Imagens do pai no cinema: clínica da cultura contemporânea

Prefácio: O pai torto segundo a lei

 

Oscar Cesarotto

O FATO DE Sigmund Freud reconhecer a estatura intelectual de Charles Darwin não lhe impediu de se colocar à altura deste, listando as três grandes feridas narcísicas da humanidade, a começar por Copérnico: a Terra não era mais o centro, o homem era apenas um elo evolutivo e, pior ainda, sequer dono de si mesmo.

Ele também quis conjeturar sobre os primórdios de uma espécie, a nossa, de maneira bem diferente à do biólogo, do paleontólogo, do arqueólogo ou até do teólogo. A partir da experiência clínica, construiu uma teoria geral do psiquismo, cujos desdobramentos coletivos o levaram a colocar os fundamentos da cultura em pauta. Mais vale um paciente no divã do que a saga da humanidade voando? Ou vice-versa? Não surpreende que uma das grandes questões do pensamento freudiano sempre tenha sido a correlação entre a filogênese e a ontogênese, a ser entendida ao pé da letra ou como metáfora.

Procurando as raízes da neurose, o pai da Psicanálise deduziu a origem da civilização do único jeito que algo assim seria possível: através e por meio da ficção. Com muita imaginação, escreveu Totem e Tabu, um texto altamente especulativo em que recriava o fim da condição animal pela via de um ato violento humano, demasiado humano, e suas consequências. Embora Darwin fosse a influência manifestada, de forma latente era Hegel quem aparecia nas entrelinhas, ecoando Heráclito, seu antecessor, e Marx, seu sucessor. O ponto em comum: a dialética como parteira da História.

É importante lembrar que o livro foi publicado anos antes da Revolução Russa e muito depois da Francesa: liberdade, igualdade, fraternidade, e guilhotina. No entanto, para um autor inclassificável

como Norman Brown,1 a verdadeira referência teria sido outra, um dos episódios fundadores da Inglaterra, quando os senhores feudais, cansados do despotismo de João-sem-terra, uniram-se para pressionar o rei e reivindicar, pela força, um limite para seu poder. Todos assinaram um pacto constituinte, a Magna Carta, com o compromisso de serem pares do reino, sem prepotência. O reconhecimento mútuo superou a discórdia.

Todavia, Freud foi além, levantando hipóteses trans-históricas para entender o porquê da implantação das leis e da obediência, as regras de convívio e respeito, o preço a ser pago pela paz social e os sacrifícios da neurose. Por último e em princípio, o enigma da culpa e da paternidade. Como antecedente deste assunto, deve ser lembrado o adendo ao caso Schreber, redigido pouco antes, em consonância com as ideias de Jung e, como decorrência, o que poderia ser considerada a continuação de Totem e Tabu, um manuscrito apócrifo descoberto anos depois de sua morte, intitulado Neuroses de transferência: uma síntese, jamais mencionado nem citado. Talvez nunca se saiba o motivo de sua inexistência até ser achado no baú de Ferenczi. Hoje, pode ser lido como uma ficção científica coerente com seu discurso, porém inverificável.

Indo mais longe, a peça-chave seria Moisés, figura mítica que suscitara duas importantes peças do quebra-cabeça freudiano: a

primeira, em 1912,2 após sessões de análise com a estátua de

Michelangelo, em Roma,3 e a definitiva, escrita no final da vida, mas

só publicada postumamente.4 Está tudo ali: o Nome-do-pai, o monoteísmo, as tábuas da lei, o assassinato, a servidão voluntária, a obediência retrospectiva…

Este comentário serve para situar o marco zero do trabalho de João Angelo Fantini, em que a violência é apontada como um sintoma inerente à cultura, provavelmente estrutural, mas não intratável. Para fazer o diagnóstico, alguns filmes significativos são arrolados, situando o cerne de sua tese: no final do milênio, o declínio da figura do pai pode ser visto nos produtos culturais de consumo massivo, e o cinema, velho do século 20 assim como a Psicanálise, sempre será um lugar privilegiado para uma leitura semiótica e uma escuta analítica.

Entretanto, a interpretação do autor não se limita ao imaginário, individual ou coletivo, pois sua indagação sobre as causas e os efeitos da violência questiona o alcance da função pacificadora do ideal do eu, como diria Freud, ou da eficácia do simbólico, segundo Lacan. O real que esgarça o tecido social impõe a lei, que costura proibindo. Em outras palavras, a morte de Abel foi muito anterior à grafia do quinto mandamento. A culpa pela eliminação do outro, que pode ser tanto o pai quanto o semelhante, não impede o ato; depois e enquanto isso, “uma instância superior” julga e castiga, vigia e pune.

Para Freud, o supereu não era a cultura, senão certo mal-estar que se apossa desta quando predominam as relações narcísicas. Já na sua época, o prestígio do patriarcado começava a desbotar. Décadas mais tarde, Lacan retomaria o tema do pai humilhado pela cultura moderna. Fantini atualiza estas perspectivas de modo convincente, descrevendo o conflito na pós-modernidade, especulando e argumentando a partir dos filmes analisados. Sua reflexão tem o mérito de não se deter nos aspectos estéticos, pois é da ética do que se trata ou, mais ainda, da política, da constituição, quer seja de um sujeito ou de uma nação.

Em definitivo, como em 2001, de Stanley Kubrick, que começa com a pré-história e acaba no espaço, este livro nos leva da horda primitiva ao ciberespaço, ida e volta, demonstrando como a vida inteligente não escapa do inconsciente.

1 BROWN, Norman. El cuerpo del amor. Buenos Aires: Editorial Sudamericana, 1976.

2 FREUD, Sigmund. El Moisés de Miguel Angel. Madrid: Editorial B. Nueva, 1970.

3 FREUD, Sigmund. Moisés y la religión monoteísta. Madrid: Editorial B. Nueva, 1970.

4 RIVEIRO DA SILVA, Antonio. O desejo de Freud. São Paulo: Editora Iluminuras, 1995.