, rei. Ao hibridismo saído disso tudo poderíamos
denominar socialismo coroado.
Zózimo queria mudar o cardápio:
• Escreve-me um leitor dizendo que sempre lê nesta
coluna elogios a menus dos grandes jantares e soupers e
nota que os pratos servidos e elogiados são geralmente
pratos franceses, como canard à l’orange, langouste au
thermidor, crème aux champignons. Em sua opinião, não
devíamos desvincular-nos de nossas origens lusitanas pelo
que tomo a liberdade de enviar como sugestão para as
grandes hostesses cariocas a receita de um cozido à
portuguesa.
Seguiu-se, em 30 de agosto de 1968, a caudalosa receita do troço, um prato até aquele momento jamais comido ou apresentado em suas páginas por qualquer colunista social. Puro deboche. Zózimo, ça va sans dire, gostava mesmo era do Bife de Ouro, o restaurante chique que no Copacabana Palace acompanhava a terceira geração de colunistas sociais do Rio. Pedia quase sempre o Chateaubriand com sauce béarnaise, que citara como um must numa coluna de 1966, num dos poucos momentos em que a língua inglesa lhe serviu de muleta para segurar a pose do texto. No cardápio do Copa estava também o steak Diana, o paillard de filet com molho de carne. O Rio gastronômico (tinha ainda o Le Bec Fin, o Le Mazot, o Lucas, o Ariston, o Chateau, o Nino...) não era uma cidade de muitos garfos, mas Zózimo se divertia em cruzá-los enquanto apurava as notas. Como tudo o mais, sem preconceito. Trabalhando no Centro, gostava de almoçar um feijão-manteiga com costela de boi no Escondidinho, no Beco dos Barbeiros, muitas vezes em companhia de Boy, que ia dar uma olhada na Bolsa de Valores.
No menu da coluna, os pratos variavam. Via-se o dedo da direção do jornal em muitas notas, um ranço oficialesco que atravessava outras páginas também. De vez em quando, ouvia-se a gargalhada de Zózimo tentando abrir espaço. Nesta nota, de 26 de junho de 1968, intitulada “Molecagem”, ele dá um puxão de orelha em jovens que faziam algo parecido com o que ele, poucos anos atrás, adorava fazer:
• Por pouco um acidente de sérias consequências não
perturbava a tranquilidade dos sócios do Iate no último
domingo, à hora em que jantavam. Segundo se soube
depois, um grupo de garotos desatou, sem que ninguém
percebesse, as amarras do iate Fontainebleau II, do
milionário americano Ben Novak. Mr. Novak, que jantava
tranquilamente no próprio iate, percebeu tarde que estava à
matroca, sendo que alguns marinheiros tiveram até que se
jogar na água para que o barco fosse novamente preso ao
ancoradouro.
Devia estar rindo ao redigir o desespero de Ben Novak à matroca, só que agora estava do outro lado do ancoradouro, no papel de colunista equilibrado. Sabia que era preciso ir com calma com o barco por aquelas raias do jornalismo em que nunca prestara atenção especial. Avançar com o humor de rua, moleque, mas acenar ainda para o pedantismo de outrora e não assustar quem o mantinha no emprego. A coluna de 29 de fevereiro de 1968 abria com o título “Notte d’amore e passione popolare”. Transcrevia no italiano original do estilista Emilio Pucci o que ele havia achado do desfile da Portela no Carnaval. Eram quarenta linhas sem tradução, com a desculpa do colunista pelo deslumbramento: a declaração havia sido feita do próprio punho do declarante e com exclusividade.
Quanto à língua francesa, Swann, como se fosse o próprio Marcel Proust, tratava-a como a língua do leitor — e nem lhe passava pela cabeça oferecer uma tradução a quem pagava o jornal em português. Todos deveriam entender o que ele recortava das revistas parisienses (elas só chegavam ao Rio uma semana depois de lançadas). Quem não alcançasse o significado das frases que ele reproduzia deveria ir até o colunista da página 3 do caderno de cultura, o Segundo Caderno, onde era servido um arremedo de francês de primeira série ginasial. “Ademã”, despedia-se Ibrahim, “que eu vou em frente.” O colunista estava de volta ao Globo desde 1o de junho de 1967, depois da curta experiência no Diário de Notícias. Sua coluna, de meia página, agora se chamava Ibrahim Sued Informa e ficava no Segundo Caderno, inicialmente na página 3, e, a partir de julho de 1968, na página 2.
