Imagens do pai no cinema: clínica da cultura contemporânea
Desejo de cegueira
De uma perspectiva mais teatral, ou seja, com elementos mais próximos à realidade (diferentemente de Matrix, por exemplo), há em De olhos bem fechados uma discussão diferente sobre o simulacro e o real – especialmente a partir do momento em que o personagem de Tom Cruise, aturdido pela confissão da mulher, busca o acesso a outras formas de sexualidade. Bill encarna, nesse sentido, o homem que não abandonou (o suficiente) o objeto incestuoso materno – ou seja, aquele que não pode gozar a mulher em seu status pleno de ser, sem a ilusão de ser solitariamente o falo e a causa de desejo dessa mulher. Da mesma forma que em Matrix, entretanto, é necessário ter a senha (Fidélio) para passar ao “outro mundo” (representado por uma orgia secreta) – inadvertidamente revelada a Bill por seu amigo pianista.
O tema do disfarce, como máscara de acesso a outra subjetividade, pode ser visto aqui sob muitas formas. Na busca de um Real da sexualidade, Bill aluga uma fantasia que lhe permite acesso a um ritual orgiástico, em meio ao qual, aparentemente, ele esperava fazer o papel de voyeur. A escolha da senha “Fidélio”, no filme, no entanto, não parece ser gratuita. Além das relações na trama com a figura do músico, é inevitável a alusão ao personagem da ópera de Beethoven: Fidélio, que em latim significa fiel, refere-se, na ópera, a uma mulher que se disfarça como homem para salvar seu marido.
A senha funciona aqui como um Real, no sentido em que realiza a ligação entre o mundo de Bill e Alice e um “outro” mundo. Quando o personagem de Tom Cruise entra no universo da perversão – encenado pela orgia –, esse universo apresenta-se como um mundo à parte do mundo real, ou, em outras palavras, como um mundo ainda não simbolizado pelo personagem.
A ideia da perversão como mundo à parte equivale à concepção lacaniana do Real da diferença sexual: o que prova a distância existente entre a impossibilidade de simbolizar o Real da diferença sexual e as formas simbólicas predeterminadas de heterossexualidade é positivamente a ampla gama de outras formas de sexualidade (homossexualismo, sadomasoquismo, fetichismo etc.). Quando o personagem sofre um abalo em suas convicções sobre os papéis existentes na relação heterossexual (mulheres casadas não desejam outros homens, e assim por diante), abre-se sob seus pés o mundo desconhecido das perversões, ou, dito de outra forma, o mundo daqueles que não encontraram suporte fantasístico nos papéis heterossexuais preexistentes.
Da perspectiva política, trata-se do confronto da ideologia burguesa – dos conceitos da classe banalmente chamada “média” – com o Real de um outro mundo, que funciona a partir de outras leis. O filme, neste sentido, põe em cena um conflito pouco tratado no discurso político, já que este frequentemente prefere confrontar a figura do “burguês de classe média” com a do “proletariado”.
Na sequência do filme, o personagem de Tom Cruise titubeia entre cruzar a divisa que o separa deste outro mundo e evitar as consequências que poderiam advir daí. Suas tentativas são acompanhadas pela angústia resultante da falta da norma, seguindo a via da castração: ele paga por coisas que não lhe permitem prazer (como o show de jazz que se encerra, a prostituta com quem não transou, o disfarce que não o protegeu etc.), esgotando assim todas as formas de demanda.
É significativo que, durante todo esse trajeto do personagem, venha-lhe à mente a imagem fantasiada da esposa tendo prazer nos braços de outro; o neurótico, como disse Lacan, não faz grande coisa com seus fantasmas. Assim, a mulher, funcionando como objeto a – como causa do desejo –, impele Bill rumo ao desconhecido, mesmo que ele, ao final de sua fracassada jornada, acabe retornando à castração, intimidado pelas ameaças que sofre. O império da regra e a proibição da transgressão estão nas palavras que o líder da seita dirige a Bill, quando este tenta salvar a garota que iria se sacrificar em seu lugar: “Aqui quem fez uma promessa não pode voltar atrás…”. É nesse sentido que o líder funciona para Bill como o pai Real, o da violência sem lei, que o obriga a retornar a seu mundo protegido e abrir mão de suas fantasias para evitar a aniquilação do próprio corpo.