Imagens do pai no cinema: clínica da cultura contemporânea
O “corpo-máquina” e o desaparecimento da diferença sexual
Essa tentativa de reprodução permite verificar mais uma vez como o sujeito, na ausência da interdição simbólica, fica à mercê da repetição superegoica – seja ela na perversão (quando a lei é o objeto a e a regra suplementa a ausência da lei), seja na obsessão (quando a repetição da regra o protege contra um superego aterrorizador). Como sintetizou Paul Virilio (2000b, p. 99), “Não há mais ateus hoje. Há aqueles que crêem em Deus e os que crêem no Deus-máquina, por meio da ciência”.
O “corpo-máquina” e o desaparecimento da
diferença sexual
Para Lacan, em A terceira (1974), o mal-estar de que fala Freud procede da pergunta: de que temos medo? E ele responde: “Do nosso corpo”.
[…] a angústia é justamente algo que se situa alhures em nosso
corpo, é o sentimento que surge dessa suspeita que nos vem
de nos reduzirmos ao nosso corpo. […] a angústia não é o
medo do que quer que seja de que o corpo possa motivar-se. É
um medo do medo (LACAN, 1981, p. 27).
Há em nosso momento histórico uma mudança – na clínica e fora dela – em relação à época freudiana, que situava a culpa como sintoma da transgressão aos conteúdos inconscientes proibidos ao sujeito. O que se encontra hoje parece ser exatamente o contrário: o sujeito sente-se culpado porque não goza.
Em Clube da luta, o acontecimento desencadeador tem justamente essa natureza. Jack tem todas as condições materiais para aproveitar bem a vida e se esforça nesse sentido. Progressivamente, no entanto, seu mundo vai se desintegrando, na medida em que ele não encontra suporte simbólico que sustente e dê sentido à realidade que o cerca: é a “falta da falta” lacaniana, quando o sujeito se encontra impossibilitado de desejar.
No caso de Jack, a questão se resume na ausência da mulher como objeto de desejo – substituída em suas meditações por um pinguim e mais adiante pelo verdadeiro “estranho”, à medida que a personagem Marla passa a fazer parte de seu simbólico. Trata-se, aqui, da mulher como um suporte da falta no homem; ou, em outras palavras, da afirmação lacaniana de que a mulher é o sintoma do homem – o que no filme se evidencia num viés misógino, que mostra a mulher como um signo da decadência dos valores espirituais masculinos.
A questão da diferença sexual aparece hoje cada vez mais, sob outra perspectiva, com o chamado “pós-humano”, na diferença homem/máquina, relembrada com frequência nas discussões acerca da cibernética, do ciberespaço, da arte etc. Em Clube da luta, a questão apresenta-se despida dos artifícios normalmente encontrados no tratamento do tema (como implantes eletrônicos, hibridismo, tecnologia genética etc.). A diferenciação entre homem e máquina no filme não está na capacidade genética de cada um ou no implante de chips, mas no desaparecimento da diferença sexual.
A polêmica imemorial de que a sexualidade é o verdadeiro obstáculo à “espiritualidade humana” – polêmica que marcou sobretudo as religiões, especialmente na condenação da mulher – encontra no ciberespaço uma nova fronteira, com a possibilidade de prescindir do corpo.
A tentativa de reduzir a diferença entre corpo e máquina a “materialidades positivas” traz à baila velhas questões filosóficas, a saber: que uma positivação suficiente implicaria o domínio de uma materialidade anterior, objeto teoricamente ainda incerto, e renovaria a discussão cada vez mais estéril sobre as diferenças entre natureza e arte.
A ideia de que existem fronteiras precisas entre o homem e outras coisas, sejam estas outros animais ou máquinas, pressuporia uma “naturalidade humana”, ou seja, um homem sem a entrada na cultura, uma “coisa determinada”. Neste sentido, a descoberta de que há pouca diferença entre as cadeias genéticas do homem e de outros animais, como ratos e galinhas, acabou constituindo uma forma de frustração para muitos cientistas, pois havia certa expectativa por parte destes de encontrar essa “naturalidade”, o que equivaleria a prescindir do papel da cultura para pensar o homem como “máquina humana”, ou seja, uma forma de encontrar a cultura na genética.
A genética ilustra muito bem essa discussão, já que tanto a defesa da “essência humana” quanto o empenho numa “remodelação” do homem enfrentam diretamente esta questão: houve afinal algum dia algo acabado que se chamou “homem”? Há alguma “essência” a ser defendida ou remodelada?
A questão da origem, a busca incessante por um ponto inicial de onde seria possível recomeçar tudo “da forma certa” – como na procura mítica pelo Santo Graal – atravessa quase todos os campos do saber. O declínio progressivo dos discursos tradicionais que buscam assegurar lugares simbólicos fixos para estas diferenças (homem, mulher, animal, máquina) e a implicação das escolhas dos sujeitos desamparados destes discursos parecem implicar uma angústia que se evidencia, entre outras coisas, inscrita nos corpos, depositários últimos dessa angústia.