Enquanto Houver Champanhe, Há Esperança

Joaquim Ferreira dos Santos · Capítulo 41 de 50

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Enquanto Houver Champanhe, Há Esperança

Capítulo 41

 

Zózimo estava deitado na cama da mansão do Itanhangá, na Barra da Tijuca. De olhos vendados por uma máscara para dormir em avião, narrava com voz natural o que estava “vendo”: “Eu sou Nemésio e estou pregando os pés de Cristo na cruz.” A viagem ao passado era conduzida, com voz calma, sem transe, beberagem ou hipnotismo, por Carmen Viana. Fazia parte do método criado por ela de Reprogramação Genética do DNA, ou Salto Quântico Genético, teoria que misturava física quântica, psicanálise, teosofia, informática e outros conhecimentos que aos poucos ela ia relatando a seus viajantes do túnel do tempo.

Carmen levava todos às suas vidas anteriores. Conforme conta, dava-lhes “a oportunidade de mexer nas estruturas do DNA, invertendo a polaridade do campo magnético”. Era possível “visitar o passado, corrigir erros das células para que elas não repetissem os problemas nas vidas atual e futura”. Isso mesmo: através da regressão, voltar ao passado, eliminar a causa de algo negativo e, como consequência, alterar o presente para tratar de doenças tidas como incuráveis. Carmen podia reescrever a história da humanidade.

Zózimo, o debochado, o descrente, acreditou na proposta de Carmen (“o corpo humano é um computador que se comanda através da voz”). Na regressão, voltava ao início da Era Cristã, reportava-se como partícipe privilegiado, embora num papel de vilão, da crucificação do Salvador. Nos segundos seguintes à sua visão de ser Nemésio, ele sofreu um bloqueio e parou de mandar notícias. Perdeu a conexão com o passado. Carmen, com uma agenda lotada, pediu que ele descansasse, enquanto atenderia o diretor de óperas Fernando Bicudo.

Quando Bicudo deitou-se na cama do consultório, o quarto vibrou como se fosse um motor. Carmen diz ter ficado com dificuldade até de segurar a caneta. Bicudo regrediu no tempo e se viu na mesma cena da crucificação. Também estava aos pés da cruz, mas seu papel era positivo. Jesus se dirigia a ele com semblante suave. Passava-lhe a energia crítica e disse: “Cuide disso até o meu retorno.” Bicudo era o enviado de Cristo aos tempos modernos. Carmen pediu que interrompesse o relato e os dois saíram do quarto, no segundo andar da mansão. Zózimo, no andar inferior, de costas, pressentiu o movimento e olhou para o casal no alto da escada. Disse a Bicudo: “Já? Deve ter sido ótima a sessão, porque você está fulgurante.” Fernando Bicudo, os longos cabelos louros cercados de luz, como se fosse uma bola de energia — na descrição de Carmen —, desceu a escada. Ajoelhou-se diante de Zózimo, beijou-lhe os pés e disse: “Eu te perdoo.” Zózimo começou a chorar — e até aí, vinte anos depois, Fernando Bicudo ainda se lembra bem das cenas. O que vem em seguida continua sendo relatado a partir das memórias da terapeuta.

Abre-se um buraco no peito de Zózimo e de lá sai uma massa preta, uma pasta repugnante como um bebê deformado em que se distingue um olho aqui, um punhado de dentes ali, e o resto é lama. O jornalista leva um susto com aquele assombro que lhe sai do peito. Carmen o imobiliza por trás com uma das mãos. Com a outra, pega a massa gosmenta e atira pela janela da casa. Naquele momento passa um dos gatos da vizinha, a atriz Lucélia Santos. O bichano abocanha a coisa e sai correndo.

Carmen Viana fez a primeira sessão com Zózimo no dia 18 de novembro de 1994 e nos quatro dias seguintes ele não saiu da mansão do Itanhangá. Um ano antes, ela era apenas a pacata proprietária de uma empresa de autopeças nos Estados Unidos. Tocava a vida cuidando dos filhos, sempre interessada em física e teosofia. Após um enfarte, isolou-se. Foi quando, pela primeira vez, aplicou em si mesma a terapia de reprogramação, o mesmo processo usado com Zózimo e que estava provocando grande curiosidade entre artistas e gente da sociedade no Rio.

“Nós temos uma memória celular, presente em cada um dos 100 trilhões de células do corpo”, explicava a seus clientes. “Cada uma delas é um indivíduo, é você em miniatura, e cada uma cumpre ou não a sua função. Se ela cumprir a função dela, você tem uma vida maravilhosa. Se ela não cumprir, se ela for uma alcoólatra, uma drogada, ela vai comprometer todo o seu corpo. Nós trazemos um mecanismo de fábrica para fazer esse conserto, mas as religiões e os governos fizeram com que desaprendêssemos. Eu descobri esse acesso às células e mostro o caminho para que cada um reprograme esse sistema avariado.”