Zózimo equilibrava o esnobismo mostrando que podia degustar sabores de outras línguas. Em 25 de setembro de 1968, arriscou uma quase crônica cheia de carioquice e bom humor com o título “O drama”. A nota vinha em destaque, cercada de fios, como se o colunista dissesse “é isso que eu quero mostrar”, e o resto fosse canapé.
• A dona de casa aflita liga para a Cia. do Gás para fazer
uma reclamação (o gás, não é novidade, anda péssimo). O
telefone custa muito a dar linha. Afinal, o ruído. Disca. Sinal
de comunicação. Tenta de novo. Sua Excelência, o ruído,
demora mais cinco minutos para dar o ar de sua graça.
Disca. Sinal de comunicação. Mais algumas tentativas. Até
que enfim. Meia hora depois, consegue chamar. A
companhia não atende. O telefone chama, implora, e nada.
Resolve, então, ir pessoalmente. Enfrenta uma enorme fila.
Mais meia hora. Chega diante do funcionário e conta-lhe seu
drama. E ouve: “Essas reclamações, só por telefone, minha
senhora.” Tal episódio ocorreu anteontem no Rio, no
mesmo dia em que O Globo informava que um foguete dera
a volta em torno da Lua e voltara à Terra.
O texto poderia ser menor, mas os longos períodos de Álvaro Americano já estavam substituídos por um estilo moderno. Crítica e humor iam sendo servidos aos poucos, como um sorbet entre os pratos, para ir depurando o sabor. Era operação a longo prazo.
A Reportagem Social by Zózimo/Swann tinha um jeitão de coluna social antiga. As fotos eram de senhoras placidamente sentadas e senhores tensamente engravatados observando o fotógrafo sem sorrir, num clima de festa sem dança e papo sem gargalhada. As notas ofereciam linhas repletas de vaguidão. “Estou seguramente informado de que o governo, nos próximos dias, baixará enérgicas medidas no sentido econômico-financeiro-e-social”, em 21 de dezembro de 1968. Ou “correm rumores”, em 5 de março de 1968. Ou montes de notas autocongratulatórias, do tipo “conforme eu previra”, como se ele próprio se espantasse com o acerto de alguma informação. Algumas eram esticadas, truque para preencher o espaço, e pareciam carregadas demais de homenagem ao texto editorialista de Álvaro Americano — demorava-se a entrar e a sair do assunto. Havia declarações oficiais de títeres da República militar, no aceno dos donos das páginas aos patrões do dia. Nenhuma novidade: coluna que não é assinada por alguém de verdade acaba sendo de todos. Fica sem personalidade, uma colcha de retalhos, um balcão para os negócios mais diversos.
Carlos Swann continuava de olho na sociedade e em suas festas, noticiário que ocupava a metade da coluna. Sobrenomes cunhados pelos colunistas do passado persistiam, assim como seus hábitos ostentatórios. A nota “Imbituba! Imbituba” saiu em 13 de dezembro de 1968, dia da publicação do AI-5, que, para o resto do Brasil, significaria “a casa caiu”. Nesse dia, com as prisões se enchendo, a dama da sociedade falava das casas de férias:
• Confidência de Lourdes Catão: “Prefiro ir para nossa
casa de verão em Correas no inverno. No verão, os fins de
semana ficam cheios de programa, de almoços em palazzo-
pijama, de cineminha. Nessa época, prefiro ir para nossa
fazenda em Imbituba, Santa Catarina, onde passo os dias
andando a cavalo — e os cavalos lá são pangarés — com
meus filhos.”
Décadas depois, essa nota só poderia ser lida com um ponto de ironia percorrendo-a criticamente. Em 1968, Zózimo deixava a dubiedade no ar e divertia-se na mistura com os de sua classe. Comparecia às festas. Os amigos estavam lá, comia-se do bom e do melhor, e, perigo, perigo, bebia-se do ótimo. Não doía. Ele não reclamava de assédio, porque nem todos sabiam que aquele jovem magro, atracado no copo de uísque, sem caderninho de anotação visível, era o Carlos Swann de O Globo.
