Imagens do pai no cinema: clínica da cultura contemporânea
9 A síndrome do “verdadeiro eu”
TALVEZ SE POSSA associar a busca por uma “essência humana” a uma série muito variada de comportamentos e movimentos sociais, que vão desde a inspiração científica até as novas formas de obscurantismo. Neste sentido, o esforço em busca de um “sujeito autônomo”, distanciado dos papéis sociossimbólicos preestabelecidos, pode assinalar uma forma de angústia sentida como perda da identidade no chamado pós-moderno.
A positivação dessa angústia – sem o aparato da metáfora protetora paterna, e materializando-se na dúvida da identidade – encontra um exemplo cômico, diz Zizek (1999a, p. 118), na agência Slave are us, em Nova York. Nessa agência, executivos e funcionários bem-pagos se oferecem para limpar apartamentos de graça, desde que os moradores concordem em tratá-los rudemente, como se fossem antigas donas de casa. Eles justificam este comportamento dizendo que estão simplesmente cansados de passar por mudanças o tempo todo. Isso ganha uma ilustração irônica em Clube da luta nas cenas em que Jack procura dominar sua angústia frequentando todo tipo de grupos de autoajuda, entre eles o “Permanecendo Homens Juntos”, para homens que perderam os testículos.
Escolha e angústia
O esforço de cada um para ser “verdadeiramente ele”, mesmo para pensadores como Giddens (1996, p. 99), em Para além da esquerda e da direita, pode ter sintomas corpóreos, como no caso da anorexia:
A anorexia é uma reação defensiva aos efeitos da incerteza
artificial na vida cotidiana. O nosso dia-a-dia, pode-se dizer,
tornou-se experimental de uma forma que encontra paralelos no
“grande experimento” da modernidade como um todo. […] O