Como se conversa com a célula? Como se reprograma a memória celular? Para toda pergunta Carmen tinha respostas longas e articuladas. “Esse é o meu pulo do gato. As crianças têm esse contato, mas com o tempo a gente vai se desconectando. Há cem anos eu seria chamada maga. É simples, é controle remoto, emissão de ondas. Eu descobri como interagir, qual a linguagem da programação que as suas células respondem. Cada célula responde com uma linguagem. Descobri como detectar isso através de sinais que estão no seu corpo. É um complexo, você é um algoritmo, você é uma função finita, mas com possibilidades interativas infinitas. Somos deuses presos dentro de uma casquinha de noz. A modulação da voz ajuda a chegar a esse ponto. Por exemplo, o treinador de cachorro dá um tom de voz para o cachorro obedecer. O dono fala a mesma palavra e o cachorro não obedece. O treinador fala e o cachorro obedece. É a subfrequência. Estamos limitados a 10% do nosso DNA. E o restante, é lixo? Não. Ele obedece ao comando da sua voz. Se você disser ‘apaga’, ele apaga; ‘cria’, ele cria. Mas, enquanto isso, a gente está aqui, pagando imposto, sustentando vagabundo e se preocupando com a morte.”

Nem todo mundo acreditava em Carmen (“Já sei, você vai dizer que eu lavei o rosto de Jesus na via-crúcis!”, cortou a atriz Maitê Proença numa reunião na casa de Dorita). Carmen não discutia com os céticos. Era uma mulher sofisticada, bem-vestida, bonita, rosto grande e olhos puxados como os da cantora Maysa. Explicava com uma voz calma e misteriosa. Alguns a achavam com pose de sacerdotisa, outros, de bruxa. Misturava informática com citações de filme de ficção científica, psicanálise de Freud com salmos da Bíblia, cromoterapia com bioenergética. E, em geral — Maitê fora —, cativava suas plateias.

Carmen reprogramou as próprias células, pulou os problemas do enfarte e estava de volta ao mundo das autopeças em Nova York quando foi visitada por Vanisia Hugo Silva, uma médica carioca, ex-professora na faculdade de medicina de uma irmã de Carmen. Em meio ao trabalho de comandar uma ONG no Alto Amazonas, Vanisia recebeu a missão de procurá-la. “O pajé mandou que eu viesse aqui”, foi como a médica se apresentou a Carmen em Nova York.

Carmen passou a noite do Natal de 1993 fazendo o processo da reprogramação com Vanisia e ali, “em avisos mandados de outras eras”, recebeu a tarefa de seguir para o Brasil na Semana Santa. Era uma “missão crística”. Todos os envolvidos na crucificação estavam no Brasil e precisavam do trabalho dela para desprogramar o mal que tinham deixado na memória do Universo. Carmen Viana instalou-se no Rio, no Itanhangá (embaixo da Pedra da Gávea, “falo com ela”), e, enquanto procurava os personagens que viviam na cidade e tinham participado da agonia de Cristo, começou a atender clientes. As sessões custavam em torno de mil dólares. Quem falou dela para Zózimo foi Sidney Pereira, relações-públicas de casas noturnas, e, naquele fim de 1994, dono de um restaurante em Ipanema.

Ele tinha feito o processo, também estava na crucificação. “Acessou” ainda outras vidas. Em 1193, foi o cavaleiro escocês Joe Proe e viu-se no momento da morte. A primeira regressão levou onze horas, Sidney perdeu seis quilos e durante a noite sonhou com Zózimo. Em formato de lua, o rosto do colunista lhe dizia: “Liga pra mim, você precisa me contar alguma coisa.” Sidney, meio sem jeito, preocupado com a reação do colunista, sempre cético e desconfiado, ligou. Às onze da manhã Zózimo já estava na redação, e embora, ou talvez por isso mesmo, ainda se queixasse de uma ressaca, gostou da história de cura através da visita ao passado. Deu uma desculpa para aceitar: “Quem vai adorar isso é a minha mulher, que curte essas coisas.” E telefonou para Dorita, pedindo que fizesse a produção do encontro.