“Jantar formal”, de 25 de setembro de 1968, é uma nota típica do formato d’antanho que às vezes ainda carregava:
• Para um elegante jantar black tie de lugares marcados
receberam Gilda e Frânzio Salles. Ao redor da enorme mesa
da sala de jantar, ornamentada com lindo arranjo de flores
disposto numa sopeira de prata, reuniram-se o embaixador
da Holanda e a sra. Van der Brandeler (ela, com conjunto
muito bonito de brilhantes e esmeraldas), o embaixador e a
sra. Afrânio de Mello Franco, os srs. e as sras. Octacílio
Gualberto — Maria Eudóxia de brocado branco, curto,
muito elegante —, Carlos Taquenho... [e vários outros
nomes].
Todas as descrições de roupas e adereços eram de Marcia Kuperman, agora Barrozo do Amaral, que acompanhava o marido colunista. Longe de ser obrigação conjugal, ela adorava a “tarefa”. Vinte anos após Jacinto de Thormes, as senhoras com brilhantes e esmeraldas ainda eram chamadas pelo nome dos maridos, que, por sua vez, continuavam trajando black tie, obrigatório em quase todas as festas. Discretamente, Zózimo sinalizava que estava em outra. Num evento na Hípica para o Festival Internacional da Canção, dizia que “predominaram os smokings da moda, camisa branca, col roulê (sem gravata) — na moda Swann”.
Álvaro Americano (aos amigos tudo) aparecia muito. Agora no poder estadual, estava por trás do chorrilho de notas, todas evidentemente simpáticas, sobre Negrão de Lima (de quem seria o indicado a candidato à sucessão, não tivessem os militares proibido as eleições). Em outubro de 1968, o ex-Swann recebeu em nome de Negrão o príncipe Gholam Reza Pahlevi no Copacabana Palace. Descrevendo a festa, Zózimo comenta que, “numa roda de boa conversa comandada por Álvaro”, o senhor Oswaldo Aranha Filho, “um dos cinco maiores caçadores do Brasil”, conversava animadamente com o príncipe sobre o irmão deste, “o príncipe Abor, considerado um dos cinco maiores caçadores do mundo” (Zózimo queria se referir a Abdul, outro irmão e príncipe, este sim o predador). Alguns anos depois, os movimentos a favor dos animais levariam até mesmo salões como os do Copa a proibir o encontro daqueles matadores — mas, em 1968, a revolução dos costumes não havia chegado aos trópicos. Matar animal ainda era coisa de macho. Quem o fosse gostava de alardear o fato e não se aborrecia se, no dia seguinte, a bravata fosse estampada no jornal.
Em 26 de junho de 1968, o pau comia nas ruas, a Passeata dos Cem Mil mudava a história do Brasil, mas a burguesia não tremia e jantava do melhor na frente do colunista, um dos seus. Foram duas as festas das quais Zózimo participou no primeiro fim de semana daquele mês que balançaria o Brasil. A primeira era black tie em torno da despedida dos Cathanhead (“ela, a extremamente racée Maria Helena”) no Chateau, “que estreava sua nova decoração” (“das festas mais simpáticas a que tenho comparecido ultimamente”). Entre os presentes, senhor e senhora Carlos Eduardo de Souza Campos (“Tereza estava uma beleza de branco de crepe e torsade de pérolas na cintura”). No sábado, foi a vez de o casal Antenor Mayrink Veiga receber no “amplo e elegante apartamento do Golden Gate” para um jantar em honra do chanceler da Tunísia e senhora (“dos visitantes mais interessantes que tem o Brasil recebido ultimamente”). Entre os convidados, os casais Charles Stehlin (“Vera de matelassê preto”), Alberto Proença de Faria (“Lourdes de chemisier rosa-saumon, o máximo da elegância”) e Sergio Bahouth (“Carmem [Bahouth] de preto de musselina e saia de plumas”).
• Um grupo deixou a residência dos Mayrink Veiga e sob o
pretexto de mostrar a vida noturna do Rio ao chanceler da
Tunísia acabou “esticando” na Sucata, na qual a animação e
o iê-iê-iê eram comandados pelo sr. Santos Bahdur.
