Imagens do pai no cinema: clínica da cultura contemporânea
PARTE III: A expansão do social no mundo virtual
Parte III - A expansão do social no
mundo virtual
12 O sonho da realidade da vida
FREUD DEIXOU, MAIS que certezas, dúvidas. Uma delas é se sonha-se para viver ou vive-se para sonhar. Este parece ser o núcleo do filme De olhos bem fechados. Com roteiro inspirado na obra Breve romance de sonho, de Arthur Schnitzler (considerado por alguns autores uma espécie de alter ego de Freud), a trama gira em torno de um casal, William (Bill) Hardford (Tom Cruise) e Alice Hardford (Nicole Kidman). Eles têm uma única filha e moram num amplo apartamento numa metrópole – enfim, vivem o sonho confesso de grande parte dos americanos, e talvez não só deles.
No início da trama o casal protagonista (nas telas e fora delas quando o filme foi realizado) comparece a uma festa na qual se reúne a alta burguesia da cidade, onde, entre outras coisas, cada um deles passa por um ligeiro e inconcluso affaire. Terminada a festa, eles voltam à vida cotidiana, ele trabalhando no consultório médico e ela às voltas com os problemas de casa – até que a súbita confissão de Alice, sobre os desejos que tivera por um outro homem, traz abaixo o mundo perfeito do casal.
A cegueira do desejo
As primeiras cenas do filme mostram o casal se vestindo para a festa; nelas se evidencia, além do narcisismo de cada um, a indiferença de Bill à beleza da esposa. A filha, que então se apresenta como um mero estorvo, fica com a babá. É durante a festa, quando o casal está socialmente deslocado, que se inicia o processo de desmoronamento do mundo pequeno burguês apresentado de início.
O sedutor flerte de Bill com duas modelos e o jogo de Alice com o milionário culto e galante provocam o “encontro” de cada um com suas mais ocultas fantasias sexuais. Isso se acentua no dia seguinte, especialmente no que se refere a Alice, que volta à vida de dona de casa e passa a sofrer uma angústia que se revela pela agitação seguida de tédio e, enfim, pelo uso de maconha. Quando Bill chega do trabalho, o casal faz sexo e partilha da droga. Alice, então, inicia uma conversa sobre traição conjugal e acaba confessando que tivera em outros tempos (já na vida de casada) uma súbita e passageira paixão platônica por um oficial da marinha. A revelação dos desejos secretos da esposa deixa Bill siderado. A partir daí, ele passa a ser assolado pelo desejo de conhecer o “outro mundo” da sexualidade, o mundo que até então negava; isso o leva a tentar romper as leis sociais a que até então se submetera sem questionar.
É nesse momento, quando falta a norma – aquilo que efetivamente “faz” a falta – que o sujeito se angustia, pois que se depara, diz Lacan (1997, p. 47), em A angústia, “[com] esse objeto a, é dele que se trata em todo lugar onde Freud fala do objeto quando se trata de angústia”. A questão, representada no casal Bill/Alice, parece funcionar como no dilema do neurótico em relação à fantasia e à própria angústia. Sobre isso, Lacan chama a atenção para o fato de que a fantasia perversa serve no neurótico, antes de tudo, para evitar a angústia.
As fantasias que se podem identificar nos personagens no filme – no caso de Bill, duas lindas modelos atraídas sexualmente por ele; e no de Alice, um rico e sofisticado conhecedor de arte – parecem estar de acordo com as próprias fantasias de gozo do casal. No caso dele, sintonizam-se com o discurso machista que se revelará mais tarde na fala: “mulheres não pensam em sexo como os homens”; e dela, com sua condição de marchande desempregada que parece aspirar à ascensão social por meio da arte. Quando as duas modelos prometem levar Bill “ao fim do arco-íris” (ironicamente o nome da loja de fantasias aonde ele irá e onde miticamente se encontra um pote de ouro), encena-se a busca do personagem, já que o fim do arco-íris sempre muda de lugar quando o sujeito se aproxima. E tal será o fardo de Bill: quanto mais ele tenta descobrir “o que deseja uma mulher”, mais descobre estar longe da resposta.