Imagens do pai no cinema: clínica da cultura contemporânea
11 Saídas e impasses para o declínio do Nome-do-Pai
11 Saídas e impasses para o declínio
do Nome-do-Pai
A ENTRADA NA cultura, segundo a Psicanálise, é necessariamente traumática. O sacrifício da felicidade individual – o “ardil da razão” hegeliano – diz que é exatamente porque os homens não realizam seus desejos que se sustentam a verdade e a liberdade para as gerações futuras. Hoje, contudo, as pessoas parecem pouco propensas – ao menos no ocidente – a se submeterem ao sacrifício. Estes interesses, que para Hegel não se apagam e se repetem, são aquilo que liga os interesses individuais ao interesse maior da sociedade; enfim, trata-se do que Lacan chamou sinthomem, o conteúdo desejante patológico que sutura o sujeito com a realidade.
Quando se alude ao declínio da função paterna – o que a Psicanálise faz com frequência –, não se espera que alguma ordem volte do passado. As relações familiares, o lugar da mulher e do homem no mundo de hoje são outros – e, como disse Marx, a tragédia na história só se repete como farsa. Resta verificar, assim, como estão se estabelecendo as relações amorosas, familiares e sociais e apontar de que forma este conteúdo desejante pode se manifestar como repetição.
O cinema desta passagem/início de século parece ter entrado num período de autorreflexão (que se verifica também nas outras artes), caracterizado pela preocupação com o dilema da realidade versus a ilusão – dilema do qual o próprio artifício do cinema serve muitas vezes como espectro. Técnicas antes restritas ao campo do entretenimento passaram a ser empregadas para tratar de política, religião, educação e mesmo da guerra (Vida, o filme, 1999); com isso, estes campos se submeteram à lógica narrativa, borrando as fronteiras entre realidade e ficção.
Os blockbusters hollywoodianos frequentemente encenam essa discussão, seja da perspectiva dita materialista (o mundo do consumo, o capitalismo, o controle do Estado etc.), seja do ponto de vista das saídas do sujeito (a busca de autonomia, as inserções possíveis no social, as relações afetivas etc.). Neste segundo caso, segundo Joel Birman (2000, p. 204), uma das vertentes exploradas é a formação de fratrias:
Cabe sublinhar que o afluxo de filmes novos e de diferentes
origens que destaca a fraternidade como imperativo seria uma
modalidade de oposição e de resistência que começa a se
impor no campo do imaginário estético. Seria a partir do campo
da arte que começa a afluir uma nova energia criativa para se
contrapor ao universo macabro do mundo neoliberal.
Por outro lado, o conceito de massa como agrupamento amorfo talvez deva ser pensado, hoje, em termos de consumo. O trabalho tende a ser cada vez mais especializado, e neste sentido separa o indivíduo da massa: é no consumo que se participa da massa, e é aí que o trabalho o integra ao processo de massificação. Mais ainda, o trabalho, no chamado pós-moderno, tende a assumir um papel de crescente destaque no mundo afetivo do sujeito, em contraste com a diminuição progressiva da importância da família como círculo de dependência afetiva. Deste modo, paradoxalmente a família é regida cada vez mais por normas e responsabilidades, e os filhos, tratados como objetos de investimento; em contrapartida, os indivíduos são mais e mais estimulados a ter relações afetivas no ambiente de trabalho (por meio de cursos de integração, de incentivos à convivência com colegas nas férias etc.).
Nesta medida, a suposta igualdade promovida via consumo serve para ocultar o Real das relações de trabalho que envolvem a desigualdade social, o exercício de poder etc. Pensando com base na dialética hegeliana, do poder do escravo, à medida que o escravo vive para satisfazer os desejos do senhor, ele condena esse senhor a uma vida artificial, já que o reconhecimento que o amo almeja só pode ser proporcionado pelo escravo, a duplicidade senhor-escravo não constitui uma essência, mas uma estrutura, que se repete em cada sujeito na sociedade.