Foi um ano agitado, nas ruas e nos salões. Antes de Elizabeth I, Zózimo esteve atrás do cortejo do xá Reza Pahlevi, recebido com casquinha de siri na cobertura de Carlos e Heloisa Lustosa (com um longo de musselina preto by Guilherme Guimarães). Presentes, o senhor e a senhora Antônio do Amaral Sampaio (“Frankie sensacional com um longo de tecido oriental”), e mais, segundo o drop-name inevitável nas colunas sociais:
• Encontrei também o senador e a sra. Lourdes Catão, o sr.
e a sra. José Carlos Leal (Olívia de longo de tecido de prata,
muito bonita), o sr. e a sra. Carlos Eduardo de Souza
Campos, o banqueiro e a sra. David Guimarães, o sr. e a sra.
Gustavo Afonso Capanema (Ana Luiza, de rosa,
elegantíssima), a escritora Rosemary Murphy, que foi levada
pelos Tuthlil, as sras. Carmen Mayrink Veiga (linda, de
longo imprimé, com um ombro só) e Raquel Jardim, a srta.
Eloisa Dolabella, o secretário Álvaro Americano e o sr.
Roberto Marinho.
A turbamulta gritava lá fora. Dentro da coluna, apenas a novidade do vestido em um ombro só e o desenho da página. Alguém estava percebendo as mudanças e gostando. A partir de meados de 1968, a coluna aparecia sempre cercada dessa coisa linda, desse diamante e pétala de rosa que emocionam desde o jornalista mais frio até o dono do jornal, passando pelo Departamento Comercial. O resto da página ao redor da coluna de Carlos Swann estava coalhado de Sua Excelência Maior, Deus em forma de centimetragem — os anúncios dos patrocinadores. Tinha até anúncio no rodapé. Tiravam-se cinco centímetros de altura de informação — e daí? Se não havia acordo ético de relação entre os jornalistas e a empresa, imagina como essas delicadezas de espaço editorial eram tratadas entre empresa e leitor? O consumidor estava comprando menos informação e mais anúncio? Que fosse reclamar ao bispo.
Quem comprou o espaço publicitário, não por coincidência, mas porque era assunto de fundo de tantas notas noturnas, foi o uísque Natu Nobilis. Dizia o texto da publicidade: “Diante dele qualquer whisky fica com complexo de inferioridade” — com o detalhe de que a palavra inferioridade vinha com as letras em declive, como no clássico desenho de um pênis brochando. Poucos anos depois o anúncio seria impossível, pois qualquer um veria ali a insinuação politicamente incorreta de que os concorrentes perdiam a virilidade, mas Natu Nobilis dava potência ao seu bebedor e uma dose extra de tesão — e não corrosão do fígado.
Seguro, prestigiado pelo reconhecimento da publicidade a seus pés e por alguns aumentos de salário, o colunista comemorava e às vezes, no outro dia, não conseguia trabalhar. Moacyr Padilha Filho, herdeiro do futuro governador do estado do Rio no início da década de 1970, chefiava a redação e fechava a coluna na ausência do titular. O hábito do álcool, que desde o final do Andrews começara a acompanhar Zózimo com certa insistência, estava sendo facilitado pelo trabalho. Os eventos eram todos em torno dela, a bebida. Muito uísque e até o modismo dos drinques (gostava do alexander, uma bebida cremosa e enjoativa à base de creme de leite que provocava ressacas terríveis). Os anfitriões faziam questão de que o jovem e poderoso colunista experimentasse do melhor e com abundância. Na pele de Swann, ele descobriu uma nova paixão: o champanhe. Em seu louvor, em dezembro de 1968, aproveitando o pretexto de uma nota que colocava o champanhe francês em perigo pelo aumento da produção americana, fez três colunas seguidas ensinando os brasileiros a saborear melhor. E descreveu com o carinho e o espaço em geral devotados às grandes musas das colunas sociais:
• O champã, delicioso e precioso (mesmo) líquido muito
frequente nas mesas de reuniões da alta-roda, tem uma
série de regras que uma grande hostess ou um grande
connaisseur não podem desconhecer. Referem-se elas à
melhor maneira de comprar, conservar e servir, matéria de
interesse, se não geral, pelo menos das pessoas que sabem
viver.
• Olhe com atenção no rótulo do champagne que você está
comprando se a marca não lhe é familiar. O nome
champagne e a indicação da data da fabricação devem
figurar no rótulo ou na collerette. As marcas mais famosas
inscrevem também um número precedido das iniciais NM,
que é a inscrição do registro profissional de um fabricante,
ou seja, daquele que vinifica, reúne, engarrafa e
comercializa seus próprios vinhos.
