Imagens do pai no cinema: clínica da cultura contemporânea
Feminismo & Patriarcalismo
Outros efeitos desta fragmentação política e da busca de originalidade, entretanto, não se restringem ao campo da estética. A verdadeira batalha que se trava nos bastidores acadêmicos entre os trabalhos de orientação feminista e as teses sobre o patriarcalismo vem produzindo um grande volume de estudos; todavia, como costuma ocorrer com a produção acadêmica, esses estudos não chegam ao público senão ocasionalmente. Nessas raras ocasiões, eles revelam não apenas a tendência mais conhecida do feminismo, mas também uma defesa, ainda que incipiente, do patriarcado no campo da ciência.
A questão da “cena primeira”, do “início dos tempos”, incentiva debates, especialmente entre os estudiosos de base antropológica, sobre “quem nasceu primeiro”, se o patriarcado ou o matriarcado. O derrisório (mas não desinteressante) deste conflito é que ele ocorre exatamente no momento em que se defende a possibilidade de orientações sexuais fora das tradições e costumes – o que constitui uma interessante contradição.
De um lado, sob a perspectiva da “defesa do matriarcado”, da “superioridade feminina” ou, ainda, das denúncias “às perseguições contra as mulheres”, pode-se encontrar praticamente de tudo, especialmente na academia americana. Há, por exemplo, os que defendem que o(a) primeiro(a) programador(a) de computadores foi, na verdade, uma mulher (Ada Lovelace); os que dizem ter havido um “holocausto” das mulheres na caça às bruxas da Idade Média; e mesmo os que preconizam a “libertação da mulher gorda” dos “estereótipos masculinos sobre a beleza feminina” ou a representação feminina de Deus (por exemplo, os sites
www.igc.apc.org/ womansnet e www.fatso.com; ou no documentário The Goddess Remembered (1989), dirigido por Donna Read). Do outro lado, encontram-se as defesas do patriarcado e outras teses francamente misóginas (por exemplo, Steven Goldberg, em The Inevitability of Patriarchy; Warren Farrell, em Why Men Are the Way They Are; David Thomas, em Not Guilty – The Case in Defense of Men), que geralmente se fundamentam em pesquisas antropológicas, mas que aos poucos vão se mostrando ideologicamente impregnadas, chegando até aos argumentos genéticos da neuroendocrinologia e das características hormonais do “macho dominador” – tudo sempre coberto pelo discurso asséptico da não-subjetividade científica.
Sob a perspectiva psicanalítica, seria possível pensar que os anos 90, como lembra Elisabeth Roudinesco, foram marcados, especialmente nos Estados Unidos, por um retorno da teoria da sedução (a tese de que os conflitos neuróticos advinham de um abuso sexual real), na forma – diz ela – de um “antifreudismo, ao qual se misturaram a vitimologia, o culto fanático às minorias oprimidas e a apologia de uma tecnologia da confissão, amplamente apoiada na farmacologia” (ROUDINESCO, 1998, p. 699).
Nesse caminho, pode-se refletir também sobre a discussão acerca do assédio sexual (que, principalmente na última década do século, ganhou estatuto paranoico) e sobre até que ponto ele é fruto deste mesmo fenômeno – ou seja, da questão de aceitar ou não o papel da fantasia na neurose (como autorrepresentação imaginária da história do sujeito). Mais ainda, pode-se discutir de que forma isso estaria se atualizando hoje nas relações de poder.
Longe de reduzir todo evento à fantasia ou inversamente buscar sempre causas “reais” em eventos traumáticos, é conveniente considerar estas questões como originando-se de duas ordens de realidade, muitas vezes superpostas. Com isso, é possível afastar algumas proposições como a que promove a atitude perversa de negar a realidade dos fatos e cair no cinismo; ou a que alardeia histericamente toda e qualquer lembrança, sob a perspectiva de uma vitimação impotente.
A despeito de o conflito entre feministas, machistas e (anti)patriarcalistas ter sido até agora mais cômico que violento, há nele um dado bastante interessante: o fato de esta discussão ocorrer especialmente no locus geográfico – mas principalmente imaginário – dos defensores da ideologia hegemônica nesta passagem de século, os Estados Unidos.
O papel dos EUA no imaginário do mundo atual é o de um ícone isolado da globalização, sustentado por seu crescimento econômico aparentemente sem fim (embora sua catástrofe seja anunciada anualmente), e que, ao mesmo tempo em que procura demonstrar o acerto dessa “escolha”, promove um discurso repetido no mundo ocidental, semelhante ao que faria a mais feroz ditadura totalitária: conferir naturalidade a seus atos (“ora, pessoas ficam mesmo obsoletas com o tempo”; “um certo nível de desemprego é estrutural”; “é imperativo diminuir as conquistas trabalhistas para reduzir o ‘custo Brasil’” etc.).
De resto, essa “naturalidade” lucra com a ideia de que o capitalismo é espontâneo, e com isso, diversamente do que ocorreria em outras formas de organização política, não há “outro” a quem culpar pelas mazelas.