Marcaram um jantar numa quarta-feira na cobertura de Dorita, e foi aí que convidaram Maitê Proença, o ator Vitor Fasano, Celidônio e Marialice. Dorita exclamou “fascinante!” quando, em meio ao metralhar de perguntas, Carmen disse: “Se você conseguir inverter o tempo, passado, presente e futuro serão acessados simultaneamente. Para mudar a história de uma vida tem-se que chegar à fonte, ao início, para encontrarmos onde foi cometido o erro, consertá-lo, refazer a programação e seguir em frente.” Zózimo ouvia tudo num canto, sem apartes, fumando. Na hora de se despedir, Carmen “viu” que ele tinha uma mancha vermelha no joelho. “Como está seu joelho?”, perguntou. Zózimo, segundo ela, teria ficado pálido, desconfortável, porque o machucado tinha sido resultado de um tombo no fim de uma noite de uísque. Como Carmen poderia estar vendo através do tecido da calça?

No dia seguinte, ele estava deitado na cama do Itanhangá enquanto relatava os pregos que fixava nos pés de Cristo. Apenas com uma túnica branca, Zózimo passou os quatro dias tomando banhos de sais, óleos e ervas diversas em banheiras do tipo ofurô. A limpeza do corpo, o auxílio de técnicas de meditação, os exercícios de ioga e banhos de luz nos chacras também eram utilizados por Carmen, numa tentativa de purificar e “facilitar o caminho para a terapia inverter a polaridade do campo magnético da pessoa e a memória vir à tona”.

Numa dessas visitas ao “computador” de Zózimo, Carmen chegou às células do pulmão. Perguntou de que cor elas eram e ele respondeu “roxo”. A técnica do processo entende que, com o paciente de olhos fechados, é o próprio corpo que responde — e o significado do roxo na cromoterapia é dor, sofrimento. Carmen continuou a arguição. O que aquela cor significava?

“Pré-câncer”, disparou Zózimo. “Ué, mas isso existe, Carmen?”

“Tanto existe que você está falando.”

“E agora, o que é que eu faço?”

“A resposta está dentro de você, pergunta.”

“Está dizendo que tenho três meses para parar de fumar e voltar aqui para reprogramar as células do pulmão”, continuou Zózimo, que naquele momento tinha, diagnosticado pela medicina clássica, apenas o enfisema pulmonar e a ameaça de que, se continuasse com quatro maços de cigarros diários, a coisa ficaria mais complicada. “Está dizendo que se eu não fizer isso morro em três anos com câncer de pulmão e metástase no cérebro.”

Foram muitos banhos de ofurô naqueles dias, um ritual de purificação que o levou, segundo Dorita, a ter uma experiência de se sentir transcendendo o corpo — Zózimo levitou. Nas várias regressões, o colunista viu-se também como um coroinha que tinha sido violentado e assassinado por um padre. Outras personalidades de vidas passadas de Zózimo foram: John, um lenhador sofrido por ter sido abandonado pela mulher. Na Palestina, foi um pastor religioso. Mais adiante, traído pela mulher, Magda, com o melhor amigo, esfaqueou os dois até a morte. Foi um lenhador morto por uma matilha de lobos. Por diversas vezes encontrou-se com Dorita, foram amantes na Idade Média, pastores em paz cuidando de suas ovelhas. No século XV, tornou-se um marinheiro sempre bêbado que morreu afogado e sente o pulmão fragilizar-se. Teria sido esse o registro mais forte trazido para a vida atual.

No livro Relatos de uma alma, Dorita transcreve uma das experiências conforme diz ter ouvido do marido. Ela dá a voz a Zózimo, que descreve:

 

Entro por um túnel no qual há um facho de luz branca, onde

só cabe uma pessoa. Vou subindo, subindo e de repente

começo a sentir luzes saindo de dentro de mim. É como se

eu não fosse mais uma pessoa, mas um espírito iluminado

dentro de uma nuvem dourada. Vejo uma luz enorme, como

se vários sóis estivessem nascendo ao mesmo tempo. Estou

em frente ao infinito. As mãos, os pés são secundários e

limitados. Estou fora e vendo o meu próprio corpo

exatamente como estou vestido. Senti que não sou apenas

matéria, sou o Universo e até ouso dizer que estou do

tamanho de Deus. Deus está em mim e eu estou nele. Somos

uma única coisa maravilhosa e não quero que isto acabe

nunca. Sou a própria vida. A luz explode como se fosse um

orgasmo alucinante e nesse momento cósmico sinto que

nasci com o mundo, que todos somos parte de Deus e ele vai

se expandindo através do amor. A matéria é uma ilusão.

Estou flutuando acima de mim e consigo ver meu corpo

inerte. Jesus me diz para amá-Lo e estender este amor até

onde puder.