• O champagne pode ser bruto, muito seco, seco e meio
seco, sendo que este último parece ser o tipo preferido das
mulheres.
• O congelador corta o vinho do champagne. Não o deixe
ficar na geladeira muito tempo antes de servi-lo. Uma hora é
o suficiente. A temperatura ideal para o champagne ser
degustado é a de 8 graus.
• O guia do bon-vivant, no que se refere à degustação do
champagne, arte que os franceses exercem com devoção, diz
para nunca se pôr o copo para gelar. A bebida perde grande
parte do seu sabor e não borbulha.
• Muito cuidado e precaução ao transportar um
champagne de um lado para outro, pois qualquer batida
arriscaria afetar a rolha. Para retirá-la, faça-o por meio de
movimentos lentos e circulares, evitando sempre o espocar.
O mais aconselhável é retirá-la vagarosamente deixando o
gás acumulado no gargalo sair aos poucos e produzindo um
quase imperceptível “pffff”.
• O copo, ao começar a receber o líquido, deve estar quase
na horizontal, sendo erguido aos poucos, à medida que vai
sendo vertida a bebida, para evitar a formação demasiada de
espuma.
• O champagne é o mais aristocrático dos vinhos, é uma
arte com regras e preceitos bem determinados. Ele encontra
talvez o seu melhor lugar se for servido como aperitivo, pois
abre o apetite. Mas se você jantar au champagne, saiba que
essa bebida combina melhor com peixes, crustáceos e aves,
e que é menos recomendada para o foie gras. Mas não fica
mal com qualquer tipo de prato.
• Se você encerra uma refeição com champagne, o que já
não está tão em moda, sirva o tipo seco, sendo o brut
aconselhado para todas as outras ocasiões.
• Abstenha-se sempre de servir champagne às pessoas que
declaram detestar vinhos espumantes, pois o desperdício
seria imperdoável. Não se importe no caso de servir-lhes
água.
O colunista, que poucos anos antes estava roubando o vinho da adega do pai, agora tinha a seu dispor, de graça, as melhores marcas de champagne, como gostava de escrever, em francês, e demonstrar aproximação com o que anunciava ser uma forma de levar a vida com arte. Tinha também champa, champã, champanhe ou champanhota a rodo.
Na redação, matava um leão por dia. No início, trabalhava com um assistente. Não era para apurar notas, mas para dar os telefonemas, botar a fonte ao telefone e por outro motivo ainda mais prosaico: precisava de alguém para datilografar a coluna. Sua mãe, Elza, insistia para que ele fizesse um curso Ted numa loja próxima de casa, pois “a datilografia estava na base de tudo”. Zózimo argumentava ser a datilografia uma necessidade de secretárias. Eis que agora lá estava a seu lado Paulo Lima, mais tarde um importante produtor de espetáculos independentes, com a função de botar à máquina o texto da coluna.
Paulo possuía experiência do frisson daquele trabalho, pois ajudara a colunista social do caderno Ela, publicado aos sábados (O Globo tinha três colunas sociais nesse dia). No início ela assinava Nina Chaves, mas, ao se separar do marido, foi proibida por ele de usar seu sobrenome. Virou Nina Chavs, uma solução mais glamorosa. Ela editava as colunas Linhas Cruzadas e Borbulhantes, que emulavam uma Louella Parsons, a colunista americana perita em misturar fofocas de celebridades com modismos e algo mais. Entregava romances proibidos, era levemente do mal. Nina fazia tanto sucesso que a cantora Maria Bethânia, em 1968, mudou a letra do sambinha “Café-soçaite”. Na parte final, no lugar de “Como é que pode?/ Depois eu conto”, Bethânia cantou: “Como é que pode?/ Nina Chavs conta.”
Um dia, ao fazer com Walmor Chagas e Cacilda Becker uma entrevista para o Ela sobre a estreia de Quem tem medo de Virginia Woolf?, Paulo teve que ouvir do casal uma série de acusações ao Globo, entre elas a de que nada havia sido publicado sobre a peça até aquele momento no jornal porque a produção do espetáculo se recusava a pagar propina aos colunistas. Paulo contou na redação e Zózimo escreveu a seguinte nota:
• Apesar das excelentes críticas publicadas nos jornais,
caiu sensivelmente nos últimos dias o movimento de
público da peça Quem tem medo de Virginia Woolf?. O fato
é explicado pelo número de pessoas que, não se sabe por
quê, nutre uma certa antipatia pela atriz Cacilda Becker e se
recusa a assistir a suas peças, mesmo que elas, como agora
acontece, tenham recebido elogios unânimes da crítica.
