Imagens do pai no cinema: clínica da cultura contemporânea
A versão Zizek
Há, ainda, uma terceira versão, segundo Zizek, que, oposta às duas primeiras, concebe o ciberespaço como um possível modo edípico de subjetivação, que vê no ciberespaço a função de intervenção como “terceiro” – ou seja, como “agente da mediação/mediatização que sustenta o desejo do sujeito, enquanto simultaneamente atua como proibição que previne uma direta e total satisfação” (ZIZEK, 1999a, p. 113).
Segundo esta concepção, que Zizek identifica em Jerry A. Flieger, o ciberespaço, longe de representar um imaginário/simulacro que coincide com o Real, é um dispositivo da lei simbólica que manteria a distância entre o sujeito da enunciação e o do enunciado. Ou seja, a identidade simbólica que alguém assume ao entrar numa comunidade virtual é sempre inventada, no sentido de que o sujeito nunca é diretamente “ele mesmo”, sendo que o mesmo se aplica aos demais membros da comunidade. Assim, diz Zizek (1999a, p. 114), o ciberespaço materializaria o esquema “L” que Lacan busca apresentar a estrutura da comunicação: “Em resumo, inter-face significa precisamente que minha relação com o Outro nunca é face a face, ela é sempre media(tiza)da por meio da interposição da maquinaria digital que suporta o lacaniano “grande Outro”, a ordem simbólica anônima que estrutura esse labirinto”.
A versão Zizek
A posição defendida por Zizek é a de que o ciberespaço permanece “edípico” na medida em que o sujeito, para circular, deve assumir uma proibição/alienação fundamental. Mesmo que se possa ser “qualquer um” ao escolher uma identidade simbólica (um nome fictício), qualquer escolha trairá o sujeito numa “fundamental impossibilidade: você não pode evitar a mediação da interface, este ‘desvio’, que o separa (como sujeito da enunciação) para sempre do seu simbólico substituto” (ZIZEK, 1999a, p. 114).
Trata-se, aqui, do Édipo na forma lacaniana, que estabelece a distinção entre o mito edípico (do parricídio e do incesto) e a subjacente estrutura formal da proibição simbólica (a dívida do sujeito para com sua entrada na ordem simbólica). É somente a partir desta perspectiva teórica que se pode entender por que, para Lacan (1998, p. 834), em Escritos, a proibição paterna é apenas uma incorporação imaginária para a falta:
Esse gozo cuja falta torna o Outro inconsistente, será ele,
então, o meu? A experiência prova que ele me é comumente
proibido, e não apenas, como suporiam os imbecis, por um mau
arranjo da sociedade, mas, diria eu, por culpa do Outro, se ele
existisse: não existindo o Outro, só me resta imputar a culpa ao
[Eu], isto é, acreditar naquilo a que a experiência nos conduz a
todos, com Freud na dianteira: ao pecado original.
Aqui se encontra a pedra fundamental da ética na Psicanálise. O que a veemência algo dramática de Lacan busca marcar é um dos conceitos básicos que funcionam como divisores em relação a outras teorias. A impossibilidade do gozo total, a falta estrutural que funda o desejo, coloca o sujeito da Psicanálise em franca oposição a outros discursos que apostam na autodeterminação do sujeito. Reforça Zizek (1999a, p. 114):
No momento em que minha necessidade é formulada como
uma demanda simbólica endereçada ao Outro, eu me envolvo
com o beco sem saída da impossibilidade da gratificação total
(a distância aberta entre todo objeto material que satisfaça
minha demanda e o insondável “isso” que meu desejo almeja;
meu desejo torna-se mediado pelo desejo do Outro – isto é, o
fundamental enigma que me incomoda é: “Por que sou um
objeto de desejo para o Outro? O que o Outro vê em mim que
me faz valioso [ou não] para ele ou para ela? etc. etc.)
Nessa concepção, segundo Zizek, o ciberespaço pode até ser considerado pós-edípico com respeito ao mito e à narrativa histórica, mas permanece edípico como estrutura formal pura, assemelhando-se paradoxalmente à “falha” psicótica da mediação simbólica, na medida em que se apresenta como uma estrutura simbólica de proibição/mediação sem a “pequena peça do real” (le peu de réel) – sem o vulto que incorpora essa mediação, a figura paternal. Mas, continua Zizek, seria interessante considerar os motivos por que se precisaria deste “pouco de Real” para entrar na ordem simbólica, isto é, os motivos por que se necessitaria deste elemento potencialmente patológico para proibir algo que, por definição, é impossível. A explicação da Psicanálise é que este peu de réel funciona como um corte ou uma carga adicional que sustenta a ilusão de que seria possível ter acesso direto à Coisa.
Pode-se aqui refletir sobre a diferença entre a função paterna e a pessoa que ocupa seu lugar. Como na transferência psicanalítica, este “resto” de Real paradoxalmente previne a não-incorporação total da autoridade paterna e, ao mesmo tempo, permite que a pessoa em questão seja o agente que evita o contato direto com o “ser supremo em maldade” do Real, encontrado na psicose. Diz Lacan (1998, p. 839):
De fato, a imagem do Pai ideal é uma fantasia de neuróticos.
Para além da Mãe, outro real de cuja demanda querer-se-ia que
se acalmasse o desejo (isto é, o desejo dele), perfila-se a
imagem de um pai que fecharia os olhos aos desejos. Mediante
o que fica ainda mais acentuada do que revelada a verdadeira
função do Pai, que é, essencialmente, unir (e não opor) um
desejo à Lei. O Pai desejado pelo neurótico, como se vê, é
claramente o Pai morto. Mas é também um Pai que seria
perfeitamente senhor/mestre de seu desejo, o que teria o
mesmo valor para o sujeito.
Assim, continua Lacan (1998, p. 841), não é a Lei que barra o acesso do sujeito ao gozo; ela apenas complementa uma barreira quase natural: “a castração significa que é preciso que o gozo seja recusado, para que possa ser atingido na escala invertida da Lei do desejo”. É esta a explicação psicanalítica que relaciona castração, desejo e gozo, e é neste processo que a figura do pai se coloca não como aquele que proíbe o gozo, mas exatamente o que, ao livrar o sujeito do beco sem saída do desejo, sustenta para esse a esperança de que “teria sido possível, se não fosse…”. Grosseiramente falando, a figura pacificadora do pai funciona como alguém que, ao separar uma briga entre Woody Allen (o cineasta) e Mike Tyson (o boxeador), permite a Allen se lamentar pelo resto da vida por ter sido impedido de acabar com Tyson. Completa Massota (1987, p. 120) em O comprovante da falta: