Imagens do pai no cinema: clínica da cultura contemporânea

Identificação: de Freud a Lacan

Como bem defendeu Cristopher Lasch há algum tempo, em O mínimo eu, e hoje discutem os debatedores do pós-moderno, como Slavoj Zizek, o problema do narcisismo diz respeito a algo bem mais sério que isto. Diferentemente ao que se tornou comum pensar, no narcisista como o alguém autocentrado que não faz relação com as coisas que o rodeiam, o que a Psicanálise ensinou é o oposto: que se trata de um eu, inseguro de seus limites, que oscila ora em buscar construir o mundo à sua imagem, ora fundir-se de modo indiferenciado ao mundo. O problema encontrado com frequência e que se manifesta na sintomatologia pós-moderna, especialmente naquilo que é tornado pelos MCM de domínio público, são, por exemplo, a relação ambígua entre violência e ironia; o fascínio pelas situações extremas como “modelos” para a vida cotidiana; a possibilidade do aparecimento de entidades mundiais capazes de provocar catástrofes etc.; pode dizer muito sobre o caráter inconsciente deste aparente monolítico sujeito narcísico e sua relação com a angústia.

O chamado “declínio da metáfora paterna” coloca em discussão, de outro lado, o paradoxo de que quanto mais os sujeitos são livres das amarras da tradição para “reflexivamente construírem sua identidade” mais têm que suportar o contraponto do anonimato. A ideia de uma crescente “angústia do anonimato” parece indicar para algumas contradições em relação ao discurso vulgar no ocidente da liberdade suportada pela “escolha do sujeito fora das amarras da tradição ou da natureza”. De outro modo, como seria possível pensar por que, então, se podemos “ser quem quisermos”, existir no mundo ocidental uma corrida desenfreada em busca de se tornar uma celebridade? Não seria possível pensar isso como sintoma da indiferenciação do anonimato?

 

Identificação: de Freud a Lacan Para entender porque a questão identificatória pode estar na área de alcance da angústia é preciso lembrar como ela aparece na trajetória da Psicanálise. Em um primeiro momento, Freud, em Inibições, sintomas e ansiedade (1925), depara-se em seus estudos com a angústia como,

[…] uma reação à perda sentida do objeto e lembramo-nos de

imediato do fato de que também a ansiedade de castração

constitui o medo de sermos separados de um objeto altamente

valioso, e de que a mais antiga ansiedade – a ‘ansiedade

primeva’ do nascimento – ocorre por ocasião de uma separação

da mãe (FREUD, 1925, p. 161).

Um pouco mais a frente, Freud modifica a ênfase na perda do objeto na criança para localizá-la na tensão relacionada com o perigo do desamparo:

Mas a reflexão de um momento nos leva além dessa questão

da perda de objeto. […] A situação, portanto, que ela (a criança)

considera como um ‘perigo’ e contra a qual deseja ser protegida

é a de não satisfação, de uma crescente tensão devida à

necessidade, contra a qual ela é inerme. […] A situação de não

satisfação na qual as quantidades de estímulo se elevam […]

deve, para a criança, ser análoga à experiência de nascer

(Idem).

É deste ponto que Lacan toma as ideias de Freud, no ponto em que a angústia é tratada “[…] como um fenômeno automático e um sinal de salvação, […] um produto do desamparo mental da criança, o que é um símile natural de seu desamparo biológico” (FREUD, 1925, p. 162), para defender sua afirmação básica de que a angústia é o resultado do surgimento da falta sob uma forma positiva. Sempre falando em nome de Freud, Lacan nos leva a uma outra dimensão ao afirmar que a angústia estaria ligada ao fato de que toda demanda teria algo enganador, a preservar o lugar do desejo, obturado por essa demanda que escamoteia o objeto a, causa do desejo; “esse objeto a, é dele que se trata em todo lugar onde Freud fala do objeto quando se trata de angústia” (LACAN, 1962, p. 47). Lacan fala de sua concepção, que faz diferença em relação ao texto de Freud de 1925, em que a ênfase está sustentada na separação do sujeito com o objeto, seja ele a mãe, o pênis, o amor dos pais etc. O que Lacan faz em nome de Freud é estabelecer uma concepção de objeto, como algo que causa angústia não pela possibilidade de faltar, mas de invadir: é assim que ele pode explicar porque é a proximidade do objeto e não a sua ausência a causa da angústia. Neste sentido, Lacan inverte o exemplo de Freud ao afirmar que a criança pode jogar com a alternância presença/ausência, já que a causa de sua angústia é exatamente contrária: a presença total da mãe que nunca falta e que, portanto, nunca faz desejo, a falta da falta.

A fonte de angústia é o fato de a criança ser objeto que recobre a falta – lugar do falo materno – e, portanto, herdeiro na cadeia significante do desejo do Outro: o que o Outro quer de mim? A questão do desejo do Outro, do “Que queres de mim?”, leva à relação entre lei e desejo que se encontra ocultada pelo complexo de Édipo: “[…] é que o desejo e a lei, que parecem opor-se numa relação de antítese, não são senão uma única e mesma barreira, para barrar-nos o acesso à Coisa. […] É por isso que Freud relaciona a este opaco, inapreensível desejo do pai, a origem da Lei” (LACAN, 1963, p. 90).

É neste momento, em que falta a norma – o que “faz” a falta –, que o sujeito se depara com a angústia, pois que se aproxima do que Freud chamou aquilo que é familiar e estranho ao mesmo tempo, o unheimlich.

A confusão do lugar da lei com o lugar do pai no social serviu de base para uma profusão de estudos, especialmente a ego psychology americana e o movimento feminista (o que inclui as feministas freudianas), que não raro trataram a questão da lei não como inconsciente, mas como algo positivado nas relações sociais na família, no casamento etc.

Lacan tentou ao longo de seus seminários desfazer essa confusão, explicando que na função paterna não se trata de saber o que o pai é “na família”, mas saber o que ele é no complexo de Édipo, qual seja, uma metáfora, um significante que surge no lugar de outro significante. O significante que o pai substitui é o significante materno, no sentido de que barra a relação mãe/falo (criança), proporcionando, assim, uma saída no Édipo ao oferecer uma identificação simbólica ao menino/menina, evitando a via imaginária.