Walmor e Cacilda leram-na diante do público do espetáculo, disseram que aquilo comprovava que, para sair no jornal, só pagando. Foram ao Globo. Fizeram um escarcéu na sala de Rogério Marinho, com Nina Chavs presente. Mudaram um pouco a conversa e disseram que tinham sido chantageados por Paulo. Mais: que Paulo desdenhara e que não ia adiantar nada a reclamação deles, pois Nina era amante de Augusto Frederico Schmidt. Aí, configurado o baixo nível, Nina deu a reunião por encerrada, Rogério disse que falaria com Zózimo e o casal teve que sair da sala.
Paulo ouviu o relato do encontro da boca de Zózimo, que lhe deu a notícia da visita “com seu costumeiro ar de deboche”, e o barraco se encerrou com a gargalhada do colunista. Ficou por isso mesmo. Paulo usava três aparelhos de telefone para colocar as fontes no ouvido de Zózimo. Para conseguir uma linha, o tempo médio de espera era de dois minutos. Paulo ficava com todos os aparelhos nas orelhas até ser despertado pelo sinal de um — e aí começava a enfiar o dedo no dial, discando com todo o cuidado, pois errar um número seria se sujeitar a mais uma longa espera.
A vida de colunista, que o leitor do outro lado do balcão poderia fantasiar como eivada de charme, tinha realidade pesada. Mais: a grana era curta para um homem casado. Em 1o de junho de 1966, Zózimo conseguiu, por intermédio do secretário Álvaro Americano, um bico de redator na Secretaria de Administração. Em 1967, acumulava com um trabalho na Superintendência Nacional de Abastecimentos, a Sunab, lotado no Serdiv, o Serviço de Diversão do órgão. Ficou ali apenas um ano. Ele havia combinado com quem lhe conseguira o posto que não poderia estar sempre no batente, mas acabou indo menos ainda do que se esperava para manter as aparências — e foi demitido. Em agosto de 1968, a Confederação Nacional da Indústria lhe assinou a carteira de trabalho.
Todo jornalista tinha outro trabalho, porque os salários nas redações não pagavam as contas. Carlos Castello Branco, o grande Castelinho do noticiário político, estava registrado entre os funcionários do Departamento Nacional de Estradas e Rodagem como procurador, nomeado sem concurso por JK. Quem agilizou a nomeação foi o secretário de Imprensa do presidente, o escritor Autran Dourado. Normal. A ética só alcançaria o relacionamento das redações com o funcionalismo público ali pelos anos 1980.
Em 1966, para relaxar e se perfumar do verdadeiro glamour, Zózimo começou a tirar férias anuais em Paris, enquanto seus colegas de redação iam para Poços de Caldas, em Minas Gerais. Gostava de frequentar a Brasserie Lipp (Ibrahim preferia o luxuoso Maxim’s), de passado boêmio e intelectual, abrigo de Hemingway. Almoçava com o jornalista Armando Strozenberg, correspondente do Jornal do Brasil, e perguntava sobre o trabalho dele, como era a relação com os editores. O JB, jornal que começava a ser o sonho de consumo de todo profissional do setor, surgia como opção no mercado carioca. Zózimo falava da necessidade de fazer uma coluna com o próprio nome e sujeita a menos interferências.
Enquanto nada acontecia, mergulhava com afinco na vida real de colunista. Depois de Paulo, teve como ajudante Marly Gonçalves, uma loura bonita, de olhos verdes e de personalidade agitada. Ela começou a trabalhar na coluna em 1967, aos vinte e seis anos. Era funcionária pública da Secretaria de Administração, subordinada a Álvaro Americano, e, por sugestão dele, topou acumular os empregos. Achava também que seria moleza. Mas, como se viu com a musa Cacilda Becker invadindo a redação para se transformar em vilã, numa coluna social nada é fácil. Mesmo atender ao telefone, que de início poderia parecer burocrático, na prática não se revelou tanto:
“Quero falar com o Carlos Swann”, pedia a voz do outro lado.