 

O “orgasmo alucinante” a que Zózimo se refere seria, de acordo com Carmen, o Big-Bang. Ela explicara a ele que “a nossa ciência considera o Big-Bang a mitose de um óvulo cósmico, a concepção de um novo Universo”. Zózimo teria entrado naquela energia, “megaorgasmo”, e teria sido tomado por ela — “e aí”, segundo Carmen, “levitou em cima da cama, a mais de metro, se transformou em incorpóreo”. Mesmo energizado pelo Big-Bang e impressionado com a experiência de ter levitado, Zózimo deixou a casa no quarto dia. Para nunca mais. Conforme Dorita, o marido sempre inventava uma desculpa — “muito trabalho” era a mais frequente — para não atender aos chamamentos de Carmen e realizar novas sessões.

Carmen tinha sido sincera: “Dorita, há uma mancha no pulmão do Zózimo, mancha que não é constatada pelas radiografias porque não é física, é energética, espiritual, e ele precisa voltar à reprogramação para apagar esse imprint negativo.” Nenhum apelo foi suficiente. Carmen lembrava que durante o processo Zózimo tinha estado frente a frente com Jesus e Este passara ao colunista a missão de escrever a Sua verdadeira história, principalmente a relação com Maria Madalena e com os filhos que deixaram. Zózimo, em reuniões sociais onde encontrava a terapeuta, recusou-lhe várias vezes a proposta (“não posso, vão achar que o jornalista ficou maluco”). Nunca mais foi ao Itanhangá. Carmen não se impressionou: “O ser humano está programado para o sofrimento. O cérebro não se acostuma com a felicidade. Daí vem aquela cena do Matrix, onde o agente Mr. Smith precisa criar para os humanos uma máquina de sofrimento. Parece que existe um código tão primitivo que as pessoas não acreditam, ‘não, eu sou uma pecadora, sou um miserável, tenho que pagar, eu tenho que...’.”

Zózimo nunca deu uma nota sobre a terapeuta, mas, sempre que solicitado, falava bem dela. A repórter Eliane Lobato, da revista IstoÉ, entrevistou Carmen, mas continuava com dúvidas sobre o mecanismo do processo. Não conseguia explicar direito, por escrito, o que acontecia, como se chegava a outras vidas, como alguém era capaz de reprogramar suas células — e Zózimo se prontificou a ajudá-la no trabalho. “O processo não pode ser explicado de uma maneira didática como você está querendo”, disse Zózimo. “Tem uma complexidade que escapa às reduções do jornalismo.”

Na reportagem “Cura pelo além” (“Uma empresária carioca trata pacientes fazendo com que eles ‘viajem’ em vidas passadas”), publicada em 14 de dezembro de 1994, Eliane escreveu:

 

Pode parecer impossível, mas o eternamente cético e

insuspeito colunista Zózimo Barrozo do Amaral enfrentou o

“tratamento” com sua mulher, Dorita Moraes Barros. Ao

final, disse: “Não há explicação. Vi cenas de minhas vidas

passadas. Parece absurdo para quem não vivenciou. Fiquei

mais calmo. Passei a dar mais importância às coisas que têm

valor.”

 

Zózimo falava bem de Carmen pelas costas, porém continuou distante. Dorita passou a frequentar a casa da terapeuta.

 

Eu tinha um problema de coluna seriíssimo. Passei por

vários médicos, estive internada nos Estados Unidos e todos

queriam operar. Nunca contei isso para a Carmen. Mesmo

assim, um dia eu estava com ela e senti uma faca entrando

em mim. Sabe quando você ouve o barulho? Clac, clac. Eu

senti uma coisa sair. Eu perguntei pra ela: o que está

acontecendo? Eu tinha sido assassinada numa vida, e eu

senti sair aquela faca de mim. Nunca mais tive dor. Entendi

naquele momento o que é, em linguagem leiga, o “encosto”.

É uma energia negativa que você carrega.

 

Dorita contava isso a Zózimo na esperança de que ele se entusiasmasse e a acompanhasse até Carmen para continuar o tratamento. “A primeira experiência foi tão impressionante, não conseguirei repeti-la”, era outra desculpa que dava para a esposa. Segundo Carmen, além dos problemas de saúde que teria resolvido, ele deixou de realizar a pauta dada por um editor especial, o próprio Jesus: “Quando uma missão não é cumprida, passa para o próximo da fila. A ordem de Jesus tinha sido clara, para que Zózimo reescrevesse sua história com Maria Madalena. Ele não cumpriu. Veio o Dan Brown e pronto, escreveu a nova versão de Cristo e Maria Madalena no Código Da Vinci. Ficou milionário. Era pra ser o Zózimo.”