“O Zózimo?!”, devolvia Marly.
“Minha filha, aí não é da coluna do Swann?”, insistia a voz.
“É”, dizia Marly, tentando controlar, sem acender, o pavio curto.
“Pois então me chama ele.”
Era preciso paciência e dedicação, mas Marly logo se encantou com Zózimo, seus olhos azuis e seu jeito doce de falar. Aos poucos foi colocando a mão na massa, encarregando-se de algumas notinhas no fecho da coluna — um espaço para registros chamado Do Telstar:, com dois-pontos mesmo. O Telstar foi o satélite de comunicação, lançado pela Nasa em 1962, que permitiu a primeira transmissão ao vivo de imagens de TV entre os Estados Unidos e a Europa. Do Telstar: era quase uma subcoluna na Reportagem Social do Swann. No espaço, sempre ao pé da página, desovavam-se as informações insignificantes. Começava ali uma operação de troca de gentilezas que marcaria para sempre o colunismo de notas.
No Telstar: saíam os registros que a princípio interessavam apenas a quem passara a informação — em troca da publicação ali, a fonte, um assessor de imprensa ou relações-públicas, daria mais adiante, em outro dia, talvez no mês seguinte, uma informação relevante, que interessasse realmente ao leitor. O clássico “toma lá dá cá”. Um empréstimo em confiança. Aos poucos, o esquema viraria um tormento, pois as fontes, insaciáveis, ofereciam mais notas de interesse particular do que público. Queriam mais e mais espaço para veicular notícias de suas assessorias, pois faziam acordos com empresas e garantiam que conseguiriam emplacar a notícia no jornal.
Um troca-troca infernal e discutível, pois o leitor não sabe dessa negociação. Acha que tudo que é publicado ali assim o foi porque o jornalista achou relevante. Não. No Telstar: o colunista estava pagando em espaço para que o assessor faturasse e, no futuro, lhe passasse informações realmente jornalísticas — o que, até hoje, quase nunca acontece. A boa fonte, ensinava Álvaro Americano, não cobrava nada. O leitor comum não sabia que no Telstar: eram jogados os assuntos menos importantes — era a versão impressa da antiga “Sibéria” do Vogue.
Eis um apanhado de registros no Do Telstar: de dezembro de 1968:
• O restaurante Nino apresenta novo cardápio de verão. •
De partida para Nova York, Anna Maria Tornaghi. • Ionita e
Jorginho Guinle aderiram à praia de Ipanema. • O sr.
Santos Bahdur distribuindo charutos entre os amigos.
Patrícia deu à luz um bonito menino. • Tudo empate
novamente na casa do casal José Luiz de Magalhães Lins.
Nininha deu à luz ontem, na Casa de Saúde Santa Lúcia, um
menino, quarto filho do casal, que já tinha duas meninas e
um menino. • A família Almeida Braga (Kiki e João Carlos),
incluindo os quatro filhos, seguiu para Verbier, em busca
dos esportes de inverno. • Di Cavalcanti flanando ontem no
Centro da cidade, coisa que raramente faz. • Almoçava
anteontem no Bife de Ouro o embaixador Hugo Gouthier,
que chegou ao Rio para uma permanência de sete dias, com
o sr. Guilherme Romano. • A embaixatriz Gilda Sarmanho
devorando com apetite a obra de Marcuse. • Paletós com
ombreiras, évasé, seis botões (só três abotoados) e golas à
Napoleão são as últimas bossas da moda Cardin para
homens. • Carmem Bahouth fazendo uma temporada de
shoppings e teatros em Nova York. • Regressou da
Amazônia, impregnado de novos conceitos sobre
futurologia, o sr. Arthur Bernardes Alves de Sousa. • Chega
hoje da Grécia o cabeleireiro Jambert, trazendo o troféu
Gloire, que ganhou ao lado de Alexandre, Carita e Armand,
no Congresso de Intercoiffure de Atenas. • Ligeiras
complicações de saúde impediram a viagem aos Estados
Unidos do sr. M.F. do Nascimento Brito. • Em seu lugar irá,
no sábado, o sr. Bernard Campos, que estará de volta na
próxima quinta-feira.
Esses dois últimos registros, logo se saberia, eram de interesse do próprio Zózimo.